
No final de uma das oficinas de filosofia que dinamizei em janeiro de 2026, com uma turma do 8.º ano, propus um exercício simples de avaliação: destacar um aspecto positivo e um aspecto negativo do encontro, com justificação.
As respostas dos jovens abriram um campo de reflexão que continua a acompanhar-me, e que pode ser relevante para quem trabalha com filosofia para crianças e jovens, educação para o pensamento crítico ou dinamização de diálogos em contexto educativo.
Escutar os outros vs. ser contrariado
Um dos alunos referiu:
“Gostei de termos tido oportunidade de dar as nossas ideias, porque foi bom escutar as ideias uns dos outros.”
Logo depois, outro contrapôs:
“Eu não gostei de ser contrariado.”
Quando lhe pedi que explicasse, clarificou:
“Não gostei que contrariassem as minhas ideias.”
Este contraste revela uma tensão central em qualquer prática de diálogo filosófico: até que ponto estamos disponíveis para expor as nossas ideias ao confronto?
E mais ainda, como é que os jovens interpretam esse confronto — como ameaça ou como oportunidade de pensamento?
Quando uma oficina se confunde com um debate
Outro aluno, bastante participativo, levantou uma crítica diferente:
“Não gostei porque isto não foi mesmo um debate. Não deste o mesmo tempo a cada um de nós e tu falaste mais.”
A observação levou-me a questionar:
- De onde vem a expectativa de que uma atividade destas seja um debate?
- O que entendem os alunos por “debate”?
- Que modelos estão a influenciar esta percepção?
A resposta não foi dada explicitamente; avanço com uma hipótese: os debates televisivos, especialmente em contexto eleitoral, onde o tempo é cronometrado e constantemente regulado.
A importância de preparar o grupo para o diálogo filosófico
Esta situação evidenciou um problema recorrente nas oficinas pontuais de filosofia: a ausência de preparação prévia dos grupos.
Preparar não significa algo complexo. Pode passar por:
- Informar que haverá uma oficina de filosofia
- Explicar que será um espaço de diálogo a partir de uma pergunta
- Clarificar o papel de quem dinamiza
- Sempre que possível, envolver os alunos na escolha do tema
Com frequência, encontro grupos que:
- Não sabem que vão ter uma actividade (sobretudo quando a oficina acontece na escola)
- Não têm qualquer enquadramento sobre o que é filosofia
- Não foram convidados a participar na definição do tema
Por isso, uma das minhas primeiras estratégias é simples: perguntar diretamente ao grupo o que sabem (ou pensam) sobre o que vai acontecer.
Debate vs diálogo: qual é a diferença?
Na oficina, esclareci que o objectivo não era realizar um debate, mas sim um diálogo filosófico.
A diferença é mais do que uma questão de terminologia:
- No debate tende a haver:
- Distribuição rígida do tempo
- Foco na defesa de posições
- Estrutura competitiva
- No diálogo procuramos:
- Distribuir a palavra com flexibilidade
- Clarificar ideias
- Pensar em conjunto
- Valorizar a qualidade das intervenções, mais do que a sua duração
Quando pensamos em voz alta, é natural que algumas intervenções sejam mais longas, não por privilégio, mas por necessidade de tornar o pensamento compreensível.
Interrupções, pressa e escuta: obstáculos ao pensamento
Durante a sessão, houve um padrão claro: interrupções constantes.
- Os alunos interrompiam-se entre si
- Interrompiam também a facilitação
- Falavam frequentemente uns por cima dos outros
A justificação dada foi directa:
“Nós estamos a ouvir e queremos logo dizer alguma coisa sobre isso.”
Este impulso é compreensível — mas levanta uma questão pedagógica central:
Estamos a ensinar os alunos a escutar ou apenas a reagir?
A pressa em responder pode ser um reflexo dos modelos mediáticos que consomem, onde o confronto rápido substitui a construção de pensamento.
Num momento da oficina, ao tentar explicar como as interrupções prejudicam o diálogo, fui novamente interrompida. Parei e apontei:
“Vês? Está a acontecer de novo. Alguém está a falar e tu não esperas. Como consequência, não conseguimos escutar-nos.”
Este tipo de meta-reflexão em tempo real é, muitas vezes, tão importante quanto o tema discutido.
O papel da pessoa facilitadora no diálogo filosófico
Reconheço que, nesta oficina, falei mais do que os alunos em determinados momentos.
Isso aconteceu porque foi necessário:
- Fazer pontos de situação
- Retomar o fio do diálogo
- Introduzir conceitos (como argumento ou viés de confirmação)
- Criar condições para que o grupo pudesse avançar
Sem cronómetro, é possível que o tempo de fala não tenha sido equilibrado. Mas a questão central permanece:
Devemos medir o tempo de fala ou a qualidade do pensamento produzido?
Devemos evitar debates?
Recentemente, voltei a um texto que defendia que os debates deveriam ser evitados em contexto educativo.
Não tenho ainda uma resposta fechada.
A experiência desta oficina reforçou o questionamento que me acompanha:
Devemos evitar debates? Precisamos de modelar ou ensinar melhor a diferença entre debater e dialogar?
joana rita

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