filocriatividade

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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    joana rita #filocriatividade

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    “Não sei.” Quando foi a última vez que disse “não sei”?

    Coloco a pergunta de outra forma: em que situações dizemos “não sei”?

    Talvez tenha hesitado perante a pergunta de uma criança. Talvez já tenha passado por isso numa reunião de trabalho.

    Vivemos rodeados de informação e, paradoxalmente, parece que nos é cada vez mais difícil reconhecer os limites do que sabemos. Porquê?

    Não queremos parecer ignorantes

    Quando alguém diz “não sei” acaba por assumir alguma vulnerabilidade perante as outras pessoas.

    A psicologia social mostra que nos preocupamos constantemente com a imagem que transmitimos aos outros. Queremos ser vistos como competentes, informados e capazes. Em diferentes contextos, seja na escola, no trabalho ou até entre amigos, admitir desconhecimento pode não ser confortável.

    Por isso, muitas vezes respondemos depressa. Ou mudamos de assunto. Ou damos uma resposta vaga. Não necessariamente porque queremos enganar alguém, mas porque queremos proteger a imagem que os outros têm de nós. Esta preocupação pode impedir algo que é importante e que acontece durante toda a nossa vida: aprender.

    A ilusão de que sabemos mais do que sabemos

    Há outro fenómeno ainda mais intrigante, ao qual os psicólogos Steven Sloman e Philip Fernbach chamam a ilusão do conhecimento (The Knowledge Illusion). Os autores mostram como tendemos a sobrestimar aquilo que sabemos individualmente, porque dependemos constantemente do conhecimento produzido e partilhado por outras pessoas.

    Experimente o seguinte exercício: explique, sem recorrer à internet, como funciona um fecho éclair (a meu ver, uma das grandes invenções da humanidade). Difícil, não é? Bom, para mim foi impossível. Não sei explicar como funciona, só sei puxar o fecho para que cumpra a sua função. Só quando tentamos explicar percebemos que a nossa compreensão é mais frágil do que imaginamos.

    Vivemos apoiados no conhecimento colectivo da sociedade, produzido porengenheiros, médicos, cientistas, professores, mecânicos, entre outros. Sem darmos por isso, confundimos esse conhecimento partilhado com conhecimento próprio.

    Há ainda outro problema: nem sempre somos bons a reconhecer os limites do nosso próprio conhecimento.

    Quando não sabemos que não sabemos

    Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger publicaram um estudo que se tornaria particularmente conhecido sobre a relação entre competência e confiança.

    O chamado efeito Dunning-Kruger descreve uma tendência para pessoas com menor competência num determinado domínio terem dificuldade em reconhecer a sua própria falta de competência. O problema é quase circular: para avaliar correctamente aquilo que não sabemos, precisamos de algum conhecimento sobre aquilo que estamos a tentar avaliar.

    A proposta dos psicólogos ajuda-nos a compreender uma situação curiosa: podemos não saber que não sabemos. Convém não transformar esta ideia numa caricatura. O efeito Dunning-Kruger não significa que “as pessoas menos inteligentes acham que são génios”, nem que quanto menos sabemos mais confiantes somos. Trata-se, antes, de uma dificuldade de calibrar adequadamente a nossa confiança em relação àquilo que efectivamente sabemos, sendo que essa dificuldade pode existir em diferentes graus e em diferentes domínios.

    Reconhecer a própria ignorância exige, portanto, algum conhecimento — e humildade.

    Saber que não sabemos é uma competência

    Em 1979, o psicólogo John Flavell introduziu o conceito de metacognição: a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. Aprender não depende apenas de adquirir novos conhecimentos. Depende também de perceber:

    • O que sei?
    • O que penso que sei?
    • O que ainda não sei?

    As pessoas que conseguem identificar estas fronteiras tendem a aprender de forma mais eficaz, porque conseguem perceber que precisam procurar novas respostas.

    Dizer “não sei” pode muito bem ser o início de uma investigação.

    Reconhecer os limites do que sabemos

    Se podemos não saber que não sabemos, como podemos reconhecer os limites do nosso próprio conhecimento?

    É aqui que entra um conceito que, nos últimos anos, tem despertado o interesse de psicólogos e filósofos: a humildade epistémica, também chamada humildade intelectual.

    Ser intelectualmente humilde não significa pensar menos de si próprio, duvidar de tudo ou considerar que todas as opiniões têm o mesmo valor. Significa reconhecer que o nosso conhecimento é limitado e estar disponível para rever aquilo que pensamos quando encontramos boas razões para o fazer.

    A humildade epistémica implica, por isso, uma espécie de cuidado na relação com o próprio conhecimento. Não basta perguntar “O que penso?”; é também importante perguntar “Quão seguro estou de que aquilo que penso está certo?”

    Esta distinção é particularmente importante quando falamos de opiniões. Podemos ter uma opinião sem ter certezas. Podemos considerar uma explicação plausível sem saber se é verdadeira. Podemos acreditar em alguma coisa e, ainda assim, estar disponíveis para mudar de ideias perante novos argumentos ou evidências.

    É comum associar humildade a uma frase atribuída a Sócrates: “Só sei que nada sei.” No entanto, como escreve Vitor Lima (Isto Não É Filosofia), Sócrates não disse exactamente isso. A formulação tornou-se um slogan filosófico, mas simplifica excessivamente a posição socrática.

    O que encontramos no livro Apologia de Sócrates (de Platão) é algo mais interessante: Sócrates considera-se mais sábio apenas numa pequena medida, porque não julga saber aquilo que não sabe. Essa diferença é decisiva. Não se trata de afirmar uma ignorância absoluta, mas de reconhecer honestamente os limites do próprio conhecimento.

    A humildade intelectual não nos pede, portanto, que deixemos de pensar ou de formar opiniões. Pede-nos que sejamos cuidadosos no processo de pensamento, para distinguir aquilo que sabemos, aquilo que pensamos saber e aquilo que simplesmente pensamos.

    A investigação tem associado esta disposição a maior abertura à aprendizagem e ao diálogo, bem como a menor dogmatismo. Considero que se trata de uma competência particularmente importante numa época em que somos constantemente convidados a ter opinião sobre tudo (Menos opiniões, por favor!). Aliás, no livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, apresento a humildade intelectual como um dos pilares da pessoa pensadora crítica.

    A confiança intelectual não consiste em ter sempre uma resposta pronta, “na ponta da língua”, mas sim em conseguir distinguir aquilo que sabemos daquilo que ainda estamos a descobrir.

    E na educação?

    As crianças fazem perguntas para as quais nem sempre temos resposta. Perante estas perguntas, muitos adultos sentem a obrigação de responder imediatamente. Será essa a melhor resposta?

    Que tal dizer: “Não sei” e acrescentar: “Vamos pensar nisso juntos?” Julgo que esta atitude pode ser muito mais educativa, em vez de oferecer uma explicação apressada.

    Quando um adulto admite que não sabe, transmite uma mensagem muito importante: aprender não termina quando deixamos a escola. Continuamos todos a investigar, ao longo da vida. É precisamente essa atitude que torna possível uma verdadeira comunidade de investigação, onde ninguém precisa de fingir que sabe tudo para participar.

    O desafio

    Termino com um desafio: experimente reparar em todas as vezes que sente vontade de responder antes de ter pensado. Quando isso acontecer, pergunte:

    • Tenho a certeza?
    • Como sei isto?
    • O que me falta compreender?

    Se a resposta for “não sei”, talvez valha a pena dizê-lo em voz alta, anunciando ao mundo que precisa de tempo para pensar.

    *

    Se este tema lhe interessa, talvez queira continuar a pensar:

    — Debate ou diálogo em sala de aula: o que estamos realmente a promover? — sobre escuta, confronto de ideias e diálogo.

    — Quando um livro pergunta — sobre perguntas que não procuram respostas imediatas, mas abrem possibilidades de pensamento.

    — Somos livres para pensar o que quisermos? — sobre pensamento, razões e liberdade.

    — Quando a pergunta muda de direcção, o pensamento continua — sobre o que acontece quando uma investigação nos leva para lugares que não tínhamos previsto.

    — «Pensamento crítico»: uma palavra da moda que a IA arrisca esvaziar de sentido

    joana rita

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    Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.

    Se procura uma oficina de Filosofia para Crianças, uma actividade de pensamento crítico ou uma formação para quem trabalha com crianças e jovens, escreva-me. Podemos conversar.

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    Há quem chegue agora a este blog, outras pessoas acompanham este projecto há mais tempo.

    Em ambos os casos, gosto de aproveitar, de vez em quando, para recuperar textos que continuam actuais e que talvez tenham passado despercebidos.

    Se tiver alguns minutos de leitura durante os próximos dias, deixo-lhe cinco sugestões.

    Por que apelar à empatia apenas reforça a inação?

    A empatia é frequentemente apresentada como a solução para muitos dos problemas sociais. Mas será mesmo assim? Neste texto Ana Guerreiro propõe uma reflexão sobre os limites da empatia e sobre a possibilidade de ela, por si só, não ser suficiente para promover uma mudança efectiva.

    Como apoiar crianças e jovens no luto por um animal de estimação

    A morte de um animal de estimação é muitas vezes o primeiro contacto das crianças com a perda. Neste artigo a especialista Maria Estrela Felício algumas ideias para que pais, educadores e professores possam acompanhar esse processo com maior sensibilidade, sem desvalorizar aquilo que a criança está a viver.

    O que faz de uma resposta… uma resposta filosófica?

    Esta entrevista a José Barrientos Rastrojo continua a ser uma das publicações mais lidas do blog. A pergunta que lhe dá título permanece tão pertinente hoje como quando a publiquei: o que distingue uma resposta filosófica de qualquer outra? Uma excelente leitura para quem facilita diálogos filosóficos.

    Como desenvolver o pensamento crítico das crianças

    Um conjunto de sugestões práticas para ajudar as crianças a perguntar, argumentar, analisar razões e construir um pensamento mais autónomo. Um tema que continua a ser um dos pilares da Filosofia para/com Crianças.

    Cinco podcasts e vídeos para aprender e praticar pensamento crítico

    Nem sempre é preciso pegar num livro. Neste artigo partilho alguns dos podcasts e vídeos que considero particularmente úteis para quem quer aprofundar e exercitar o pensamento crítico.

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    «Dar a voz aos alunos» é uma expressão muito presente quando falamos de participação infantil e juvenil na escola. Encontramo-la em projectos educativos, documentos, discursos e propostas sobre participação das crianças. Eu própria já a proferi no passado.

    Proponho que abandonemos a expressão, para adoptar uma outra: escutar a voz dos alunos.

    A diferença pode parecer pequena, mas implica uma forma diferente de olhar para a participação, para a escuta e para o lugar das crianças na escola.

    Quem dá a voz?

    Quando dizemos que queremos «dar voz aos alunos», colocamos o adulto na posição de quem dá. Quem dá tem alguma coisa que o outro não tem e que pode decidir conceder. Contudo, os alunos já têm voz.

    Pensam, perguntam, discordam, argumentam, imaginam, propõem, fazem objecções, contam experiências e constroem ideias. Podem não ser ouvidos — e isso é diferente de não terem voz.

    A questão, por isso, não começa em «como dar voz aos alunos?». Começa em como escutar a voz que já têm.

    Escutar não é apenas ouvir

    Escutar implica outra atitude; implica atenção, seriedade e interesse genuíno por aquilo que está a ser dito. Implica procurar compreender as palavras, as perguntas, as razões, as dúvidas e as objecções de quem fala.

    Escutar uma criança não implica aceitar como verdadeiro tudo aquilo que ela diz, mas sim levar a sério o que diz. Podemos perguntar porquê. Podemos pedir que explique melhor. Podemos apresentar outra perspectiva. Podemos discordar. Podemos descobrir uma contradição ou reformular uma ideia.

    E assim começa o diálogo. Escutar os alunos não significa concordar com eles. Significa estar disponível para pensar com aquilo que ouvimos.

    E quem não fala?

    Há ainda outra questão quando falamos de participação dos alunos: será que participar significa necessariamente falar?

    Nem todas as crianças participam da mesma maneira. Há quem precise de tempo para pensar antes de responder. Há quem observe atentamente durante um diálogo e só intervenha quando encontra algo que considera importante acrescentar. Há quem prefira escrever, desenhar ou encontrar outras formas de expressão.

    Numa das minhas oficinas, acompanhei durante algum tempo um rapaz que raramente falava nos diálogos. Poderia parecer, à primeira vista, que participava pouco. Mas estava atento. Acompanhava os argumentos. Pensava sobre o que os outros diziam. Mais tarde, soube que recriava em casa alguns dos diálogos da oficina.

    A sua participação estava a acontecer, apenas não correspondia à imagem habitual de participação como quantidade de intervenções orais. Também já acompanhei crianças que começaram por permanecer em silêncio e que, depois de algumas sessões, encontraram condições para começar a falar.

    Por isso, quando pensamos em participação infantil na escola, precisamos reconhecer diferentes ritmos, formas de expressão e modos de participação. Escutar passa por estar atento a isso.

    Escutar os alunos implica considerar o que dizem

    Há uma pergunta que me parece particularmente importante:

    O que fazemos depois de ouvir?

    Podemos perguntar aos alunos o que pensam, recolher as suas opiniões e continuar exactamente como antes. Nesse caso, houve oportunidade para falar. Houve recolha de opiniões. Houve, talvez, uma aparência de participação. Faz-me lembrar uma visita a uma escola onde encontrei nas janelas de uma sala uma espécie de manifesto assinado pelas crianças sobre aquilo que gostariam de mudar na escola. Ao ler as suas ideias, comentei com a pessoa que me acompanhava: curioso, uma das ideias comuns é mesmo a questão do tempo (exemplo: mais tempo para brincar). E perguntei: qual foi a consequência destas ideias? Houve algumas mudanças?

    A resposta foi «não». Era apenas um projecto da escola.

    Este «dar a voz» não produziu qualquer efeito.

    Escutar implica considerar aquilo que foi dito. Note que isso não significa que todas as decisões tenham de ser tomadas de acordo com a vontade dos alunos. Os adultos continuam a ter responsabilidades e a tomar decisões.

    Significa que aquilo que as crianças dizem pode exigir uma resposta. Pode ser necessário explicar uma decisão. Rever uma proposta. Negociar. Fazer uma pergunta diferente. Mudar de posição. Ou reconhecer simplesmente que uma criança nos fez ver alguma coisa que não tínhamos visto.

    Participação infantil não é apenas votar

    A discussão sobre a voz das crianças também aparece quando falamos de democracia.

    Participar numa comunidade não se reduz a votar. Pode significar expressar opiniões, colocar questões, propor alternativas, contribuir para decisões e ajudar a construir os espaços de que fazemos parte.

    As crianças são afectadas por decisões políticas, sociais e educativas no presente. Não são apenas cidadãos do futuro.

    Por isso, a pergunta «serão as crianças capazes de participar?» merece ser acompanhada por outra: estarão os adultos preparados para escutar seriamente aquilo que as crianças têm para dizer?

    Há uma diferença entre ser consultado e ter poder de decisão. Há também uma diferença entre ouvir uma opinião e criar condições para que essa opinião entre verdadeiramente num processo de diálogo.

    Nas comunidades de investigação filosófica, esta questão torna-se particularmente evidente. As ideias são examinadas através de perguntas e argumentos. Uma pergunta pode ser tão importante como uma resposta. Podemos discordar e continuar a escutar, podemos descobrir que uma boa razão nos obriga a rever aquilo que pensávamos.

    É uma forma de participação que não depende simplesmente de ser o primeiro a levantar a mão, falar mais alto ou ganhar uma votação.

    Escutar é estar disponível para ser surpreendido

    Escutar exige aceitar que aquilo que ouvimos pode interferir com aquilo que pensávamos antes de ouvir. Se já sabemos antecipadamente o que queremos que as crianças digam, podemos fazer perguntas, organizar consultas e promover actividades participativas — mas não estamos verdadeiramente disponíveis para escutar.

    Escutar implica deixar espaço para o inesperado: uma criança pode colocar uma pergunta que altera o rumo de uma conversa, apresentar uma razão que nos obriga a reconsiderar uma decisão, discordar de uma ideia que todos pareciam aceitar, chamar a atenção para um aspecto que os adultos não tinham considerado.

    É por isso que a escuta é uma questão de participação, mas também de humildade intelectual.

    Em vez de dar a voz aos alunos, escutar a sua voz

    Não precisamos de dar a voz aos alunos. Precisamos de escutar a voz que já têm.

    A mudança de formulação parece pequena, mas muda a pergunta.

    Em vez de perguntarmos como podemos criar oportunidades para que as crianças falem, podemos perguntar se estamos realmente disponíveis para ouvir o que dizem.

    Em vez de medir a participação apenas pelo número de intervenções, podemos procurar compreender as diferentes formas como as crianças participam.

    Em vez de confundir escuta com concordância, podemos criar condições para o desacordo, para a argumentação e para a revisão das ideias.

    E, sobretudo, podemos perguntar o que acontece depois de uma criança falar. (Vou repetir-me.) Porque escutar implica atenção. Implica seriedade. Implica interesse genuíno. E implica reconhecer que as crianças já têm voz.

    A nossa responsabilidade é escutá-la.

    joana rita

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    (Parte 2)

    O que podemos esperar da Filosofia Pública?

    Na primeira parte desta série, parti de uma pergunta que aparece frequentemente quando se fala da utilidade da Filosofia: estudar Filosofia torna-nos melhores pensadores?

    O estudo de Michael Prinzing e Michael Vazquez, publicado em 2025, encontrou evidência de que estudantes que se especializam em Filosofia apresentam melhores resultados em determinadas medidas de raciocínio e disposições intelectuais, depois de consideradas várias diferenças que já existiam no início da universidade. Mas o estudo responde a uma pergunta bastante específica: a dos efeitos do estudo da Filosofia.

    Quando passamos para outros contextos, surge uma questão diferente. O que podemos dizer sobre os efeitos de fazer Filosofia?

    Esta pergunta torna-se particularmente interessante quando pensamos na Filosofia praticada em escolas, museus, bibliotecas, espaços culturais ou outros contextos públicos. Uma actividade filosófica pode envolver pessoas que nunca estudaram Filosofia academicamente e que, durante aquele encontro, são convidadas a examinar uma questão, procurar razões, considerar outras perspectivas, formular objecções ou rever uma posição. Que benefícios podemos atribuir a esta prática?

    O que podemos esperar da Filosofia pública?

    Num artigo publicado em 2026, A Realistic Proposal About the Benefits of Public Philosophy, Lisa Bortolotti, Anna Ichino e Matteo Mameli procuram precisamente formular uma proposta realista acerca dos benefícios da Filosofia pública. O artigo insere-se numa discussão sobre os objectivos e benefícios do envolvimento do público com a Filosofia e procura pensar aquilo que pode ser razoavelmente esperado dessas práticas.

    A palavra “realistic” no título é importante. Falar dos benefícios da Filosofia pública pode facilmente levar a afirmações muito abrangentes sobre os efeitos sociais da Filosofia. O interesse do artigo está em procurar uma formulação mais cuidadosa acerca do que essas actividades podem proporcionar, tendo em conta aquilo que podemos efectivamente dizer sobre a prática filosófica e os seus possíveis efeitos.

    É neste ponto que o trabalho de 2025 dos mesmos autores se revela particularmente relevante.

    Fazer Filosofia e agência epistémica

    Em Philosophy for and by Everyone: How Doing Philosophy Supports Epistemic Agency, publicado em 2025, Bortolotti, Ichino e Mameli analisam o que pode significar fazer Filosofia em contextos de participação pública. O artigo considera dois exemplos concretos de envolvimento do público com conhecimentos e métodos filosóficos: a visita a um museu de Filosofia e a participação numa oficina de Filosofia num espaço cultural. A partir desses exemplos, os autores discutem de que modo essas actividades podem contribuir para o desenvolvimento e exercício de capacidades epistémicas.

    A proposta dos autores é que fazer Filosofia pode permitir às pessoas desenvolver e praticar a capacidade de adquirir, produzir, partilhar e utilizar conhecimento. É neste contexto que surge a ideia de agência epistémica: a participação activa das pessoas na sua própria vida epistémica, incluindo na forma como lidam com razões, informação e conhecimento.

    É importante, contudo, perceber o estatuto desta afirmação. O artigo de 2025 não apresenta um estudo experimental que demonstre que participar numa oficina filosófica produz, de forma duradoura, determinadas mudanças nas pessoas. Os autores analisam exemplos concretos de actividades e argumentam a favor da sua contribuição potencial para determinadas capacidades epistémicas. É uma proposta sustentada por análise conceptual e por exemplos de prática, e não uma demonstração causal dos seus efeitos.

    O que acontece quando fazemos Filosofia?

    Pensemos numa oficina. Uma pergunta é colocada e começa uma investigação conjunta. Procuram-se exemplos, distinguem-se conceitos, aparecem razões diferentes, alguém apresenta uma objecção, outra pessoa reformula a sua posição, surge um contra-exemplo e, por vezes, a conversa termina sem uma conclusão consensual.

    Estas são coisas que podemos observar numa actividade. Podemos perceber se uma distinção foi construída, se uma razão foi apresentada, se uma objecção foi considerada, se alguém reformulou uma posição ou se uma ideia inicialmente aceite deixou de parecer suficientemente sustentada.

    É possível olhar para estas práticas e perguntar que capacidades epistémicas estão a ser exercitadas. É precisamente este tipo de análise que encontramos no trabalho de Bortolotti, Ichino e Mameli sobre doing philosophy: a prática filosófica é entendida em relação com formas de adquirir, produzir, partilhar e utilizar conhecimento.

    Mas há uma diferença entre identificar aquilo que uma actividade permite praticar e demonstrar os seus efeitos a longo prazo. Uma pessoa pode, numa determinada oficina, reconsiderar um argumento, compreender melhor uma posição contrária ou reconhecer uma dificuldade na sua própria resposta. Isso é algo que podemos observar naquele contexto. Já afirmar que essa experiência modificou de forma duradoura a maneira como essa pessoa pensa noutras situações exigiria outro tipo de investigação.

    E depois da oficina?

    Esta diferença interessa-me particularmente porque é fácil passar demasiado depressa de uma coisa para outra. Se observamos uma boa prática de argumentação numa oficina, podemos dizer que houve ali uma oportunidade para exercitar essa capacidade. Podemos também investigar se os participantes a reconhecem como útil, se a conseguem descrever ou se a reproduzem noutras situações. Outra afirmação, bastante diferente, seria dizer que a participação na oficina tornou essas pessoas melhores pensadoras no seu quotidiano.

    Para chegar a essa conclusão seriam necessários estudos que acompanhassem essas pessoas ao longo do tempo e que permitissem comparar os seus desempenhos antes e depois da participação, idealmente com grupos de comparação e medidas adequadas aos efeitos que pretendemos estudar.

    O artigo de 2026 interessa precisamente porque nos convida a pensar nos benefícios da Filosofia pública com esta atenção ao que podemos realmente sustentar. A questão deixa de ser apenas saber se a Filosofia “faz bem” e passa a ser necessário perguntar em que sentido, através de que práticas e com que evidência podemos dizer que faz diferença.

    Entre estudar Filosofia e fazer Filosofia

    Voltamos, assim, à pergunta que ficou da primeira parte.

    O estudo de Prinzing e Vazquez fornece evidência empírica sobre os efeitos do estudo da Filosofia num determinado grupo de estudantes universitários. Os trabalhos de Bortolotti, Ichino e Mameli ajudam-nos a pensar sobre os possíveis benefícios de fazer Filosofia, nomeadamente através da ideia de agência epistémica e da análise de práticas concretas de participação filosófica. São perguntas relacionadas, mas não são a mesma pergunta.

    Isto importa particularmente quando falamos de Filosofia para Crianças e Jovens. Grande parte das práticas desenvolvidas neste campo não consiste em ensinar Filosofia como conteúdo disciplinar. Consiste em criar condições para que crianças e jovens possam filosofar: perguntar, investigar, argumentar, escutar, discordar, reformular, considerar objecções e continuar a pensar quando não existe uma resposta evidente.

    Podemos observar algumas destas práticas e estudar aquilo que acontece nelas. Podemos formular hipóteses sobre os seus possíveis benefícios. Podemos procurar instrumentos que nos permitam investigar se determinados efeitos se mantêm para além da actividade. O que não devemos fazer é transformar automaticamente uma hipótese plausível numa conclusão já demonstrada.

    É precisamente aqui que me parece haver uma questão interessante para quem faz e investiga Filosofia pública: como podemos estudar os efeitos daquilo que fazemos sem reduzir a Filosofia àquilo que é mais fácil de medir?

    Não tenho uma resposta fechada para esta pergunta. Os artigos que encontrei ajudam a tornar a pergunta de modo mais preciso: há evidência empírica sobre os efeitos do estudo da Filosofia; há uma proposta fundamentada sobre o modo como fazer Filosofia pode apoiar a agência epistémica; e há ainda muito por investigar sobre aquilo que acontece quando estas práticas filosóficas chegam ao público e, sobretudo, sobre o que permanece depois de uma actividade terminar.

    Continuo a fazer a pergunta e a arriscar pensamento em torno dela.

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    Referências

    Bortolotti, L., Ichino, A. & Mameli, M. (2025). “Philosophy for and by Everyone: How Doing Philosophy Supports Epistemic Agency”. Revue Internationale de Philosophie, 314(4), 75–95. DOI: 10.3917/rip.314.0075.

    Bortolotti, L., Ichino, A. & Mameli, M. (2026). “A Realistic Proposal About the Benefits of Public Philosophy”. Precollege Philosophy and Public Practice. DOI: 10.5840/p4202692831. O artigo consta actualmente como accepted/in press.

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    Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.

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    (Parte 1)

    Uma ideia que precisa de ser testada

    Há uma ideia que aparece muitas vezes quando falamos sobre a utilidade da Filosofia: estudar Filosofia ajuda-nos a pensar melhor. Trata-se de uma ideia antiga e intuitiva. Quem estuda Filosofia passa bastante tempo a analisar argumentos, a questionar pressupostos, a distinguir conceitos, a considerar diferentes possibilidades e a examinar razões que sustentam ou enfraquecem uma determinada posição. Parece, por isso, razoável perguntar se uma formação deste género tem efeitos observáveis na forma como pensamos. Mas uma coisa é considerar essa hipótese plausível e outra é termos evidência empírica que a sustente.

    Foi precisamente essa questão que Michael Prinzing e Michael Vazquez procuraram investigar num artigo publicado em 2025 no Journal of the American Philosophical Association, com um título bastante directo: Studying Philosophy Does Make People Better Thinkers. O título apresenta uma conclusão forte, por isso mesmo, vale a pena perceber um pouco do processo para lá chegar e, sobretudo, o que os resultados permitem realmente afirmar.

    O problema da auto-selecção

    Os autores partem de uma questão que parece simples, mas que levanta um problema metodológico importante. Se compararmos estudantes de Filosofia com estudantes de outras áreas e encontrarmos diferenças entre os dois grupos, podemos atribuir essas diferenças ao estudo da Filosofia? Não necessariamente. É possível que as pessoas que escolhem Filosofia já apresentem, antes de entrar na universidade, determinadas capacidades ou disposições que as tornam mais propensas a escolher essa área.

    Este problema de auto-selecção é central no artigo. Os autores tinham anteriormente analisado a evidência disponível e concluído que ainda não havia boas razões para afirmar que estudar Filosofia tornava as pessoas melhores pensadoras. O novo estudo procura avançar precisamente nesse ponto, recorrendo a dados que permitem ter em conta diferenças existentes antes da formação universitária.

    O que foi estudado?

    Os investigadores analisaram uma base de dados com registos de mais de meio milhão de estudantes de licenciatura, provenientes de mais de 800 instituições de ensino superior dos Estados Unidos. Dispõem de dados relativos ao início e ao final do percurso no ensino superior e utilizaram métodos de inferência causal para procurar estimar o efeito do estudo da Filosofia, tendo em conta diferenças de partida entre os estudantes.

    Os resultados confirmam, primeiro, que os estudantes que escolhem Filosofia não são, à partida, iguais aos estudantes de outras áreas. Os estudantes de Filosofia apresentam melhores capacidades de raciocínio verbal e níveis mais elevados de curiosidade, abertura de espírito e rigor intelectual. Ou seja, uma parte das diferenças que encontramos entre estudantes de Filosofia e estudantes de outras áreas já existe antes do percurso universitário.

    Quando essas diferenças de partida são tidas em conta, os estudantes de Filosofia continuam a apresentar resultados superiores em várias das medidas analisadas. Os autores encontram diferenças favoráveis aos estudantes de Filosofia nos resultados do GRE Verbal, do LSAT, de uma medida designada Habits of Mind e de Pluralistic Orientation. No GRE Quantitative, não encontraram uma diferença estatisticamente significativa. Os próprios autores sublinham que os estudantes de Filosofia ficam no topo em três dos cinco resultados considerados.

    A conclusão que retiram é que estes resultados constituem provavelmente a evidência mais forte disponível até ao momento de que o estudo da Filosofia promove determinadas capacidades e disposições intelectuais. Ao mesmo tempo, reconhecem que são necessários mais estudos e outros tipos de evidência para determinar se o estudo da Filosofia promove aquilo que poderíamos chamar, num sentido mais exigente, virtudes intelectuais.

    O que significa “pensar melhor”?

    É aqui que vale a pena prestar atenção às palavras. O artigo não demonstra que estudar Filosofia torna uma pessoa “melhor pensadora” em todos os sentidos possíveis. Os autores operacionalizam aquilo a que chamam good thinking através de determinadas capacidades de raciocínio e disposições intelectuais que podem ser medidas. Os resultados dizem respeito a essas medidas.

    Também não se trata de uma comparação entre pessoas que estudaram Filosofia e pessoas que nunca tiveram qualquer contacto com a Filosofia. Estamos perante estudantes universitários, nos Estados Unidos, que escolheram Filosofia como área de especialização e cujo percurso foi comparado com o de estudantes de outras áreas. O estudo procura estimar os efeitos dessa formação, tendo em conta diferenças existentes no início da universidade.

    Por isso, a conclusão é interessante precisamente porque é mais específica do que a afirmação genérica de que “a Filosofia nos ensina a pensar”. Temos evidência de que, neste estudo e nestas medidas, os estudantes que se especializaram em Filosofia apresentam determinados resultados superiores aos dos seus pares, mesmo depois de consideradas várias diferenças de partida. Temos também uma interpretação dos autores segundo a qual estes resultados apoiam a ideia de que o estudo da Filosofia contribui para desenvolver capacidades e disposições intelectuais.

    O que não temos neste estudo é uma resposta para todas as outras perguntas que podemos fazer sobre os efeitos da Filosofia.

    Estudar Filosofia e fazer Filosofia

    Há uma distinção que me interessa particularmente quando penso nestes resultados. O artigo de Prinzing e Vazquez estuda estudar Filosofia. Os próprios autores partem, na introdução, da ideia mais ampla de que doing philosophy pode cultivar capacidades e disposições intelectuais, mas aquilo que testam empiricamente é o efeito do estudo da Filosofia entre estudantes universitários.

    Isto deixa em aberto uma pergunta que me parece importante para quem trabalha em contextos de Filosofia para Crianças e Jovens: o que acontece quando fazemos Filosofia sem que isso signifique estudar Filosofia como disciplina universitária?

    Numa oficina, uma pessoa pode não estudar sistematicamente autores ou correntes filosóficas e, ainda assim, passar uma hora a examinar uma pergunta, a procurar exemplos e contra-exemplos, a formular razões, a escutar objecções, a reformular uma ideia ou a reconhecer que ainda não sabe responder. Há uma prática filosófica a acontecer, mas não é essa prática que este estudo avaliou.

    Esta diferença não retira importância aos resultados de Prinzing e Vazquez. Pelo contrário, ajuda a perceber exactamente aquilo que sabemos e aquilo que ainda não sabemos.

    Se estudar Filosofia pode contribuir para determinadas capacidades e disposições intelectuais, que evidência temos sobre os efeitos de fazer Filosofia?

    É essa pergunta que vamos retomar na segunda parte desta série.

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    Referência

    Prinzing, M. & Vazquez, M. (2025). “Studying Philosophy Does Make People Better Thinkers”. Journal of the American Philosophical Association, 11(4), 640–658. DOI: 10.1017/apa.2025.10007.

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    Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.

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    joana rita #filocriatividade

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    Crianças numa actividade.

    No meu feed de instagram vejo muitos registos de actividades realizadas com crianças. Há uma formulação que encontro com frequência quando se descrevem essas actividades:

    «As crianças aprenderam que…»

    Aprenderam que X é Y.
    Aprenderam como funciona determinada coisa.
    Aprenderam que devem fazer isto ou aquilo.

    E, muitas vezes, fico com uma pergunta: será que perguntaram às crianças?

    Não é uma pergunta provocatória; trata-se de uma pergunta absolutamente genuína.

    Como sabemos que foi isso que aprenderam?

    É natural que as pessoas adultas que pensaram a actividade tenham definido determinados objectivos. Prepararam uma sessão porque queríamos trabalhar determinado conteúdo, desenvolver determinada competência ou colocar as crianças perante determinada questão.

    Também é natural haver uma diferença entre aquilo que nos propusemos fazer e aquilo que aconteceu com cada criança.

    Uma actividade pode ter um objectivo muito claro para o adulto e provocar aprendizagens completamente diferentes nas crianças. Uma criança pode ter descoberto uma coisa que não estava prevista. Outra pode ter ficado com uma pergunta a fazer eco na sua cabeça. Outra pode ter mudado de opinião. Outra pode ter ficado particularmente interessada numa ideia que apareceu numa conversa. Outra pode não ter considerado a actividade particularmente significativa.

    Sugiro, então, algum cuidado com a frase «as crianças aprenderam», pois podemos estar a descrever, não aquilo que as crianças aprenderam, mas aquilo que nós achamos que elas aprenderam. Ou aquilo que achamos que deveriam ter aprendido.

    O adulto sabe o que a criança pensa?

    Esta questão não aparece apenas quando falamos de aprendizagens; é muito comum encontrá-la quando falamos daquilo que as crianças pensam, querem ou gostam.

    Há uns tempos escrevi sobre alguns erros que os adultos cometem quando uma criança faz uma pergunta. Um desses erros é a tendência para corrigir antes de compreender: ouvimos uma frase da criança, atribuímos-lhe imediatamente um significado e respondemos a esse significado — sem primeiro verificar se foi realmente isso que a criança quis dizer.

    Achamos que sabemos o que a criança pensa. Achamos que sabemos o que ela quer. Achamos que sabemos do que ela gosta. Achamos que sabemos o que lhe interessa. Achamos que sabemos o que aprendeu. E, às vezes, nem sequer lhe perguntamos.

    «Este livro é perfeito para esta idade»

    Penso, por exemplo, na escolha de livros.

    É claro que os adultos podem ajudar uma criança a escolher um livro. Aliás, podem ter um papel muito importante nessa escolha. Conhecem livros que a criança ainda não conhece, podem apresentar possibilidades, fazer recomendações, chamar a atenção para determinado autor ou ilustrador e ajudar a criança a encontrar aquilo que procura.

    Mas há uma pergunta que me parece importante: quando escolhemos um livro para uma criança, estamos a considerar a criança que temos à nossa frente? Ou estamos a escolher para uma ideia que temos de criança?

    «As crianças desta idade gostam de…»

    «Este livro é adequado para crianças de oito anos.»

    «A Maria vai adorar este.»

    Como sabemos?

    Uma criança de oito anos pode adorar histórias de animais. Outra pode não lhes prestar a mínima atenção. Uma pode procurar humor. Outra pode preferir mistério. Uma pode querer ler sobre aquilo que conhece. Outra pode estar precisamente à procura de alguma coisa que lhe seja completamente desconhecida.

    A idade pode ser uma informação relevante. Não é, por si só, uma descrição daquela criança.

    Talvez haja uma diferença importante entre dizer:

    «Este livro é perfeito para ti.» e dizer: «Acho que este livro pode interessar-te. Queres vê-lo?»

    Na segunda frase, há uma hipótese e há espaço para a criança nos dizer que estamos enganados.

    Perguntar para saber

    Isto leva-me novamente às actividades. Se queremos saber o que aconteceu para uma criança durante uma actividade, talvez não precisemos de começar por:

    «O que aprendeste?»

    Podemos perguntar outras coisas.

    Houve alguma coisa que tenhas achado curiosa na actividade? O quê? Porquê?

    Houve alguma coisa que te tenha surpreendido?

    Ficaste com alguma pergunta na cabeça?

    Houve alguma coisa que te tenha feito pensar de outra maneira?

    Houve alguma coisa que alguém tenha dito que te tenha feito pensar?

    Achas que a actividade valeu a pena? Porquê?

    Ou uma pergunta de que gosto particularmente:

    Quando fores para casa e alguém te perguntar o que fizeste hoje, o que vais contar sobre esta actividade? Como vais explicar o que fizemos?

    Esta última pergunta interessa-me porque não pede à criança que identifique uma aprendizagem. Pede-lhe que escolha aquilo que, para ela, foi suficientemente significativo para ser contado.

    A resposta pode ser uma ideia, uma pergunta, uma coisa engraçada que aconteceu, um momento específico do diálogo, a descrição do processo de pensamento, uma palavra, uma coisa que a criança disse, uma coisa que a criança escutou…

    E se a criança disser «nada»?

    Também precisamos de estar preparados para essa resposta, sobretudo quando perguntamos «O que aprendeste?» Podemos ficar tentados a concluir que não esteve atenta, que não percebeu a actividade ou que não aproveitou a oportunidade.

    Mas e se perguntarmos: «Houve alguma coisa que tenhas achado curiosa?» e a resposta for:

    «Não.» Será que temos de transformar esse «não» numa aprendizagem?

    Uma pergunta feita para saber tem de deixar espaço para uma resposta que não confirme aquilo que esperávamos ouvir.

    Não sabemos sempre

    Há, no fundo, uma questão de humildade. Não há nada de errado num adulto com expectativas. Não há nada de errado em definir objectivos, seleccionar livros, preparar actividades ou fazer sugestões.

    O problema começa quando confundimos a nossa intenção com a experiência da criança. Quando confundimos o que queríamos ensinar com aquilo que foi aprendido. Quando confundimos aquilo que achamos que uma criança vai gostar com aquilo de que ela efectivamente gosta. Quando confundimos uma hipótese sobre o que ela pensa com conhecimento sobre o seu pensamento.

    É importante reconhecer esses limites.

    Dizer: «Não sei se vais gostar. Vamos ver.» Ou: «Não sei o que achaste. O que te pareceu?»

    Ou: «Não sei o que levas desta actividade. Queres contar-me?»

    Perguntar não é abdicar da responsabilidade do adulto. Um adulto pode continuar a escolher, sugerir, orientar, ensinar e mediar. Mas pode fazê-lo deixando espaço para que a criança seja também fonte de conhecimento sobre si própria.

    Há uma diferença entre perguntar para saber e perguntar para confirmar aquilo que já decidimos.

    E, por isso, quando voltar a encontrar a frase «as crianças aprenderam que…», provavelmente continuarei a fazer a mesma pergunta: Será que perguntaram às crianças?

    joana rita

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    Para continuar a pensar

    Se quer continuar a pensar sobre a forma como os adultos escutam — ou deixam de escutar — as crianças, talvez estes textos lhe interessem:

    Sobre perguntas:

    10 erros que os adultos cometem quando uma criança faz uma pergunta

    É normal uma criança perguntar tanto? Será esse o verdadeiro problema?

    Sobre livros e escolhas:

    Quando um livro pergunta

    Sugestões de leitura para crianças e jovens: livros recomendados por quem os leu

    Sobre escutar a voz das crianças:

    Livros Escritos por Crianças

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    Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.

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    joana rita #filocriatividade

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    Muitas vezes confundimos argumentação com discussão. Pensamos que uma criança que responde a tudo está a aprender a argumentar. Ou que argumentar consiste em conseguir convencer os outros.

    Porém, argumentar é mais do que isso.

    Tecnicamente, podemos dizer que argumentar consiste em apresentar razões para sustentar uma ideia (um argumento tem de ter uma ou mais premissas e uma conclusão). Em termos de atitude, argumentar passa também por escutar as razões dos outros e estar disposto a rever o seu próprio pensamento. É uma competência essencial para a vida democrática.

    No livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, defendo precisamente que pensar criticamente não significa criticar tudo nem ter sempre uma opinião sobre todos os assuntos. Significa aprender a justificar aquilo que pensamos, a avaliar razões, a considerar diferentes perspectivas e a reconhecer quando um argumento é mais sólido do que outro. A argumentação é, por isso, uma das competências fundamentais do pensamento crítico.

    A boa notícia é que esta competência pode ser desenvolvida desde cedo.

    Antes dos argumentos, as perguntas

    Há um aspecto que, por vezes, esquecemos: aprender a argumentar implica lidar com perguntas.

    As boas perguntas obrigam-nos a pensar melhor. Convidam-nos a procurar razões, a reconhecer dúvidas e a considerar outras possibilidades.

    É por isso que a argumentação não começa quando uma criança aprende a defender uma opinião de forma muito aguerrida. Começa quando se habitua a fazer perguntas como:

    • Como sabes isso?
    • Porque pensas dessa maneira?
    • Será que existe outra possibilidade?
    • O que te faz chegar a essa conclusão?

    Sem esta atitude perguntadora, os argumentos tornam-se mais frágeis.

    1. Peça razões, não apenas opiniões

    Uma pergunta muito frequente nas escolas é: “Qual é a tua opinião?” É uma pergunta importante, mas insuficiente.

    Experimente avançar com estas perguntas:

    • Porque pensas isso?
    • Que razões tens?
    • O que te leva a concluir isso?

    Pouco a pouco, a criança percebe que uma ideia ganha força quando é acompanhada por razões.

    2. Mostre que existem diferentes perspectivas

    Uma das melhores formas de desenvolver a argumentação passa por descobrir que duas pessoas podem olhar para a mesma situação de maneiras diferentes.

    Depois de ouvir um posicionamento sobre um certo assunto, podemos perguntar:

    • Alguém pensa de outra forma?
    • Que outra explicação poderia existir?
    • Será que ambas as ideias têm algo de verdadeiro?

    Argumentar não consiste em eliminar todas as diferenças, mas em aprender a pensar com essas diferenças.

    3. Valorize quem muda de ideias

    Há uma ideia muito presente na nossa cultura: mudar de opinião é perder. Na realidade, muitas vezes acontece precisamente o contrário.

    Quando uma criança diz: “Nunca tinha pensado nisso.” ou “Agora faz mais sentido dessa maneira.”

    Agora faz mais sentido dessa maneira.”

    está a demonstrar abertura intelectual.

    Ensinar a argumentar também passa por mostrar que mudar de ideias pode ser um sinal de aprendizagem.

    4. Ensine a escutar antes de responder

    Não existe boa argumentação sem escuta. Antes de responder, precisamos de compreender aquilo que a outra pessoa realmente quis dizer.

    É por isso que, nas oficinas de Filosofia para/com Crianças, damos tanta importância ao diálogo. O objectivo não é vencer uma discussão, mas construir pensamento em conjunto.

    Escrevi mais sobre esta diferença no artigo “Debate ou diálogo em sala de aula: o que estamos realmente a promover?“.

    5. Aproveite as conversas do quotidiano

    Não é preciso criar exercícios complicados para desenvolver a argumentação; esse treino pode surgir quando uma criança explica porque prefere um livro a outro, ou quando justifica uma regra ou quando tenta convencer a família sobre o menu do jantar.

    Sempre que perguntamos “Porquê?” e damos tempo para responder, estamos a ajudar uma criança a organizar o seu pensamento — e também a organizar o nosso.

    Um erro muito comum

    Muitas vezes elogiamos as crianças que respondem rapidamente, mas responder depressa não significa pensar melhor.

    Argumentar exige tempo, pois exige procurar razões, considerar objecções e aceitar que talvez não saibamos o suficiente sobre o assunto para emitir uma opinião fundamentada.

    Afinal, o que queremos ensinar?

    Nas oficinas #filocriatividade o foco não passa por formar crianças que sabem ganhar discussões; o foco passa por formar crianças capazes de dizer:

    “Penso isto por estas razões.”

    E, ao mesmo tempo, reconhecer:

    “Posso estar enganado.”

    Num tempo em que tantas conversas se transformam em disputas, talvez esta seja uma das aprendizagens mais importantes que podemos oferecer às crianças: não apenas defender aquilo que pensam, mas aprender a pensar melhor, em conjunto com os outros.

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    Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.

    A argumentação é uma das competências que trabalhamos nas oficinas #filocriatividade. Não para ensinar as crianças a ganhar discussões, mas para as ajudar a apresentar razões, escutar outras perspectivas, examinar ideias e reconhecer que podem mudar de opinião.

    É este o trabalho que desenvolvo com crianças e jovens em escolas, bibliotecas, museus e outros contextos educativos e culturais.

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    joana rita #filocriatividade

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    Se o Google tem tantas respostas, precisamos de pensamento crítico?

    Nunca tivemos tantas respostas à nossa disposição

    No telemóvel ou no computador, basta fazer a pergunta — e nem precisamos de colocar o ponto de interrogação no final.

    “como saber se um ovo está cozido”

    “qual é a capital da Roménia”

    O motor de busca faz aquilo para o qual foi criado, buscar. Busca a resposta e assim preenche o vazio que a nossa pergunta nos coloca. Podemos declarar o ovo como cozido e tratar pelo nome a capital da Roménia. Simples e rápido.

    Nem todas as perguntas que temos são simples, como a pergunta do ovo cozido. Pensando melhor, até essa pergunta encerra a sua complexidade: depende do fogão que estou a usar e da potência do bico onde coloquei o tacho com o ovo. Será que o facto de ser um ovo pequeno ou grande faz diferença? Mau, afinal não era uma pergunta simples?

    O motor de busca pode dar-me as informações para o cenário que eu traçar: descrevo o ovo e o fogão, passo os dados todos que consigo reunir para o motor que busca a informação disponível. Mas depois quem tem de verificar se o ovo está cozido sou eu.

    Uma educação orientada para respostas

    Lani Watson tem dedicado a sua vida a investigar as perguntas. No seu mais recente livro, denomina o sistema educativo como particularmente orientado para as respostas.

    O padrão é-nos familiar. O professor pergunta. O aluno responde. A resposta é avaliada.

    A pergunta funciona muitas vezes como um mecanismo para chegar à resposta que já existe e que a criança ou o jovem deve repetir.

    Quando perguntamos a uma criança o que nos motiva a fazer perguntas, é comum surgir uma ideia: “é para saber mais coisas.” Quando reflectimos sobre quem faz as perguntas na sala de aula, compreendemos que é a professora quem faz mais perguntas. E são perguntas “para saber mais coisas”? Ou são perguntas para verificar se as alunas sabem?

    Há uma diferença fundamental entre uma pergunta que serve para verificar se os outros sabem alguma coisa e uma pergunta que abre espaço para investigar algo.

    Se as máquinas conseguem fornecer respostas de forma rápida e eficiente, talvez não faça muito sentido que a escola tente competir nesse domínio. E se em vez disse, prestássemos mais atenção ao que acontece antes da resposta, ou seja, à pergunta?

    Afinal, o que é pensamento crítico?

    Avanço com a definição dos amigos Vitor e Evelyn, da Escola INÉF — Isto Não É Filosofia: “O pensamento crítico é a aplicação cuidadosa da razão para decidir em que acreditar e, portanto, como agir.”

    Destaque para as partes importantes da definição:
    — Pensamento cuidadoso (sensatez)
    — Uso da razão (lógica)
    — Julgamento sobre crenças (avaliação)
    — Aplicação a problemas reais (acção)”

    (Lima, V., Lima. E, Ebook de Pensamento Crítico, 2020)

    Confusões comuns em torno do pensamento crítico

    Quando falamos de pensamento crítico, há algumas coisas que facilmente confundimos com ele. Talvez porque, à primeira vista, parecem manifestações de pensamento: uma criança dá a sua opinião, discorda de alguém, apresenta uma justificação. Mas será que isso é suficiente?

    Opiniões: confundimos a opinião sem fundamento com pensamento crítico. Quando não temos claras as razões que nos levam a defender X ou Y, não estamos a trabalhar pensamento crítico. Podemos estar simplesmente a expressar uma preferência, uma impressão ou uma ideia que nos ocorreu. Isto não significa que todas as opiniões tenham de ser imediatamente justificadas. Significa que, para que haja pensamento crítico, precisamos de poder examinar aquilo que pensamos.

    Discordar: quando somos “do contra” sem saber bem porquê, também não estamos a trabalhar pensamento crítico. Uma pessoa que diz “não concordo” não está necessariamente a pensar criticamente. Pode estar a discordar porque tem razões para considerar a ideia apresentada inadequada, mas também pode estar simplesmente a contrariar o colega, o professor ou o grupo. Outras vezes, deixamo-nos levar por indicadores que nada têm a ver com o assunto que estamos a discutir. Podemos concordar com alguém porque gostamos dessa pessoa, porque é mais velha, porque fala com confiança ou porque é nossa amiga. Podemos, pelo mesmo motivo, discordar de alguém. Pensar criticamente implica procurar razões relacionadas com aquilo que está efectivamente em discussão.

    Argumentar: é comum confundirmos um pensamento que até tem lá um “porque isto…” com um argumento. O facto de uma afirmação vir acompanhada de uma justificação não significa automaticamente que essa justificação seja uma boa razão para aquilo que se afirma.

    Argumentar não passa por simplesmente acrescentar um “porque” a uma opinião, mas sim por estabelecer uma relação entre aquilo que afirmamos e as razões que apresentamos para o sustentar — uma relação que pode ser examinada.

    Desta forma, o pensamento crítico começa a tornar-se mais visível, quando conseguimos acompanhar o caminho que a levou até essa resposta e perguntar se esse caminho se sustenta.

    E se a educação fosse orientada para as perguntas?

    Num mundo em que as respostas estão cada vez mais acessíveis, a escola não precisa de competir para ser exclusvamente o lugar onde encontramos respostas. A escola pode ser o lugar onde aprendemos a fazer perguntas, a examinar as respostas que encontramos, a perceber se fazem sentido e a decidir o que fazer com elas.

    Uma educação orientada para as perguntas não é uma educação sem respostas; é uma educação em que a pergunta não serve apenas para chegar à resposta que alguém já conhece, mas abre espaço para investigar, pensar e descobrir que, por vezes, a pergunta que fizemos não era ainda a pergunta certa.

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    Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, dedico-me a criar espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.

    Através da #filocriatividade, desenvolvo oficinas e projectos para escolas, bibliotecas, museus, festivais e outros contextos educativos e culturais — com crianças, jovens e adultos.

    Considere inscrever-se numa das minhas formações, nas quais trabalhamos a pergunta e o perguntar, em sala de aula. Saiba mais AQUI.

    Se procura uma oficina, uma actividade para um evento ou uma proposta de mediação cultural e filosófica, escreva-me. Podemos conversar. Contacte-me.

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    joana rita #filocriatividade

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    O #ClubeDePerguntas nasceu em 2020, a partir de uma vontade simples: criar um espaço onde fosse possível dedicar tempo às perguntas. Tempo para serem inventadas, observadas, partilhadas, discutidas. Tempo também para perceber que uma pergunta pode não precisar de uma resposta imediata — muitas vezes, uma boa pergunta é apenas o começo de outra.

    Uma comunidade de pessoas perguntadeiras

    Quando criei o #ClubeDePerguntas, pensei numa comunidade de pessoas perguntadeiras.

    A proposta passava por lançar desafios, criar e coleccionar perguntas e experimentar diferentes formas de pensar sobre elas, recorrendo também a ferramentas de pensamento crítico e criativo.

    O desafio era constante: prestar atenção às perguntas.

    Que perguntas fazemos? Que perguntas não fazemos? O que torna uma pergunta interessante? Podemos melhorar uma pergunta? O que acontece quando uma pergunta é partilhada com outras pessoas?

    Ao longo do tempo, estas e muitas outras perguntas foram dando forma ao Clube.

    Online: perguntas sem fronteiras

    Uma parte importante do percurso aconteceu online. Este formato trouxe uma possibilidade que continua a fazer sentido: juntar pessoas que vivem em geografias diferentes.

    Ao longo destes anos, cerca de 250 pessoas participaram nas propostas online do #ClubeDePerguntas, incluindo famílias com crianças e jovens e pessoas que participaram individualmente.

    E depois? Depois as perguntas saíram do ecrã

    O #ClubeDePerguntas não ficou, porém, confinado ao formato online.

    Ao longo do seu percurso, houve também encontros presenciais, em contextos diferentes e com públicos diferentes.

    No festival ESPANTO, as perguntas fizeram parte de uma experiência colectiva entre as pessoas que participavam no festival, com destaque para as famílias que optam pela programação da AGORA Filosofia para Crianças. No Festival Onda Literária, em Sines, o Clube aconteceu com uma turma, mostrando também como esta proposta pode ser levada para dentro de um contexto escolar.

    Noutros momentos, os encontros foram pensados para famílias, juntando crianças, jovens e adultos à volta das perguntas. Foi o caso dos encontros no espaço Trampolim, em Telheiras.

    Recentemente, na Casa do Jardim da Estrela, o encontro teve lotação esgotada e contou com cinco famílias.

    São formatos diferentes, mas há algo que permanece: a pergunta como ponto de partida para pensar em conjunto.

    Uma pergunta puxa outra

    Uma pergunta raramente fica sozinha. Pode trazer consigo outra pergunta. Pode fazer-nos reparar numa coisa que antes não víamos. Pode levar-nos a discordar, a mudar de ideias, a procurar melhores razões. Pode fazer nascer uma conversa entre pessoas que, até esse momento, não tinham nada para dizer umas às outras.

    Por isso, mais do que procurar respostas rápidas, o Clube procura criar condições para perguntar melhor. Isso pode acontecer numa sala de aula, numa biblioteca, num jardim, num festival, numa casa ou através de um ecrã.

    Em 2026 continuaram os desafios mensais

    Em 2026 o #ClubeDePerguntas mantém o seu formato online e assíncrono, com o envio de desafios mensais para perguntar. Neste momento participam 40 pessoas, individualmente ou em família.

    No próximo ano teremos novos desafios em formato online e encontros presenciais. Para estar a par das novidades do Clube — e de outras — recomendo que subscreva a newsletter filocriatividade.

    O #ClubeDePerguntas tem vindo a mudar de formato, encontrando novos públicos e ocupando novos espaços. A razão de existir mantém-se: criar um tempo e um espaço para escutar, gerar e contemplar a pergunta.

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    Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, dedico-me a criar espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.

    Através do projecto #filocriatividade, desenvolvo oficinas e projectos para escolas, bibliotecas, associações culturais, museus, festivais e outros contextos educativos e culturais — com crianças, jovens e adultos.

    Se procura uma oficina ou uma actividade como o #ClubeDePerguntas, escreva-me. Podemos conversar.

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    El derecho al voto desde el nacimiento nos llama a cambiar radicalmente nuestra mirada sobre el concepto de experiencia política. (Clémentine Beauvais)

    Pour le droit de vote dès la naissance, de Clémentine Beauvais, publicado pela Gallimard na colecção Tracts, pertence ao grupo dos livros aos quais não se pode ficar indiferente. Foi publicado recentemene pela Wonder Ponder, com o título Por el derecho al voto desde el nacimiento.

    Mesmo que não abra o livro, só o título provoca uma reacção imediata: direito de voto desde o nascimento? Como assim?

    Já imaginou um bebé perante um boletim de voto?  

    Beauvais sabe que o título é provocador e é assim que nos convida para parar e pensar: quem pode participar numa democracia?

    Quem decide quem está preparado para participar?

    E se abandonássemos a idade mínima para votar? O direito ao voto existiria desde o nascimento e cada pessoa poderia começar a exercê-lo quando considerasse ter condições para o fazer.

    Uma criança poderia votar aos oito anos. Outra aos catorze. Outra aos dezoito. Outra poderia até nunca votar.

    Em vez de procurar a idade certa para começar a votar, a ideia de Beauvais obriga-nos a olhar para a existência de uma idade mínima.

    A competência para votar

    A principal justificação para excluir as crianças do sufrágio costuma estar relacionada com a competência ou a maturidade.

    Recordo-me de uma oficina com crianças do 1.º ciclo, julgo que do 3.º ano, em que considerámos a possibilidade de voto a partir dos 16 anos. A maioria das crianças disse que era muito cedo para votar, pois com 16 anos não se tem maturidade. Quando perguntei se gostariam de votar naquele momento, com aquela idade (julgo que teriam 8 anos), uma das observações foi “não, porque temos de brincar e não temos de nos preocupar já com estas coisas”.

    Noutro contexto, com crianças do 3.º ano do 1.º ciclo, a escola em questão solicitou-me que pensasse um ciclo de oficinas sobre Filosofia Política. O motivo? O nosso país tinha eleições legislativas nos meses seguintes e a turma tinha como projecto simular as eleições na sala: iriam conhecer os partidos e as suas campanhas e simular o processo de votação. Para esta turma, votar seria natural.

    Que competência exigimos aos adultos para votar?

    Nenhuma prova de conhecimentos políticos antecede o exercício do sufrágio. Não é necessário demonstrar capacidade de argumentação, conhecimento dos programas eleitorais ou compreensão do funcionamento das instituições.

    Um adulto pode votar sabendo muito sobre política — ou sabendo muito pouco. Pode estudar as propostas durante semanas e acompanhar os debates —  ou decidir no próprio dia. Pode fundamentar a sua escolha num raciocínio complexo, numa identificação emocional, numa experiência pessoal — ou na opinião de alguém em quem confia.

    A competência política não constitui, portanto, uma condição jurídica para votar.

    A pergunta que a autora nos coloca tem tanto de simples como de incómoda:  porque é que a falta de competência serve para excluir as crianças quando não serve para excluir os adultos?

    A pergunta ganha ainda outra dimensão quando consideramos a diversidade entre indivíduos. Uma idade cronológica dá-nos um limite simples, ainda que nada diga sobre os conhecimentos, capacidades e experiências concretas de cada pessoa.

    Aos dez anos, todas as crianças estão igualmente preparadas para votar? E aos dezoito?

    Quando começa a capacidade de decidir?

    Diria que a proposta de Beauvais introduz uma distinção importante entre ter um direito e exercer esse direito.

    Uma pessoa pode ter direito de voto e decidir não votar. Na proposta da autora, essa possibilidade acompanha cada indivíduo desde o nascimento.

    A questão passa então para outro lugar: quem determina que uma criança está preparada para exercer o seu direito?

    A própria criança? Os pais? A escola? O Estado?

    Qualquer uma das soluções é problemática.

    Se forem os adultos a determinar a preparação, a decisão continua nas mãos daqueles que já possuem poder político.

    Se for a própria criança, estamos a atribuir-lhe uma capacidade de decisão que a actual organização jurídica da infância limita noutras áreas.

    O manifesto coloca esta tensão em cima da mesa sem a resolver por completo.

    O problema da influência

    “Ah, mas as crianças seriam influenciadas pelos pais.”

    Uma criança poderia votar no partido escolhido pela família, repetindo aquilo que ouviu em casa. Poderia nem distinguir claramente entre o seu posicionamento e o posicionamento dos  adultos que a rodeiam.

    Beauvais lembra-nos que a influência faz parte da vida política dos adultos. Família, amigos, jornalistas, partidos, publicidade, redes sociais, comunidades profissionais e culturais: as nossas decisões são atravessadas por outras pessoas. A existência de influência não constitui, por si só, uma razão para retirar o direito de voto.

    Podemos perguntar: em que momento a influência se transforma em manipulação?

    Existe um problema específico da infância que merece ser levado a sério. Uma criança pequena depende dos adultos para grande parte da informação a que tem acesso. A sua margem de autonomia poderá ser muito menor.

    Como proteger essa autonomia sem transformar a protecção numa nova forma de exclusão?

    Proteger e participar

    A proposta também obriga a distinguir diferentes dimensões da autonomia.

    Uma criança pode ter direito de voto e continuar a beneficiar de protecção jurídica específica. O reconhecimento de um direito político não elimina automaticamente todas as diferenças jurídicas entre crianças e adultos.

    Esta distinção é relevante porque a idade funciona muitas vezes como um critério geral para organizar a infância.

    Uma certa idade pode estabelecer limites para conduzir, trabalhar, celebrar contratos, aceder a determinados conteúdos ou tomar decisões sobre diferentes aspectos da própria vida. Essas capacidades têm fundamentos diferentes, ou seja, aquilo que justifica uma restrição relativa à condução não precisa de justificar uma restrição relativa ao sufrágio.

    A proposta de Beauvais obriga a perguntar pelo fundamento de cada um desses limites de idade.

    Essa pergunta pode parecer técnica, mas tem consequências filosóficas: idade, maturidade, competência, autonomia e responsabilidade deixam de aparecer como conceitos equivalentes.

    Os cidadãos de amanhã?

    Outra ideia recorrente quando se fala de infância é a de que as crianças são o amanhã. Falamos dos cidadãos do futuro. Atenção, eu própria já disse isto, algures numa conferência. Lembro-me bem. E não voltaria a dizer, não da mesma maneira.

    Beauvais recusa essa perspectiva como fundamento suficiente para a exclusão política. As crianças vivem no presente. Frequentam escolas que são reguladas por decisões políticas. Circulam em cidades desenhadas por decisões políticas. São afectadas por políticas ambientais, económicas, sociais e de saúde. Crescem num mundo marcado por decisões que não participaram em tomar.

    Sim, o futuro pertence-lhes — e o presente também.

    Surge uma pergunta: que espécie de cidadania atribuímos a alguém cuja vida é profundamente afectada por decisões colectivas, mas que não pode participar na escolha de quem as toma?

    A resposta tradicional é conhecida: quando atingir a maioridade, a criança terá a sua oportunidade para o exercício dessa cidadania dos maiores (de idade). Beauvais coloca esta questão em causa.

    E se o direito ao voto não fosse a única questão?

    É aqui que a proposta começa a ultrapassar o próprio sufrágio.

    Se queremos maior participação política das crianças, o voto é necessariamente a melhor resposta?

    As assembleias de crianças, os conselhos municipais, a participação nas decisões escolares, os processos de consulta e outras formas de intervenção política podem produzir experiências diferentes.

    Há uma diferença entre ser consultado e ter poder de decisão. Há também uma diferença entre participar numa actividade que vai acontecer na escola e participar numa decisão política real.

    O voto introduz uma forma muito específica de igualdade: cada eleitor dispõe de um voto.

    Mas a igualdade formal do voto convive com desigualdades enormes de informação, recursos, influência e poder. Essa dificuldade existe entre adultos e não desapareceria entre crianças, poderia, sim,  ganhar novas formas.

    Uma criança que cresce numa família onde se discute política diariamente teria as mesmas condições de participação que uma criança que nunca ouviu falar de partidos ou eleições?

    E se o voto infantil acabasse por reproduzir, em grande medida, as preferências políticas dos adultos que rodeiam cada criança?

    Já agora, porquê votar?

    Esta leitura fez com que regressasse a uma pergunta que já tinha sido objecto de investigação da minha parte: porquê votar?

    Num artigo publicado em 2023, Why vote? A reflection on the Democratic Nature of Dialogical Inquiries, eu e Pieter Mostert questionámos a ideia de que votar seja, por si só, um sinal de democracia numa comunidade de investigação filosófica. Votamos, por exemplo, para escolher a pergunta à qual vamos dedicar-nos. Mas será o voto simples — o gesto de levantar o braço, contar e decidir — a forma mais democrática de tomar uma decisão em conjunto?

    No artigo, chamamos a atenção para o risco desta prática silenciar as minorias e criar uma lógica competitiva de vencedores e vencidos. O voto pode encerrar o diálogo antes deste verdadeiramente começar, reduzindo a complexidade das posições dos participantes a uma contagem.

    Exploramos, por isso, formas alternativas de tomada de decisão, mais coerentes com a natureza dialógica da comunidade de investigação: negociar, analisar interesses, procurar consensos ou construir uma decisão que tenha em conta a diversidade das vozes presentes.

    Trago esta referência, pois o livro de Beauvais convidou-me a pensar na importância do voto, no seu papel na democracia. Se estamos a discutir o direito das crianças a votar, vale a pena perguntar também o que esperamos que o voto faça numa democracia. Quem ganha quando contamos votos? Quem fica de fora? E será que participar democraticamente se resume a escolher entre opções e aceitar o resultado da maioria?

    Regressemos ao texto de Beauvais.

    Uma proposta que deixa problemas por resolver

    Como se iria garantir concretamente a liberdade do voto de uma criança?

    Como seria protegida perante pressões familiares?

    Como funcionaria o voto de uma criança muito pequena?

    Que papel teria a escola?

    Como evitar que a educação política se transforme em doutrinação?

    Se as crianças fossem cidadãs políticas, poderiam também candidatar-se a cargos electivos?

    E depois de ler Beauvais?

    O que me interessa neste pequeno livro é o incómodo que provoca.

    Começamos com uma pergunta que parece quase absurda: as crianças devem votar?

    E avançamos para um território de perguntas difíceis e complexas:

    Quem determina a competência necessária para exercer um direito?

    Pode a idade justificar a exclusão política?

    Que relação existe entre protecção e autonomia?

    Uma criança pode ser considerada cidadã no presente?

    O que significa participar numa democracia?

    Ser escutado é suficiente quando as decisões continuam a ser tomadas por outros?

    A proposta de Clémentine Beauvais parece-me francamente interessante pelas problemáticas que convoca, pelas perguntas que coloca.

    Depois de ler o livro uma primeira vez dou por mim a pensar: a idade mínima não é propriamente uma fronteira natural, mas sim uma decisão. E, sendo uma decisão, pode ser questionada.

    No tenemos ni idea de cómo puede ser un país, un continente o um mundo en el que los niños voten. Podría ser una revolución. O un hecho sin importancia. O cualquer cosa intermedia. Lo descubriremos juntos. Lo que sí es verdad es que será, por definición, más justo. Y, si los niños solo pueden salir ganando, no es descartable que los adultos ganen también de altura. (Clémentine Beauvais)

    Nota: Clémentine Beauvais foi ouvida pela Assembleia Nacional Francesa, em 2025. Encontra-se disponível a transcrição oficial, o que nos permite conhecer não só a sua proposta, bem como as perguntas que lhe foram feitas sobre as ideias do manifesto.
    A editora Wonder Ponder partilha no seu website um dossier de imprensa que contém uma entrevista à autora. Recentemente, foi partilhada uma conversa com a autora no seu canal de YouTube.

    joana rita

    fotografia: Wonder Ponder

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    joana rita #filocriatividade

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    Há alguns anos, entre 2016 e 2018, tive a oportunidade de entrevistar, por e-mail, várias pessoas da comunidade de Filosofia para Crianças e Jovens, de diferentes partes do mundo.
    Ao reler essas entrevistas, na sequência da mudança de plataforma do blog, percebi duas coisas: que há muitas pessoas nesta área que não conheço e que gostava de conhecer melhor; e que, entretanto, as minhas próprias perguntas também mudaram.
    Por isso, decidi voltar a fazer o convite à comunidade e enviei novas perguntas.

    A Chiara Pastorini teve a amabilidade de responder às minhas perguntas. Obrigada, Chiara!

    How did you found out about Philosophy for Children and Young People?

    My encounter with Philosophy for Children was, in a sense, completely unexpected. During my university studies in philosophy, no one ever told me that Philosophy for Children existed. The philosophy I studied at university was primarily about great thinkers, texts, the history of ideas, argumentation and concepts. I had never encountered the idea that philosophy could be practised with children, or that children could be considered philosophical interlocutors in their own right.

    And, interestingly, it was my own children who introduced me to it.

    When they were three or four years old, they began asking me questions which, although expressed in their own language, were deeply philosophical: questions about death, love, existence, justice, time, identity, good and evil. They were apparently very simple questions, but they often left me without an immediate answer.

    I remember being almost surprised to realise that these were not simply “children’s questions”. They were genuine philosophical questions. And, above all, I realised something: it was possible to do philosophy with them.

    Not in the sense of teaching them the history of philosophy or explaining what Plato, Aristotle or Kant had thought, but in the most fundamental sense of stopping together in front of a question, trying to understand it, formulating hypotheses, comparing different points of view, changing our minds and starting again.

    This was a very important discovery for me, also because it challenged something I had taken for granted throughout my entire education: the idea that philosophy was necessarily an adult practice.

    From that point on, I began to search, study and discover that there was an entire tradition of Philosophy for Children, with its own history, methods, authors and an international community of people working in the field. I realised that what I had intuitively discovered with my children actually had a long history behind it.

    This encounter profoundly changed my professional path and, in a way, my understanding of philosophy itself. I began to ask myself not so much how to teach philosophy to children, but how to create the conditions in which philosophy can emerge among them.

    The difference may seem subtle, but for me it is fundamental. It is not about bringing children a body of knowledge that has already been packaged for them. It is about opening up a space in which they can think, doubt, formulate hypotheses, listen to those of others, change their minds, disagree and start again.

    This is how my way of working gradually developed and, in 2014, led to the creation of Les petites Lumières, which I founded in Paris (https://www.ateliersdephilosophiepourenfants.com/).

    Since then, I have had the privilege of working with a great many children and young people, as well as with teachers, educators, librarians, parents and other professionals working with children. And I still have the feeling, every time, that the situation itself — and above all the encounter with the children — has something to teach me.

    What do you know today that you did not know when you first started working in this field?

    Today, above all, I know that we should not be too eager to reach an answer.

    When we first start working in this field, I think there is a strong temptation to immediately recognise what we consider “philosophical thinking” in children: a good question, a conceptual distinction, an argument, a relevant example.

    Over time, I have learned that philosophy can be much more fragile, uncertain and unpredictable.

    I have learned to appreciate the moment when a child says, “I don’t know.”

    “I don’t know” is not necessarily a failure of the discussion. It may be precisely the point at which thinking begins.

    I have also learned that a good philosophical discussion is not necessarily one in which children say extraordinarily intelligent things. It can simply be a discussion in which something has shifted.

    A child who initially thought that something was necessarily true and, by the end, says, “Maybe it’s not always like that.” A girl who listens to a classmate’s argument and says, “I had never thought about it that way.” A young person who finally manages to formulate a question they have been carrying inside for a long time.

    These may seem like small movements, but they are movements of thought.

    I have also learned that the role of the adult

    is much more difficult than I imagined. The adult should not be absent, but neither should they occupy all the space. They should not pretend to know nothing, but they must be able not to know on behalf of the children. They need to know how to guide without directing the thinking towards a predetermined conclusion.

    That is a very delicate form of balance.

    Finally, I have learned that philosophy with children is not simply an activity. It is a way of looking at childhood. And perhaps also a way of looking at the world.

    Has your practice changed the way you think about philosophy? If so, how?

    Yes, profoundly.

    Before working with children, I thought of philosophy mainly as something found in texts and in the history of philosophy. Today, I think of it much more as an attitude.

    Philosophy can, of course, be study, reading, interpretation and knowledge of the history of thought. But it can also be something very simple: stopping in front of something that seemed obvious and asking, “Why?”

    Doing philosophy with children has made me realise how deeply philosophy is connected to the possibility of suspending what seems obvious.

    Take an apparently banal statement such as: “You have to be yourself.”

    A child might ask, “But how do I know who I am?”

    And suddenly, a sentence that seemed like a cliché becomes a philosophical question.

    Or: “We should be kind.”

    “But should we be kind to someone who isn’t kind to us?”

    Or: “Everyone is free.”

    “Even when they have to go to school?”

    “Even when they have to obey their parents?”

    “Even when they are afraid?”

    Children have this extraordinary ability to take a sentence and open it up.

    This is why I now think that philosophy has a great deal to do with making problematic again what we have stopped questioning.

    I also believe that philosophy needs other people.

    Thinking together does not mean thinking the same thing. On the contrary: it means discovering that my thinking becomes richer when it encounters a thought that is different from my own.

    This experience has also moved me away from a certain idea of philosophy as something necessarily serious, abstract and austere.

    Philosophy can be rigorous and, at the same time, playful. It can pass through the body, drawing, theatre, music, storytelling, movement and imagination.

    This is why, in my work, I have also developed practices that I call philo-art, in which philosophical practice enters into dialogue with different artistic forms.

    For me, art and philosophy have something deeply in common: both can create a distance from the world as it is and allow us to imagine that it could be otherwise.

    And childhood? Has doing philosophy with children changed the way you think about childhood?

    Absolutely.

    Perhaps this is one of the aspects that has transformed me the most.

    Today I think much less of childhood as an age of “preparation” and much more as a full and present moment of existence.

    We too often look at children in terms of what they will become: future adults, future citizens, future students, future workers.

    Philosophy for Children has taught me to pay much more attention to who they are right now.

    A child is not an incomplete adult.

    A child is a person experiencing the world in a particular way.

    And that person has something to teach us.

    Not because children are naturally wiser than adults — I do not believe in romanticising childhood at all — but because they have experiences, questions, perspectives and forms of attention that we adults have often lost.

    At the same time, working with children has also taught me to be wary of the romantic idea of the “philosophical child”.

    I do not believe that all children are naturally philosophers and that adults simply need to let them talk.

    Philosophical practice requires conditions, time, listening, tools and a certain discipline of dialogue.

    Children can think philosophically, but they need a space in which this thinking can develop.

    And this is where I see an enormous responsibility for the adult.

    Creating a space in which a child can say, “I disagree”, “I don’t understand”, “I think the opposite”, or “I’ve changed my mind” is an incredibly powerful educational act.

    For me, educating children to think also means educating them to change their minds without losing face.

    What question do you think our community should ask itself more often?

    One question seems increasingly important to me:

    Why do we do philosophy with children?

    It may sound like a simple question, but I believe we should return to it again and again.

    Why?

    To develop critical thinking?

    To educate for citizenship?

    To learn how to discuss?

    To improve language skills?

    To learn how to reason?

    To become more tolerant?

    To learn how to listen?

    All of these can be valid answers. But I worry that if we turn philosophy into a tool serving other objectives, we risk forgetting what makes it specifically philosophical.

    Perhaps we do philosophy with children also because they have a right to think.

    Not simply to learn what other people have thought.

    They have the right to question the world.

    They have the right to disagree.

    They have the right to take their own questions seriously.

    And I think we should also ask ourselves: what happens when we stop considering children merely as people to be educated and start considering them as people to think with?

    What are we taking for granted in our work with children and young people?

    Perhaps we take for granted that speaking is the same as thinking.

    A very lively discussion is not necessarily a philosophical discussion.

    We can have twenty children talking a great deal and, at the same time, very little shared thinking taking place.

    Conversely, a discussion containing silences, hesitations and very few words can be extremely rich.

    Perhaps we also take for granted that thinking must necessarily be verbalised.

    This is one of the reasons why I am so interested in the relationship between philosophy and art.

    A child can have a philosophical insight through an image, a gesture, a theatrical scene, a metaphor or a story.

    Philosophical expression does not necessarily have to take the form of a well-constructed sentence.

    We should also ask ourselves to what extent our work is still shaped by an adult idea of what it means to “think well”.

    Perhaps we too quickly reward children who speak well, use a rich vocabulary and formulate orderly arguments.

    But what happens to the quieter child?

    To the child who thinks a great deal but speaks very little?

    To the one who needs to draw?

    To the one who needs to move?

    To the one who asks a seemingly absurd question?

    I believe that a genuine community of inquiry needs to make room for different forms of intelligence and expression.

    And perhaps we also take for granted that our role is to make children’s thinking progress.

    Sometimes I wonder whether we should be more willing to accept that a discussion may not “lead anywhere”.

    Not every question needs to be resolved.

    Some questions are valuable precisely because they continue to accompany us.

    What worries you — or gives you hope — about the future of this field?

    What worries me most are speed and instrumentalisation.

    We live in a world in which everything is expected to be immediately useful, measurable and assessable.

    Philosophy, too, risks being turned into a skill to be acquired.

    “Through philosophy, children develop critical thinking.”

    “Through philosophy, they improve their skills.”

    “Through philosophy, they learn to communicate.”

    All of this may be true, but if we stop there, we risk losing something essential.

    Philosophy is not only about what it produces.

    It is also a space in which we are allowed to produce nothing.

    A space in which we can stop, doubt and waste time.

    And this very idea of “wasting time” seems extremely precious to me today.

    I am also concerned about our relationship with new technologies and, in particular, with artificial intelligence.

    Not because I think AI is necessarily negative. On the contrary, I believe it can open up extraordinary possibilities.

    But it forces us to ask fundamental questions: What does it mean to think when a machine can produce an answer in a few seconds? What does it mean to be creative? What does it mean to know something? What does it mean to have an idea of one’s own?

    These are questions that, in my view, Philosophy for Children will increasingly have to address.

    And yet, this is also where my hope lies.

    Because precisely in a world where answers are becoming increasingly easy to obtain, questions become even more important.

    And children are exceptionally good at asking questions.

    Perhaps our responsibility will be not simply to teach them how to find an answer quickly, but to help them recognise when it is worth stopping and asking: “But are we sure this is the right question?”

    I am also given hope by the fact that, despite everything, I constantly meet teachers and educators who want to create these spaces.

    People who feel that something is missing in school, in education, in our relationships with children, and who are looking for other ways of being with them.

    Every time I enter a classroom and see a group of children seriously discussing a question that concerns life, I think that there is still so much to do.

    And that it is absolutely worth doing.

    What question are you trying to answer at the moment?

    The question that is accompanying me today is:

    How can we educate people to think without turning thinking into something that can be taught once and for all?

    This question interests me deeply because I feel that there is a contradiction at the heart of our work.

    On the one hand, we want to educate children and young people to think independently.

    On the other hand, whenever an adult organises an educational activity, there is a risk that they already have in mind the kind of thinking they would like to produce.

    So how can we create the conditions for thinking without predetermining the outcome?

    How can we accompany without guiding too much?

    How can we transmit tools without simultaneously transmitting our own answers?

    And, above all, how can we allow children to become autonomous thinkers without leaving them alone in the face of the complexity of the world?

    Perhaps this is one of the great educational questions of our time.

    And there is another question that interests me, which somehow follows from it:

    How can we preserve a space for uncertainty in a world that constantly asks us to be certain, fast and high-performing?

    I believe Philosophy for Children has an enormous responsibility here.

    A philosophical community should not be a community of people who possess the right answers, but a community of people who continue to formulate better questions.

    And perhaps this is precisely what I love so much about your project, Joana: the fact that you have decided to return to a series of interviews that already existed, not in order to repeat what was said before, but to ask again, years later, what has changed in our questions.

    In the end, I think this is one of the most beautiful definitions of philosophy: not necessarily finding new answers, but becoming capable of asking new questions.

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    Chiara Pastorini started working in the field of Philosophy for Children and Young People many years ago, in 2014, with a project called Les petites Lumières, based in Paris, which now has a team of around twenty facilitators. More specifically, Les petites Lumières is dedicated to practising philosophy with children and adolescents (as well as with adults), training educators and teachers, and creating educational and artistic approaches that enable children to develop and exercise their own thinking.

    Please check out Chiara’s work:

    — Les Petites Lumières

    — Chiara Pastorini

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    joana rita #filocriatividade

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    2026/2027 está à espreita!

    Aqui ficam cinco sugestões que considero particularmente interessantes para começar a preparar o ano novo!

    Aprender a escutar filosoficamente as crianças

    Em Listening Philosophically to Preschool Children: Teaching Student-Teachers How to Develop Children’s Critical and Creative Thinking through Picturebooks, Sofia Nikolidaki defende que uma das competências mais importantes na formação de educadores é aprender a escutar filosoficamente as crianças.

    Partindo da leitura de álbuns ilustrados, a autora mostra como é possível reconhecer momentos de potencial filosófico nas perguntas e comentários das crianças e transformá-los em oportunidades para desenvolver o pensamento crítico, criativo, cuidadoso e colaborativo.

    Como filosofar com crianças?

    Em “How to Philosophise with Children”, Peter Worley mostra, de forma clara e acessível, que filosofar com crianças não depende de transmitir conceitos filosóficos, mas de criar condições para que elas explorem questões, formulem razões e pensem em conjunto.

    Mesmo para quem já conhece o trabalho de Peter Worley, vale a pena regressar a este texto.

    A escola para além da sala de aula

    O Conselho Nacional de Educação publicou recentemente o parecer “Reorganização dos espaços educativos para além da sala de aula”, um documento que convida a repensar onde acontece a aprendizagem e como os diferentes espaços podem tornar-se verdadeiros contextos educativos.

    É uma leitura que dialoga muito com quem acredita que o pensamento pode acontecer num museu, num jardim, num cemitério histórico, numa biblioteca ou em qualquer lugar onde haja boas perguntas.

    Como fazer com que mais alunos participem?

    Em “3 Strategies for Increasing Student Participation”, Katie Martin reúne estratégias simples e sustentadas para envolver um maior número de alunos nas discussões em sala de aula.

    Um texto particularmente útil para quem acredita que participar é muito mais do que responder às perguntas do professor.

    Ensinar a falar… e a escutar

    Participar não é apenas falar. É também saber escutar, construir sobre as ideias dos outros, fazer perguntas e dialogar.

    No artigo “Strategies for Supporting Students’ Speaking and Listening Skills”, Lisa Schultz apresenta propostas práticas para desenvolver estas competências, tão importantes para qualquer sala de aula e, de forma muito especial, para quem facilita diálogos filosóficos.

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    joana rita #filocriatividade

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    Falar sobre a morte com crianças pode ser difícil. Por essa razão, quando precisamos de explicar que alguém morreu, recorramos frequentemente a expressões que parecem mais suaves:

    “Foi dormir.”
    “Foi embora.”
    “Partiu.”
    “Perdemo-lo.”
    “Foi para um lugar melhor.”

    É natural tentar proteger a criança daquilo que sentimos:

    “Não chores.”
    “Tens de ser forte.”
    “Não penses nisso.”
    “És demasiado pequeno para perceber.”

    As pessoas que dizem estas frases estão longe de estar mal intencionadas; pelo contrarío, procuram tornar uma realidade difícil um pouco menos dolorosa.

    Porém, pergunto: será que estas ideias ajudam realmente as crianças a compreender a morte?

    As crianças compreendem a morte?

    A investigação sobre o desenvolvimento do conceito de morte revela que a compreensão da morte por parte da criação não aparece de uma só vez. Ao longo do tempo, as crianças vão construindo ideias sobre aquilo que significa morrer.

    Uma revisão de Speece e Brent identificou três componentes fundamentais do conceito de morte: irreversibilidade, não-funcionalidade e universalidade. Os autores concluíram que a maioria das crianças estudadas alcançava uma compreensão destes três componentes entre os 5 e os 7 anos.

    Investigação posterior tornou este quadro mais complexo. Panagiotaki e colegas estudaram 136 participantes, incluindo crianças entre os 4 e os 11 anos, e verificaram que as crianças compreendiam alguns aspectos fundamentais da morte já aos 4–5 anos. Com a idade, as suas explicações sobre inevitabilidade, universalidade e causalidade tornavam-se progressivamente mais biológicas.

    O que significa isto? Que não devemos partir do princípio de que uma criança é demasiado pequena para começar a compreender a morte.

    Repare que isto é diferente de dizer que uma criança de quatro anos compreende a morte da mesma forma que uma criança de dez anos. Os trabalhos de investigação sublinham que a capacidade de compreender vai além daquilo que por vezes supomos.

    “Foi dormir.”

    Talvez seja uma das expressões mais comuns, dizer que alguém “foi dormir”. Pode parecer uma forma delicada de falar sobre a morte, porém, para uma criança que está a tentar compreender aquilo que aconteceu, pode tornar mais difícil distinguir entre dormir e morrer.

    A questão não é que uma criança vá necessariamente desenvolver medo de dormir. A investigação não permite fazer uma afirmação tão simples. A questão é outra: se queremos explicar uma morte, “foi dormir” não explica que a pessoa morreu.

    Uma formulação mais clara seria: “Morreu. O seu corpo deixou de funcionar.”

    A criança pode depois perguntar o que significa isso, se a pessoa vai voltar, se sentia dores, o que acontece ao corpo ou qualquer outra coisa que lhe ocorra.

    “Foi embora.” / “Partiu.”

    Também aqui encontramos uma metáfora que pode substituir a palavra “morte”. O problema é que “ir embora” normalmente descreve uma ausência que pode ser temporária. A pessoa pode ir embora e voltar.

    Na morte, pelo contrário, estamos perante uma ausência permanente. A irreversibilidade é precisamente uma das dimensões fundamentais da compreensão da morte.

    Paul Harris chama a atenção para uma questão interessante: falar da morte como uma partida é, na verdade, muito comum. Segundo o autor, as crianças podem desenvolver uma compreensão biológica da morte e, simultaneamente, ser receptivas à ideia de que a pessoa falecida continua a existir de alguma forma.

    Como escreve Harris, as crianças pequenas constroem uma concepção biológica da morte, reconhecendo que terminam processos mentais e corporais, mas podem também aceitar “an alternative conception of death, which affirms that the deceased has an afterlife elsewhere”.

    Isto é importante porque nos impede de transformar a recomendação numa regra demasiado rígida. Não é necessário eliminar a palavra “partiu”, mas garantir que, quando explicamos o que aconteceu, a criança tem acesso à palavra morte e à ideia de que a pessoa morreu.

    “Perdemo-lo.”

    Para um adulto, “perdemos o avô” pode ser uma forma perfeitamente natural de falar.

    Uma criança pode interpretar a frase de outra maneira: “Onde o perdemos?”

    É precisamente este tipo de situação que torna a linguagem particularmente importante quando falamos de morte com crianças.

    Uma revisão sobre a forma como as crianças aprendem acerca da morte identifica três grandes fontes desse conhecimento: a experiência directa da morte, a comunicação dos pais e as representações da morte nos meios de comunicação e nas artes.

    A forma como os adultos falam sobre a morte faz, portanto, parte daquilo que as crianças aprendem sobre ela.

    Podemos dizer: “O avô morreu.” E, se quisermos, podemos acrescentar: “Quando dizemos que o perdemos, queremos dizer que morreu.” Desta forma, explicamos a linguagem metafórica.

    “Foi para um lugar melhor.”

    Esta frase introduz uma questão diferente: a dimensão religiosa ou espiritual da morte.

    Para algumas famílias, falar do céu, de uma vida depois da morte ou de outra forma de existência faz parte das suas crenças. Não há razão para eliminar essas crenças das conversas com as crianças. Temos é de ser cuidadosos e não apresentar uma crença como se fosse uma explicação biológica da morte. Podemos dizer: “O avô morreu. Nós acreditamos que depois da morte vamos para o céu.”

    A investigação de Panagiotaki e colegas encontrou precisamente esta coexistência de explicações. À medida que crescem, algumas crianças desenvolvem simultaneamente explicações biológicas e explicações religiosas, espirituais ou metafísicas sobre a morte. Essas crenças estavam associadas, entre outros fatores, às crenças religiosas e espirituais dos pais.

    Harris chega a uma conclusão semelhante: a compreensão biológica da morte e as crenças numa vida depois da morte podem coexistir. Por isso, talvez a questão não seja “podemos falar do céu?”, mas sim: “Será que estamos a distinguir aquilo que sabemos daquilo em que acreditamos?”

    “Não chores.”

    Aqui já não estamos tanto perante um problema de compreensão da morte, mas perante a forma como lidamos com as emoções.

    Quando uma criança chora depois de uma morte, podemos sentir vontade de a tranquilizar: “Não chores.” ou Vai ficar tudo bem.”

    Não precisamos transformar a tristeza numa coisa que a criança deve esconder. Podemos dizer: “Podes chorar. Eu também estou triste.” Ou simplesmente: “Estou aqui contigo.”

    Não existe uma única forma de reagir a uma morte. Uma criança pode chorar, ficar zangada, fazer perguntas, parecer indiferente ou querer brincar pouco depois de receber uma notícia triste.

    O luto não tem uma expressão única.

    “Tens de ser forte.”

    A expressão parece elogiosa, mas pode transmitir uma mensagem indesejada: a de que há uma maneira correta de reagir à morte. Uma criança pode pensar que ser forte significa não chorar, não falar ou não mostrar aquilo que sente.

    Considere outra mensagem, como: “Não precisas de fingir que estás bem.”

    E depois perguntar: “Queres contar-me como te estás a sentir?”

    Não precisamos de obrigar a criança a falar. Basta que estejamos disponíveis para a conversa quando a criança precisar.

    “És demasiado pequeno para perceber.”

    Esta é talvez uma das frases que mais merece ser questionada.

    É verdade que uma criança pequena não compreende a morte da mesma forma que um adulto, mas isso não é o mesmo que dizer que não possa compreender nada.

    Em vez de decidir antecipadamente aquilo que a criança consegue ou não compreender, podemos perguntar: “O que já sabes sobre o que aconteceu?” — Esta pergunta tem uma vantagem adicional: permite-nos descobrir o que a criança está realmente a pensar, em vez de respondermos a uma ideia que imaginamos que ela tenha.

    “Não penses nisso.”

    Provavelmente a criança vai mesmo pensar nisso. As crianças aprendem sobre a morte através das suas experiências, das conversas com adultos e também através dos livros, dos meios de comunicação e das artes.

    Por isso, fechar ou ignorar uma conversa não impede necessariamente que a criança pense sobre a morte. Pode apenas significar que terá de pensar sobre ela sem a ajuda de um adulto disponível para responder às suas perguntas.

    Não precisamos de ter respostas para todas as perguntas. Podemos dizer coisas como: “Não sei. O que pensas tu?”, ou “Queres continuar a falar sobre isso?” ou ainda “Podemos procurar a resposta juntos.”

    Então, o que devemos dizer?

    Não existe propriamente uma lista ou uma “receita” de frases perfeitas.

    As recomendações vão no sentido de seguir alguns princípios orientadores nas nossas observações, perguntas ou respostas. A saber:

    — Usar palavras claras, sem substituir sistematicamente “morreu” por eufemismos.

    — Adaptar a informação à criança: por um lado, não devemos esconder tudo, por outro lado também não vamos facultar a informação que não pediu.

    — Responder às perguntas que surgem, tendo claro que o “não sei” é uma forma válida para responder. Ou um: “talvez possamos investigar isso em conjunto”.

    — Distinguir factos de crenças: podemos falar de religião e de espiritualidade, deixando claro quando estamos a falar daquilo em que acreditamos.

    — Dar espaço às emoções: se a criança chorar, chora. Se não quiser chorar, não chora. Não há uma forma única de reagir e de expressar o que sente.

    — Deixar a conversa em aberto, já que a criança pode não ter perguntas hoje, mas amanhã ou depois. .

    Falar sobre a morte com crianças não significa retirar-lhes a tristeza, nem ter a frase perfeita na ponta da língua que vai tornar a morte menos dolorosa. Também não significa ignorar as suas perguntas, a sua curiosidade. Falar sobre a morte com crianças passa essencialmente por escutar e admitir que a morte dói e é, ao mesmo tempo, uma certeza para os seres vivos. Falar sobre a morte é falar sobre a vida.

    Oficinas de filosofia, para famílias, nos cemitérios de Lisboa

    Desde 2024 que dinamizo oficinas de filosofia, para famílias, nos cemitérios de Lisboa. Considere participar num momento onde a filosofia e o património cemiterial convidam a falar sobre a morte. Consulte a agenda neste link ou visita a página de instagram.

    joana rita

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    Referências:

    Arruda-Colli, M. N. F., Weaver, M. S., & Wiener, L. (2017). Communication about dying, death, and bereavement: A systematic review of children’s literature. Journal of Palliative Medicine, 20(10), 1154–1164.

    Harris, P. L. (2018). Children’s understanding of death: From biology to religion. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 373(1754), 20170266. 

    Longbottom, S., & Slaughter, V. (2018). Sources of children’s knowledge about death and dying. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 373(1754), 20170267. 

    Panagiotaki, G., Hopkins, M., Nobes, G., Ward, T., & Griffiths, D. (2018). Children’s and adults’ understanding of death: Cognitive, parental, and experiential influences. Journal of Experimental Child Psychology, 166, 96–115. 

    Speece, M. W., & Brent, S. B. (1984). Children’s understanding of death: A review of three components of a death concept. Child Development, 55(5), 1671–1686. 

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    Leia a reportagem da Mensagem de Lisboa sobre as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

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    joana rita #filocriatividade

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    Os Livros Perguntadores

    Não me lembro de ter havido um momento exacto em que decidimos: vamos criar os Livros Perguntadores, foi acontecendo.

    Havia os livros ilustrados. Havia a filosofia. Havia as perguntas que apareciam nas oficinas. E havia uma coisa que nos interessava particularmente: livros que não terminassem quando chegávamos à última página.

    Livros que provocam perguntas

    Em novembro de 2020, por ocasião do Dia Mundial da Filosofia, encontrei-me com Júlia Martins, do Plano Nacional de Leitura 2027, para uma conversa sobre livros filosoficamente provocadores. Falámos de livros que podiam convidar as crianças a pensar, a conversar, a discordar, a imaginar outras possibilidades. Fomos percebendo que havia uma característica que nos interessava particularmente, as perguntas.

    Não estamos aqui a falar de perguntas que apareciam escritas nos livros, mas sim das perguntas que os livros eram capazes de provocar. Um livro podia não ter uma única pergunta explícita e, ainda assim, deixar-nos cheios delas. Foi dessa conversa, entre nós as duas, que surgiram os Livros Perguntadores.

    A expressão foi ganhando forma enquanto falávamos de livros, de filosofia e das possibilidades de pensamento que a literatura infantil pode abrir. Não queríamos simplesmente criar mais uma lista de recomendações. Interessava-nos encontrar e partilhar livros capazes de provocar pensamento e gerar perguntas.

    Em Fevereiro de 2021, a ideia ganhou uma dimensão pública com o desafio #LivrosPerguntadores, lançado no blog e no Instagram. Queríamos descobrir e partilhar livros que perguntassem. Livros que nos deixassem desconfortáveis. Que não resolvessem tudo. Que nos obrigassem a parar. Que permitissem mais do que uma interpretação.

    #LivrosPerguntadores e o Plano Nacional de Leitura

    Em Março de 2021, voltámos a conversar, desta vez numa sessão dedicada aos #LivrosPerguntadores, no âmbito da Semana da Leitura. Há uma memória dessa experiência de que gosto particularmente: não combinávamos previamente os livros que cada uma ia apresentar.

    Cada uma chegava com as suas escolhas. Às vezes, o mesmo livro aparecia dos dois lados. Outras vezes, descobríamos livros que a outra não conhecia. E isso fazia com que a própria conversa fosse uma espécie de pequena investigação: o que é que este livro tem que nos faz considerá-lo perguntador?

    Em Junho fizemos novamente uma sessão, desta vez a propósito do Dia Mundial da Criança. E em Novembro, no âmbito do Dia Mundial da Filosofia, o PNL2027 voltou a acolher os Livros Perguntadores, apresentando uma selecção de títulos recomendados. A ideia começava a ganhar vida própria.

    O que é um Livro Perguntador?

    Os Livros Perguntadores nunca foram pensados como uma categoria de livros que obedecesse a uma fórmula. Não era: este livro tem perguntas, portanto é perguntador. Era outra coisa.

    Um livro perguntador pode provocar curiosidade. Pode criar tensão. Pode deixar-nos perante uma incerteza. Pode fazer-nos imaginar o que não está na página. Pode provocar desacordo. Pode fazer-nos mudar de opinião. Pode fazer-nos perceber que afinal não tínhamos pensado suficientemente bem sobre uma determinada coisa.

    Pode, simplesmente, deixar uma pergunta a viver connosco.

    Foi esta ideia que continuámos a explorar nas nossas conversas, sessões e recomendações e que, entretanto, foi encontrando outros caminhos.

    O FOLIO Educa e a newsletter

    Em Outubro de 2023, os Livros Perguntadores chegaram ao FOLIO Educa, em Óbidos. Participámos no Seminário Internacional “Os Riscos da Educação”, com a comunicação “Filosofia & Livros: um diálogo arriscado”.

    Foi também nesse dia que lançámos a newsletter #LivrosPerguntadores. A ideia era simples: continuar a fazer aquilo que já vínhamos fazendo — olhar para os livros, procurar aqueles que nos parecem particularmente provocadores e partilhá-los — mas dar-lhe uma casa própria. A newsletter nasceu como um espaço de curadoria de livros.

    Não se tratava de fazer uma lista dos melhores livros, nem de apresentar novidades editoriais, nem de dizer às pessoas o que deveriam ler. Tratava-se de seleccionar livros que, de alguma maneira, nos pareciam capazes de convidar a gerar perguntas.

    Livros para crianças, jovens e adultos. Livros que provocam pensamento. Livros que deixam qualquer coisa por resolver. Livros que permitem diferentes leituras e interpretações. A curadoria tornou-se, assim, uma parte essencial do projecto.

    Recomendar um livro perguntador implica assumir uma determinada ideia sobre a leitura: não procuramos apenas livros que tenham boas histórias ou belas ilustrações. Procuramos livros que possam convidar a parar, pensar, escutar e dialogar.

    Foi também nessa altura que começámos a tornar mais explícitos os critérios que estavam, desde o início, por detrás das nossas escolhas.

    O que faz de um livro um livro perguntador? O que é que procuramos quando escolhemos um título?Que tipo de perguntas pode nascer de uma determinada história? E, sobretudo, o que acontece quando um livro não nos dá uma resposta, mas nos deixa com uma pergunta?

    A newsletter foi uma maneira de continuar essa conversa. Uma conversa que tinha começado alguns anos antes, entre duas pessoas a falar de livros filosoficamente provocadores, e que entretanto se transformara num projecto partilhado de descoberta, selecção e curadoria.

    Os Livros Perguntadores tinham deixado de ser apenas uma expressão. Tinham-se tornado uma prática.

    Quando uma ideia encontra outros lugares

    Entretanto, fomos sabendo de bibliotecas e escolas que começaram também a usar a expressão Livros Perguntadores (ou #LivrosPerguntadores) para identificar livros, organizar colecções, criar actividades ou desenvolver projectos de leitura e filosofia.

    Não vejo com estranheza que uma expressão que surgiu num determinado contexto encontre outros contextos. Pelo contrário: é natural que as ideias circulem, sejam apropriadas, transformadas e ganhem novos significados quando chegam a outras pessoas.

    Uma biblioteca pode criar uma estante de Livros Perguntadores. Uma escola pode organizar um projecto com esse nome. Um professor pode seleccionar livros perguntadores para trabalhar com a sua turma. Um mediador pode descobrir uma utilização que nós nunca tínhamos imaginado. A ideia começa a ter vida própria.

    Para mim e para a Júlia, continua a ser importante contar a história da origem do projecto. Os Livros Perguntadores nasceram da nossa colaboração, das nossas conversas sobre filosofia e literatura e do trabalho que fomos desenvolvendo juntas a partir de 2020. A newsletter #LivrosPerguntadores, lançada no FOLIO Educa em 2023, foi mais um passo nessa história, transformando essa paixão pela descoberta em curadoria regular de livros.

    Uma ideia não precisa de ficar parada no lugar onde nasceu, pois ganha força quando outras pessoas a levam consigo.

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    Olá! O meu nome é Joana Rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.

    Os livros fazem muitas vezes parte desses espaços. Em escolas, bibliotecas, museus e outros contextos culturais, desenvolvo oficinas a partir de livros que provocam perguntas, permitem diferentes interpretações e não terminam necessariamente quando chegamos à última página.

    Se está a preparar uma actividade ou programação e procura uma proposta que cruze literatura, filosofia e diálogo, escreva-me.