Uma reflexão a partir de uma pergunta de uma criança e do livro Mundo Cruel/Cruelty Bites, da Wonder Ponder.

No final de uma oficina de filosofia com uma turma do 2.º ano do 1.º ciclo, o Luís (nome fictício) veio despedir-se de mim.
Muito sorridente, com a mochila às costas e o casaco na mão, aproximou-se e disse:
— Sabes, Joana? Tenho uma pergunta. Porque é que a vida é tão cruel?
E foi-se embora.
Nem tive tempo de digerir a pergunta. Limitei-me a responder:
— Obrigada. Até à próxima!
Fiquei com a pergunta.
Porque é que a vida é tão cruel?
E, com ela, ficaram outras e fazer eco na minha cabeça: O que é a crueldade? O que torna uma acção cruel? É possível ser cruel sem querer? Existem graus de crueldade? Há coisas que são sempre cruéis? Podemos deixar de ser cruéis?
Ainda outra pergunta, que me chega frequentemente pela voz da comunidade docente: Como falar sobre a crueldade com crianças?
As crianças perguntam sobre coisas difíceis
As crianças fazem perguntas sobre a morte, a guerra, a injustiça, a violência, a desigualdade, o sofrimento e a crueldade. Por vezes, estas perguntas surpreendem as pessoas adultas.
Talvez porque ainda tenhamos uma ideia muito instalada de que há determinados assuntos para os quais as crianças são «demasiado pequenas». Mas as crianças não precisam necessariamente de conhecer todas as respostas para poderem pensar sobre estes assuntos.
Precisam de encontrar espaços onde possam perguntar, escutar, discordar, reformular ideias e pensar com outras pessoas.
Quando uma criança pergunta «porque é que a vida é tão cruel?», talvez a primeira coisa a fazer não seja responder. Experimentemos perguntar: O que queres dizer quando dizes «cruel»?
Falar sobre a crueldade não torna as crianças cruéis
Existe, por vezes, algum receio em abordar determinados temas com crianças.
«Será que não estamos a expô-las demasiado cedo?»
«Não será melhor protegê-las destas coisas?»
Proteger não tem necessariamente de significar evitar todas as perguntas difíceis.
Podemos criar condições para que determinados assuntos sejam abordados de forma adequada à idade, ao contexto e ao grupo.
Falar sobre a crueldade não nos torna pessoas cruéis. Tal como falar sobre a empatia não nos torna automaticamente empáticos, ou falar sobre a justiça não nos transforma imediatamente em pessoas justas. O diálogo não funciona como uma vacina moral.
Mundo Cruel
Lembrei-me do livro-objecto ou livro-caixa da Wonder Ponder que se intitula Mundo Cruel/Cruelty Bites (disponível em espanhol, inglês e italiano).
Nesta caixa encontramos catorze cenas do quotidiano cruel, umas mais óbvias do que outras, todas carregadas de ambiguidade e de provocações filosóficas.
Foi precisamente a pergunta do Luís que me fez pensar em Mundo Cruel / Cruelty Bites, da Wonder Ponder (texto de Ellen Duthie, ilustração de Daniela Martagón). A proposta deste livro é particularmente interessante para trabalhar temas difíceis com crianças porque parte de situações que nos convidam a observar, a estranhar e a perguntar.
A crueldade aparece representada de diferentes formas e é apresentada como matéria de reflexão. Não se trata simplesmente de dizer: Isto é cruel. Isto não é cruel.
Trata-se de perguntar: Será isto cruel? Porquê?
Afinal, quem nunca matou uma formiga? É comum hesitarmos no momento de matar uma mosca? Como se manifesta a crueldade nos recreios da escola? E se houver um ser alienígena que decide ser cruel para com os seres humanos, assim como os seres humanos são para os animais.
Es cierto que a los niños les gustan las historias amables, pero también adoran las historias oscuras, sombrías o inquietantes. (Ana Garralón)
No meu portefólio de oficinas disponibilizo oficinas sobre temas como a crueldade, a guerra e a morte. Confesso que não são os temas mais procurados pelas pessoas adultas que escolhem as oficinas para as crianças.
Ainda assim, os temas surgem nos diálogos, mesmo naqueles que têm temas mais “fofinhos” ou que as pessoas adultas consideram mais adequados para as crianças e os jovens. As crianças perguntam pela crueldade, pela morte e pela guerra. Têm curiosidade.
Uma proposta que convida ao diálogo sobre a crueldade
Cruelty Bites, com texto da Ellen Duthie e ilustrações da Daniela Martagón é uma excelente proposta para trabalhar a crueldade com crianças, jovens e pessoas adultas.
Como acontece em qualquer tema, devemos criar um ambiente que convida ao diálogo. Lembre-se que não estamos ali para dialogar sobre uma acção cruel específica de uma criança, mas para pensar sobre o que faz com que uma palavra, um gesto ou uma situação seja cruel.
joana rita
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livro à venda: Como desenvolver o pensamento crítico das crianças – Parar, Pensar, Escutar, Dialogar
Imagem retirada do website Wonder Ponder

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