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🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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autora: Luiza Agostinho Matias

Quem convive com crianças já ouviu alguma pergunta difícil sobre a morte. Às vezes ela aparece depois da perda de um familiar, de um animal de estimação ou de uma notícia na televisão.

Outras vezes surge no meio de uma brincadeira ou de uma conversa rotineira e, ainda assim, muitos adultos continuam acreditando que não é “assunto de criança” e evita falar sobre a finitude com elas.

Esse silêncio tem uma história quando Philippe Ariès (1981) mostra que a forma como a sociedade ocidental compreende tanto a infância quanto a morte mudou ao longo do tempo. Se, por um lado, a criança passou a ser reconhecida como um sujeito a ser cuidado e protegido, por outro, foi sendo afastada das experiências consideradas adultas, entre elas a morte.

A intenção sempre foi protegê-las, mas o resultado foi o silenciamento.

Os estudos sociais da infância e da criança propõem outra forma de olhar para essa relação.

Autores como William Corsaro (1997), Manuel Sarmento (2003) e Catarina Tomás et al. (2021) defendem que as crianças não são adultos em formação esperando o momento de compreender o mundo. Elas já interpretam, produzem cultura, elaboram hipóteses e constroem sentidos sobre aquilo que vivem, incluindo a morte.

E é por isso que conversar sobre a morte significa, antes de tudo, escutar.

Na minha experiência, as perguntas das crianças sobre a morte quase nunca

pedem uma aula sobre biologia ou religião, elas pedem alguém disposto a levá-la a sério e ouvir suas próprias perspectivas.

Sabemos, por exemplo, que a compreensão da morte acontece de forma gradual, como pesquisas da área da psicologia apontam quatro conceitos importantes nesse processo: a irreversibilidade, isto é, entender que quem morreu não volta; a universalidade, reconhecer que todos os seres vivos morrem; a não funcionalidade, compreender que o corpo deixa de realizar suas funções; e a causalidade, perceber que a morte acontece por diferentes causas (Torres;

Kovács). É importante ter em mente que essas compreensões não aparecem de uma vez e nem seguem uma idade exata, pois são atravessadas pelo contexto, experiências, cultura e pelas oportunidades de diálogo.

Na escola, isso se torna ainda mais evidente quando mortes de familiares, colegas, professores ou animais fazem parte da vida das crianças. Por isso, ignorar essas experiências não faz com que elas desapareçam, o que torna ainda mais urgente criar espaços de conversa, para validar sentimentos, trabalhar memória e evitar mentiras de forma a acolher dentro do movimento da escuta.

Essa escuta também exige cuidado com a linguagem, visto que, antes de explicar, é importante perguntar o que a criança já sabe ou imagina sobre a morte. Evitar metáforas como “foi dormir” ou “virou uma estrelinha” pode impedir confusões. Também é importante reconhecer que nós, adultos, não temos todas as respostas, visto que dizer “eu não sei” pode ser tão honesto quanto qualquer explicação, além de demonstrar vulnerabilidade e criar a conexão emocional sobre o assunto.

A literatura infantil oferece um caminho interessante para essas conversas. Livros não precisam ensinar sobre a morte, mas eles podem criar perguntas, abrir interpretações, estimular a imaginação e permitir que cada criança encontre seus próprios sentidos. Portanto, a escolha de uma obra deve partir sempre da intencionalidade da mediação e não apenas do tema que ela aborda.

Outra perspectiva importante sobre a morte que deve ser refletida pelos adultos é que não existe uma única maneira de viver o luto. As diferentes crenças, culturas e histórias familiares atravessam as formas de compreender a morte e, por isso, impor discursos religiosos, interromper a fala das crianças ou tratar todas da mesma forma pode dificultar ainda mais esse processo de reflexão da finitude com crianças.

Portanto, o maior desafio não é ensinar às crianças o que é a morte, visto que elas já pensam sobre ela. Quando deixamos de subestimar suas capacidades, percebemos que muitas vezes elas não esperam respostas, mas apenas um adulto disposto a permanecer na conversa.

Esse é o maior propósito do Criança e Morte, construir, junto com as crianças, reflexões sobre a finitude.

*

Luiza Agostinho Matias, pedagoga, mestra e doutoranda em Educação na

Universidade do Estado de Minas Gerais, pesquisadora das relações entre a criança e a morte no GEPICE (Grupo de Estudos e Pesquisas em Infância(s), Crianças e Educação). Pedagoga na Gerência de Capacitação e Treinamento da Escola de Governo de Minas Gerais da Fundação João Pinheiro. Fundadora do projeto Criança e Morte no instagram @criancaemorte.

REFERÊNCIAS

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Tradução de Dora Flaksman. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

CORSARO, William. The sociology of childhood. California: Pine Forge, 1997.

LIMA, Vanessa Rodrigues de; KOVÁCS, Maria Julia. Morte na família: um estudo exploratório acerca da comunicação à criança. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 31, n. 2, p. 390-405, 2011.

MALETTA, Ana Paula Braz; SILVA, Jennifer Vaz Barcelar Ferreira Gomes da. A noção de culturas da infância e sua relação com o brincar, com a vivência e com a experiência na educação infantil. Textura – Revista de Educação e Letras, v. 23, n. 55, 2021.

SARMENTO, Manuel Jacinto. Imaginário e culturas da infância. Braga: Universidade do Minho, 2003. Disponível em: https://revistas.ufpel.edu.br/index.php/caduc/article/download/1467/19438 Acesso em: 10 jun. 2026.

SCHUBSKY, Cecília de Miranda; SILVEIRA, Isabela Moreira de Araújo Abreu. Memórias sussurradas: narrativas de crianças sobre a morte. Disponível em: https://static.even3.com/processos/3215ea226f91465db413.pdf?v=639166111403423904 Acesso em: 9 jun. 2026.

TOMÁS, Catarina; TREVISAN, Gabriela; CARVALHO, Maria João Leote de; FERNANDES, Natália (eds.). Conceitos-chave em Sociologia da Infância: Perspetivas Globais. Braga: UMinho Editora, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.21814/uminho.ed.36 Acesso em: 10 jun. 2026.

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