filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância
🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica. Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades. Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc). Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools. Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025).
Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C. Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»
No passado dia 5 de Julho realizou-se mais uma oficina de filosofia, para famílias, no MUZEU — pensamento e arte contemporânea dst. Desta vez, a pergunta orientadora foi: Temos todos de gostar do mesmo?
Observar, com vagar
A oficina começou no segundo piso do museu, diante de obras da colecção. Antes de falarmos sobre gostos, dedicámos algum tempo a observar. O desafio era simples e exigente: observar com atenção, reparar em pormenores e perceber o que cada obra despertava em nós.
Gostamos? Não gostamos? Como criamos o gosto?
No chão da Assembleia, o diálogo permitiu-nos pensar se o gosto é apenas uma preferência individual ou se também influenciado é pelas experiências que vivemos, pelas pessoas com quem convivemos, pela cultura em que crescemos e até pela disposição com que encontramos uma determinada obra, uma canção ou um alimento.
Filosofia nos museus: parar para observar
A educadora de museus Claire Bown tem defendido a importância do slow looking como uma forma de contrariar a tendência para ver muito e observar pouco. Quando desaceleramos o olhar, damos tempo para que a curiosidade, a imaginação e o pensamento se desenvolvam.
Também o gosto precisa desse tempo, do tempo de permanecer diante de uma obra, de suspender julgamentos imediatos e de descobrir que nem sempre gostamos — ou deixamos de gostar — à primeira vista.
Há dias em que é mais difícil controlar o tempo nas redes, quando há momentos de espera nas filas, por exemplo. Outras vezes acabo por fazer scroll quando ia procurar algo específico ao telemóvel, coisa que entretanto se desvaneceu como prioridade.
Não é fácil para uma pessoa adulta fazer esta gestão — não o será também para uma criança ou um jovem. A cientista Joana Gonçalves de Sá alerta-nos precisamente para esta questão no episódio do podcast NOVA Talks. Assim, temos todos de criar hábitos de higiene digital que nos protejam das artimanhas das plataformas desenhadas para captar e reter a nossa atenção
Apesar disso, continuo a encontrar nas redes sociais coisas que valem a pena: ideias que me fazem pensar, pessoas que me apresentam perspectivas diferentes, livros que passam a fazer parte da minha lista de leituras e projectos que talvez nunca encontrasse de outra forma.
Hoje partilho três coisas que encontrei através das redes sociais e que me fizeram aprender e pensar.
Sobre o discurso de ódio online
O blog de Jorge Borges é uma referência para mim, há muitos anos. Destaco hoje um artigo sobre o discurso de ódio online, tendo por base o manual do projeto COOPERHATE. Pode ler o artigo no blog ou escutar no spotify.
O que têm as crianças e os jovens a dizer sobre a escola?
No podcast Falta de Educação, Catarina Cerqueira conversa com crianças sobre a escola. Conheci este projecto através do LinkedIn e fiquei imediatamente curiosa.
Vale a pena escutar este episódio com Rafael Triães, aluno do ensino secundário, sobre a forma como se envolveu na resolução de problemas na sua escola.
Frango, gelado e autonomia
A Marisa tem lançado desafios ao seu filho no sentido de treinar a sua autonomia e independência. Assim, de vez em quando pede-lhe para fazer alguns recados sozinho. Eis o resultado de um processo que inclui pequenos passos:
Uma das coisas que mais me tem chamado a atenção é precisamente o facto de a investigação não ser unânime. Há estudos que identificam associações entre determinados padrões de utilização das redes sociais e problemas de saúde mental, sobretudo quando existe uso problemático, comparação social intensa ou privação de sono. Outros investigadores lembram que a relação é muito mais complexa e que factores como o contexto familiar, a personalidade, a qualidade das relações e as vulnerabilidades prévias também contam.
Pensar sobre este tema exige, por isso, mais do que opiniões rápidas. Exige tempo para ler, comparar argumentos e fazer boas perguntas.
Se também têm curiosidade sobre este assunto, deixo algumas leituras que considero um bom ponto de partida.
Não posso deixar de referir o sobejamente conhecido livro de Haidt, A Geração Ansiosa. O autor defende que a infância mudou profundamente com a generalização dos smartphones e das redes sociais. Segundo Haidt, as crianças têm hoje menos oportunidades para brincar livremente, explorar o mundo e desenvolver a sua autonomia, passando mais tempo em ambientes digitais. Esta mudança estará associada ao aumento da ansiedade, da depressão e de outros problemas de saúde mental entre os jovens. Haidt propõe adiar o acesso aos smartphones e às redes sociais e criar mais oportunidades para brincadeira livre, relações presenciais e independência.
Vários investigadores, como Amy Orben, Candice Odgers e Andrew Przybylski, consideram que Haidt simplifica uma realidade muito mais complexa. Argumentam que a investigação ainda não demonstra uma relação causal clara entre redes sociais e problemas de saúde mental e que os efeitos variam consoante o contexto, a pessoa e a forma como as tecnologias são utilizadas. Defendem, por isso, uma leitura mais prudente da evidência científica.
Apesar das divergências, existe algum consenso em torno de várias ideias. O uso problemático ou compulsivo das redes sociais pode ter consequências negativas, sobretudo quando interfere com o sono, a atenção, as relações presenciais e outras actividades importantes. Também parece claro que crianças e jovens (e adultos!) beneficiam de mais tempo para brincar, conviver presencialmente, desenvolver autonomia e aprender a utilizar as tecnologias de forma crítica e equilibrada. O desafio não é apenas tecnológico; é também educativo, familiar e social.
Seguem algumas sugestões de leitura:
— Amy Orben et al. (2024) – Mechanisms linking social media use to adolescent mental health vulnerability Uma excelente revisão publicada na Nature Reviews Psychology. Em vez de perguntar simplesmente se as redes sociais fazem “bem” ou “mal”, procura compreender em que condições, para quem e através de que mecanismos podem existir impactos positivos ou negativos. Nature Reviews Psychology – artigo
— Amy Orben (2020) – Teenagers, screens and social media: a narrative review of reviews and key studies Um texto muito acessível que mostra como a evidência científica é frequentemente mais matizada do que o debate público faz parecer. Springer Open Access – artigo
— Fassi et al. (2024) – Meta-análise publicada na JAMA Pediatrics Analisou 143 estudos e conclui que existe uma associação entre utilização das redes sociais e sintomas internalizantes (como ansiedade e depressão), mas também evidencia as limitações metodológicas da investigação disponível e a necessidade de estudos de melhor qualidade. JAMA Pediatrics – artigo
— Alfredson et al. (2024) – Revisão sistemática Uma revisão que analisa como os estudos medem o uso das redes sociais e mostra que os resultados dependem muito daquilo que é efectivamente medido: tempo de utilização, uso compulsivo, tipo de actividades, entre outros aspectos. PubMed – artigo
As redes sociais são um espaço que exige discernimento. E o discernimento cultiva-se lendo, dialogando e escolhendo melhor aquilo a que damos atenção.
joana rita
(artigo publicado a 15 de Julho e actualizado com algumas referências a 17 de Julho).
Em vez de começarmos por perguntar “o que é que este livro ensina?”, experimentámos outra pergunta: “que perguntas torna este livro possíveis?”
A diferença parece pequena, mas muda profundamente a forma como lemos.
Ao longo da oficina, formulámos perguntas e dialogámos sobre elas, sem pressa para chegar a uma conclusão. Procurámos criar as condições para que o pensamento pudesse acontecer em conjunto.
Quando um livro se transforma num espaço de investigação, a leitura deixa de ser apenas um exercício de compreensão. Passa a ser uma experiência de atenção, de imaginação e de encontro. A pergunta deixa de servir apenas para verificar se alguém compreendeu o texto e serve para ampliar o pensamento.
Esta mudança tem implicações importantes para quem educa. Escolher um livro não é apenas escolher um tema ou uma história. É escolher um conjunto de possibilidades de pensamento. Há livros que rapidamente encerram o diálogo, conduzindo-nos para uma resposta previsível. Outros permanecem abertos. Permitem que diferentes interpretações coexistam, se confrontem e se aprofundem.
Foi essa experiência que procurei proporcionar às pessoas participantes: viver, na primeira pessoa, uma leitura em que as perguntas pertencem à comunidade e não apenas a quem conduz a sessão.
Esta oficina dialoga directamente com um dos capítulos do meu livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, dedicado aos livros perguntadores. Nele proponho critérios para identificar este tipo de obras e reflicto sobre aquilo que as distingue: não são livros que oferecem respostas filosóficas, mas livros que criam condições para que o pensamento filosófico aconteça. O seu valor não está apenas no tema que abordam, mas na qualidade das perguntas que conseguem suscitar e na forma como sustentam um diálogo rico, plural e rigoroso.
Formar pessoa leitoras é também formar pessoas capazes de perguntar. Uma boa mediação da leitura começa, muitas vezes, por resistir à tentação de explicar demasiado cedo, de terminar as frases dos alunos e das alunas, de ter pressa para “chegar lá”.
Se este tema é do seu interesse, convido a subscrever a newsletter sobre livros perguntadores, que escrevo em conjunto com a Júlia Martins. Regularmente partilhamos uma curadoria comentada de álbuns ilustrados e outras obras que consideramos especialmente férteis para promover o diálogo filosófico, o pensamento crítico e a leitura em comunidade. É uma forma de continuar esta conversa para lá das oficinas e das formações, levando mais perguntas para escolas, bibliotecas, famílias e todos os lugares onde se lê em conjunto.
No MUZEU — pensamento e arte contemporânea dst, a oficina teve início junto à galeria de fotografias de Alfredo Cunha, onde se encontram alguns dos rostos da cultura portuguesa que ousaram pensar, dizer e agir.
Uma vez no chão da Assembleia, as famílias foram convidadas a partilhar os pensamentos que a pergunta da oficina podia provocar. Tal como numa corrida, numa oficina de filosofia não começamos logo a correr. Começamos por andar, para compreender o ritmo de cada pessoa e para iniciar o treino da escuta e do pensar em voz alta. Este momento funciona como uma espécie de aquecimento.
Pensar em movimento
Depois desse aquecimento, partimos para uma caminhada colaborativa, orientados pelas ideias “sou livre quando…” e “não sou livre quando…”. O jogo consistia em arrumar ideias nessas duas categorias, justificando e dando exemplos.
Dar razões e justificar, assim como dar exemplos, são ferramentas que nos permitem trabalhar o pensamento crítico. Permitem tornar o pensamento mais claro e mais rigoroso. Ao explicar porque pensamos de determinada maneira, abrimos aos outros a possibilidade de compreender, questionar, concordar ou discordar das nossas ideias.
Entre o “sou” e o “não sou”
Ao longo da caminhada, surgiram exemplos ligados à escola, à vida familiar, ao campo profissional, às amizades e até aos pensamentos que guardamos apenas para nós.
“Sou livre quando não estou com os meus pais” — disse uma das crianças. No final, uma das mães segredou que “a liberdade dos pais acaba quando têm filhos”. Com humor e, simultaneamente, com seriedade, fomos caminhando pela floresta dos nossos pensamentos.
A oficina terminou com um convite para pensar e avaliar o que tinha acontecido ao nosso próprio pensamento.
“Em pleno inverno, descobri que havia, dentro de mim, um verão invencível.” (Albert Camus)
O leitor de Neblina é surpreendido com este pensamento de Albert Camus nas guardas iniciais deste magnifico livro. Parei. Pensei e sussurrei a mim própria… este livro promete!
Neblina é uma narrativa simples, mas não simplista, dirigida a leitores jovens e todos nós. É um livro por camadas de significado que se prestam a um trabalho de reflexão mais profundo.
Tomé, que vive algo que descreve como uma “neblina densa a crescer dentro de si” — um sentimento vago, difícil de nomear, que o confunde, inquieta e obriga a olhar para dentro de si mesmo. O simbolismo de neblina é o ponto chave deste precioso livro l – como nas nuvens baixas que encobrem paisagens, certos estados emocionais podem turvar a nossa perceção do mundo e de nós próprios.
A neblina torna-se uma forma de perguntar: o que é estar confuso? O que é sentir algo sem conseguir dar um nome claro?
E aqui começam a surgir perguntas, muitas perguntas:
– Sabemos o que sentimos? – O que significa sentir? – O que são os sentimentos? – Como nos relacionamos com aquilo que ainda não conseguimos compreender? – É possível compreender plenamente aquilo que vai na nossa mente e no nosso coração? – A linguagem limita ou liberta a nossa capacidade de pensar?
– Deveremos acolher o que é desagradável?
A leitura deste livro, da autoria de Carolina Branco e Marta Oliveira Silva, poderá conduzir o leitor a uma epistemologia afetiva – a investigação sobre como conhecemos as nossas emoções e como este conhecimento influencia as nossas decisões e relações sociais.
Se a Neblina pode ser acolhida e ouvida, então há uma abordagem filosófica fundamental: a de que compreender as emoções não é apenas um ato psicológico, mas um ato ético e existencial, que molda a forma como nos relacionamos com os outros e com nós mesmos.
Um projecto nascido entre a filosofia e a criatividade
A filocriatividade nasce da vontade de criar espaços onde a filosofia possa acontecer de forma viva, próxima e acessível.
O projecto parte da Filosofia para/com Crianças e Jovens e cruza-a com práticas de criatividade, nomeadamente as propostas desenvolvidas por Edward de Bono e Ellen Duthie. O ponto de encontro está na curiosidade, na pergunta, na imaginação e na possibilidade de olhar para o mundo a partir de diferentes perspectivas.
Pensar não se reduz a procurar respostas; pensar passa também por aprender a formular melhores perguntas, a escutar diferentes ideias e a construir pensamento em conjunto.
Dois eixos de trabalho: formação e oficinas para filosofar em comunidade
A filocriatividade desenvolve-se em dois grandes eixos.
Por um lado, existe um trabalho de formação dirigido a professores, educadores, mediadores e outras pessoas adultas interessadas em criar espaços de diálogo e pensamento. Estas formações exploram ferramentas e metodologias que permitem levar a filosofia e a criatividade para diferentes contextos educativos e comunitários.
Por outro lado, crio e dinamizo oficinas de filosofia para/com crianças e jovens, famílias e grupos intergeracionais. São encontros onde histórias, imagens, jogos, objectos, lugares ou situações do quotidiano podem ser o ponto de partida para pensar em conjunto.
Cada oficina é um convite a parar, observar, perguntar, escutar e dialogar.
Um projecto com muitos quilómetros e muitas perguntas
Ao longo do seu percurso, a filocriatividade já realizou 21.026 oficinas, envolvendo 46.012 participantes.
De Norte a Sul do país, passando pelas ilhas, o projecto chegou a diferentes comunidades e contextos. Também atravessou fronteiras, com experiências e colaborações em Moçambique e, mais recentemente, com a possibilidade de trabalhar à distância, criada pela pandemia, que abriu portas para encontros com outros países, como São Tomé e Príncipe, Roménia e Brasil.
A filosofia pode acontecer em muitos lugares
A filocriatividade acontece onde houver espaço e tempo para pensar.
Ao longo dos anos, as oficinas chegaram a bibliotecas escolares e municipais, museus (MUZEU, MIAA, Museu do Mar Rei D. Carlos I), teatros, associações culturais, festivais de filosofia (Festival de Filosofia de Abrantes, ESPANTO), festivais literários, cemitérios e empresas.
Trabalhar filosofia em diferentes lugares significa também reconhecer que o pensamento não pertence apenas às salas de aula. Pode acontecer num museu diante de uma obra, numa biblioteca a partir de uma história, num cemitério perante as grandes perguntas da existência ou numa empresa quando é necessário pensar em conjunto.
Criar condições para pensar
Filosofar é uma prática que se aprende e se cultiva.
Como?
Dando tempo às perguntas.
Experimentando o diálogo como ferramenta de descoberta.
O foco não passa por transmitir conteúdos da História da Filosofia, mas sim de criar condições para que crianças, jovens e pessoas adultas possam pensar de modo mais claro e lúdico.
Uma pergunta pode ser o início de muitas possibilidades.
Nota: este texto serviu de orientação à minha participação na mesa-redonda das 2.ªs Jornadas Arte e Educação, promovidas pela Arte Central, no dia 3 de Julho de 2026.
A referência surgiu durante a comunicação de Gisela Monteiro, investigadora cemiterial, intitulada Significant Stories (in) Significant Cemeteries: the role of tours in heritage awareness, dedicada ao papel das visitas e das actividades de mediação na valorização do património cemiterial.
Filosofia em contexto cemiterial
Desde 2024, as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais têm sido desenvolvidas regularmente nos Cemitérios de Lisboa, integrando a programação cultural municipal e convidando famílias, crianças, jovens e adultos a explorar questões humanas e filosóficas a partir do património, das histórias, dos símbolos e das experiências que habitam estes espaços.
Partindo de perguntas e de propostas lúdicas, as oficinas criam oportunidades para observar, perguntar, interpretar e dialogar em comunidade. Questões relacionadas com a memória, a identidade, o tempo, a perda, a justiça, o legado ou o significado da vida surgem naturalmente a partir da experiência do lugar, promovendo, em simultâneo, pensamento crítico, imaginação, sensibilidade estética e participação cultural.
Cada oficina nasce sempre do próprio espaço do cemitério. Os percursos são construídos a partir de elementos simbólicos, de sepulturas ou de jazigos específicos, em diálogo com as características históricas, patrimoniais e humanas de cada lugar.
Uma proposta singular em Portugal
As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais constituem, até ao momento, a única iniciativa em Portugal que desenvolve oficinas de filosofia em contexto cemiterial, dirigidas a crianças dos 7 aos 11 anos.
Partem do reconhecimento de que a morte surge espontaneamente nas perguntas das crianças e dos jovens, apesar de continuar a ser um tema frequentemente evitado pelos adultos. As oficinas procuram, por isso, criar um espaço seguro, rigoroso e sensível para o diálogo filosófico sobre a vida, a finitude, a memória, a presença e a ausência.
Nesta proposta, o cemitério não é entendido como um cenário provocatório, mas como um espaço simbólico, histórico e pedagógico, capaz de tornar concretas questões abstractas e de abrir novas possibilidades de pensamento a partir da experiência vivida no lugar.
Cada sessão integra ainda a participação de Gisela Monteiro, acrescentando uma dimensão de conhecimento especializado sobre os cemitérios enquanto espaços culturais, patrimoniais e de reflexão contemporânea. Esta colaboração enriquece o diálogo filosófico, oferecendo diferentes camadas de leitura sobre o património e as histórias que o habitam.
Pensar a vida a partir do património
As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais cruzam diferentes áreas de intervenção — filosofia para/com crianças e jovens, educação não formal, investigação cemiterial e mediação patrimonial — propondo o cemitério como ponto de partida para o pensamento colaborativo.
Falar da morte é uma das formas mais honestas de pensar a vida.
Entre 13 e 28 de Junho, Cascais voltou a ser lugar de encontro para perguntas, ideias e conversas com a segunda edição do ESPANTO — Festival Internacional de Filosofia. Mas, para contar esta história, é preciso começar antes dos dias 25, 26, 27 e 28 de Junho.
O festival não começou quando se abriram as portas dos grandes espaços culturais. Começou mais cedo, nos bairros, nas ruas e nos lugares onde a filosofia encontra pessoas de todas as idades.
Antes dos grandes nomes, chegaram as perguntas
Nos dias 13 e 14 de Junho, o ESPANTO levou a filosofia a diferentes comunidades de Cascais, numa programação descentralizada que passou pelo Bairro Novo do Pinhal/Galiza, Cabeço de Mouro e Alcoitão.
Foram dias em que a filosofia aconteceu perto das pessoas: através de conversas, oficinas, momentos de partilha e actividades pensadas para diferentes públicos. Houve espaço para pensar o tema desta edição — o Desejo — a partir de diferentes perspectivas: o que desejamos? De onde vêm os nossos desejos? Será possível viver sem desejar? Um desejo é mais interessante do que um sapato?
A filosofia deixou de ser apenas uma actividade associada aos livros, às universidades ou às salas de conferências e tornou-se uma prática de encontro.
Levar a filosofia onde estão as pessoas
Um dos aspectos mais marcantes do ESPANTO é precisamente este movimento: em vez de esperar que as pessoas procurem a filosofia, a filosofia vai ao encontro das pessoas.
A programação nos bairros mostrou que pensar não é um exercício reservado a especialistas. Uma pergunta pode nascer numa conversa entre vizinhos, numa oficina com crianças ou num momento de partilha entre gerações.
Através das oficinas filosóficas, as crianças foram convidadas a observar, perguntar e construir ideias em conjunto sobre o tema do desejo.
Do bairro para a cidade
Depois dos primeiros encontros, o ESPANTO ganhou outra dimensão nos dias 25 a 28 de Junho, ocupando vários espaços culturais de Cascais com conferências, conversas, performances e encontros com pensadores nacionais e internacionais.
O festival espalhou-se pela cidade, criando diferentes lugares de pensamento. Houve vários pontos de encontro onde o público pôde aproximar-se da filosofia através de diferentes linguagens.
Esta é uma das forças do ESPANTO: juntar a reflexão mais aprofundada com uma dimensão pública e acessível, criando pontes entre diferentes experiências e formas de conhecimento.
Um tema, muitas perguntas
O Desejo foi o fio condutor desta edição e mostrou-se um tema inesgotável.
Falou-se do desejo como impulso, como falta, como motor de transformação, mas também como algo que levanta dilemas: desejamos aquilo que escolhemos? Ou aquilo que nos ensinaram a desejar? O desejo aproxima-nos dos outros ou torna-nos mais centrados em nós próprios?
Ao longo do festival, estas questões apareceram em diferentes formatos e para diferentes públicos. Das conversas mais conceptuais às propostas para crianças, o ESPANTO mostrou que uma mesma pergunta abre diversos caminhos.
Pensar também é reconhecer quem pensa connosco
Nesta edição, o ESPANTO prestou homenagem a Viriato Soromenho-Marques, reconhecendo o contributo de uma das vozes mais relevantes do pensamento contemporâneo em Portugal.
Filósofo, professor e ensaísta, Viriato Soromenho-Marques tem desenvolvido um trabalho marcado pela reflexão sobre ética, cidadania, ambiente e os desafios das sociedades contemporâneas. A sua intervenção pública tem cruzado a filosofia com as grandes questões do presente, lembrando que pensar é também assumir responsabilidade perante o mundo.
A homenagem integrou uma das dimensões centrais do festival: a valorização do pensamento como prática viva, feita de diálogo, de participação e de compromisso com a realidade.
Um festival feito de encontros
Na sua segunda edição, o ESPANTO afirmou-se como um convite a pensar em conjunto.
Entre 13 e 28 de Junho, a filosofia ocupou bairros, espaços culturais e lugares de encontro. Houve conferências e oficinas, especialistas e pessoas curiosas, entre adultos e crianças. Houve, sobretudo, tempo para aquilo que muitas vezes falta no quotidiano: parar, pensar, escutar e dialogar.
O ESPANTO mostrou que a filosofia pode acontecer em muitos lugares e com muitas pessoas. Ao longo de duas semanas, Cascais transformou-se num espaço onde as perguntas ganharam lugar público — e onde pensar em conjunto foi a principal forma de encontro.
Vamos pensar sobre a humanidade? — este foi o desafio lançado a um grupo de famílias numa Biblioteca Municipal. Escolhemos uma pergunta para investigar em conjunto.
Embora a pergunta inicial estivesse pensada para abordar a temática dos direitos humanos, uma criança trouxe uma interpretação diferente da palavra “direitos”. Em vez de pensar em direitos universais ou leis, começou a falar “daquilo a que cada pessoa tem direito” em função da sua idade e das suas necessidades.
“Um bebé tem direito a um berço”, dizia. “Tem direito a que lhe mudem a fralda.” Mas uma criança de nove anos já não teria esses mesmos direitos, porque precisaria de outras coisas.
Do direito às necessidades: um desvio que mantém o horizonte filosófico
O diálogo movimentou-se então para uma reflexão sobre cuidado, dependência e adequação. Os direitos deixaram de aparecer como algo fixo e igual em todas as situações e passaram a ser pensados em relação às necessidades concretas de cada pessoa, ao longo da sua vida.
Esta mudança abriu um caminho filosófico inesperado: será que ter direitos significa receber exatamente as mesmas coisas? Ou significa ter acesso ao que precisamos em cada momento da vida?
A infância, a velhice e o retorno das necessidades
Fomos avançando na idade, de bebé a idoso, para ver de que modo as necessidades se alteravam ou se mantinham. Quando já somos velhos, voltamos a ter direito a algumas coisas que associamos aos bebés: por vezes precisamos que nos mudem a fralda, voltamos a ter algo parecido com um berço (uma cama com grades). No fim da vida há ainda o direito a ter um caixão.
A partir das ideias da criança, o grupo começou a distinguir igualdade de uniformidade, aflorando a ideia de que tratar todos de forma justa nem sempre implica tratar todos da mesma maneira.
Há uns meses, o meu amigo Pieter Mostert apresentou-me um livro surpreendente, redigido algures entre 1829 e 1833, numa altura em que não se falava em filosofia para/com crianças.
Jacob Abbott publica no início do século XIX uma obra singular: The Little Philosopher, um livro que transforma a observação do quotidiano num exercício sistemático de pensamento.
Um livro de filosofia para crianças antes de existir “filosofia para crianças”
Escrito em forma de diálogo entre uma mãe e crianças, o livro organiza uma sequência de perguntas e respostas que partem de objectos e fenómenos simples — a dureza de uma mesa, a suavidade de uma almofada, o frio, a água, a luz — para explorar questões mais abstractas sobre natureza, causa, diferença e explicação.
A proposta de Abbott não passa por apresentar filosofia em sentido académico, mas sim por desenvolver uma disposição para a investigação.
Pensar a partir da experiência quotidiana
A proposta de Abbott não é ensinar filosofia no sentido académico, mas desenvolver uma disposição para a investigação filosófica.
As crianças são convidadas a:
observar o mundo com atenção;
comparar situações;
imaginar alternativas;
formular hipóteses explicativas.
O pensamento surge, assim, não como um exercício distante ou especializado, mas como algo enraizado na experiência sensível e na curiosidade quotidiana.
O papel do adulto como co-investigador
The old idea of a teacher’s trying to keep up before his pupils the character of infability, is now exploded. all good teachers, and all wise parents, are willing freely to acknowledge their ignorance, and to engage with their pupils on the understanding, that they are themselves learners too, though in a somewhat advanced stage. When a child brings to is parent or teacher any difficult or perplexing question, “I don’t know, but I will help you find out,” is the best answer, and the pleasantest for all parties, which can be given. They then, teacher and pupil, occupy common ground — there is sympathy between them, — the child is encouraged by observing that his father is a learner, as well as himself, and is led on to patience and perseverance, by observing that his father patiently perseveres.
Jacob Abbott, The Little Philosopher, 1833
Esta passagem é particularmente relevante, uma vez que antecipa uma ideia central da educação contemporânea: o adulto como co-investigador, e não como autoridade absoluta do conhecimento.
Do concreto ao abstracto: um método pedagógico
Num dos movimentos mais característicos do livro, uma pergunta concreta (“porque é que existem materiais diferentes?”) abre espaço para explorações hipotéticas (“o que aconteceria se tudo fosse duro?”). Este encadeamento mostra um método pedagógico baseado na progressão entre o concreto e o abstracto, típico da pedagogia intuitiva do século XIX.
Historicamente, The Little Philosopher insere-se num contexto mais amplo de educação baseada na observação e nos chamados “object lessons”, influenciados por tradições pedagógicas como as de Johann Heinrich Pestalozzi. No entanto, Abbott distingue-se por levar essa lógica para um território mais especulativo, aproximando-se de formas precoces de investigação conceptual.
Um precursor da filosofia para crianças?
Embora profundamente marcado pelo seu tempo — com uma forte orientação adulta e um tom didáctico — o livro antecipa preocupações que hoje associamos à filosofia para crianças, filosofia com crianças e as demais práticas de diálogo filosófico na educação:
o valor da curiosidade;
o papel das perguntas;
a centralidade da experiência comum;
a construção colectiva de sentido.
Pensar não depende da idade
Lido hoje, The Little Philosopher permite repensar a relação entre infância, educação e pensamento filosófico, sugerindo que a capacidade de questionar o mundo não depende da idade, mas da atenção, da linguagem e das condições que criamos para pensar em conjunto.
joana rita
(*) The Little Philosopher é uma obra de Jacob Abbott, publicada originalmente por volta de 1829 sob o pseudónimo “Erodore”. Saiba mais sobre a obra neste link.
A equipa da agência The Square acolheu a oficina Era uma vez uma pergunta — a arte de fazer perguntas aplicada ao quotidiano.
No contexto profissional muitas decisões, conflitos e falhas de comunicação não resultam da falta de respostas, mas de perguntas mal formuladas, implícitas ou nunca feitas.
As pessoas participantes foram convidadas a pensar como diferentes tipos de perguntas abrem (ou fecham) possibilidades de compreensão, de decisão e de comunicação, desenvolvendo maior consciência sobre o modo como pensam, comunicam e perguntam.
Sim, a filocriatividade também desenvolve oficinas em contexto empresarial.
Este trabalho nasce de um percurso de investigação e prática na área da Filosofia Aplicada. Em 2012, defendi uma dissertação de mestrado dedicada ao papel do filósofo no contexto empresarial e organizacional — Da Filosofia Aplicada às necessidades filosóficas das pessoas, nas empresas e organizações — justificação do papel do consultor filosófico — procurando compreender de que modo as competências filosóficas, nomeadamente o questionamento, podem contribuir para a vida das organizações.
Mais de uma década depois, esta investigação continua a orientar uma convicção central: as organizações são também espaços de pensamento. Pensar melhor começa, muitas vezes, por aprender a perguntar melhor.
O arranque do Festival ESPANTO convidou crianças e adultos a reflectir sobre os seus desejos, os desejos dos outros e a vida em comum.
Três bairros, muitas perguntas e um mesmo tema: o desejo como ponto de encontro
Nos passados dias 13 e 14 de Junho teve início a 2.ª edição do Festival Internacional de Filosofia – ESPANTO, dedicado ao tema do desejo.
Os trabalhos aconteceram em três bairros do concelho de Cascais: Pinhal Novo/Galiza, Cabeço de Mouro e Alcoitão. As comunicações de David Erlich, Inês Bolinhas e Sofia A. Carvalho, bem como as oficinas de filosofia para crianças, foram recebidas pelas comunidades, nas ludotecas dos bairros.
Na manhã de sábado tivemos oportunidade de dialogar em torno de uma pergunta: É possível parar de desejar? Como lidar com vários desejos? E o que se faz quando um desejo se realiza — dedicamo-nos a outro? Pelo meio partilhámos os nossos desejos e pensámos: será que é um desejo fácil ou difícil de concretizar?
A oficina da tarde girou em torno de desejos que não são nossos: será que conseguimos pensar porque é que esses desejos são importantes para quem os deseja? E o que fazer quando o desejo de alguém pode prejudicar-nos? O que fazer perante “as pessoas importantes” que são “gananciosas” e que querem mais e mais?
A manhã de domingo permitiu-nos jogar ao Quantos Queres?, não sem antes partilharmos os nossos desejos. Quando dialogamos com outras pessoas sobre os nossos desejos descobrimos que frequentemente não somos as únicas pessoas a desejar “isto” ou “aquilo”.
Entre pensamento e prática: o desejo em experiências para todas as idades
O Festival ESPANTO prossegue entre os dias 25 e 28 de junho com uma programação diversificada que inclui palestras, conversas, debates, performances e actividades para diferentes públicos.
Merece especial destaque a Ágora Filosofia para Crianças, nos jardins da Casa das Histórias Paula Rego, com propostas pensadas para famílias e jovens participantes.
No dia 27 de junho, será possível assistir ao conto encenado O Macaco do Rabo Cortado, participar na conversa De que Cor é um Desejo?, com João Pedro Mésseder, e integrar o #ClubedePerguntas sobre o Desejo, uma comunidade de investigação filosófica para famílias com crianças entre os 6 e os 10 anos. No dia 28 de Junho o Bruno Batista vai contar-nos histórias.
Entre actividades de acesso livre e eventos sujeitos a bilhete, a programação convida todas as idades a continuar a pensar, dialogar e espantar-se com o tema do desejo. Consulte a agenda completa em Festival ESPANTO.
No final de uma das oficinas de filosofia que dinamizei em janeiro de 2026, com uma turma do 8.º ano, propus um exercício simples de avaliação: destacar um aspecto positivo e um aspecto negativo do encontro, com justificação.
As respostas dos jovens abriram um campo de reflexão que continua a acompanhar-me, e que pode ser relevante para quem trabalha com filosofia para crianças e jovens, educação para o pensamento crítico ou dinamização de diálogos em contexto educativo.
Escutar os outros vs. ser contrariado
Um dos alunos referiu:
“Gostei de termos tido oportunidade de dar as nossas ideias, porque foi bom escutar as ideias uns dos outros.”
Logo depois, outro contrapôs:
“Eu não gostei de ser contrariado.”
Quando lhe pedi que explicasse, clarificou:
“Não gostei que contrariassem as minhas ideias.”
Este contraste revela uma tensão central em qualquer prática de diálogo filosófico: até que ponto estamos disponíveis para expor as nossas ideias ao confronto?
E mais ainda, como é que os jovens interpretam esse confronto — como ameaça ou como oportunidade de pensamento?
Quando uma oficina se confunde com um debate
Outro aluno, bastante participativo, levantou uma crítica diferente:
“Não gostei porque isto não foi mesmo um debate. Não deste o mesmo tempo a cada um de nós e tu falaste mais.”
A observação levou-me a questionar:
De onde vem a expectativa de que uma atividade destas seja um debate?
O que entendem os alunos por “debate”?
Que modelos estão a influenciar esta percepção?
A resposta não foi dada explicitamente; avanço com uma hipótese: os debates televisivos, especialmente em contexto eleitoral, onde o tempo é cronometrado e constantemente regulado.
A importância de preparar o grupo para o diálogo filosófico
Esta situação evidenciou um problema recorrente nas oficinas pontuais de filosofia: a ausência de preparação prévia dos grupos.
Preparar não significa algo complexo. Pode passar por:
Informar que haverá uma oficina de filosofia
Explicar que será um espaço de diálogo a partir de uma pergunta
Clarificar o papel de quem dinamiza
Sempre que possível, envolver os alunos na escolha do tema
Com frequência, encontro grupos que:
Não sabem que vão ter uma actividade (sobretudo quando a oficina acontece na escola)
Não têm qualquer enquadramento sobre o que é filosofia
Não foram convidados a participar na definição do tema
Por isso, uma das minhas primeiras estratégias é simples: perguntar diretamente ao grupo o que sabem (ou pensam) sobre o que vai acontecer.
Debate vs diálogo: qual é a diferença?
Na oficina, esclareci que o objectivo não era realizar um debate, mas sim um diálogo filosófico.
A diferença é mais do que uma questão de terminologia:
No debate tende a haver:
Distribuição rígida do tempo
Foco na defesa de posições
Estrutura competitiva
No diálogo procuramos:
Distribuir a palavra com flexibilidade
Clarificar ideias
Pensar em conjunto
Valorizar a qualidade das intervenções, mais do que a sua duração
Quando pensamos em voz alta, é natural que algumas intervenções sejam mais longas, não por privilégio, mas por necessidade de tornar o pensamento compreensível.
Interrupções, pressa e escuta: obstáculos ao pensamento
Durante a sessão, houve um padrão claro: interrupções constantes.
Os alunos interrompiam-se entre si
Interrompiam também a facilitação
Falavam frequentemente uns por cima dos outros
A justificação dada foi directa:
“Nós estamos a ouvir e queremos logo dizer alguma coisa sobre isso.”
Este impulso é compreensível — mas levanta uma questão pedagógica central:
Estamos a ensinar os alunos a escutar ou apenas a reagir?
A pressa em responder pode ser um reflexo dos modelos mediáticos que consomem, onde o confronto rápido substitui a construção de pensamento.
Num momento da oficina, ao tentar explicar como as interrupções prejudicam o diálogo, fui novamente interrompida. Parei e apontei:
“Vês? Está a acontecer de novo. Alguém está a falar e tu não esperas. Como consequência, não conseguimos escutar-nos.”
Este tipo de meta-reflexão em tempo real é, muitas vezes, tão importante quanto o tema discutido.
O papel da pessoa facilitadora no diálogo filosófico
Reconheço que, nesta oficina, falei mais do que os alunos em determinados momentos.
Isso aconteceu porque foi necessário:
Fazer pontos de situação
Retomar o fio do diálogo
Introduzir conceitos (como argumento ou viés de confirmação)
Criar condições para que o grupo pudesse avançar
Sem cronómetro, é possível que o tempo de fala não tenha sido equilibrado. Mas a questão central permanece:
Devemos medir o tempo de fala ou a qualidade do pensamento produzido?
Devemos evitar debates?
Recentemente, voltei a um texto que defendia que os debates deveriam ser evitados em contexto educativo.
Não tenho ainda uma resposta fechada.
A experiência desta oficina reforçou o questionamento que me acompanha:
Devemos evitar debates? Precisamos de modelar ou ensinar melhor a diferença entre debater e dialogar?
Nem sempre temos tempo e disponibilidade para parar, pensar e perguntar sobre dilemas. Durante o ano lectivo 2025/2026, o Instituto Politécnico de Leiria contemplou na sua programação cultural convites à prática do pensar em conjunto, dirigidos à sua comunidade académica.
Arte, ambiente e responsabilidade colectiva
Um dos encontros partiu da exposição “Mergulho no futuro: o mar que queremos preservar”, de Nuno Vasco Rodrigues, patente na Escola Superior de Turismo e Tecnologia do Mar, em Peniche. A partir das fotografias subaquáticas do autor, o diálogo centrou-se na questão: “Poluição marinha e alterações climáticas: que diferença faz a arte?”
As imagens — simultaneamente belas e inquietantes, além de cientificamente informadas — abriram caminho para pensar a relação entre emoção, conhecimento e acção. Será que ver muda a forma como agimos? Pode uma fotografia alterar a nossa relação com o oceano? A arte tem responsabilidade ecológica? E fará diferença sensibilizar pessoas através da experiência estética, quando tantos dados científicos sobre as alterações climáticas já circulam diariamente?
A própria exposição propunha esse cruzamento entre arte, ciência e conservação ambiental, convidando o público a olhar para o oceano não apenas como paisagem, mas como espaço de vulnerabilidade e responsabilidade colectiva.
Entre a estética e a vida contemporânea
Na Escola Superior de Artes e Design os dilemas trabalhados tiveram como base a arte. A partir de propostas problemáticas, as pessoas da turma participante em torno da utilidade da arte, da separação entre obra e artista, entre outras.
As conversas aproximaram-se também de discussões muito presentes no espaço público contemporâneo, como por exemplo, a relação entre arte e política.
Habitar os problemas
Tive ainda oportunidade de visitar os pólos de Torres Vedras e de Leiria para pensar a partir de dilemas éticos. Entre o humor e o rigor, explorámos situações que nos convidam a pensar naquilo que importa para cada um de nós e também para a sociedade.
Mais do que procurar respostas prontas ou consensos imediatos, estes encontros procuraram criar espaço para habitar os problemas: escutar perspectivas diferentes, formular razões, rever posições e descobrir novas perguntas — efeitos secundários do acto de pensar em voz alta, com outras pessoas.
“O que proponho, portanto, é muito simples: trata-se apenas de reflectir sobre o que estamos a fazer.” (Hannah Arendt, A Condição Humana, p. 16)
Pensado e acolhido pelo programa ATLAS – Mediação Cultural do Município de Braga, pequenos ciclos, GRANDES PERGUNTAS é um convite a parar, pensar, escutar e dialogar sobre questões que atravessam a nossa vida quotidiana. A partir de temas aparentemente simples, mas filosoficamente exigentes, este ciclo de oficinas reúne crianças, jovens e pessoas adultas para explorar perguntas que não têm respostas fáceis nem definitivas.
Num tempo marcado pela velocidade, pela polarização e pela abundância de opiniões, estas oficinas procuram criar um espaço onde é possível pensar em conjunto. O objectivo destes encontros passa por cultivar a curiosidade, a escuta e a capacidade de examinar ideias a partir de diferentes perspectivas.
Aprender a discordar
O primeiro encontro, realizado a 25 de Abril, teve como tema “Podemos aprender a discordar?”, uma reflexão sobre o diálogo numa sociedade polarizada.
Partindo de perguntas como É possível discutir ideias sem transformar o outro num adversário? ou Será a discordância um obstáculo ou uma oportunidade para pensar melhor?, as pessoas participantes exploraram diferentes formas de lidar com a diferença de opiniões. Entre momentos de acordo e desacordo, procurámos compreender como a escuta, a argumentação e a reformulação das nossas próprias ideias podem fortalecer o diálogo e a vida democrática.
Não por acaso, esta oficina aconteceu no Dia da Liberdade. Foi a nossa forma de homenagear a democracia através da prática do pensamento partilhado.
Entre a conexão e a presença
No segundo encontro, “Ligar ou desligar? Eis a questão.”, voltámos a reunir-nos para refletir sobre a sociedade da conexão.
Vivemos permanentemente ligados a dispositivos, notificações e fluxos de informação. Mas o que ganhamos e o que perdemos com esta disponibilidade constante? Estar sempre conectado aproxima-nos ou afasta-nos dos outros? Que impacto tem esta realidade na atenção, no tempo e na qualidade da nossa presença?
A partir das experiências das pessoas participantes, explorámos diferentes maneiras de pensar a relação entre tecnologia e vida quotidiana, procurando compreender que tipo de presença queremos cultivar num mundo cada vez mais conectado.
As próximas grandes perguntas
O ciclo continuará ao longo do ano com novas oficinas dedicadas a temas centrais da experiência humana.
Em setembro, “Natureza ou Cultura?” convidará a questionar as fronteiras entre aquilo que herdamos e aquilo que construímos, refletindo sobre identidade, comportamento e liberdade.
Em outubro, “De quantos falhanços se faz um sucesso?” procurará repensar o lugar do erro e do fracasso numa sociedade fortemente orientada para o desempenho e os resultados.
Em novembro, “Pensar na morte é pensar na vida?” abrirá espaço para explorar a finitude como dimensão constitutiva da existência humana.
Por fim, em dezembro, “Temos de ser felizes?” desafiar-nos-á a pensar criticamente a crescente pressão para sermos permanentemente felizes, questionando os ideais contemporâneos de bem-estar e realização.
Um espaço para as perguntas
Há perguntas que não se resolvem numa conversa; há perguntas que regressam e que se transformam e que continuam a acompanhar-nos muito depois do encontro terminar.
É precisamente para lhes dar espaço que existe pequenos ciclos, GRANDES PERGUNTAS: um lugar onde pensar não é apenas procurar respostas, mas aprender a habitar melhor as questões que fazem parte da condição humana.
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Para estar a par das próximas datas e locais de realização dos encontros, esteja atento/a à agenda Braga Cultura.