filocriatividade

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🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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Descubra o que dizem os estudos sobre Filosofia para Crianças.

📷 FOLIO, 2024

Filosofia para Crianças: porquê trabalhar o pensamento?

Há algo que tenho vindo a confirmar na prática e que a investigação já sustenta há décadas: o pensamento pode ser trabalhado. E pode ser trabalhado em conjunto.

A Filosofia para/com Crianças (FpcC) não se resume apenas a uma conversa livre nem a um exercício abstracto. É uma prática educativa estruturada, assente no diálogo, na escuta e na construção partilhada de perguntas.

Diversos estudos internacionais mostram que a participação regular em práticas filosóficas contribui de forma consistente para o desenvolvimento do raciocínio, do pensamento crítico e da criatividade (Topping & Trickey, 2004, 2007; Hedayati & Ghaedi, 2009).

É importante, contudo, distinguir entre resultados promissores e conclusões definitivas. A investigação disponível é heterogénea e os efeitos encontrados dependem do resultado analisado, do desenho da intervenção e do contexto em que esta acontece.

O que muda quando as crianças filosofam?

Uma das coisas mais interessantes na investigação é que os efeitos estudados não se limitam ao “pensar melhor” de forma abstracta. Alguns estudos encontraram também alterações na forma como as crianças comunicam, escutam e participam.

O estudo de Hedayati e Ghaedi (2009), por exemplo, encontrou melhorias nas competências de comunicação interpessoal — tanto verbais como não verbais — em alunos do ensino básico. Também os estudos de Topping e Trickey (2005, 2007) apontam para efeitos positivos no raciocínio e em algumas dimensões da interação entre os participantes em comunidades de investigação filosófica.

Na prática, isto pode traduzir-se em crianças que escutam melhor, que pensam antes de responder e que conseguem construir ideias com os outros. “Aqui na filosofia temos de pensar duas vezes antes de falar”, dizia-me uma criança do 5.º ano, no final de uma oficina pontual.

Mas é importante fazer uma distinção: um resultado positivo num estudo não significa que todas as crianças, em qualquer contexto e através de qualquer prática de Filosofia para Crianças, irão necessariamente desenvolver essas competências. A investigação fornece-nos indícios e tendências; não uma garantia automática de resultados.

Pensar, criar, resolver: impactos no desenvolvimento

A Filosofia para/com Crianças não trabalha apenas o pensamento crítico, trabalha também a criatividade e a capacidade de lidar com problemas.

Num estudo recente realizado por Işıklar e Abalı-Öztürk (2022) os autores verificaram que um programa de Filosofia para Crianças, ao longo de 15 sessões, aumentou de forma significativa a autoestima e as competências de resolução de problemas dos alunos.

Resultados semelhantes já tinham sido encontrados por Erfani et al. (2014), que identificaram melhorias na criatividade e na capacidade de resolver problemas em estudantes do ensino secundário. Outros autores, como Millett e Tapper (2012), reforçam esta ideia: a investigação filosófica é, em si mesma, uma prática que treina o pensamento para lidar com situações complexas.

Além disso, há indícios de impacto positivo em áreas escolares como a leitura, a compreensão e até o pensamento científico. Estes indícios sugerem que filosofar não “retira tempo” ao currículo, mas pode, na verdade, aprofundá-lo.

Convém evitar uma conclusão demasiado rápida. O facto de uma prática filosófica poder contribuir para determinadas competências não significa que a sua finalidade tenha de ser produzir essas competências.

Podemos querer saber se a Filosofia para Crianças melhora o pensamento crítico e, ao mesmo tempo, considerar que o valor de uma experiência filosófica não se esgota nesse resultado.

O que dizem os estudos em conjunto?

Quando olhamos para estudos isolados, encontramos resultados interessantes. Quando reunimos muitos estudos, conseguimos perceber melhor algumas tendências.

As meta-análises disponíveis apontam, de forma geral, para efeitos positivos da Filosofia para Crianças em diferentes resultados cognitivos. García-Moriyón et al. (2005) e Yan et al. (2018), por exemplo, encontraram efeitos favoráveis em diferentes dimensões analisadas.

Mais recentemente, Kilby (2025) realizou uma meta-análise que reuniu 30 estudos e 62 conjuntos de dados. O efeito global encontrado foi de 0,65; quando o resultado analisado era especificamente o pensamento crítico, o efeito foi de 0,89. O autor encontrou ainda diferenças entre regiões, com efeitos maiores nos estudos realizados em países orientais do que nos ocidentais.

Estes resultados são relevantes. Sugerem que determinadas formas de Filosofia para Crianças podem contribuir para o desenvolvimento de competências relacionadas com o raciocínio e o pensamento crítico.

Mas uma meta-análise não transforma automaticamente resultados diversos numa verdade simples. Os estudos que reúne podem diferir bastante entre si: quanto à idade dos participantes, duração das intervenções, formação dos professores ou facilitadores, materiais utilizados, contexto educativo e instrumentos de avaliação.

Os estudos podem variar quanto à idade dos participantes, duração das intervenções, formação dos professores ou facilitadores, materiais utilizados, contexto educativo e instrumentos de avaliação. O próprio Kilby assinala que existem variações na forma como a Filosofia para Crianças é praticada e que nem todos os resultados habitualmente associados à prática são igualmente avaliados através de investigação quantitativa.

Por isso, talvez seja mais rigoroso dizer que a investigação acumulada é promissora do que afirmar que já existe uma demonstração definitiva de que a Filosofia para Crianças “funciona”.

Há ainda outra questão metodológica: estudos com amostras mais pequenas podem, em alguns casos, apresentar efeitos maiores. Isto não invalida os resultados, mas recomenda alguma prudência na sua interpretação.

Para além dos números: o que se observa na prática

Há também algo que os números nem sempre captam totalmente: a qualidade das relações e do ambiente de aprendizagem.

Relatórios qualitativos, como o Philosopher-in-Residence Project (Northern Territory Department, 1991), mostram que professores, famílias e alunos reconhecem melhorias no envolvimento, na participação e na qualidade do diálogo.

De forma semelhante, o trabalho de Karin Murris (1992) evidencia ganhos na escuta, na expressão e na confiança das crianças — aspectos que são fundamentais, mas difíceis de medir apenas com testes.

Os estudos permitem conclusões definitivas?

A investigação sobre Filosofia para Crianças apresenta resultados interessantes, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento do pensamento crítico, mas está longe de permitir conclusões definitivas. Se alguns estudos identificam efeitos positivos, outros, incluindo investigações de maior dimensão, não encontram diferenças significativas em determinados resultados.

Além disso, os estudos recorrem a intervenções, contextos, amostras e instrumentos de avaliação diversos, o que torna difícil falar de “um” efeito da Filosofia para Crianças. Há ainda indícios de que os estudos com amostras mais pequenas tendem, em alguns casos, a apresentar efeitos de maior dimensão.

Um exemplo importante é o grande ensaio realizado no Reino Unido por Lord et al. (2021), que envolveu 75 escolas de intervenção e 123 escolas de controlo. O estudo não encontrou evidência de impacto da Filosofia para Crianças nos resultados de leitura e matemática, nem nas competências sociais e comunicativas avaliadas através dos instrumentos utilizados.

Este resultado não significa que a Filosofia para Crianças não tenha valor. Significa que não foram encontrados efeitos estatisticamente significativos naqueles resultados, naquele estudo e nas condições em que foi realizado.

Não é possível assumir que os resultados encontrados numa comunidade de investigação se transferem automaticamente para outras situações. Uma criança pode desenvolver determinadas formas de argumentação num contexto filosófico sem que isso signifique que irá necessariamente aplicar essas competências em qualquer outra situação da sua vida.

Há ainda outra questão: sabemos relativamente mais sobre os efeitos que determinadas práticas podem produzir do que sobre aquilo que significa, para as próprias crianças, participar numa experiência filosófica. Ou seja, sabemos mais sobre o que a Filosofia para Crianças pode fazer às crianças do que sobre o que significa para as crianças fazer filosofia.

Ainda que os estudos empíricos sejam bastante importantes, não respondem sozinhos à questão que aqui nos interessa. Podem ajudar-nos a perceber que efeitos estão associados a determinadas práticas e em que condições esses efeitos parecem ocorrer. Há uma questão que permanece e que tem outra natureza: o que faz com que uma actividade seja filosófica?

Porque é que isto importa (e como se traduz nas oficinas)

Tudo isto ajuda a clarificar algo que, para mim, é central: pensar não tem de ser um acto solitário. O pensamento constrói-se, transforma-se e aprofunda-se na relação com os outros.

As oficinas #filocriatividade nascem deste entendimento. Inspiram-se na investigação, ganham forma na prática: em espaços onde há tempo para perguntar, escutar, discordar e imaginar.

Mais do que ensinar respostas, trata-se de criar condições para que o pensamento aconteça — com rigor, com criatividade e em comunidade. Pensar melhor, com clareza, também se aprende e pode ser uma experiência partilhada.

Se trabalha numa escola, biblioteca, associação ou outro contexto educativo, pode integrar estas práticas de forma pontual ou continuada. As oficinas #filocriatividade são adaptáveis a diferentes idades e objectivos, desde sessões pontuais a ciclos ou projectos de continuidade.

Se procura promover o pensamento crítico, a criatividade e o diálogo no seu contexto, estou disponível para desenhar propostas à medida. Entre em contacto para agendar ou saber mais, através deste formulário.

joana rita

Nota de actualização: este artigo, originalmente publicado em Abril de 2026, foi revisto e actualizado a 11 de Agosto de 2026. Para além da inclusão de investigação mais recente, a revisão procura tornar mais rigorosa a apresentação da evidência disponível, incluindo os seus resultados positivos, mas também as diferenças entre estudos e as limitações que devem ser consideradas na interpretação dos seus resultados.

Aproveito para partilhar que neste wakelet encontra ligações para os estudos aqui referidos e outros. Irei actualizar sempre que encontrar novos estudos.

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Uma resposta a “Filosofia para Crianças: o que dizem os estudos sobre pensamento, criatividade e diálogo”

  1. Avatar de O que é a Filosofia para Crianças? – filocriatividade

    […] então, a investigação cresceu significativamente. Hoje sabemos muito mais sobre o impacto do diálogo filosófico no desenvolvimento do pensamento crítico, da argumentação, da escuta e da participação […]

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