
“Não sei.” Quando foi a última vez que disse “não sei”?
Coloco a pergunta de outra forma: em que situações dizemos “não sei”?
Talvez tenha hesitado perante a pergunta de uma criança. Talvez já tenha passado por isso numa reunião de trabalho.
Vivemos rodeados de informação e, paradoxalmente, parece que nos é cada vez mais difícil reconhecer os limites do que sabemos. Porquê?
Não queremos parecer ignorantes
Quando alguém diz “não sei” acaba por assumir alguma vulnerabilidade perante as outras pessoas.
A psicologia social mostra que nos preocupamos constantemente com a imagem que transmitimos aos outros. Queremos ser vistos como competentes, informados e capazes. Em diferentes contextos, seja na escola, no trabalho ou até entre amigos, admitir desconhecimento pode não ser confortável.
Por isso, muitas vezes respondemos depressa. Ou mudamos de assunto. Ou damos uma resposta vaga. Não necessariamente porque queremos enganar alguém, mas porque queremos proteger a imagem que os outros têm de nós. Esta preocupação pode impedir algo que é importante e que acontece durante toda a nossa vida: aprender.
A ilusão de que sabemos mais do que sabemos
Há outro fenómeno ainda mais intrigante, ao qual os psicólogos Steven Sloman e Philip Fernbach chamam a ilusão do conhecimento (The Knowledge Illusion). Os autores mostram como tendemos a sobrestimar aquilo que sabemos individualmente, porque dependemos constantemente do conhecimento produzido e partilhado por outras pessoas.
Experimente o seguinte exercício: explique, sem recorrer à internet, como funciona um fecho éclair (a meu ver, uma das grandes invenções da humanidade). Difícil, não é? Bom, para mim foi impossível. Não sei explicar como funciona, só sei puxar o fecho para que cumpra a sua função. Só quando tentamos explicar percebemos que a nossa compreensão é mais frágil do que imaginamos.
Vivemos apoiados no conhecimento colectivo da sociedade, produzido porengenheiros, médicos, cientistas, professores, mecânicos, entre outros. Sem darmos por isso, confundimos esse conhecimento partilhado com conhecimento próprio.
Há ainda outro problema: nem sempre somos bons a reconhecer os limites do nosso próprio conhecimento.
Quando não sabemos que não sabemos
Em 1999, os psicólogos David Dunning e Justin Kruger publicaram um estudo que se tornaria particularmente conhecido sobre a relação entre competência e confiança.
O chamado efeito Dunning-Kruger descreve uma tendência para pessoas com menor competência num determinado domínio terem dificuldade em reconhecer a sua própria falta de competência. O problema é quase circular: para avaliar correctamente aquilo que não sabemos, precisamos de algum conhecimento sobre aquilo que estamos a tentar avaliar.
A proposta dos psicólogos ajuda-nos a compreender uma situação curiosa: podemos não saber que não sabemos. Convém não transformar esta ideia numa caricatura. O efeito Dunning-Kruger não significa que “as pessoas menos inteligentes acham que são génios”, nem que quanto menos sabemos mais confiantes somos. Trata-se, antes, de uma dificuldade de calibrar adequadamente a nossa confiança em relação àquilo que efectivamente sabemos, sendo que essa dificuldade pode existir em diferentes graus e em diferentes domínios.
Reconhecer a própria ignorância exige, portanto, algum conhecimento — e humildade.
Saber que não sabemos é uma competência
Em 1979, o psicólogo John Flavell introduziu o conceito de metacognição: a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. Aprender não depende apenas de adquirir novos conhecimentos. Depende também de perceber:
- O que sei?
- O que penso que sei?
- O que ainda não sei?
As pessoas que conseguem identificar estas fronteiras tendem a aprender de forma mais eficaz, porque conseguem perceber que precisam procurar novas respostas.
Dizer “não sei” pode muito bem ser o início de uma investigação.
Reconhecer os limites do que sabemos
Se podemos não saber que não sabemos, como podemos reconhecer os limites do nosso próprio conhecimento?
É aqui que entra um conceito que, nos últimos anos, tem despertado o interesse de psicólogos e filósofos: a humildade epistémica, também chamada humildade intelectual.
Ser intelectualmente humilde não significa pensar menos de si próprio, duvidar de tudo ou considerar que todas as opiniões têm o mesmo valor. Significa reconhecer que o nosso conhecimento é limitado e estar disponível para rever aquilo que pensamos quando encontramos boas razões para o fazer.
A humildade epistémica implica, por isso, uma espécie de cuidado na relação com o próprio conhecimento. Não basta perguntar “O que penso?”; é também importante perguntar “Quão seguro estou de que aquilo que penso está certo?”
Esta distinção é particularmente importante quando falamos de opiniões. Podemos ter uma opinião sem ter certezas. Podemos considerar uma explicação plausível sem saber se é verdadeira. Podemos acreditar em alguma coisa e, ainda assim, estar disponíveis para mudar de ideias perante novos argumentos ou evidências.
É comum associar humildade a uma frase atribuída a Sócrates: “Só sei que nada sei.” No entanto, como escreve Vitor Lima (Isto Não É Filosofia), Sócrates não disse exactamente isso. A formulação tornou-se um slogan filosófico, mas simplifica excessivamente a posição socrática.
O que encontramos no livro Apologia de Sócrates (de Platão) é algo mais interessante: Sócrates considera-se mais sábio apenas numa pequena medida, porque não julga saber aquilo que não sabe. Essa diferença é decisiva. Não se trata de afirmar uma ignorância absoluta, mas de reconhecer honestamente os limites do próprio conhecimento.
A humildade intelectual não nos pede, portanto, que deixemos de pensar ou de formar opiniões. Pede-nos que sejamos cuidadosos no processo de pensamento, para distinguir aquilo que sabemos, aquilo que pensamos saber e aquilo que simplesmente pensamos.
A investigação tem associado esta disposição a maior abertura à aprendizagem e ao diálogo, bem como a menor dogmatismo. Considero que se trata de uma competência particularmente importante numa época em que somos constantemente convidados a ter opinião sobre tudo (Menos opiniões, por favor!). Aliás, no livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, apresento a humildade intelectual como um dos pilares da pessoa pensadora crítica.
A confiança intelectual não consiste em ter sempre uma resposta pronta, “na ponta da língua”, mas sim em conseguir distinguir aquilo que sabemos daquilo que ainda estamos a descobrir.
E na educação?
As crianças fazem perguntas para as quais nem sempre temos resposta. Perante estas perguntas, muitos adultos sentem a obrigação de responder imediatamente. Será essa a melhor resposta?
Que tal dizer: “Não sei” e acrescentar: “Vamos pensar nisso juntos?” Julgo que esta atitude pode ser muito mais educativa, em vez de oferecer uma explicação apressada.
Quando um adulto admite que não sabe, transmite uma mensagem muito importante: aprender não termina quando deixamos a escola. Continuamos todos a investigar, ao longo da vida. É precisamente essa atitude que torna possível uma verdadeira comunidade de investigação, onde ninguém precisa de fingir que sabe tudo para participar.
O desafio
Termino com um desafio: experimente reparar em todas as vezes que sente vontade de responder antes de ter pensado. Quando isso acontecer, pergunte:
- Tenho a certeza?
- Como sei isto?
- O que me falta compreender?
Se a resposta for “não sei”, talvez valha a pena dizê-lo em voz alta, anunciando ao mundo que precisa de tempo para pensar.
*
Se este tema lhe interessa, talvez queira continuar a pensar:
— Debate ou diálogo em sala de aula: o que estamos realmente a promover? — sobre escuta, confronto de ideias e diálogo.
— Quando um livro pergunta — sobre perguntas que não procuram respostas imediatas, mas abrem possibilidades de pensamento.
— Somos livres para pensar o que quisermos? — sobre pensamento, razões e liberdade.
— Quando a pergunta muda de direcção, o pensamento continua — sobre o que acontece quando uma investigação nos leva para lugares que não tínhamos previsto.
— «Pensamento crítico»: uma palavra da moda que a IA arrisca esvaziar de sentido
joana rita
__
Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.
Se procura uma oficina de Filosofia para Crianças, uma actividade de pensamento crítico ou uma formação para quem trabalha com crianças e jovens, escreva-me. Podemos conversar.














