
Numa altura em que a proibição das redes sociais a menores de 16 anos está a ser considerada em Portugal, dou por mim a reflectir sobre o uso que eu própria faço das redes.
Há dias em que é mais difícil controlar o tempo nas redes, quando há momentos de espera nas filas, por exemplo. Outras vezes acabo por fazer scroll quando ia procurar algo específico ao telemóvel, coisa que entretanto se desvaneceu como prioridade.
Não é fácil para uma pessoa adulta fazer esta gestão — não o será também para uma criança ou um jovem. A cientista Joana Gonçalves de Sá alerta-nos precisamente para esta questão no episódio do podcast NOVA Talks. Assim, temos todos de criar hábitos de higiene digital que nos protejam das artimanhas das plataformas desenhadas para captar e reter a nossa atenção
Apesar disso, continuo a encontrar nas redes sociais coisas que valem a pena: ideias que me fazem pensar, pessoas que me apresentam perspectivas diferentes, livros que passam a fazer parte da minha lista de leituras e projectos que talvez nunca encontrasse de outra forma.
Hoje partilho três coisas que encontrei através das redes sociais e que me fizeram aprender e pensar.
Sobre o discurso de ódio online
O blog de Jorge Borges é uma referência para mim, há muitos anos. Destaco hoje um artigo sobre o discurso de ódio online, tendo por base o manual do projeto COOPERHATE. Pode ler o artigo no blog ou escutar no spotify.
O que têm as crianças e os jovens a dizer sobre a escola?
No podcast Falta de Educação, Catarina Cerqueira conversa com crianças sobre a escola. Conheci este projecto através do LinkedIn e fiquei imediatamente curiosa.
Vale a pena escutar este episódio com Rafael Triães, aluno do ensino secundário, sobre a forma como se envolveu na resolução de problemas na sua escola.
Frango, gelado e autonomia
A Marisa tem lançado desafios ao seu filho no sentido de treinar a sua autonomia e independência. Assim, de vez em quando pede-lhe para fazer alguns recados sozinho. Eis o resultado de um processo que inclui pequenos passos:
Para quem quer pensar antes de se posicionar
Uma das coisas que mais me tem chamado a atenção é precisamente o facto de a investigação não ser unânime. Há estudos que identificam associações entre determinados padrões de utilização das redes sociais e problemas de saúde mental, sobretudo quando existe uso problemático, comparação social intensa ou privação de sono. Outros investigadores lembram que a relação é muito mais complexa e que factores como o contexto familiar, a personalidade, a qualidade das relações e as vulnerabilidades prévias também contam.
Pensar sobre este tema exige, por isso, mais do que opiniões rápidas. Exige tempo para ler, comparar argumentos e fazer boas perguntas.
Se também têm curiosidade sobre este assunto, deixo algumas leituras que considero um bom ponto de partida.
Não posso deixar de referir o sobejamente conhecido livro de Haidt, A Geração Ansiosa. O autor defende que a infância mudou profundamente com a generalização dos smartphones e das redes sociais. Segundo Haidt, as crianças têm hoje menos oportunidades para brincar livremente, explorar o mundo e desenvolver a sua autonomia, passando mais tempo em ambientes digitais. Esta mudança estará associada ao aumento da ansiedade, da depressão e de outros problemas de saúde mental entre os jovens. Haidt propõe adiar o acesso aos smartphones e às redes sociais e criar mais oportunidades para brincadeira livre, relações presenciais e independência.
Vários investigadores, como Amy Orben, Candice Odgers e Andrew Przybylski, consideram que Haidt simplifica uma realidade muito mais complexa. Argumentam que a investigação ainda não demonstra uma relação causal clara entre redes sociais e problemas de saúde mental e que os efeitos variam consoante o contexto, a pessoa e a forma como as tecnologias são utilizadas. Defendem, por isso, uma leitura mais prudente da evidência científica.
Apesar das divergências, existe algum consenso em torno de várias ideias. O uso problemático ou compulsivo das redes sociais pode ter consequências negativas, sobretudo quando interfere com o sono, a atenção, as relações presenciais e outras actividades importantes. Também parece claro que crianças e jovens (e adultos!) beneficiam de mais tempo para brincar, conviver presencialmente, desenvolver autonomia e aprender a utilizar as tecnologias de forma crítica e equilibrada. O desafio não é apenas tecnológico; é também educativo, familiar e social.
Seguem algumas sugestões de leitura:
— Amy Orben et al. (2024) – Mechanisms linking social media use to adolescent mental health vulnerability
Uma excelente revisão publicada na Nature Reviews Psychology. Em vez de perguntar simplesmente se as redes sociais fazem “bem” ou “mal”, procura compreender em que condições, para quem e através de que mecanismos podem existir impactos positivos ou negativos. Nature Reviews Psychology – artigo
— Amy Orben (2020) – Teenagers, screens and social media: a narrative review of reviews and key studies
Um texto muito acessível que mostra como a evidência científica é frequentemente mais matizada do que o debate público faz parecer. Springer Open Access – artigo
— Fassi et al. (2024) – Meta-análise publicada na JAMA Pediatrics
Analisou 143 estudos e conclui que existe uma associação entre utilização das redes sociais e sintomas internalizantes (como ansiedade e depressão), mas também evidencia as limitações metodológicas da investigação disponível e a necessidade de estudos de melhor qualidade. JAMA Pediatrics – artigo
— Alfredson et al. (2024) – Revisão sistemática
Uma revisão que analisa como os estudos medem o uso das redes sociais e mostra que os resultados dependem muito daquilo que é efectivamente medido: tempo de utilização, uso compulsivo, tipo de actividades, entre outros aspectos. PubMed – artigo
As redes sociais são um espaço que exige discernimento. E o discernimento cultiva-se lendo, dialogando e escolhendo melhor aquilo a que damos atenção.
joana rita
(artigo publicado a 15 de Julho e actualizado com algumas referências a 17 de Julho).

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