filocriatividade

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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    Os Estados Partes garantem à criança com capacidade de discernimento o direito de exprimir livremente a sua opinião sobre as questões que lhe respeitem, sendo devidamente tomadas em consideração as opiniões da criança, de acordo com a sua idade e maturidade.  

    (Artigo 12.º da Convenção sobre os Direitos da Criança, Adoptada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 20 de Novembro de 1989 e ratificada por Portugal em 21 de Setembro de 1990)

    Hoje, dia 1 de Junho, celebra-se o Dia  Mundial da Criança. A este propósito, gostaria de trazer para a roda de conversa a Convenção sobre os Direitos das Crianças.

    o diálogo, as opiniões e a liberdade de expressão das crianças

    Gostaria de me dedicar aos artigos 12.º e 13.º que tratam do direito à opinião e à liberdade de expressão, respectivamente. Ambos os artigos conhecem relação directa com a prática da Filosofia para/com Crianças e Jovens, uma vez que esta assenta numa estrutura de diálogo.

    Num diálogo as crianças são convidadas a dizer o que pensam sobre um determinado assunto. Não se trata aqui de verificar os conhecimentos que a criança tem sobre esse assunto, mas de a convidar em pensar em voz alta, na companhia de outras pessoas.

    Para que este ambiente de diálogo seja respeitador da opinião da criança, é necessário que a pessoa adulta que está a dinamizar o diálogo tenha uma relação de igual para igual com as crianças.

    Deve a pessoa adulta evitar expressões como “Ah, pois vocês não chegam lá.” ou “Ia dizer esta palavra, mas se calhar é demasiado para vocês.”

    Recordo-me de uma situação na qual a professora titular da turma foi convidada a participar na proposta de geração de perguntas, tal como as crianças. Foi convidada a partilhar a sua pergunta e antes de o fazer disse: “Eu escrevi uma pergunta, mas vocês não conseguem acompanhar estas palavras.”

    Sendo a pessoa em questão a professora titular da turma, não poderia ter escrito numa linguagem acessível às crianças com quem está todos os dias? Além disso, que problema há em partilhar com as crianças palavras que não conhecem? Não será uma oportunidade de ampliação de léxico? Não poderia a professora simplesmente ler a sua pergunta, confiando que o grupo iria perguntar pelas palavras que não conhece?

    o óbvio é óbvio?

    As oficinas que dinamizo têm-me proporcionado vários momentos de “nunca tinha pensado nisso”. A criança está mais disponível para explorar possibilidades e essa atitude convida-me a praticar o exercício de abandonar o óbvio ou aquilo que parece óbvio.

    O meu papel passa muito por assinalar o nosso processo colectivo de pensamento, sublinhando momentos de pensamento crítico (e de pensamento criativo).

    Com frequência, torno visível a terminologia do pensamento crítico. Há dias, numa oficina, uma criança disse “isto não tem lógica”. A palavra lógica foi usada pela criança, não por mim. O que fiz foi perguntar o que queria dizer com isso. Uma vez esclarecido esse sentido, pela voz da própria criança, foi possível ao grupo investigar se as ideias que partilhámos durante o diálogo tinham ou não lógica.

    a criança é um ser pensante

    Alison Gopnik é uma autora que tem vindo a estudar a forma como os bebés desenvolvem o seupensamento. Há um livro traduzido em português, intitulado O Bebé Filósofo, cuja leitura recomendo.

    Tendo em conta que a minha abordagem ao pensamento crítico passa pelo diálogo, diria que quando a mãe, o pai ou outra pessoa adulta cria momentos de conversa com a criança, interagindo num vai e vem de pergunta e resposta, está a modelar uma prática de escuta, além de estar a criar momentos de relação com o mundo e a sua tradução em palavras. Portanto, um bebé que está a aprender a falar conhecerá muitos benefícios em estar rodeado de pessoas que conversam.

    Devemos considerar que as crianças são seres pensantes. As crianças não são o futuro ou o que querem ser quando forem grandes, as crianças são o presente e estão a descobrir o mundo.

    a prática da humildade intelectual

    Dizer que estar lado a lado com uma criança, disponível para descobrir o mundo, é nivelar por baixo, implica assumir uma certa arrogância intelectual por parte da pessoa adulta. A meu ver, o pensamento crítico consiste na prática da humildade intelectual para com as pessoas que nos rodeiam, o que inclui crianças e jovens. Diria que ajuda muito olhar para a criança como uma pessoa inteira.

    Há uns anos num jardim-de-infância, na sala dos 5 anos, perguntei às crianças quantas pessoas estavam na sala. As crianças contaram três: eu, a educadora e a assistente operacional. Para aquele grupo uma criança não era uma pessoa, pois ser pessoa está associado a adulto. O diálogo seguiu com a investigação do que é ser uma pessoa.

    Termino com algumas perguntas dirigidas a quem é pai, mãe, avô ou avó, e para quem trabalha na área da educação:

    De que forma a criança se envolve no seu processo de aprendizagem?

    Quando foi a última vez que o seu filho escolheu uma actividade?

    Costuma conversar com as crianças sobre as decisões que tomam em família?

    Costuma conversar com as crianças sobre as decisões que são tomadas na escola?

    Tem por hábito pedir às crianças que escolham ou que votem em decisões? O que faz com o resultado dessa escolha ou votação?

    As pessoas adultas decidem muitas coisas pelas crianças — e com boas razões, entenda-se — mas nem sempre as escutam nesse processo de decisão. O Conselho Nacional de Educação lançou uma recomendação nesse sentido.

    Escutar parece algo muito óbvio e corriqueiro — será que escutamos verdadeiramente?

    Uma última sugestão: pergunte à criança: “o que queres ser?” e não “o que queres ser quando fores grande?” Sei que o Professor José Pacheco aprova esta ideia.

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    Para Tchékhov, a literatura infantil, enquanto género, parecia-lhe uma construção artificial e desnecessária: as crianças deveriam ler aquilo que é lido por adultos, não havendo qualquer razão para a existência de uma literatura dedicada aos mais novos. É o critério da arte que deve prevalecer, não o da idade. “As crianças devem receber apenas aquilo que também seja adequado para adultos. Andersen, A Fragata Pallada, Gogol, são facilmente lidos tanto por crianças como por adultos. Não se devem escrever livros para crianças, mas sim saber escolher, entre o que foi escrito para adultos, aquilo que lhes pode ser dado — ou seja, verdadeiras obras de arte.” Resumindo, não há necessidade de inventar um tipo especial de literatura. O que é preciso é saber escolher.” (Afonso Cruz,Acabar com a literatura para crianças, SAPO)

     

    Tal como acontece com a filosofia para crianças, que poderia chamar-se apenas filosofia, também a literatura infantil poderia apenas chamar-se literatura. Assim, o livro O Labirinto dos Sentidos deixaria de ser arrumado na secção infantil das bibliotecas ou das livrarias e estaria algures na secção da filosofia ou da neurociência.

    Neste livro, Laura Luz Silva propõe-nos uma viagem pelo País das Maravilhas dos Sentidos. Tal como a Alice de Lewis Carrol, a Alma de Laura é convidada a fazer uma viagem inesperada. Nessa viagem encontra animais que têm sentidos muito apurados; por exemplo: uma coruja que vê muito melhor no escuro do que o ser humano comum e um cão (que poderia ser o meu Félix) que tem um olfacto muito mais apurado do que o ser humano comum.

    Na linha do trabalho de Thomas Nagel, que pergunta como é ser um morcego?, apetece perguntar: como é ser uma coruja? Como é ser um cão? Até porque talvez não estejamos assim tão longe de um cenário de ver tão bem quanto uma coruja ou cheirar tão bem como um cão. Ou ainda melhor.

    Neil Harbisson é um ciborgue que vive com um dispositivo, uma antena, que lhe permite sentir mais cores do que o ser humano comum. Neil convida as pessoas a fazer updates ao seu corpo, da mesma forma que actualizamos um dispositivo como o smartphone.

    O Labirinto dos Sentidos presenteia-nos com uma narrativa que informa sobre os sentidos e a forma como estes são trabalhados pela nossa mente.

    É um livro que conta uma história e que informa.

    A autora assume um compromisso com a verdade científica e convida as pessoas leitoras a saber mais sobre a forma como o nosso cérebro trabalha aquilo que nos chega pelos sentidos. É importante que livros como este existam e que sejam lidos por crianças, jovens e pessoas adultas.

    Ler este livro lembra-nos que o ser humano é um ser vulnerável e vive cheio de dúvidas.

    Citando a autora, nós, os seres humanos “não somos os melhores a tudo.” Precisamos pôr em prática o sentido da humildade, enquanto espécie que habita o planeta Terra.

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    Um sentimento nasce, cresce e morre. Ele afeta-nos, seja através de uma pessoa ou de uma circunstância, alegrando-nos ou entristecendo-nos.
    “Sobre os Sentimentos” é um Ciclo de 10 Conferências apresentadas por António de Castro Caeiro ao longo da Temporada 2024/25 do CCB, entre 3 de outubro de 2024 e 26 de junho de 2025.
    Propomos reconstituir o que sentimos, desde o espanto inicial até às experiências de desejo e de ira, de saudade e de melancolia, e explorar o sublime, a ânsia de liberdade, o amor e a esperança em tempos de descontentamento.

     

    disponível para escuta no spotify

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    De Outubro de 2024 até Maio de 2025 aconteceram quatro Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais, nos Cemitérios dos Prazeres e Alto de São João.

    As duas primeiras oficinas, Entrevista ao Esqueleto, permitiram recolher perguntas sobre a morte e sobre a vida. Famílias com crianças dos 7 aos 11 anos partilharam perguntas que nos fizeram companhia na oficina de Maio. Durante a oficina de Abril perguntámos pelo sentido da vida, numa manhã de domingo chuvosa no Alto de São João. Em Maio, as perguntas que fizeram parte da Entrevista ao Esqueleto foram novamente o foco do nosso diálogo que convidou a arriscar respostas. 

    O tema da morte surge espontaneamente nos diálogos que dinamizo com crianças e jovens. Há curiosidade no tema. Frequentemente as pessoas adultas evitam o tema, por considerar difícil ou inapropriado para crianças. 

    Influenciada pelo trabalho de Ellen Duthie e da Wonder Ponder, pensei em oficinas cujo tema seria a morte. Quando surgiu a oportunidade criada pela equipa dos Cemitérios de Lisboa, não hesitei. Filosofar num cemitério é um convite explícito para pensar a vida e a morte. 

    Contei com o apoio da equipa dos Cemitérios, nomeadamente da Gisela Monteiro, para conhecer os espaços dos Prazeres e do Alto de São João, para que as oficinas pudessem habitar aqueles espaços. 

    As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais de Outubro de 2024 foram integradas na 3.ª Semana Cultural dos Cemitérios de Lisboa, enquanto que a oficina de Maio de 2025 integrou a WDEC – Week of Discovering European Cemeteries

    Tem sido um gosto fazer parte da oferta cultural dos Cemitérios de Lisboa com estas propostas para Parar, Pensar, Escutar e Dialogar sobre a Vida e a Morte. 

    Longa vida às Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais!

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    Na semana de 5 a 10 de Maio estive em Braga, a convite do ATLAS – Programa de Mediação Cultural.

    A propósito da presença da obra I’ll be your mirror #1, de Joana Vasconcelos, na rua, junto ao Mercado Municipal, tive a oportunidade de desenvolver um trabalho de mediação cultural e filosófica com crianças e jovens.

    “Olha, milhões de mim!” – disse uma das crianças ao observar o seu reflexo nos espelhos. São 255 espelhos de um lado e outros 255 do outro lado. A obra está posicionada de tal forma que nos permite entrar dentro da máscara – ou olhar para dentro.

     

    braga cultura

    Máscara, espelho e reflexo (e reflexão) foram as palavras-chave que nortearam alguns dos diálogos que tiveram lugar junto à obra e também numa sala cedida pela Comunidade Intermunicipal do Cávado.

    Nesta sala foi possível criar uma instalação a partir dos contributos das crianças e jovens ao longo das oficinas.

    Tivemos oportunidade de parar, pensar, escutar e dialogar a partir daquilo que observamos. Experimentámos diferentes formas de observação, beneficiando do facto da obra se encontrar ao ar livre. Conversámos sobre aquilo que nos surpreendeu, assinalando as interrogações que a máscara reflectiu em cada um de nós.

     

    O facto de irmos construindo e mapeando as oficinas nas paredes da sala permitiu que cada grupo pudesse ir dialogando com as perguntas e as observações dos grupos anteriores.

    Este trabalho foi único e irrepetível, pela obra em si, pelas circunstâncias de encontrar a obra numa rua de Braga, pelas crianças e jovens que participaram.

    Agradeço ao Município de Braga pelo convite; à equipa da Divisão de Cultura pelo acolhimento e apoio, bem como às Professoras e Auxiliares que acompanharam as turmas.

     

    O ATLAS recebeu o Prémio PNA 2024 – Território e Democracia Cultural, bem como o Prémio Melhor Projecto de Mediação – Prémios Património Ibérico, em 2023.

    📷 Braga Cultura

     

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    💣 “os humanos fazem guerra”, diz o Lourenço de 6 anos, quando lhe perguntámos como explicar a um ser alienígena o que é um ser um ser humano.

     

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    💣 a guerra faz parte da história da humanidade: do passado, do presente e do futuro.

    💣 as oficinas Perguntas Guerreiras, Diálogos Pacíficos foram pensadas para abrir um espaço de reflexão sobre a humanidade, a guerra e a paz.

    💣 tive a oportunidade de levar estas oficinas ao Livros a Oeste, Festival do Leitor, na Lourinhã. agradeço muito o convite para participar na 13.ª edição deste festival dedicado ao tema A HISTÓRIA É UMA ENCRUZILHADA:

    «Estamos numa época decisiva para definir o que será, não só o período que completa este século, mas as linhas definidoras de uma certa conceção de Humanidade, questionada e desafiada pelas transformações que o próprio ser humano produziu e infligiu em todo o planeta em que vivemos. Criámos problemas que só nós podemos resolver. Porém, cada decisão implica consequências»; João Morales; programador do Livros a Oeste| Festival do Leitor.

     

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    No final de uma oficina de filosofia com uma turma do 2.º ano do 1.º ciclo, o Luís (nome fictício) veio despedir-se de mim. Muito sorridente, com a mochila aos ombros e o casaco na mão, chegou-se ao pé de mim e disse: sabes, Joana, tenho uma pergunta. Porque é que a vida é tão cruel? Então, tchau e até à próxima.

    Nem tive tempo de digerir a pergunta, apenas respondi com um “Obrigada, até à próxima!”

    A pergunta do Luís tem um pressuposto: o mundo é cruel. Queremos saber quais as razões para tanta crueldade.

    Lembrei-me do livro-objecto ou livro-caixa da Wonder Ponder que se intitula Mundo Cruel/Cruelty Bites (disponível em espanhol, inglês e italiano).  Nesta caixa encontramos catorze cenas do quotidiano cruel, umas mais óbvias do que outras.

    Afinal, quem nunca matou uma formiga? É comum hesitarmos no momento de matar uma mosca? Como se manifesta a crueldade nos recreios da escola? E se houver um ser alienígena que decide ser cruel para com os seres humanos, assim como os seres humanos são para os animais?

    Nas notícias escutamos notícias de crueldade humana praticada entre seres humanos. A pergunta do Luís é, por isso, urgente. Porque é que a vida é tão cruel?

    Importa dialogar sobre a crueldade. Note que dialogar sobre a crueldade não nos torna automaticamente pessoas cruéis. O mesmo acontece quando dialogamos sobre o amor ou a empatia: não nos tornamos automaticamente pessoas amorosas ou empáticas. Mas na hora do diálogo, temos a tendência para escolher os temas positivos em vez dos temas negativos.

    Es cierto que a los niños les gustan las historias amables, pero también adoran las historias oscuras, sombrías o inquietantes. (Ana Garralón)

    No meu portefólio de oficinas disponibilizo oficinas sobre temas como a crueldade, a guerra e a morte. Confesso que não são os temas mais procurados pelas pessoas adultas que escolhem as oficinas para as crianças.

    Ainda assim, os temas surgem nos diálogos, mesmo naqueles que têm temas mais “fofinhos” ou que as pessoas adultas consideram mais adequados para as crianças e os jovens. As crianças perguntam pela crueldade, pela morte e pela guerra. Têm curiosidade.

     

    Cruelty Bites, com texto da Ellen Duthie e ilustrações da Daniela Martagón é uma excelente proposta para trabalhar a crueldade com crianças, jovens e pessoas adultas. Como qualquer tema, devemos criar um ambiente que convida ao diálogo. Lembre-se que não estamos ali para dialogar sobre uma acção cruel específica de uma criança, mas para encontrar aquilo que há de comum na crueldade.

     

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    livro à venda:  Como desenvolver o pensamento crítico das crianças – Parar, Pensar, Escutar, Dialogar

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    philosophy spring festival

    O Clube dos Filósofos Vivos da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, de Portimão, tornou pública a programação da terceira edição do Philosophy Spring Festival, um evento cultural que decorrerá durante o mês de maio.

    Trata-se de um festival de filosofia, música, cinema, arte, performance, teatro e literatura, cujo espírito “lado B” (da Escola e da filosofia que nela se ensina) pretende proporcionar aos jovens adolescentes experiências cognitivas e estéticas que sejam diferentes das que estão habituados, suscetíveis de lhes criar saudável “desassossego”, emoções novas e um forte encantamento, desejavelmente inesquecível.

    A edição deste ano tem como tema principal o amor aos livros e à literatura. Os eventos que a seguir se elencam decorrerão em diferentes espaços e equipamentos da cidade, com um forte envolvimento de coletividades de referência e do tecido empresarial do concelho.

     

    informações detalhadas disponíveis AQUI

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    O livro de Topsy Page, Oracy, apresenta 100 ideias para colocar em prática na sala de aula. Gostaria de destacar seis ideias presentes no livro sobre escutar as crianças e os jovens.

     

    A primeira ideia parece muito óbvia: quando uma criança está a falar, devemos esperar que termine a sua intervenção. Será que sempre fazemos isto? Não.

    Ainda há dias numa oficina para famílias, a Maria (nome fictício) tomou a palavra para falar e logo no início a sua mãe interrompeu com um “Não é isso…”. Eu fiz sinal à mãe para que pudéssemos escutar a Maria até ao fim.

     

    Devemos esperar uns segundos após a criança terminar a sua fala, criando momentos de pausa, de silêncio. Este tempo é essencial para que as palavras façam eco nas nossas cabeças.

     

    Segunda ideia: mostre disponibilidade e abertura para escutar aquilo que a criança está a dizer. Muitas vezes as/os professoras/es assumem que estão à espera que a criança diga isto ou aquilo, querem muito que “cheguem lá”. Temos de nos libertar desta ideia das crianças “chegaram lá” e escutar as suas palavras para que possamos observar o caminho do seu pensamento.

     

    Terceira ideia: após a intervenção da criança, responda (ou pergunte) de uma maneira que torne evidente que está verdadeiramente interessada/o em escutar as suas palavras e em compreender. Exemplos: “Podes explicar um pouco mais a ideia X?” ou “Podes dar um exemplo de Y?”.

     

    Quarta ideia: peça à criança ou ao jovem para repetir o que disse, caso não tenha compreendido ou escutado bem. Assumir que não escutámos bem é uma forma de modelar a dificuldade da escuta. Em vez de assumir que a criança disse isto ou aquilo, por ser o que estávamos à espera, é melhor pedir para dizer de novo.

     

    Quinta ideia: verifique se compreendeu exactamente o que a criança disse. “Deixa ver se compreendi, estás a dizer que…?” Recomendo que a nossa reprodução das palavras seja o mais fiel às palavras das crianças, evitando corrigir termos. Nem sempre as crianças usam os termos certos, porém podemos apresentar o termo mais adequado sem ter de dizer “o que disseste está mal, não é assim”. Em vez disso, diga: “julgo que o querias dizer com Y era X.”

     

    Sexta ideia: torne-se consciente dos seus enviesamentos e dos pressupostos com os quais parte para o diálogo. Nas primeiras páginas do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças sublinho a importância de sermos pessoas conscientes das lentes com as quais olhamos o mundo, o que inclui os nossos enviesamentos.

     

     

    Não se apresse em implementar todas as ideias ao mesmo tempo.

     

    Comece por uma e observe o que acontece.

     

    A escuta é um elemento fundamental do diálogo, ao qual devemos prestar cada vez mais atenção. Se não nos escutarmos, não conseguimos dialogar, isto é, não conseguimos construir novas ideias a partir das ideias de cada pessoa envolvida no diálogo.

     

    joana rita sousa

    referência bibliográfica: Oracy, de Topsy Page (Bloomsbury)

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    o sentido da vida podcast

    Estive à conversa com a Ana Delgado Martins, no podcast O Sentido da Vida. Poderá escutar a conversa AQUI

    O livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças está à venda no site da Presença, na Note, na FNAC, na Bertrand e na Wook, bem como nas livrarias independentes, um pouco por todo o país. 

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    FLAI 2025

    FLAI es una oportunidad para conocer de primera mano algunos de los proyectos e investigaciones nacionales e internacionales más interesantes que, desde la filosofía, la literatura y el arte, exploran y reimaginan el concepto de infancia y la relación entre adultos y niños. Durante tres días, a través de conferencias y talleres prácticos se indaga en el tema elegido para la edición por las directoras del curso, que trabajan estrechamente con el equipo interdisciplinar de docentes invitados para ofrecer a los asistentes un programa que invita a descubrir lo desconocido y a redescubrir lo conocido desde nuevas perspectivas.

    En esta sexta edición de FLAI nos detendremos a explorar el poder de la pregunta, en singular y en plural, con respuestas y sin respuestas, con sentido y sin sentido, para interrogarnos sin parar en torno a ella. ¿Cuánto conocimiento puede contener una pregunta? ¿Y una colección de preguntas? ¿La infancia se relaciona de un modo propio con las preguntas? ¿Qué relación hay entre el juego y la pregunta?

    ¿Entre la literatura y la pregunta? ¿Entre el tiempo y la pregunta? ¿Y si nos quedamos en la pregunta?

     

    Informações AQUI.

    ¿En la pregunta puede estar la respuesta?

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    23 de Abril, 19h, na Culturgest

    Na nossa história, há palavras que não foram escutadas. É o caso da palavra Munthu, oriunda das línguas africanas bantu. Significa pessoa, ou melhor, sujeito da história e do conhecimento. Nesta conferência, entramos na filosofia por uma palavra irmã: Inter-munthu, forjada pelo filósofo moçambicano José Castiano. Inter-munthu é uma categoria filosófica que expressa o rico tecido múltiplo e intercruzado de instituições, línguas e imaginários que cria a densidade da experiência e do mundo cultural, técnico, social e ecológico da experiência africana. Com Inter-Munthu, Castiano refere-se a “uma vida em relação“. É considerando esta vida em relação que iremos olhar para as implicações éticas, filosóficas que a perspectiva Inter-munthu nos pode trazer.

    José Castiano é filósofo e professor titular da Cátedra de Filosofia Africana, na Universidade Pedagógica de Maputo, e possui várias obras publicadas ligadas a área da Filosofia e da Educação, entre elas, O Inter-munthu: Em Busca do Sujeito da Reconciliação (Ed. Fundza, Maputo, 2023).

    (para mais informações: Culturgest)

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    Quem é o Steven?

    O Steven está a finalizar o seu doutoramento em Neurofilosofia (FCT / Universidade do Minho) onde investiga de que forma se pode (ou não) relacionar a filosofia e a neurociência para investigar determinados fenómenos como a consciência ou informação. Neste âmbito, trabalha sob supervisão do filósofo Manuel Curado e do neurocientista Georg Northoff na Mind, Brain Imaging and Neuroethics Unit (Ottawa, Canadá) onde é investigador-visitante. Fora da vida académica, gosta de xadrez, gatos e de Cuba Libre!

    Conheci o Steven em lides académicas e outras menos académicas, mas bastante filosóficas. Entre uma conferência no âmbito da Filosofia para Crianças, no Porto, e um Festival de Filosofia, em Abrantes, vamos acompanhando e seguindo o trabalho um do outro.

    Para esta entrevista marcámos encontro através do e-mail, algures em junho de 2020. 

    ⚠️ Aviso: este artigo é longo. Vamos a isto?

     

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    Steven, obrigada pela tua disponibilidade em responder a algumas perguntas sobre o livro The Age of Artificial Intelligence – An Exploration.

    Recordo-me que estivemos juntos no Festival de Filosofia de Abrantes, em 2018, cujo tema era precisamente A Inteligência Artificial, o Trabalho e o Humano. Nesse evento, pessoas de todas as idades foram chamadas a pensar sobre estas temáticas. Que contributo tem este livro para o debate?

    Este livro “The Age of Artificial Intelligence: na Exploration” nasce, em primeiro lugar, de uma teimosia minha de querer trazer a Portugal alguns dos mais relevantes investigadores de diferentes áreas sempre ligadas a temáticas filosóficas mas com um cunho multidisciplinar.

    Neste caso, no dia 5, 6 e 7 de Dezembro de 2017 organizei com a Associação Episteme & Logos e a colaboração do Mind, Language and Action Group da Universidade do Porto (com a Sofia Miguens e a Diana Neiva) uma conferência internacional de Inteligência Artificial, trazendo ao Porto o investigador Luciano Floridi,  um dos mais reputados pensadores sendo o fundador da uma disciplina filosófica interessante: a Filosofia da Informação.

    Esta área (Inteligência Artificial) sempre me interessou particularmente: lembro-me que um dos primeiros trabalhos que fiz para uma das unidades curriculares da licenciatura em Filosofia era exactamente sobre de o tema da “consciência reproduzida” ou artificial. Ademais, os variados problemas éticos que se levantam com esta área são imensos e diversificados. Por fim, havia uma motivação extra que me movia: o facto destes problemas ligados à tecnologia e computação serem problemas com os quais somos confrontados frequentemente quer em filmes/séries de ficção científica (como o Matrix, o Her, Westworld, etc.) mas também no próprio mundo real (como os carros autónomos da Tesla).

     

    the matrix

     

    A conferência correu muito bem, contámos com a presença de mais de três dezenas de investigadores internacionais onde foram discutidos diversos problemas interessantes e complexos. Poucos meses depois, estaria a concluir a escrita do meu primeiro livro “Reflexões Filosóficas: Arte, Mente e Justiça” (Editora Húmus) onde acabaria por incluir dois capítulos (e meio) sobre o tema: um que discutia a validade da possibilidade (futura) de conseguirmos criar uma tecnologia para realizar o upload da nossa mente para um substracto artificial (e.g. um computador); um segundo capítulo que discute de que forma o método filosófico tradicional (i.e. não-empírico) é relevante para discutir os problemas colocados pela inteligência artificial, argumentando a favor de uma tese anti-naturalista que, com o tempo, se está a desvanecer cada vez mais e, finalmente, em metade de um capítulo dedicado à natureza da Guerra, onde discuti os problemas que são levantados pela utilização de armas autónomas que podem decidir os seus alvos sem acção humana directa.

    Mas depois da escrita desse primeiro livro, pensei que deveria fazer mais. Surgiu-me então a ideia de convidar alguns dos investigadores fundamentais da área da Inteligência Artificial para escreverem um capítulo para uma obra que tentaria discutir o tema de variadas perspectivas sem, contudo, perder o rigor. A Vernon Press, uma editora académica americana, abrindo uma excepção que agradeço profundamente, aceitou correr o risco de confiar num investigador não-doutorado para ser o organizador do livro (não é usual um não-doutorado ser o único editor de um livro deste género; o facto de ter já co-editado – com Manuel Curado – com eles o livro “Automata’s Inner Movie: Science and Philosophy of Mind” (2019) também poderá ter ajudado).

    Ademais, sendo muito sortudo, alguns dos investigadores que queria ter no livro já tinham colaborado noutros projectos meus (como o Dan Dennett, o Ben Goertzel, entre outros) o que me fez ter cada vez mais e mais responsabilidade em oferecer um livro que fosse de qualidade mas também aberto à leitura do cidadão comum: lembro-me de estar no Starbucks da York Street em Ottawa a pensar como é que poderia escrever uma introdução ao livro que pudesse agarrar do início o leitor especialista, mas também não especializado, tendo escolhido escrever sobre o embate épico entre o DeepBlue da IBM e o Gary Kasparov, campeão mundial de Xadrez, que foi dos primeiros a ler o livro e a elogiá-lo.

    Foram mais de 2 anos de trabalho árduo para garantir que todos os capítulos estariam no “ponto de cozedura” perfeito, tendo sido o manuscrito aprovado em revisão por pares por três especialistas anónimos da área. Além disso, o livro acabaria por ter a contribuição de nomes como Roma Yampolskiy, David Pearce, Natasha Vita-More, Ben Goertzel (criador da Robot Sophia) e até Vernon Vinge, o matemático que criou na década de 90 um dos conceitos fundamentais da área (“singularidade”).

    Graças ao “plantel” de luxo que consegui reunir (a quem agradeço a honra de uma vida!), faltaria pensar nos temas a discutir. O conceito de “inteligência” em “Inteligência Artificial” parecia-me especialmente obscuro, pelo que a primeira secção do livro discute exactamente de que o forma esse conceito pode ser pensado. A segunda secção procurou discutir a ligação entre consciência, simulação e I.A. Segue-se a terceira secção onde diversos investigadores trabalharam o conceito de “criatividade artificial” na música, poesia ou mesmo na ligação com a linguagem. Finalmente, as últimas duas secções investigaram diversos aspectos éticos que se levantam com diferentes formas particulares de I.A.

    A seu favor, o livro reúne alguns dos protagonistas da área que com rigor, mas também com clareza, discutem de uma perspectiva multidisciplinar mas também multitemática o que esta área de investigação tem para oferecer. Desconheço, em Portugal, um livro que tenha sido editado por algum investigador português que ofereça algo semelhante. Contudo, o facto de ser publicado por uma editora académica (sendo o preço do livro algo elevado em relação a um Nicholas Sparks) poderá afastar alguns leitores.

    Mas numa perspectiva geral, este livro é, de facto, um contributo internacional muito relevante da área: daqui a 50 anos, os futuros investigadores de I.A. irão certamente ler o livro e perceber de que forma se pensava as diversas temáticas ligadas à área no fim da segunda década do século XXI.

     

    inteligência-matrix

     

    Na p. 147 do livro sublinhas esta genuína possibilidade de nos encontrarmos a viver numa simulação:

    “One of these three propositions, he argues, must be true: suppose that it was the case that (1) is false – some civilization in the universe reaches technological maturity; then suppose that (2) is also false – some civilization uses the resources to run ancestors simulations; you can then show, supposedly, that because these mature civilizations can do astronomical numbers of simulations, if the first two possibilities are false, there might exist more simulated people like us than non-simulated people. Most of the people with our kind of experiences would be living inside simulations rather than outside them.

    The reasoning behind the argument is that, if you reject the first two hypotheses, then you have to accept that the third one follows necessarily. For each real world, we would have millions of simulated worlds, so the probability that we’re already in a simulation seems genuine.” 

     

    Partindo desta possibilidade e seguindo a ideia de Bostrom, a vida numa simulação é real. Que consequências éticas tem o facto de pensarmos que não, que a vida numa simulação não é real?

    Essa é uma excelente questão que, por motivos de espaço, não pude discutir neste livro que nos traz aqui. Contudo, não pude deixar de explorar a consideração ética da simulação no meu próximo livro que devido à pandemia não foi ainda publicado, mas estará para muito breve. O livro tem o título de “Homo Ignarus: Ética Racional para um Mundo Irracional” (com prefácio de Peter Singer) e discute oito problemas de ética aplicada que acho relevante.

    No quarto capítulo, investigo a seguinte hipótese: se a simulação é realmente possível, que considerações éticas se seguem? A ideia de simular universos complexos como o nosso pode ser fundamentada em razões eticamente positivas: por exemplo, dado o ritmo do aquecimento global no planeta, a criação de mundos simulados onde a civilização pudesse continuar o seu desenvolvimento e evitar a sua extinção pode ser visto, no mínimo, como algo eticamente positivo, e no máximo, como algo eticamente obrigatório.

    O problema é que, assumindo que o universo simulado incluirá seres humanos conscientes como nós, poderá levantar-se um problema ético muito difícil de ser ultrapassado: se as pessoas numa simulação são seres como nós, os “não-simulados”, então são seres que podem sofrer (tremendamente!) a ouvir a Maria Leal a cantar, ou podem ter (imenso!) prazer a ver o Benfica a perder. Isto é: os seres simulados serão seres sencientes e conscientes como nós. Contudo, é imoral causar dano a seres sencientes que pode ser facilmente evitado. E isso levanta um problema às sociedades ou governos futuros que, caso haja tecnologia disponível, devem considerar seriamente.

    No capítulo faço notar que alguns autores defendem que uma civilização que considere fazer simulações de larga escala (e.g. do universo inteiro) com pessoas sencientes – milhões e milhões de pessoas a sofrer com as derrotas do Benfica – e que tenha a tecnologia para o fazer (estamos a falar de uma possibilidade que está, para já, longe da capacidade científica actual, embora a ciência já faça uso de simulações, como por exemplo o Projeto Illustris, uma simulação cosmológica gigante com o objectivo de estudar a formação e evolução de galáxias) terá uma elevada probabilidade de se destruir a si mesma por razões relacionadas com falta de limites éticos em relação a outros problemas, como por exemplo usar bombas nucleares ou votar em políticos trumpianos que ignorem a melhor ciência das alterações climáticas ou da epidemiologia.

    Claro, para um investigador mais especializado em temas da Filosofia da Mente, faço também notar que a hipótese de que os seres humanos numa simulação são sencientes requer bastantes compromissos ontológicos que Bostrom assume sem oferecer uma defesa sólida dos mesmos. Enfim, a ética (principalmente aplicada) vive neste impasse metodológico terrível: pensa um mundo que já existe mas que deveria ser apenas uma possibilidade antes de existir realmente. A questão da simulação levanta sérias considerações normativas que devem ser pensadas com rigor e expertise. Espero que as gerações futuras tomem isso em consideração e pensem as consequências éticas desta tecnologia antes (!) dela existir realmente.

     

    Steven Gouveia: "cada vez mais iremos lidar com mais e mais inteligência artificial presente no nosso dia-a-dia e isso levantará questões éticas muito interessantes." 1

     

    Tendo em conta o teu trabalho desenvolvido no tratamento das questões relacionadas com a IA, como vês a sua relação com o humano? Para os humanos a IA é uma oportunidade ou uma ameaça?

    Essa pergunta é de facto uma daquelas interrogações que nos deixa maldispostos e sem apetite dado o gigante escopo de respostas possíveis. Estará para sair um documentário internacional onde tive a honra de entrevistar 13 especialistas mundiais de inteligência artificial e ética onde discutimos muitas formas e problemas da relação do humano com a inteligência artificial. Algo que todos concordámos é que não devemos imputar a priori uma leitura ética ou imoral da mesma: tudo dependerá da tecnologia específica, do contexto do seu uso, dos objectivos, intenções, etc. Num próximo livro em que já estou a trabalhar (que será uma continuação deste livro de ética aplicada onde investigarei a ética de diversos temas como o Rendimento Básico Incondicional, da Sexualidade, do Casamento, da Reprodução, entre outros) irei discutir o problema ética dos robots sexuais: uma tecnologia robótica (corpórea) criada para prazer humano (e.g. os robots sexuais “Harmony” já estão à venda). Há vários argumentos  a *favor* que podem ser oferecidos para a criação, desenvolvimento e uso desta tecnologia:

    (1) poderá reduzir o tráfico sexual humano ligado à prostituição, dado que os clientes habituais poderão adquirir um robot sexual;

    (2) poderá ajudar muitas pessoas a realizar os seus fetiches e fantasias mais íntimas e assim torná-las sexualmente realizadas;

    (3) poderá ajudar determinadas pessoas que, devido às suas circunstâncias (e.g. incapacidades físicas ou mentais mas com o sistema sexual apto) a realizar algo que é também essencial ao ser humano, o prazer sexual;

    e finalmente, o argumento mais controverso de todos:

    (4) poderá ajudar a diminuir a pedofilia, dado que se assume que quem tenha esse distúrbio sexual irá poder realizá-lo com robots sexuais infantis, diminuindo assim o número de vítimas humanas.

    Contudo, existem também uma diversidade de argumentos *contra* o desenvolvimento e uso desta tecnologia:

    (5) o argumento “feminista” defende que os robots sexuais fazem uso de uma concepção sexista e misógina da mulher (a maior parte dos robots sexuais são mulheres), dado que esta tecnologia hiper-sexualiza a mulher sendo esta completamente submissa aos desejos do comprador; ora, a sociedade precisa de incentivos para olhar de outra forma para a mulher, e não de uma tecnologia que reforça esses estereótipos negativos;

    (6) o argumento contra (4), defende que a criação de robots sexuais infantis para combater a pedofilia não faz sentido dado que já existem alternativas eficazes como a castração química ou física, psicoterapia ou mesmo a prisão;

    (7) finalmente, para não alongar muito, esta tecnologia dos robots sexuais poderá levar a uma diminuição da interacção sexual entre pessoas humanas, podendo colocar em causa a própria reprodução humana ou a criação de uma obsessão sexual parecida com o que acontece com a adição à pornografia.

    Claro, todos estes argumentos têm problemas que serão analisados nesse próximo livro (que espero que venha a sair já em 2021). O importante deste exemplo é que mostrar exactamente de que forma a inteligência artificial pode ou não ser eticamente positiva ou negativa.

    Mas o mais importante de toda esta discussão é a relevância da expertise ética que está profundamente em falta nos nossos dias. Veja-se o caso das famosas comissões de ética de diversas instituições. Como afirmo na introdução do meu “Homo Ignarus”:

    “(…) O que há de comum nas comissões de ética em Portugal? A mais fundamental: nada têm a ver com ética. No fundo são, na maioria dos casos, um grupo de pessoas sem formação especializada em ética a escrever pareceres pseudo-jurídicos seguindo regulamentos internos”.

    E embora isto pareça anedótico, a realidade é mesmo assim: há uma falta enorme de expertise ética no mundo actual. Imagine uma “comissão da ciência” onde 9 dos 10 membros nunca teve sequer uma iniciação ao estudo científico, desconhecendo as bases da biologia, da química ou da física, mas que o seu trabalho é criar pareceres “científicos”. Que tipo de ciência havemos de esperar de uma comissão assim? O mesmo acontece com as comissões de ética: a maior parte das pessoas que fazem parte das mesmas são absolutamente Homo Ignarus da Ética, desconhecendo as suas diversas sub-disciplinas (Metaética, Teorias da Ética, Ética Aplicada, etc.) e o que significa pensar eticamente o mundo. Talvez tenhamos de criar robots eticistas para que o mundo perceba o quão importante a expertise ética devia ser para a sociedade.

     

    Steven Gouveia: "cada vez mais iremos lidar com mais e mais inteligência artificial presente no nosso dia-a-dia e isso levantará questões éticas muito interessantes." 2

     

    No teu quotidiano, que papel ocupa a IA?

    O termo “Inteligência Artificial” é hoje usado para cobrir uma vastíssima diversidade de sub-áreas diferentes entre si como por exemplo a ciência dos dados (Big Data), a robótica, a computação, a engenharia, etc. Tecnicamente, podemos dizer que a IA, tomada neste sentido geral e abstracto, ocupada grande parte da nossa vida, seja quando estamos no nosso telemóvel a utilizar diversas apps, seja usando a internet 5G, seja a conduzir o nosso carro e a parar num semáforo vermelho.

    Mas estas aplicações, embora sejam empiricamente complexas de realizar, são pouco interessantes para mim exactamente porque já sabemos como fazer, construir, reproduzir e utilizar – não há nenhuma dificuldade filosófica, mas somente um trabalho técnico. As questões da IA que mais me interessam são exactamente estes problemas que dificilmente poderão ser resolvidos através de soluções meramente empíricas mas necessitarão de algo mais.

    Daí que a ficção científica (quer na literatura, mas também no cinema) seja interessante para funcionar como uma espécie de Equilíbrio Reflectido entre o mundo ficcional e o mundo real, onde as considerações do primeiro balançam para o segundo. O cinema pode realmente ter esse papel de até criar material filosófico original (o Matrix é um excelente exemplo disso). Mas para discutires isso talvez seja melhor convidares a Diana Neiva da Universidade do Minho.

    Mas voltando à tua pergunta, cada vez mais iremos lidar com mais e mais inteligência artificial presente no nosso dia-a-dia e isso levantará questões éticas muito interessantes. Por exemplo, imagina que alguém comprou um novo Tesla e que está a andar nele em piloto automático. Ora, o programa do veículo por algum motivo não reparou que uma criança estava na iminência de atravessar a estrada e calcula que

    (i) nada faz e atropela a criança ou

    (ii) vira o volante para a esquerda atropelando cinco pessoas que aí se encontram

    (sim, estou a actualizar o famoso dilema do trolley da incrível Philipa Foot que, lembre-se, criou esta experiencia mental para mostrar, entre outras coisas que, de certa forma, o nosso agir ético é profundamente incoerente e enviesado).

    Ora, há várias questões interessantes nesta experiência mental, mas a que me interessou mais é o problema da ético que se levanta em relação à responsabilidade desta situação e das suas consequências: uma criança ou cinco pessoas vão ser atropeladas. Quem deve ser responsabilizado?

    Em várias publicações recentes apresentei a ideia de que as nossas concepções tradicionais de responsabilidade não conseguem lidar com estes novos casos ligados à inteligência artificial e que precisamos de actualizar as mesmas com urgência, acabando por defender uma concepção a que chamo de “Responsabilidade Distribuída”, onde defendo que deve haver uma relação estrutural e relacional entre todas as partes do processo (e.g. quem produz a tecnologia, quem supervisiona a mesma, quem compra a tecnologia, etc) de modo a que, repartindo-se a responsabilidade por diversos agentes, garantimos que cada parte do sistema tenderá a procurar uma acção positiva de si mesmo de modo a eliminar os perigos que podem estar associados ao uso de tecnologia desenvolvida e autónoma.

    Este é apenas um exemplo do tipo de questões que me interessam e que espero vir a investigar academicamente no futuro próximo.

     

    the-matrix

     

    Gostarias de escrever um livro “a meias” com a Sophia, the Robot? Porquê?

    Dependeria do livro. Os livros académicos têm um problema (que é também uma vantagem): requerem muito tempo e energia investidos, imensas leituras técnicas, apresentações do material em conferencias científicas, publicações, etc. Ora, acho que a maior vantagem de escrever a meio um livro com a Sophia seria essa: poder ultrapassar as limitações biológicas humanas como o cansaço, a fome, o sono e, no meu caso, não ter um cérebro minimamente brilhante.

    Assumindo que a Sophia fosse uma Inteligência Artificial Geral como o Ben (Goertzel) a quer conceber, ela teria a capacidade de ler em segundos os milhares de livros e artigos sobre um determinado problema e talvez resumir-me em poucas palavras o que aí é discutido. Ora, neste caso, a Sophia funcionaria como uma dilatadora de tempo que me faria poupar imensas horas. Agora que penso nisto, a minha vida seria muito mais fácil! Acho que já já já a seguir a acabar esta entrevista vou falar com o Ben e pedir-lhe que me envie um exemplar! 😊

     

    [entrevista realizada em junho de 2020]

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    como desenvolver pensamento crítico

    🟦 Como desenvolver o pensamento crítico das crianças é um livro que exige a companhia

    de um lápis e de uma borracha ou de um caderno e de uma caneta.

     

    🟢 em vários momentos a pessoa leitora é convidada a Parar, Pensar e Escrever. são muitos os exercícios de pensamento que proponho.

     

    🟥 à venda nas mais diversas livrarias do país, e também online (Presença, FNAC, Bertrand, Wook)
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    Dizem que a família que brinca em conjunto permanece unida, e concordamos plenamente. Porque não incluir grandes perguntas no tempo de lazer em família? Aqui estão seis razões pelas quais fazer grandes perguntas deve fazer parte do dia-a-dia da sua casa:

     

    Filosofar é ótimo em qualquer idade.


    Crianças, pais e até avós podem encontrar temas de interesse mútuo e beneficiar das discussões e atividades que a filosofia proporciona. De acordo com alguns especialistas, até mesmo os bebés mostram interesse por conceitos filosóficos.

     

    Ao contrário de muitos jogos e atividades, a filosofia não é cara.


    Na verdade, é gratuita. Não há inscrição a pagar, não é necessário levar snacks, nem equipamento especial. Pode ser feita com coisas que já tem em casa ou apenas com as vossas mentes e vozes.

     

    A filosofia é uma brincadeira com propósito.


    As competências que as crianças (e os adultos) desenvolvem ao partilhar um jogo, um passeio ou até uma boa gargalhada podem acompanhá-las para além do ambiente familiar, ao longo das suas carreiras académicas e pelo resto das suas vidas. Pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade são apenas alguns dos “músculos” cognitivos que treinamos ao fazer filosofia.

     

    Os seus filhos já o fazem.


    Que pai ou mãe nunca foi bombardeado com perguntas do tipo “Porquê?” em algum momento do desenvolvimento do seu filho? Porque não parar um momento de vez em quando e usar a curiosidade natural das crianças sobre questões filosóficas como ponto de partida?

     

    As discussões filosóficas constroem confiança entre os membros da família.


    Se as crianças souberem que podem abordar um irmão, um pai ou um avô com uma grande pergunta, e que os seus pensamentos serão valorizados e respeitados, terão mais confiança para voltar, sempre que precisarem de ajuda ou quiserem partilhar algo. Do ponto de vista dos pais, a filosofia pode ser uma janela maravilhosa para compreender melhor como funciona a mente do seu filho ou da sua filha, o que também ajuda a fortalecer a confiança.

     

    A filosofia (especialmente com crianças) é mesmo muito divertida.


    Encaixa-se facilmente em diversas atividades divertidas, como artes e trabalhos manuais, faz-de-conta, música, experiências científicas, brincadeiras ao ar livre, desporto e até viagens. Permite fazer perguntas como “e se?”, usar a imaginação e aprender a expressar-se com clareza. Para os pequenos pensadores, fazer grandes perguntas revela-se como algo alegre, empoderador e libertador. Ao mesmo tempo, os pensadores mais crescidos podem redescobrir o seu sentido de admiração infantil.

     

     

    artigo de Amy Leask (newsletter Think Together with Kids)

    nota: tradução realizada com apoio do ChatGPT.