
Abrantes, uma cidade com tradição de filosofia no espaço público.
Antes de existir o Festival de Filosofia de Abrantes, já havia na cidade quem procurasse criar espaços para a filosofia sair da sala de aula e encontrar outras pessoas, noutros lugares.
Entre 2012 e 2022, o Clube de Filosofia de Abrantes promoveu 245 sessões de debate e reflexão, em Abrantes e no Sardoal. Fundado por José Alves Jana, Nelson de Carvalho e Mário Pissarra, o Clube partia frequentemente de livros, autores ou problemas filosóficos para criar momentos de conversa e confronto de ideias.
Quando aconteceu a 1.ª edição do Festival de Filosofia de Abrantes, em 2017, já a cidade respirava pensamento filosófico.
Da filosofia com crianças às residências filosóficas e às assembleias
Desde 2017, o Festival de Filosofia de Abrantes tem vindo a criar espaços para pensar, conversar, questionar e dialogar sobre temas que dizem respeito à vida de todos e de cada um de nós.
A programação tem vindo a aliar conferências e debates a livros, exposições, espectáculos e actividades dirigidas a diferentes públicos. Desde a primeira edição existe também uma preocupação em levar a filosofia às escolas e às crianças
A minha colaboração com o Festival começou nesse ano, através da Filosofia para Crianças e das oficinas dirigidas à comunidade escolar. Desde então, foi-se alargando a famílias, museus, mediação cultural, residências filosóficas, assembleias.
De 2017 a 2025
A programação da primeira edição combinava conferências, debates e actividades dirigidas à comunidade, incluindo a iniciativa Filosofia com crianças, a Feira do Livro de Filosofia e intervenções das escolas secundárias. O tema do Festival foi: O regresso da História — a crise da democracia e o autoritarismo; a religião e os radicalismos
Participei na primeira edição do Festival, em 2017, com Renata Sequeira, dinamizando iniciativas de Filosofia com Crianças nas escolas dos concelhos de Abrantes e Sardoal. Também Lara Sayão participou nessa edição, com uma formação para professores e educadores, na área da Filosofia para Crianças.
Em 2018 o tema escolhido foi A inteligência artificial, o trabalho e o humano — automação e organização do trabalho; o primado do instrumental ou o primado do humano. Participaram Viriato Soromenho-Marques, Steven S. Gouveia, Arlindo Oliveira.
Durante a pandemia, em 2020, a edição aconteceu em formato online, tendo tido como tema orientador Cidade, árvore que nos abriga e raiz que nos sustenta.
Em 2021 foi retomado o formato presencial, as oficinas nas escolas e para famílias. O tema escolhido foi Cidade e a Arte e o Festival contou com a participação de Adriana Veríssimo Serrão , Dulce Maria Cardoso, Rui Horta, Manuel João Vieira, Paulo Pires do Vale, entre outros.

A cidade como marca: paisagem, identidade e futuro — foi o tema da edição do Festival em 2022. Foi nesse ano que tive a oportunidade de dinamizar as oficinas no MIAA — Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes, a partir de uma exposição do Mestre José Pimenta. Esta experiência permitiu-me explorar de forma mais sistemática a relação entre filosofia, arte e mediação cultural.
Paulo Lima, Helena Barranha, Mariana Correia, Moirika Reker, Dirk Hennrich e Jorge Gaspar foram alguns dos conferencistas que fizeram parte da programação do Festival.
Em 2023, o tema geral do Festival estava relacionado com o compromisso com o futuro, as alterações climáticas, a sustentabilidade e outras questões que nos obrigam a pensar não apenas no presente, mas também no mundo que estamos a construir. O tema era provocador q.b.: Sustentabilidade: verdade ou consequências. Nesse ano, Viriato Soromenho-Marques regressou ao Festival.

O Festival de Filosofia de Abrantes dedicou a sua 7.ª edição à Liberdade em Construção, no contexto das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril. A conferência inaugural esteve a cargo de Ana Gomes.
Aconteceu uma mudança importante na minha participação. Nesse ano, dinamizei um conjunto de Residêncisa Filosóficas de Perguntas e Respostas, com alunos do ensino secundário e profissional das escolas do concelho de Abrantes, tendo em vista a preparação da Assembleia da Liberdade — Eu penso, eu participo. Esta Assembleia contou com a participação de José Rosa.
Em 2025, o Festival chegou à sua 8.ª edição com o tema “O poder da palavra: pensar, agir, transformar”. O Festival decidou homenagear José Gil, que nos brindou com uma conferência que pode ser escutada no YouTube.
A experiência das residências filosóficas continuou. Entre 3 e 7 de Novembro decorreram residências de perguntas e respostas com alunos das escolas do concelho, preparando a Assembleia da Palavra. Desta vez, o trabalho envolveu alunos do 1.º ciclo, ensino secundário e profissional. A Assembleia voltou a contar com a participação de José Rosa.

O que pode fazer um Festival de Filosofia numa cidade?
Um festival de filosofia pode trazer filósofos e outros pensadores a uma cidade, convidando as pessoas que dela fazem parte a participar nas conferências, nos debates e nas apresentações de livros.
Pode criar encontros entre pessoas que dificilmente se encontrariam noutros contextos. Pode criar oportunidades para que uma criança descubra que a sua pergunta merece ser escutada.
Pode transformar uma turma num grupo de investigação. Pode fazer com que a filosofia deixe de ser apenas aquilo que acontece quando alguém sobe a um palco para falar sobre um tema e passe a ser também aquilo que acontece quando pessoas diferentes se sentam juntas e tentam pensar uma questão.
Essa dimensão, de envolvimento, interessa-me particularmente na experiência de Abrantes. Uma cidade que convida quem nela vive e quem por ela passa a fazer perguntas e a arriscar respostas.
joana rita
fotografias: Facebook do Festival de Filosofia de Abrantes

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