
Há livros que contam histórias, outros ensinam. Há livros que perguntam. São os Livros Perguntadores.
Foi precisamente sobre livros perguntadores que conversámos na oficina “Quando um livro pergunta: ler, perguntar e pensar em conjunto”, que tive o prazer de dinamizar no Seminário Da Arte de Ler… a Viagem, promovido pela Rede de Bibliotecas Escolares de Alcobaça.
Em vez de começarmos por perguntar “o que é que este livro ensina?”, experimentámos outra pergunta: “que perguntas torna este livro possíveis?”
A diferença parece pequena, mas muda profundamente a forma como lemos.
Ao longo da oficina, formulámos perguntas e dialogámos sobre elas, sem pressa para chegar a uma conclusão. Procurámos criar as condições para que o pensamento pudesse acontecer em conjunto.
Quando um livro se transforma num espaço de investigação, a leitura deixa de ser apenas um exercício de compreensão. Passa a ser uma experiência de atenção, de imaginação e de encontro. A pergunta deixa de servir apenas para verificar se alguém compreendeu o texto e serve para ampliar o pensamento.
Esta mudança tem implicações importantes para quem educa. Escolher um livro não é apenas escolher um tema ou uma história. É escolher um conjunto de possibilidades de pensamento. Há livros que rapidamente encerram o diálogo, conduzindo-nos para uma resposta previsível. Outros permanecem abertos. Permitem que diferentes interpretações coexistam, se confrontem e se aprofundem.
Foi essa experiência que procurei proporcionar às pessoas participantes: viver, na primeira pessoa, uma leitura em que as perguntas pertencem à comunidade e não apenas a quem conduz a sessão.
Esta oficina dialoga directamente com um dos capítulos do meu livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, dedicado aos livros perguntadores. Nele proponho critérios para identificar este tipo de obras e reflicto sobre aquilo que as distingue: não são livros que oferecem respostas filosóficas, mas livros que criam condições para que o pensamento filosófico aconteça. O seu valor não está apenas no tema que abordam, mas na qualidade das perguntas que conseguem suscitar e na forma como sustentam um diálogo rico, plural e rigoroso.
Formar pessoa leitoras é também formar pessoas capazes de perguntar. Uma boa mediação da leitura começa, muitas vezes, por resistir à tentação de explicar demasiado cedo, de terminar as frases dos alunos e das alunas, de ter pressa para “chegar lá”.
Se este tema é do seu interesse, convido a subscrever a newsletter sobre livros perguntadores, que escrevo em conjunto com a Júlia Martins. Regularmente partilhamos uma curadoria comentada de álbuns ilustrados e outras obras que consideramos especialmente férteis para promover o diálogo filosófico, o pensamento crítico e a leitura em comunidade. É uma forma de continuar esta conversa para lá das oficinas e das formações, levando mais perguntas para escolas, bibliotecas, famílias e todos os lugares onde se lê em conjunto.
joana rita











