
Ao visitar o LinkedIn, encontrei um novo artigo de Aaron Yarmel, um autor que acompanho desde os cursos online de Filosofia para/com Crianças que frequentei algures em 2020 ou 2021. O título chamou-me imediatamente a atenção: Towards a Theory of Inquiry Dialogue Questions (2026).
O que faz de uma pergunta uma boa pergunta? — eis uma pergunta que me acompanha há muito, seja na investigação, na prática e também na formação que tenho o privilégio de ministrar. É quase inevitável fazer esta pergunta, diria eu.
Quando tentamos descrever o que acontece numa oficina ou num encontro de Filosofia para Crianças, procuramos apresentar os elementos que distinguem essa oficina de outras. Ao longo de quase 20 anos a estudar esta área, já escutei diferentes formas de responder a esta pergunta. Algumas pessoas privilegiam aspectos formais (a forma como nos sentamos, se tratamos as pessoas pelo nome…), outras privilegiam atitudes (a escuta, o não ter pressa para tratar a pergunta…).
E a pergunta? Que papel ocupa a pergunta? Como se escolhe a pergunta? Quem escolhe?
Certamente já me ouviram falar da importância das perguntas e da boa pergunta. Mas também já me ouviram dizer como pensar naquilo que faz de uma pergunta uma boa pergunta é, por si, um exercício filosófico.
Foi precisamente esse o ponto de partida da conversa que tive com o ChatGPT, a quem passei o artigo de Yarmel, artigo esse que se encontra disponível em acesso livre.
Da natureza da pergunta à sua função
O ChatGPT chamou-me a atenção para uma ideia central do artigo: Yarmel desloca o foco da natureza da pergunta para a função da pergunta. Em vez de perguntar “O que é uma pergunta filosófica?”, interessa-lhe perguntar “O que faz com que uma pergunta funcione bem, como organizadora de um diálogo de investigação?”
Considerei esta mudança muito significativa. Pedi depois ao ChatGPT que sintetizasse as diferenças entre Cam, Worley e Yarmel. A resposta ajudou-me a formular uma ideia que me parece central: enquanto Cam e Worley recorrem sobretudo a categorias para pensar as perguntas, Yarmel prefere trabalhar com continuums. Em vez de classificações rígidas, propõe uma leitura gradual e contextual.
Colocando em prática a honestidade e a humildade intelectuais, Yarmel reconhece os limites da sua própria proposta. Reconhece que não existe uma pergunta ideal válida para todos os grupos. Reconhece que uma mesma pergunta pode funcionar muito bem numa comunidade e revelar-se completamente estéril noutra. Reconhece, sobretudo, que o julgamento do facilitador continua a ser indispensável.
Dei por mim a perceber uma coisa sobre o meu próprio percurso.
As oficinas pontuais como escola de facilitação
Uma parte muito importante do meu trabalho consiste em realizar oficinas pontuais. Entro numa escola, numa biblioteca, num museu ou numa associação, encontro um grupo que nunca vi antes e, muitas vezes, sei que provavelmente nunca mais o voltarei a encontrar.
Durante anos pensei que essa característica era apenas uma condição logística do meu trabalho. Agora começo a suspeitar que foi também uma escola de facilitação.
Levo comigo propostas que já experimentei dezenas de vezes. Algumas nasceram com outros grupos. Outras foram sendo afinadas ao longo dos anos. Ainda assim, há sempre a possibilidade de não serem acolhidas.
Antes chamava-lhe “risco”. Hoje prefiro chamar-lhe “informação”.
Quando uma pergunta não encontra eco num grupo, isso não significa necessariamente que seja uma má pergunta. Significa, talvez, que aquela pergunta não é a pergunta daquele grupo.
O artigo de Yarmel deu-me linguagem para descrever uma competência que fui desenvolvendo sem lhe dar um nome. Durante anos pensei que estava apenas a ganhar experiência. Hoje percebo que estava, sobretudo, a aprender a ler a relação entre uma pergunta e uma comunidade.
Aprender a ler a relação entre uma pergunta e uma comunidade
As oficinas pontuais ensinaram-me a não confiar apenas na qualidade intrínseca de uma proposta. Ensinaram-me que uma pergunta só ganha verdadeiramente vida quando encontra uma comunidade capaz e disponível para a investigar.
Percebi que aquilo que fui aprendendo ao longo dos anos tem muito que ver com aquilo que Yarmel designa por leitura do contexto. Não se trata apenas de escolher uma boa pergunta antes da sessão começar. Trata-se de observar continuamente o grupo: perceber quando há curiosidade, quando há desacordo, quando a conversa precisa de maior precisão, quando a pergunta é demasiado ampla ou demasiado estreita.
Penso que este é o elemento menos visível da facilitação. É relativamente fácil aprender técnicas de dinamização. Podemos aprender a organizar o espaço, a gerir tempos de fala, a escutar sem interromper ou a incentivar a participação. Tudo isso é importante.
Muito mais difícil é desenvolver aquilo que só a experiência parece ensinar: a capacidade de perceber, em poucos minutos, se uma pergunta tem condições para gerar investigação naquele grupo concreto.
Não sei se essa competência pode ser ensinada directamente. Suspeito que se desenvolve através de centenas de encontros diferentes, de perguntas que resultaram e de perguntas que falharam, de oficinas em que foi preciso abandonar o plano inicial para seguir uma ideia inesperada trazida pelos participantes.
Um trabalho interminável
O artigo de Yarmel não oferece uma receita para construir boas perguntas, o que me parece particularmente meritório. Em vez de nos dizer quais são as boas perguntas, ajuda-nos a compreender por que razão essa decisão é muito mais difícil do que parece.
Facilitar uma comunidade de investigação começa muito antes da roda se formar; começa quando nos interrogamos, com toda a seriedade, sobre a própria pergunta que vamos propor ou sobre as perguntas que o grupo propõe, convidando o grupo a interrogar-se também sobre as suas perguntas.
Uma das tarefas da pessoa facilitadora passa por continuar a interrogar-se sobre aquilo que faz de uma pergunta uma boa pergunta. É um trabalho interminável, ou como nos diz a música, “a never ending story“.
joana rita

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