
Uma nota inicial: chamar “erros” talvez seja excessivo. Na verdade, falamos de um modo de reagir bastante humano.
Todos nós já respondemos demasiado depressa, mudámos de assunto ou tentámos encontrar uma resposta perfeita.
O problema não é fazê-lo ocasionalmente; é não percebermos como essas respostas podem, por vezes, fechar um diálogo que estava mesmo a começar.
1. Responder demasiado depressa
Às vezes a criança ainda a criança está a formular a pergunta ou o comentário e o adulto já avança com uma hipótese ou uma recusa para abordar o tema.
Escrevi sobre a importância de acolher as perguntas das crianças no artigo É normal uma criança perguntar tanto? onde exploro o papel da curiosidade no desenvolvimento do pensamento.
2. Pensar que todas as perguntas precisam de uma resposta
Recordo-me de uma ideia partilhada pela Ellen Duthie: há perguntas que são perguntas para a vida e que vão acompanhar-nos uma e outra vez.
Nem todas as perguntas precisam de uma resposta fechada, imediata e definitiva. Algumas precisam de tempo para serem contempladas. Outras precisam de silêncio para serem compreendidas. E há perguntas que, em vez de pedirem uma resposta, pedem outra pergunta.
Quando respondemos demasiado depressa, podemos impedir que a pergunta continue a fazer eco dentro de nós.
3. Confundir curiosidade com desafio
Há adultos que, quando ouvem uma criança perguntar “Porquê?”, sentem que a sua autoridade está a ser posta em causa. Porém, na maioria das vezes, não é isso que está a acontecer.
A criança não está necessariamente a contestar uma regra ou uma decisão; está a tentar compreender o mundo. Interpretar a curiosidade como desobediência pode levar-nos a interromper uma investigação que estava a dar os primeiros passos.
4. Dar respostas demasiado completas
É comum os adultos quererem muito dar respostas muito completas, como se fosse importante resolver definitivamente a questão naquele momento.
Queremos explicar tudo, fechar o assunto e evitar que a pergunta volte a surgir.
Uma boa conversa filosófica termina com uma compreensão mais profunda do problema e com novas perguntas. Ao tentarmos arrumar a pergunta de forma demasiado simplista, podemos retirar à criança a possibilidade de continuar a pensar sobre ela.
Esta atitude pode tornar-se um obstáculo à prática da humildade intelectual, isto é, à capacidade de reconhecer que o nosso conhecimento é limitado, que as nossas explicações podem ser provisórias e que uma pergunta pode merecer várias respostas possíveis ao longo da vida.
5. Corrigir antes de compreender
A criança diz qualquer coisa que nos soa a errado. Por exemplo, numa oficina uma das crianças afirmou que “Não posso dizer que a terra é redonda.” O que fiz foi perguntar: “Então, o que queres dizer com isso?”
Seria precipitado concluir que a criança está a defender que a terra é plana; e mesmo que fosse essa a sua ideia, nada como pedir esclarecimentos e solicitar as razões que fundamentam as suas ideias. Primeiro que tudo há que compreender o que a criança quer dizer.
6. Ter medo de dizer “Não sei”
Em tempos, um pai confessou-me que não era grande apreciador das várias perguntas que o filho lhe apresentava. Porquê?, perguntei eu. A resposta: “É que se eu não tenho a resposta, o que faço? Sou o pai, devia saber responder!”
Tal como acontece com este pai, há adultos sentem que devem ter uma resposta para todas as perguntas das crianças. Quando não a têm, receiam perder credibilidade.
No entanto, dizer “Não sei” pode ser uma excelente resposta, desde que não termine a conversa. Podemos ainda acrescentar: “Nunca tinha pensado nisso.”, “O que pensas tu?” ou “Como poderíamos investigar essa pergunta?”.
Ao reconhecer que também temos dúvidas, mostramos às crianças que pensar não consiste em saber tudo, mas em permanecer disponível para investigar.
7. Transformar todas as perguntas numa lição
Às vezes basta pensar, não é preciso moralizar.
Nem todas as perguntas precisam de terminar numa moral da história ou numa explicação sobre aquilo que está certo e aquilo que está errado.
Por vezes, basta explorar a pergunta. O simples facto de escutarmos diferentes perspectivas, procurarmos razões ou imaginarmos alternativas já constitui uma aprendizagem.
8. Valorizar apenas as perguntas “inteligentes”
Há perguntas que parecem profundas à primeira vista e outras que parecem demasiado simples. Mas nem sempre as mais interessantes são aquelas que soam mais filosóficas (seja lá o que isso for!)
A pergunta “Porque é que temos de arrumar os brinquedos?” pode abrir uma investigação sobre regras ou responsabilidade e até mesmo sobre justiça. Acolher uma pergunta é meio caminho andado para aprofundar o que nos parece simples.
9. Apressar o diálogo
Vivemos rodeados de horários, tarefas e interrupções. É natural sentirmos vontade de responder rapidamente e seguir em frente.
No entanto, o pensamento precisa de tempo. Algumas perguntas ganham profundidade quando lhes damos espaço para amadurecer, quando aceitamos alguns segundos de silêncio ou quando regressamos ao mesmo assunto dias mais tarde.
Nem todos os diálogos precisam de terminar no momento em que começaram.
10. Esquecer que a pergunta também é para nós
Quando uma criança pergunta, é fácil pensarmos que espera apenas uma resposta nossa — tal como referi no exemplo anterior, do pai que se afligia com as perguntas do filho.
Muitas perguntas que escuto nas oficinas acabam por me interpelar, por me convidar a pensar ou a voltar a pensar. Considero que tenho uma oportunidade para revisitar ideias, para reconhecer dúvidas e, por vezes, para descobrir que nunca tinha pensado verdadeiramente naquele assunto.
Julgo que essa é uma das maiores riquezas do diálogo filosófico: as perguntas das crianças não transformam apenas as crianças. Transformam também os adultos que aceitam pensar com elas.
joana rita
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O que pode uma pergunta? — uma reflexão sobre a curiosidade, a ignorância e o papel das perguntas no desenvolvimento do pensamento.
















