
Há uns meses, o meu amigo Pieter Mostert apresentou-me um livro surpreendente, redigido algures entre 1829 e 1833, numa altura em que não se falava em filosofia para/com crianças.
Jacob Abbott publica no início do século XIX uma obra singular: The Little Philosopher, um livro que transforma a observação do quotidiano num exercício sistemático de pensamento.
Um livro de filosofia para crianças antes de existir “filosofia para crianças”
Escrito em forma de diálogo entre uma mãe e crianças, o livro organiza uma sequência de perguntas e respostas que partem de objectos e fenómenos simples — a dureza de uma mesa, a suavidade de uma almofada, o frio, a água, a luz — para explorar questões mais abstractas sobre natureza, causa, diferença e explicação.
A proposta de Abbott não passa por apresentar filosofia em sentido académico, mas sim por desenvolver uma disposição para a investigação.
Pensar a partir da experiência quotidiana
A proposta de Abbott não é ensinar filosofia no sentido académico, mas desenvolver uma disposição para a investigação filosófica.
As crianças são convidadas a:
- observar o mundo com atenção;
- comparar situações;
- imaginar alternativas;
- formular hipóteses explicativas.
O pensamento surge, assim, não como um exercício distante ou especializado, mas como algo enraizado na experiência sensível e na curiosidade quotidiana.
O papel do adulto como co-investigador
The old idea of a teacher’s trying to keep up before his pupils the character of infability, is now exploded. all good teachers, and all wise parents, are willing freely to acknowledge their ignorance, and to engage with their pupils on the understanding, that they are themselves learners too, though in a somewhat advanced stage. When a child brings to is parent or teacher any difficult or perplexing question, “I don’t know, but I will help you find out,” is the best answer, and the pleasantest for all parties, which can be given. They then, teacher and pupil, occupy common ground — there is sympathy between them, — the child is encouraged by observing that his father is a learner, as well as himself, and is led on to patience and perseverance, by observing that his father patiently perseveres.
Jacob Abbott, The Little Philosopher, 1833
Esta passagem é particularmente relevante, uma vez que antecipa uma ideia central da educação contemporânea: o adulto como co-investigador, e não como autoridade absoluta do conhecimento.
Do concreto ao abstracto: um método pedagógico
Num dos movimentos mais característicos do livro, uma pergunta concreta (“porque é que existem materiais diferentes?”) abre espaço para explorações hipotéticas (“o que aconteceria se tudo fosse duro?”). Este encadeamento mostra um método pedagógico baseado na progressão entre o concreto e o abstracto, típico da pedagogia intuitiva do século XIX.
Historicamente, The Little Philosopher insere-se num contexto mais amplo de educação baseada na observação e nos chamados “object lessons”, influenciados por tradições pedagógicas como as de Johann Heinrich Pestalozzi. No entanto, Abbott distingue-se por levar essa lógica para um território mais especulativo, aproximando-se de formas precoces de investigação conceptual.
Um precursor da filosofia para crianças?
Embora profundamente marcado pelo seu tempo — com uma forte orientação adulta e um tom didáctico — o livro antecipa preocupações que hoje associamos à filosofia para crianças, filosofia com crianças e as demais práticas de diálogo filosófico na educação:
- o valor da curiosidade;
- o papel das perguntas;
- a centralidade da experiência comum;
- a construção colectiva de sentido.
Pensar não depende da idade
Lido hoje, The Little Philosopher permite repensar a relação entre infância, educação e pensamento filosófico, sugerindo que a capacidade de questionar o mundo não depende da idade, mas da atenção, da linguagem e das condições que criamos para pensar em conjunto.
joana rita
(*) The Little Philosopher é uma obra de Jacob Abbott, publicada originalmente por volta de 1829 sob o pseudónimo “Erodore”. Saiba mais sobre a obra neste link.
📷 Festival de Filosofia de Abrantes, 2025

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