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🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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morte

Falar sobre a morte com crianças pode ser difícil. Por essa razão, quando precisamos de explicar que alguém morreu, recorramos frequentemente a expressões que parecem mais suaves:

“Foi dormir.”
“Foi embora.”
“Partiu.”
“Perdemo-lo.”
“Foi para um lugar melhor.”

É natural tentar proteger a criança daquilo que sentimos:

“Não chores.”
“Tens de ser forte.”
“Não penses nisso.”
“És demasiado pequeno para perceber.”

As pessoas que dizem estas frases estão longe de estar mal intencionadas; pelo contrarío, procuram tornar uma realidade difícil um pouco menos dolorosa.

Porém, pergunto: será que estas ideias ajudam realmente as crianças a compreender a morte?

As crianças compreendem a morte?

A investigação sobre o desenvolvimento do conceito de morte revela que a compreensão da morte por parte da criação não aparece de uma só vez. Ao longo do tempo, as crianças vão construindo ideias sobre aquilo que significa morrer.

Uma revisão de Speece e Brent identificou três componentes fundamentais do conceito de morte: irreversibilidade, não-funcionalidade e universalidade. Os autores concluíram que a maioria das crianças estudadas alcançava uma compreensão destes três componentes entre os 5 e os 7 anos.

Investigação posterior tornou este quadro mais complexo. Panagiotaki e colegas estudaram 136 participantes, incluindo crianças entre os 4 e os 11 anos, e verificaram que as crianças compreendiam alguns aspectos fundamentais da morte já aos 4–5 anos. Com a idade, as suas explicações sobre inevitabilidade, universalidade e causalidade tornavam-se progressivamente mais biológicas.

O que significa isto? Que não devemos partir do princípio de que uma criança é demasiado pequena para começar a compreender a morte.

Repare que isto é diferente de dizer que uma criança de quatro anos compreende a morte da mesma forma que uma criança de dez anos. Os trabalhos de investigação sublinham que a capacidade de compreender vai além daquilo que por vezes supomos.

“Foi dormir.”

Talvez seja uma das expressões mais comuns, dizer que alguém “foi dormir”. Pode parecer uma forma delicada de falar sobre a morte, porém, para uma criança que está a tentar compreender aquilo que aconteceu, pode tornar mais difícil distinguir entre dormir e morrer.

A questão não é que uma criança vá necessariamente desenvolver medo de dormir. A investigação não permite fazer uma afirmação tão simples. A questão é outra: se queremos explicar uma morte, “foi dormir” não explica que a pessoa morreu.

Uma formulação mais clara seria: “Morreu. O seu corpo deixou de funcionar.”

A criança pode depois perguntar o que significa isso, se a pessoa vai voltar, se sentia dores, o que acontece ao corpo ou qualquer outra coisa que lhe ocorra.

“Foi embora.” / “Partiu.”

Também aqui encontramos uma metáfora que pode substituir a palavra “morte”. O problema é que “ir embora” normalmente descreve uma ausência que pode ser temporária. A pessoa pode ir embora e voltar.

Na morte, pelo contrário, estamos perante uma ausência permanente. A irreversibilidade é precisamente uma das dimensões fundamentais da compreensão da morte.

Paul Harris chama a atenção para uma questão interessante: falar da morte como uma partida é, na verdade, muito comum. Segundo o autor, as crianças podem desenvolver uma compreensão biológica da morte e, simultaneamente, ser receptivas à ideia de que a pessoa falecida continua a existir de alguma forma.

Como escreve Harris, as crianças pequenas constroem uma concepção biológica da morte, reconhecendo que terminam processos mentais e corporais, mas podem também aceitar “an alternative conception of death, which affirms that the deceased has an afterlife elsewhere”.

Isto é importante porque nos impede de transformar a recomendação numa regra demasiado rígida. Não é necessário eliminar a palavra “partiu”, mas garantir que, quando explicamos o que aconteceu, a criança tem acesso à palavra morte e à ideia de que a pessoa morreu.

“Perdemo-lo.”

Para um adulto, “perdemos o avô” pode ser uma forma perfeitamente natural de falar.

Uma criança pode interpretar a frase de outra maneira: “Onde o perdemos?”

É precisamente este tipo de situação que torna a linguagem particularmente importante quando falamos de morte com crianças.

Uma revisão sobre a forma como as crianças aprendem acerca da morte identifica três grandes fontes desse conhecimento: a experiência directa da morte, a comunicação dos pais e as representações da morte nos meios de comunicação e nas artes.

A forma como os adultos falam sobre a morte faz, portanto, parte daquilo que as crianças aprendem sobre ela.

Podemos dizer: “O avô morreu.” E, se quisermos, podemos acrescentar: “Quando dizemos que o perdemos, queremos dizer que morreu.” Desta forma, explicamos a linguagem metafórica.

“Foi para um lugar melhor.”

Esta frase introduz uma questão diferente: a dimensão religiosa ou espiritual da morte.

Para algumas famílias, falar do céu, de uma vida depois da morte ou de outra forma de existência faz parte das suas crenças. Não há razão para eliminar essas crenças das conversas com as crianças. Temos é de ser cuidadosos e não apresentar uma crença como se fosse uma explicação biológica da morte. Podemos dizer: “O avô morreu. Nós acreditamos que depois da morte vamos para o céu.”

A investigação de Panagiotaki e colegas encontrou precisamente esta coexistência de explicações. À medida que crescem, algumas crianças desenvolvem simultaneamente explicações biológicas e explicações religiosas, espirituais ou metafísicas sobre a morte. Essas crenças estavam associadas, entre outros fatores, às crenças religiosas e espirituais dos pais.

Harris chega a uma conclusão semelhante: a compreensão biológica da morte e as crenças numa vida depois da morte podem coexistir. Por isso, talvez a questão não seja “podemos falar do céu?”, mas sim: “Será que estamos a distinguir aquilo que sabemos daquilo em que acreditamos?”

“Não chores.”

Aqui já não estamos tanto perante um problema de compreensão da morte, mas perante a forma como lidamos com as emoções.

Quando uma criança chora depois de uma morte, podemos sentir vontade de a tranquilizar: “Não chores.” ou Vai ficar tudo bem.”

Não precisamos transformar a tristeza numa coisa que a criança deve esconder. Podemos dizer: “Podes chorar. Eu também estou triste.” Ou simplesmente: “Estou aqui contigo.”

Não existe uma única forma de reagir a uma morte. Uma criança pode chorar, ficar zangada, fazer perguntas, parecer indiferente ou querer brincar pouco depois de receber uma notícia triste.

O luto não tem uma expressão única.

“Tens de ser forte.”

A expressão parece elogiosa, mas pode transmitir uma mensagem indesejada: a de que há uma maneira correta de reagir à morte. Uma criança pode pensar que ser forte significa não chorar, não falar ou não mostrar aquilo que sente.

Considere outra mensagem, como: “Não precisas de fingir que estás bem.”

E depois perguntar: “Queres contar-me como te estás a sentir?”

Não precisamos de obrigar a criança a falar. Basta que estejamos disponíveis para a conversa quando a criança precisar.

“És demasiado pequeno para perceber.”

Esta é talvez uma das frases que mais merece ser questionada.

É verdade que uma criança pequena não compreende a morte da mesma forma que um adulto, mas isso não é o mesmo que dizer que não possa compreender nada.

Em vez de decidir antecipadamente aquilo que a criança consegue ou não compreender, podemos perguntar: “O que já sabes sobre o que aconteceu?” — Esta pergunta tem uma vantagem adicional: permite-nos descobrir o que a criança está realmente a pensar, em vez de respondermos a uma ideia que imaginamos que ela tenha.

“Não penses nisso.”

Provavelmente a criança vai mesmo pensar nisso. As crianças aprendem sobre a morte através das suas experiências, das conversas com adultos e também através dos livros, dos meios de comunicação e das artes.

Por isso, fechar ou ignorar uma conversa não impede necessariamente que a criança pense sobre a morte. Pode apenas significar que terá de pensar sobre ela sem a ajuda de um adulto disponível para responder às suas perguntas.

Não precisamos de ter respostas para todas as perguntas. Podemos dizer coisas como: “Não sei. O que pensas tu?”, ou “Queres continuar a falar sobre isso?” ou ainda “Podemos procurar a resposta juntos.”

Então, o que devemos dizer?

Não existe propriamente uma lista ou uma “receita” de frases perfeitas.

As recomendações vão no sentido de seguir alguns princípios orientadores nas nossas observações, perguntas ou respostas. A saber:

— Usar palavras claras, sem substituir sistematicamente “morreu” por eufemismos.

— Adaptar a informação à criança: por um lado, não devemos esconder tudo, por outro lado também não vamos facultar a informação que não pediu.

— Responder às perguntas que surgem, tendo claro que o “não sei” é uma forma válida para responder. Ou um: “talvez possamos investigar isso em conjunto”.

— Distinguir factos de crenças: podemos falar de religião e de espiritualidade, deixando claro quando estamos a falar daquilo em que acreditamos.

— Dar espaço às emoções: se a criança chorar, chora. Se não quiser chorar, não chora. Não há uma forma única de reagir e de expressar o que sente.

— Deixar a conversa em aberto, já que a criança pode não ter perguntas hoje, mas amanhã ou depois. .

Falar sobre a morte com crianças não significa retirar-lhes a tristeza, nem ter a frase perfeita na ponta da língua que vai tornar a morte menos dolorosa. Também não significa ignorar as suas perguntas, a sua curiosidade. Falar sobre a morte com crianças passa essencialmente por escutar e admitir que a morte dói e é, ao mesmo tempo, uma certeza para os seres vivos. Falar sobre a morte é falar sobre a vida.

Oficinas de filosofia, para famílias, nos cemitérios de Lisboa

Desde 2024 que dinamizo oficinas de filosofia, para famílias, nos cemitérios de Lisboa. Considere participar num momento onde a filosofia e o património cemiterial convidam a falar sobre a morte. Consulte a agenda neste link ou visita a página de instagram.

joana rita

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Referências:

Arruda-Colli, M. N. F., Weaver, M. S., & Wiener, L. (2017). Communication about dying, death, and bereavement: A systematic review of children’s literature. Journal of Palliative Medicine, 20(10), 1154–1164.

Harris, P. L. (2018). Children’s understanding of death: From biology to religion. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 373(1754), 20170266. 

Longbottom, S., & Slaughter, V. (2018). Sources of children’s knowledge about death and dying. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 373(1754), 20170267. 

Panagiotaki, G., Hopkins, M., Nobes, G., Ward, T., & Griffiths, D. (2018). Children’s and adults’ understanding of death: Cognitive, parental, and experiential influences. Journal of Experimental Child Psychology, 166, 96–115. 

Speece, M. W., & Brent, S. B. (1984). Children’s understanding of death: A review of three components of a death concept. Child Development, 55(5), 1671–1686. 

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Leia a reportagem da Mensagem de Lisboa sobre as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa.

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