Um projecto português apresentado em Turim
As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais foram referidas na conferência da Association of Significant Cemeteries in Europe (ASCE), que decorreu em Turim, nos dias 18, 19 e 20 de Junho.
A referência surgiu durante a comunicação de Gisela Monteiro, investigadora cemiterial, intitulada Significant Stories (in) Significant Cemeteries: the role of tours in heritage awareness, dedicada ao papel das visitas e das actividades de mediação na valorização do património cemiterial.

Filosofia em contexto cemiterial
Desde 2024, as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais têm sido desenvolvidas regularmente nos Cemitérios de Lisboa, integrando a programação cultural municipal e convidando famílias, crianças, jovens e adultos a explorar questões humanas e filosóficas a partir do património, das histórias, dos símbolos e das experiências que habitam estes espaços.
Partindo de perguntas e de propostas lúdicas, as oficinas criam oportunidades para observar, perguntar, interpretar e dialogar em comunidade. Questões relacionadas com a memória, a identidade, o tempo, a perda, a justiça, o legado ou o significado da vida surgem naturalmente a partir da experiência do lugar, promovendo, em simultâneo, pensamento crítico, imaginação, sensibilidade estética e participação cultural.
Cada oficina nasce sempre do próprio espaço do cemitério. Os percursos são construídos a partir de elementos simbólicos, de sepulturas ou de jazigos específicos, em diálogo com as características históricas, patrimoniais e humanas de cada lugar.
Uma proposta singular em Portugal
As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais constituem, até ao momento, a única iniciativa em Portugal que desenvolve oficinas de filosofia em contexto cemiterial, dirigidas a crianças dos 7 aos 11 anos.
Partem do reconhecimento de que a morte surge espontaneamente nas perguntas das crianças e dos jovens, apesar de continuar a ser um tema frequentemente evitado pelos adultos. As oficinas procuram, por isso, criar um espaço seguro, rigoroso e sensível para o diálogo filosófico sobre a vida, a finitude, a memória, a presença e a ausência.
Nesta proposta, o cemitério não é entendido como um cenário provocatório, mas como um espaço simbólico, histórico e pedagógico, capaz de tornar concretas questões abstractas e de abrir novas possibilidades de pensamento a partir da experiência vivida no lugar.
Cada sessão integra ainda a participação de Gisela Monteiro, acrescentando uma dimensão de conhecimento especializado sobre os cemitérios enquanto espaços culturais, patrimoniais e de reflexão contemporânea. Esta colaboração enriquece o diálogo filosófico, oferecendo diferentes camadas de leitura sobre o património e as histórias que o habitam.
Pensar a vida a partir do património
As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais cruzam diferentes áreas de intervenção — filosofia para/com crianças e jovens, educação não formal, investigação cemiterial e mediação patrimonial — propondo o cemitério como ponto de partida para o pensamento colaborativo.
Falar da morte é uma das formas mais honestas de pensar a vida.
joana rita
📷 cedida por Gisela Monteiro

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