Uma espécie de manifesto anti-chiuuu para criar melhores condições de escuta, diálogo e pensamento.

Chiuuu. Chiuuu.
Pedir silêncio na sala de aula é uma situação quotidiana para quem trabalha com grupos de crianças e jovens. Mas será que precisamos de recorrer ao habitual «chiuuu» para reduzir o ruído?
Chiuuu. Chiuuu.
O que fazemos quando precisamos de silêncio? Muitas vezes, fazemos ainda mais ruído.
Alguém começa com um «chiuuu» e, pouco depois, seguem-se outros «chiuuu».
Uns mais curtos — CHIU! —, outros mais longos — CHIUUUUUUUU!. Muitas vezes, estes sons são acompanhados por um dedo indicador colocado à frente da boca.
Será que esta é a melhor forma de convidar um grupo ao silêncio?
Porque é que o «chiuuu» pode não ser a melhor forma de pedir silêncio?
O «chiuuu» manda calar.
Nos diálogos, porém, não queremos que as vozes se calem. Queremos que as vozes se organizem e que cada pessoa encontre espaço e tempo para falar.
Respeitar a vez de fala de cada pessoa é algo que precisamos de aprender e de treinar.
Crianças, jovens e pessoas adultas falam facilmente por cima das vozes das outras pessoas. Por vezes, é a vontade imensa de contribuir para a conversa. Outras vezes, é uma ideia que surge de repente e que temos medo de esquecer. Pode também ser simplesmente a falta de hábito de participar num diálogo sem pressas.
O problema não é existirem vozes; o problema acontece quando as vozes deixam de conseguir escutar-se umas às outras.
Por isso, pergunto: não haverá outra maneira de convidar um grupo ao silêncio? Uma maneira que não seja, ela própria, ruidosa?
4 alternativas ao «chiuuu» na sala de aula
1. Criar um semáforo do silêncio
Criar um semáforo com três cores, o verde, o amarelo e o vermelho.
Pode usar cartolinas coloridas; o verde significa que temos um bom ambiente para falar, o amarelo significa que já há algum ruído e o vermelho significa que há ruído a mais.
Podemos solicitar a colaboração de uma das crianças para gerir este semáforo e ir levantando as cartolinas de acordo com o ruído que existe.
A cartolina deve ser visível para todas as pessoas, pelo que sugiro que a criança responsável pela tarefa fique posicionada num sítio onde todas as pessoas a vejam.
2. Levantar e abanar a mão aberta
Levantar a mão aberta e abanar, como se estivessemos a acenar: a ideia passa por alguém levantar a mão e todos vão levantando para dar sinal de que compreendem que é necessário contribuir para o silêncio.
Qualquer pessoa pode fazê-lo e pedir esse silêncio; no início a pessoa adulta na sala deve modelar este gesto até que o grupo se aproprie dele. Gosto desta possibilidade porque o silêncio deixa de ser algo imposto por uma única pessoa e passa a ser uma responsabilidade colectiva.
3. Usar um som suave
Fazer um som suave: pode ser um estalar de dedos. Também pode utilizar um som suave como sinal.
Quando ouvimos esse som, significa que alguém identificou que precisamos de criar melhores condições de escuta.
As outras pessoas podem começar a repetir o mesmo som até que, progressivamente, o grupo se sincronize.
Naturalmente, esta estratégia não funcionará da mesma forma em todos os grupos. Vale a pena experimentar e perceber que tipo de som funciona melhor com cada comunidade.
O mais importante é que o sinal seja conhecido por todas as pessoas e que exista um acordo prévio sobre o seu significado.
4. Usar o gesto “silêncio” em Língua Gestual Portuguesa:
Esta é uma das minhas formas preferidas de solicitar silêncio, pois considero que o gesto é muito bonito e transmite a ideia de que há barulho e precisamos de deixar de ter barulho.
Apresento o gesto no início e indico que se houver muito ruído este gesto serve como sinal para darmos lugar ao silêncio.
O silêncio não significa ausência de participação
O silêncio é algo que temos tendência a preencher e a evitar. Para algumas pessoas, o silêncio soa a abismo.
No entanto, o silêncio é fundamental para criar um ambiente de escuta, para respeitar o ritmo de pensamento de cada pessoa e permitir que o diálogo aconteça, sem pressas.
Nem todos pensamos à mesma velocidade. Nem todas as pessoas precisam de falar imediatamente. Nem todas as ideias surgem no mesmo instante.
Num grupo que valoriza o pensamento e o diálogo, o silêncio não deve ser entendido apenas como ausência de ruído, mas sim numa oportunidade para pensar, escutar e dialogar.
O silêncio como responsabilidade do grupo
Nenhuma destas estratégias funciona automaticamente: é necessário apresentar o sinal ao grupo, explicar o seu significado e experimentar.
Também é importante modelar o comportamento que esperamos encontrar.
Se queremos que as pessoas esperem pela sua vez para falar, precisamos de o fazer.
Se queremos que escutem, precisamos de escutar.
Se queremos que o silêncio seja respeitado, precisamos de não o tratar apenas como um instrumento de controlo.
Pode experimentar uma destas sugestões ou pedir ao próprio grupo que invente um sinal.
Talvez criem um gesto, podem sugerir um objecto, um som ou um ritual. O mais importante é que as pessoas compreendam o seu significado e se possam comprometer com ele.
Não desista se não funcionar logo à primeira; provavelmente, não vai correr bem logo à primeira. Faz parte.
Vamos acabar com o «chiuuu»?
Experimente uma alternativa.
Converse com o grupo sobre o que significa precisar de silêncio.
Pergunte-lhes como gostariam de ser avisados de que o nível de ruído está a impedir a escuta.
Experimentem.
Ajustem.
Inventem outras possibilidades.
E, se puder, comece por uma coisa muito simples: deixe de fazer «chiuuu».
“Morra o chiuuu! Morra. Pim!”
*
Leituras sobre o silêncio e o ruído na sala de aula
Silence at school: Uses and experiences of silence in pedagogy at a secondary school
Seen and not heard: Students’ uses and experiences of silence in school relationships at a secondary school (https://doi.org/10.1177/09075682211055605)
Silence in the classroom is not necessarily a problem
The roles and meanings of silence in the classroom
23 Classroom Management Strategies To Quiet Noisy Students
30 Techniques to Quiet a Noisy Class
15 creative & respectful ways to quiet a class
joana rita
Artigo escrito em Junho de 2024 e revisto em Agosto de 2026.

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