filocriatividade

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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    Há livros que contam histórias, outros ensinam. Há livros que perguntam. São os Livros Perguntadores.

    Foi precisamente sobre livros perguntadores que conversámos na oficina “Quando um livro pergunta: ler, perguntar e pensar em conjunto”, que tive o prazer de dinamizar no Seminário Da Arte de Ler… a Viagem, promovido pela Rede de Bibliotecas Escolares de Alcobaça.

    Em vez de começarmos por perguntar “o que é que este livro ensina?”, experimentámos outra pergunta: “que perguntas torna este livro possíveis?”

    A diferença parece pequena, mas muda profundamente a forma como lemos.

    Ao longo da oficina, formulámos perguntas e dialogámos sobre elas, sem pressa para chegar a uma conclusão. Procurámos criar as condições para que o pensamento pudesse acontecer em conjunto.

    Quando um livro se transforma num espaço de investigação, a leitura deixa de ser apenas um exercício de compreensão. Passa a ser uma experiência de atenção, de imaginação e de encontro. A pergunta deixa de servir apenas para verificar se alguém compreendeu o texto e serve para ampliar o pensamento.

    Esta mudança tem implicações importantes para quem educa. Escolher um livro não é apenas escolher um tema ou uma história. É escolher um conjunto de possibilidades de pensamento. Há livros que rapidamente encerram o diálogo, conduzindo-nos para uma resposta previsível. Outros permanecem abertos. Permitem que diferentes interpretações coexistam, se confrontem e se aprofundem.

    Foi essa experiência que procurei proporcionar às pessoas participantes: viver, na primeira pessoa, uma leitura em que as perguntas pertencem à comunidade e não apenas a quem conduz a sessão.

    Esta oficina dialoga directamente com um dos capítulos do meu livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, dedicado aos livros perguntadores. Nele proponho critérios para identificar este tipo de obras e reflicto sobre aquilo que as distingue: não são livros que oferecem respostas filosóficas, mas livros que criam condições para que o pensamento filosófico aconteça. O seu valor não está apenas no tema que abordam, mas na qualidade das perguntas que conseguem suscitar e na forma como sustentam um diálogo rico, plural e rigoroso.

    Formar pessoa leitoras é também formar pessoas capazes de perguntar. Uma boa mediação da leitura começa, muitas vezes, por resistir à tentação de explicar demasiado cedo, de terminar as frases dos alunos e das alunas, de ter pressa para “chegar lá”.

    Se este tema é do seu interesse, convido a subscrever a newsletter sobre livros perguntadores, que escrevo em conjunto com a Júlia Martins. Regularmente partilhamos uma curadoria comentada de álbuns ilustrados e outras obras que consideramos especialmente férteis para promover o diálogo filosófico, o pensamento crítico e a leitura em comunidade. É uma forma de continuar esta conversa para lá das oficinas e das formações, levando mais perguntas para escolas, bibliotecas, famílias e todos os lugares onde se lê em conjunto.

    joana rita

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    O que é ser livre para pensar?

    No MUZEU — pensamento e arte contemporânea dst, a oficina teve início junto à galeria de fotografias de Alfredo Cunha, onde se encontram alguns dos rostos da cultura portuguesa que ousaram pensar, dizer e agir.

    Uma vez no chão da Assembleia, as famílias foram convidadas a partilhar os pensamentos que a pergunta da oficina podia provocar. Tal como numa corrida, numa oficina de filosofia não começamos logo a correr. Começamos por andar, para compreender o ritmo de cada pessoa e para iniciar o treino da escuta e do pensar em voz alta. Este momento funciona como uma espécie de aquecimento.

    Pensar em movimento

    Depois desse aquecimento, partimos para uma caminhada colaborativa, orientados pelas ideias “sou livre quando…” e “não sou livre quando…”. O jogo consistia em arrumar ideias nessas duas categorias, justificando e dando exemplos.

    Dar razões e justificar, assim como dar exemplos, são ferramentas que nos permitem trabalhar o pensamento crítico. Permitem tornar o pensamento mais claro e mais rigoroso. Ao explicar porque pensamos de determinada maneira, abrimos aos outros a possibilidade de compreender, questionar, concordar ou discordar das nossas ideias.

    Entre o “sou” e o “não sou”

    Ao longo da caminhada, surgiram exemplos ligados à escola, à vida familiar, ao campo profissional, às amizades e até aos pensamentos que guardamos apenas para nós.

    “Sou livre quando não estou com os meus pais” — disse uma das crianças. No final, uma das mães segredou que “a liberdade dos pais acaba quando têm filhos”. Com humor e, simultaneamente, com seriedade, fomos caminhando pela floresta dos nossos pensamentos.

    A oficina terminou com um convite para pensar e avaliar o que tinha acontecido ao nosso próprio pensamento.

    joana rita sousa

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    “Em pleno inverno, descobri que havia, dentro de mim, um verão invencível.” (Albert Camus)

    O leitor de Neblina é surpreendido com este pensamento de Albert Camus nas guardas iniciais deste magnifico livro.  Parei. Pensei e sussurrei a mim própria… este livro promete!

    Neblina é uma narrativa simples, mas não simplista, dirigida a leitores jovens e todos nós. É um livro por camadas de significado que se prestam a um trabalho de reflexão mais profundo.

    Tomé, que vive algo que descreve como uma “neblina densa a crescer dentro de si” — um sentimento vago, difícil de nomear, que o confunde, inquieta e obriga a olhar para dentro de si mesmo.  O simbolismo de neblina é o ponto chave deste precioso livro l – como nas nuvens baixas que encobrem paisagens, certos estados emocionais podem turvar a nossa perceção do mundo e de nós próprios.

    A neblina torna-se uma forma de perguntar: o que é estar confuso? O que é sentir algo sem conseguir dar um nome claro?

    E aqui começam a surgir perguntas, muitas perguntas:

    – Sabemos o que sentimos?
    – O que significa sentir?
    – O que são os sentimentos?
    – Como nos relacionamos com aquilo que ainda não conseguimos compreender?
    – É possível compreender plenamente aquilo que vai na nossa mente e no nosso coração?
    – A linguagem limita ou liberta a nossa capacidade de pensar?

    – Deveremos acolher o que é desagradável?

    A leitura deste livro, da autoria de Carolina Branco e Marta Oliveira Silva, poderá conduzir o leitor a uma epistemologia afetiva – a investigação sobre como conhecemos as nossas emoções e como este conhecimento influencia as nossas decisões e relações sociais.

    Se a Neblina pode ser acolhida e ouvida, então há uma abordagem filosófica fundamental: a de que compreender as emoções não é apenas um ato psicológico, mas um ato ético e existencial, que molda a forma como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos.

    Júlia Martins

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    Um projecto nascido entre a filosofia e a criatividade

    A filocriatividade nasce da vontade de criar espaços onde a filosofia possa acontecer de forma viva, próxima e acessível.

    O projecto parte da Filosofia para/com Crianças e Jovens e cruza-a com práticas de criatividade, nomeadamente as propostas desenvolvidas por Edward de Bono e Ellen Duthie. O ponto de encontro está na curiosidade, na pergunta, na imaginação e na possibilidade de olhar para o mundo a partir de diferentes perspectivas.

    Pensar não se reduz a procurar respostas; pensar passa também por aprender a formular melhores perguntas, a escutar diferentes ideias e a construir pensamento em conjunto.

    Dois eixos de trabalho: formação e oficinas para filosofar em comunidade

    A filocriatividade desenvolve-se em dois grandes eixos.

    Por um lado, existe um trabalho de formação dirigido a professores, educadores, mediadores e outras pessoas adultas interessadas em criar espaços de diálogo e pensamento. Estas formações exploram ferramentas e metodologias que permitem levar a filosofia e a criatividade para diferentes contextos educativos e comunitários.

    Por outro lado, crio e dinamizo oficinas de filosofia para/com crianças e jovens, famílias e grupos intergeracionais. São encontros onde histórias, imagens, jogos, objectos, lugares ou situações do quotidiano podem ser o ponto de partida para pensar em conjunto.

    Cada oficina é um convite a parar, observar, perguntar, escutar e dialogar.

    Um projecto com muitos quilómetros e muitas perguntas

    Ao longo do seu percurso, a filocriatividade já realizou 21.026 oficinas, envolvendo 46.012 participantes.

    De Norte a Sul do país, passando pelas ilhas, o projecto chegou a diferentes comunidades e contextos. Também atravessou fronteiras, com experiências e colaborações em Moçambique e, mais recentemente, com a possibilidade de trabalhar à distância, criada pela pandemia, que abriu portas para encontros com outros países, como São Tomé e Príncipe, Roménia e Brasil.

    A filosofia pode acontecer em muitos lugares

    A filocriatividade acontece onde houver espaço e tempo para pensar.

    Ao longo dos anos, as oficinas chegaram a bibliotecas escolares e municipais, museus (MUZEU, MIAA, Museu do Mar Rei D. Carlos I), teatros, associações culturais, festivais de filosofia (Festival de Filosofia de Abrantes, ESPANTO), festivais literários, cemitérios e empresas.

    Trabalhar filosofia em diferentes lugares significa também reconhecer que o pensamento não pertence apenas às salas de aula. Pode acontecer num museu diante de uma obra, numa biblioteca a partir de uma história, num cemitério perante as grandes perguntas da existência ou numa empresa quando é necessário pensar em conjunto.

    Criar condições para pensar

    Filosofar é uma prática que se aprende e se cultiva.

    Como?

    Dando tempo às perguntas.

    Experimentando o diálogo como ferramenta de descoberta.

    Desenvolvendo um pensamento mais crítico, criativo, cuidadoso e colaborativo.

    O foco não passa por transmitir conteúdos da História da Filosofia, mas sim de criar condições para que crianças, jovens e pessoas adultas possam pensar de modo mais claro e lúdico.

    Uma pergunta pode ser o início de muitas possibilidades.

    Nota: este texto serviu de orientação à minha participação na mesa-redonda das 2.ªs Jornadas Arte e Educação, promovidas pela Arte Central, no dia 3 de Julho de 2026.

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    Um projecto português apresentado em Turim

    As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais foram referidas na conferência da Association of Significant Cemeteries in Europe (ASCE), que decorreu em Turim, nos dias 18, 19 e 20 de Junho.

    A referência surgiu durante a comunicação de Gisela Monteiro, investigadora cemiterial, intitulada Significant Stories (in) Significant Cemeteries: the role of tours in heritage awareness, dedicada ao papel das visitas e das actividades de mediação na valorização do património cemiterial.

    Filosofia em contexto cemiterial

    Desde 2024, as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais têm sido desenvolvidas regularmente nos Cemitérios de Lisboa, integrando a programação cultural municipal e convidando famílias, crianças, jovens e adultos a explorar questões humanas e filosóficas a partir do património, das histórias, dos símbolos e das experiências que habitam estes espaços.

    Partindo de perguntas e de propostas lúdicas, as oficinas criam oportunidades para observar, perguntar, interpretar e dialogar em comunidade. Questões relacionadas com a memória, a identidade, o tempo, a perda, a justiça, o legado ou o significado da vida surgem naturalmente a partir da experiência do lugar, promovendo, em simultâneo, pensamento crítico, imaginação, sensibilidade estética e participação cultural.

    Cada oficina nasce sempre do próprio espaço do cemitério. Os percursos são construídos a partir de elementos simbólicos, de sepulturas ou de jazigos específicos, em diálogo com as características históricas, patrimoniais e humanas de cada lugar.

    Uma proposta singular em Portugal

    As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais constituem, até ao momento, a única iniciativa em Portugal que desenvolve oficinas de filosofia em contexto cemiterial, dirigidas a crianças dos 7 aos 11 anos.

    Partem do reconhecimento de que a morte surge espontaneamente nas perguntas das crianças e dos jovens, apesar de continuar a ser um tema frequentemente evitado pelos adultos. As oficinas procuram, por isso, criar um espaço seguro, rigoroso e sensível para o diálogo filosófico sobre a vida, a finitude, a memória, a presença e a ausência.

    Nesta proposta, o cemitério não é entendido como um cenário provocatório, mas como um espaço simbólico, histórico e pedagógico, capaz de tornar concretas questões abstractas e de abrir novas possibilidades de pensamento a partir da experiência vivida no lugar.

    Cada sessão integra ainda a participação de Gisela Monteiro, acrescentando uma dimensão de conhecimento especializado sobre os cemitérios enquanto espaços culturais, patrimoniais e de reflexão contemporânea. Esta colaboração enriquece o diálogo filosófico, oferecendo diferentes camadas de leitura sobre o património e as histórias que o habitam.

    Pensar a vida a partir do património

    As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais cruzam diferentes áreas de intervenção — filosofia para/com crianças e jovens, educação não formal, investigação cemiterial e mediação patrimonial — propondo o cemitério como ponto de partida para o pensamento colaborativo.

    Falar da morte é uma das formas mais honestas de pensar a vida.

    joana rita

    📷 cedida por Gisela Monteiro

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    Entre 13 e 28 de Junho, Cascais voltou a ser lugar de encontro para perguntas, ideias e conversas com a segunda edição do ESPANTO — Festival Internacional de Filosofia. Mas, para contar esta história, é preciso começar antes dos dias 25, 26, 27 e 28 de Junho.

    O festival não começou quando se abriram as portas dos grandes espaços culturais. Começou mais cedo, nos bairros, nas ruas e nos lugares onde a filosofia encontra pessoas de todas as idades.

    Antes dos grandes nomes, chegaram as perguntas

    Nos dias 13 e 14 de Junho, o ESPANTO levou a filosofia a diferentes comunidades de Cascais, numa programação descentralizada que passou pelo Bairro Novo do Pinhal/Galiza, Cabeço de Mouro e Alcoitão.

    Foram dias em que a filosofia aconteceu perto das pessoas: através de conversas, oficinas, momentos de partilha e actividades pensadas para diferentes públicos. Houve espaço para pensar o tema desta edição — o Desejo — a partir de diferentes perspectivas: o que desejamos? De onde vêm os nossos desejos? Será possível viver sem desejar? Um desejo é mais interessante do que um sapato?

    A filosofia deixou de ser apenas uma actividade associada aos livros, às universidades ou às salas de conferências e tornou-se uma prática de encontro.

    Levar a filosofia onde estão as pessoas

    Um dos aspectos mais marcantes do ESPANTO é precisamente este movimento: em vez de esperar que as pessoas procurem a filosofia, a filosofia vai ao encontro das pessoas.

    A programação nos bairros mostrou que pensar não é um exercício reservado a especialistas. Uma pergunta pode nascer numa conversa entre vizinhos, numa oficina com crianças ou num momento de partilha entre gerações.

    Através das oficinas filosóficas, as crianças foram convidadas a observar, perguntar e construir ideias em conjunto sobre o tema do desejo.

    Do bairro para a cidade

    Depois dos primeiros encontros, o ESPANTO ganhou outra dimensão nos dias 25 a 28 de Junho, ocupando vários espaços culturais de Cascais com conferências, conversas, performances e encontros com pensadores nacionais e internacionais.

    O festival espalhou-se pela cidade, criando diferentes lugares de pensamento. Houve vários pontos de encontro onde o público pôde aproximar-se da filosofia através de diferentes linguagens.

    Esta é uma das forças do ESPANTO: juntar a reflexão mais aprofundada com uma dimensão pública e acessível, criando pontes entre diferentes experiências e formas de conhecimento.

    Um tema, muitas perguntas

    O Desejo foi o fio condutor desta edição e mostrou-se um tema inesgotável.

    Falou-se do desejo como impulso, como falta, como motor de transformação, mas também como algo que levanta dilemas: desejamos aquilo que escolhemos? Ou aquilo que nos ensinaram a desejar? O desejo aproxima-nos dos outros ou torna-nos mais centrados em nós próprios?

    Ao longo do festival, estas questões apareceram em diferentes formatos e para diferentes públicos. Das conversas mais conceptuais às propostas para crianças, o ESPANTO mostrou que uma mesma pergunta abre diversos caminhos.

    Pensar também é reconhecer quem pensa connosco

    Nesta edição, o ESPANTO prestou homenagem a Viriato Soromenho-Marques, reconhecendo o contributo de uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo em Portugal.

    Filósofo, professor e ensaísta, Viriato Soromenho-Marques tem desenvolvido um trabalho marcado pela reflexão sobre ética, cidadania, ambiente e os desafios das sociedades contemporâneas. A sua intervenção pública tem cruzado a filosofia com as grandes questões do presente, lembrando que pensar é também assumir responsabilidade perante o mundo.

    A homenagem integrou uma das dimensões centrais do festival: a valorização do pensamento como prática viva, feita de diálogo, de participação e de compromisso com a realidade.

    Um festival feito de encontros

    Na sua segunda edição, o ESPANTO afirmou-se como um convite a pensar em conjunto.

    Entre 13 e 28 de Junho, a filosofia ocupou bairros, espaços culturais e lugares de encontro. Houve conferências e oficinas, especialistas e pessoas curiosas, entre adultos e crianças. Houve, sobretudo, tempo para aquilo que muitas vezes falta no quotidiano: parar, pensar, escutar e dialogar.

    O ESPANTO mostrou que a filosofia pode acontecer em muitos lugares e com muitas pessoas. Ao longo de duas semanas, Cascais transformou-se num espaço onde as perguntas ganharam lugar público — e onde pensar em conjunto foi a principal forma de encontro.

    Ah! O ESPANTO continua por aí a espantar, em formato podcast e também em formato de cursos livres.

    joana rita

    📷 festival ESPANTO

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    Vamos pensar sobre a humanidade? — este foi o desafio lançado a um grupo de famílias numa Biblioteca Municipal. Escolhemos uma pergunta para investigar em conjunto.

    Embora a pergunta inicial estivesse pensada para abordar a temática dos direitos humanos, uma criança trouxe uma interpretação diferente da palavra “direitos”. Em vez de pensar em direitos universais ou leis, começou a falar “daquilo a que cada pessoa tem direito” em função da sua idade e das suas necessidades.

    “Um bebé tem direito a um berço”, dizia. “Tem direito a que lhe mudem a fralda.” Mas uma criança de nove anos já não teria esses mesmos direitos, porque precisaria de outras coisas.

    Do direito às necessidades: um desvio que mantém o horizonte filosófico

    O diálogo movimentou-se então para uma reflexão sobre cuidado, dependência e adequação. Os direitos deixaram de aparecer como algo fixo e igual em todas as situações e passaram a ser pensados em relação às necessidades concretas de cada pessoa, ao longo da sua vida.

    Esta mudança abriu um caminho filosófico inesperado: será que ter direitos significa receber exatamente as mesmas coisas? Ou significa ter acesso ao que precisamos em cada momento da vida?

    A infância, a velhice e o retorno das necessidades

    Fomos avançando na idade, de bebé a idoso, para ver de que modo as necessidades se alteravam ou se mantinham. Quando já somos velhos, voltamos a ter direito a algumas coisas que associamos aos bebés: por vezes precisamos que nos mudem a fralda, voltamos a ter algo parecido com um berço (uma cama com grades). No fim da vida há ainda o direito a ter um caixão.

    A partir das ideias da criança, o grupo começou a distinguir igualdade de uniformidade, aflorando a ideia de que tratar todos de forma justa nem sempre implica tratar todos da mesma maneira.

    joana rita

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    Há uns meses, o meu amigo Pieter Mostert apresentou-me um livro surpreendente, redigido algures entre 1829 e 1833, numa altura em que não se falava em filosofia para/com crianças.

    Jacob Abbott publica no início do século XIX uma obra singular: The Little Philosopher, um livro que transforma a observação do quotidiano num exercício sistemático de pensamento.

    Um livro de filosofia para crianças antes de existir “filosofia para crianças”

    Escrito em forma de diálogo entre uma mãe e crianças, o livro organiza uma sequência de perguntas e respostas que partem de objectos e fenómenos simples — a dureza de uma mesa, a suavidade de uma almofada, o frio, a água, a luz — para explorar questões mais abstractas sobre natureza, causa, diferença e explicação.

    A proposta de Abbott não passa por apresentar filosofia em sentido académico, mas sim por desenvolver uma disposição para a investigação.

    Pensar a partir da experiência quotidiana

    A proposta de Abbott não é ensinar filosofia no sentido académico, mas desenvolver uma disposição para a investigação filosófica.

    As crianças são convidadas a:

    • observar o mundo com atenção;
    • comparar situações;
    • imaginar alternativas;
    • formular hipóteses explicativas.

    O pensamento surge, assim, não como um exercício distante ou especializado, mas como algo enraizado na experiência sensível e na curiosidade quotidiana.

    O papel do adulto como co-investigador

    The old idea of a teacher’s trying to keep up before his pupils the character of infability, is now exploded. all good teachers, and all wise parents, are willing freely to acknowledge their ignorance, and to engage with their pupils on the understanding, that they are themselves learners too, though in a somewhat advanced stage. When a child brings to is parent or teacher any difficult or perplexing question, “I don’t know, but I will help you find out,” is the best answer, and the pleasantest for all parties, which can be given. They then, teacher and pupil, occupy common ground — there is sympathy between them, — the child is encouraged by observing that his father is a learner, as well as himself, and is led on to patience and perseverance, by observing that his father patiently perseveres.

    Jacob Abbott, The Little Philosopher, 1833

    Esta passagem é particularmente relevante, uma vez que antecipa uma ideia central da educação contemporânea: o adulto como co-investigador, e não como autoridade absoluta do conhecimento.

    Do concreto ao abstracto: um método pedagógico

    Num dos movimentos mais característicos do livro, uma pergunta concreta (“porque é que existem materiais diferentes?”) abre espaço para explorações hipotéticas (“o que aconteceria se tudo fosse duro?”). Este encadeamento mostra um método pedagógico baseado na progressão entre o concreto e o abstracto, típico da pedagogia intuitiva do século XIX.

    Historicamente, The Little Philosopher insere-se num contexto mais amplo de educação baseada na observação e nos chamados “object lessons”, influenciados por tradições pedagógicas como as de Johann Heinrich Pestalozzi. No entanto, Abbott distingue-se por levar essa lógica para um território mais especulativo, aproximando-se de formas precoces de investigação conceptual.

    Um precursor da filosofia para crianças?

    Embora profundamente marcado pelo seu tempo — com uma forte orientação adulta e um tom didáctico — o livro antecipa preocupações que hoje associamos à filosofia para crianças, filosofia com crianças e as demais práticas de diálogo filosófico na educação:

    • o valor da curiosidade;
    • o papel das perguntas;
    • a centralidade da experiência comum;
    • a construção colectiva de sentido.

    Pensar não depende da idade

    Lido hoje, The Little Philosopher permite repensar a relação entre infância, educação e pensamento filosófico, sugerindo que a capacidade de questionar o mundo não depende da idade, mas da atenção, da linguagem e das condições que criamos para pensar em conjunto.

    joana rita

    (*) The Little Philosopher é uma obra de Jacob Abbott, publicada originalmente por volta de 1829 sob o pseudónimo “Erodore”. Saiba mais sobre a obra neste link.

    📷 Festival de Filosofia de Abrantes, 2025

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    A equipa da agência The Square acolheu a oficina Era uma vez uma pergunta — a arte de fazer perguntas aplicada ao quotidiano.

    No contexto profissional muitas decisões, conflitos e falhas de comunicação não resultam da falta de respostas, mas de perguntas mal formuladas, implícitas ou nunca feitas.

    As pessoas participantes foram convidadas a pensar como diferentes tipos de perguntas abrem (ou fecham) possibilidades de compreensão, de decisão e de comunicação, desenvolvendo maior consciência sobre o modo como pensam, comunicam e perguntam.

    Sim, a filocriatividade também desenvolve oficinas em contexto empresarial.

    Este trabalho nasce de um percurso de investigação e prática na área da Filosofia Aplicada. Em 2012, defendi uma dissertação de mestrado dedicada ao papel do filósofo no contexto empresarial e organizacional — Da Filosofia Aplicada às necessidades filosóficas das pessoas, nas empresas e organizações — justificação do papel do consultor filosófico — procurando compreender de que modo as competências filosóficas, nomeadamente o questionamento, podem contribuir para a vida das organizações.

    Mais de uma década depois, esta investigação continua a orientar uma convicção central: as organizações são também espaços de pensamento. Pensar melhor começa, muitas vezes, por aprender a perguntar melhor.

    joana rita / filocriatividade

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    O arranque do Festival ESPANTO convidou crianças e adultos a reflectir sobre os seus desejos, os desejos dos outros e a vida em comum.

    Três bairros, muitas perguntas e um mesmo tema: o desejo como ponto de encontro

    Nos passados dias 13 e 14 de Junho teve início a 2.ª edição do Festival Internacional de Filosofia – ESPANTO, dedicado ao tema do desejo.

    Os trabalhos aconteceram em três bairros do concelho de Cascais: Pinhal Novo/Galiza, Cabeço de Mouro e Alcoitão. As comunicações de David Erlich, Inês Bolinhas e Sofia A. Carvalho, bem como as oficinas de filosofia para crianças, foram recebidas pelas comunidades, nas ludotecas dos bairros.

    Na manhã de sábado tivemos oportunidade de dialogar em torno de uma pergunta: É possível parar de desejar? Como lidar com vários desejos? E o que se faz quando um desejo se realiza — dedicamo-nos a outro? Pelo meio partilhámos os nossos desejos e pensámos: será que é um desejo fácil ou difícil de concretizar?

    A oficina da tarde girou em torno de desejos que não são nossos: será que conseguimos pensar porque é que esses desejos são importantes para quem os deseja? E o que fazer quando o desejo de alguém pode prejudicar-nos? O que fazer perante “as pessoas importantes” que são “gananciosas” e que querem mais e mais?

    A manhã de domingo permitiu-nos jogar ao Quantos Queres?, não sem antes partilharmos os nossos desejos. Quando dialogamos com outras pessoas sobre os nossos desejos descobrimos que frequentemente não somos as únicas pessoas a desejar “isto” ou “aquilo”.

    Entre pensamento e prática: o desejo em experiências para todas as idades

    O Festival ESPANTO prossegue entre os dias 25 e 28 de junho com uma programação diversificada que inclui palestras, conversas, debates, performances e actividades para diferentes públicos.

    Merece especial destaque a Ágora Filosofia para Crianças, nos jardins da Casa das Histórias Paula Rego, com propostas pensadas para famílias e jovens participantes.

    No dia 27 de junho, será possível assistir ao conto encenado O Macaco do Rabo Cortado, participar na conversa De que Cor é um Desejo?, com João Pedro Mésseder, e integrar o #ClubedePerguntas sobre o Desejo, uma comunidade de investigação filosófica para famílias com crianças entre os 6 e os 10 anos. No dia 28 de Junho o Bruno Batista vai contar-nos histórias.

    Entre actividades de acesso livre e eventos sujeitos a bilhete, a programação convida todas as idades a continuar a pensar, dialogar e espantar-se com o tema do desejo. Consulte a agenda completa em Festival ESPANTO.