
Há perguntas que parecem demasiado grandes para serem feitas às crianças.
Quem deve governar um país? Como se toma uma boa decisão? O que é justo? Que vozes devem ser escutadas?
Quem já participou numa comunidade de investigação filosófica sabe que as crianças não só pensam sobre estas questões como, muitas vezes, o fazem de uma forma que surpreende os próprios adultos.
Recentemente li uma entrevista ao filósofo Nicolás Brando, investigador da Universidade de Liverpool, na qual defendia uma ideia provocadora: excluir os menores da participação política é uma forma de discriminação baseada na idade. Não estava necessariamente a defender que as crianças passem a votar amanhã. O que questionava era algo mais profundo: porque razão assumimos, quase automaticamente, que a idade é suficiente para determinar quem merece ser escutado?
O problema não é apenas não votar
Quando pensamos em participação política, podemos correr o risco de reduzir a questão ao direito de voto, quando participar numa democracia é muito mais do que colocar um boletim numa urna.
A participação democrática de cada um de nós passa por poder expressar opiniões, contribuir para decisões, questionar, propor alternativas, participar na construção dos espaços onde vivemos.
Relativamente às crianças, o artigo 12.º da Convenção sobre os Direitos da Criança estabelece que todas as crianças têm o direito de expressar livremente as suas opiniões sobre os assuntos que lhes dizem respeito e que essas opiniões devem ser consideradas de acordo com a sua idade e maturidade.
Na prática, porém, é frequente ouvir as crianças apenas quando aquilo que dizem coincide com aquilo que os adultos já pensavam. Outras vezes, ouvimos, mas não fazemos nada a partir das suas ideias. A este propósito, recomendo a leitura deste artigo sobre o modelo Lundy.
“Ainda és muito nova para perceber”
Há uma frase que quase todas as crianças já ouviram: “Quando fores mais velho, percebes.”
De facto, existem conhecimentos que exigem experiência, mas também é verdade que esta frase pode funcionar como um mecanismo de exclusão.
Sem nos apercebermos, corremos o risco de confundir falta de experiência com incapacidade para pensar.
É precisamente aqui que vários investigadores têm chamado a atenção para um fenómeno conhecido como injustiça epistémica.
A filósofa Miranda Fricker utiliza este conceito para descrever situações em que alguém é considerado menos credível não pela qualidade das suas ideias, mas por pertencer a determinado grupo social.
Originalmente, Fricker não estava a pensar nas crianças. Ainda assim, muitos investigadores têm mostrado que este conceito ajuda a compreender o modo como frequentemente desvalorizamos aquilo que elas sabem, observam ou pensam.
Em muitos contextos, as crianças não são ignoradas porque estejam erradas; são ignoradas porque são crianças.
Escutar não significa abdicar da responsabilidade
Sempre que se fala em participação infantil, surge uma preocupação legítima: será que escutar as crianças significa deixá-las decidir tudo?
Naturalmente que não, os adultos continuam a ter responsabilidades que não podem delegar.
Mas entre decidir tudo pelas crianças e decidir tudo com elas existe um enorme espaço de possibilidades.
Podemos explicar as razões das decisões, perguntar antes de decidir, criar momentos de diálogo, reconhecer que as crianças têm experiências únicas sobre a escola, a família, a cidade, os espaços públicos ou o ambiente.
Quando lhes perguntamos o que pensam, não estamos apenas a recolher opiniões; estamos sim a ajudá-las a compreender como funciona uma democracia e a fazer esse exercício democrático.
A Filosofia para Crianças como prática democrática
A Filosofia para Crianças é mais do que uma metodologia educativa. Numa comunidade de investigação filosófica, ninguém recebe o direito de falar porque é o mais velho, o mais rápido ou o que sabe mais.
As ideias são examinadas pelos argumentos que apresentam, as perguntas têm tanto valor como as respostas.. Aprende-se a discordar sem deixar de escutar e a justificar uma posição. Aprende-se a reconhecer a necessidade da mudança de ideias quando os argumentos dos outros nos fazem pensar de outra forma.
Tudo isto constitui uma aprendizagem profundamente democrática, porque ajuda a participar na construção de pensamento comum.
A inversão da pergunta
Em vez de perguntarmos se as crianças estão preparadas para participar, talvez possamos inverter a pergunta: estaremos nós, adultos, preparados para ouvir seriamente aquilo que elas têm para dizer?
Ao longo dos anos, tenho ouvido milhares de crianças em oficinas filosóficas. Nem sempre concordo com o que dizem. Nem sempre têm razão. Porém, isso também acontece quando dialogo entre adultos.
O que continua a surpreender-me é a capacidade que têm para colocar perguntas que expõem as fragilidades das nossas certezas.
Uma democracia saudável precisa de perguntas e não apenas de cidadãos capazes de responder.
E se perguntássemos mais?
Se acreditamos que as crianças têm o direito de participar na vida democrática, então precisamos também de lhes oferecer oportunidades para pensar sobre democracia.
Podemos começar com perguntas como:
- Quem deve decidir as regras de um jogo?
- É possível agradar a toda a gente?
- A maioria tem sempre razão?
- É justo decidir sem escutar quem vai ser afectado?
- Há pessoas que nunca são escutadas? Porquê?
- O que faz com que uma decisão seja verdadeiramente democrática?
É precisamente este o convite lançado pela Wonder Ponder no caderno The Question – Special Edition: Democracy, criado por Ellen Duthie e ilustrado pelo Studio Patten.
Em vez de apresentar respostas sobre democracia, o material reúne perguntas, desafios de observação, entrevistas imaginárias, notícias para discutir e propostas para criar novas perguntas sobre participação democrática. O objectivo passa por cultivar a curiosidade e o pensamento crítico sobre aquilo que significa viver em democracia.
Esta abordagem faz-me lembrar uma ideia que atravessa todo o trabalho da #filocriatividade: a participação começa muito antes de alguém poder votar.
A participação começa quando uma criança percebe que as suas perguntas são encaradas com seriedade; quando a criança descobre que pensar em conjunto pode transformar a forma como olhamos para um problema; quando a criança sente que a sua voz é valorizada por contribuir para o pensamento comum.
As oficinas #filocriatividade pretendem criar condições para que as pessoas que participam pratiquem um pensamento democrático.
joana rita
Se gostaria de organizar uma oficina na sua escola, biblioteca, associação, empresa ou outro contexto, entre em contacto comigo para falarmos sobre a proposta mais adequada.

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