filocriatividade

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

🟧 subscreva a newsletter

As perguntas que chegam antes das respostas

A morte é uma das experiências universais da condição humana e, simultaneamente, um dos temas menos presentes nas conversas educativas. Apesar disso, as crianças encontram-se com a morte desde muito cedo: através da perda de familiares, de animais de estimação, de acontecimentos noticiados, de histórias, filmes ou jogos. Observam, interrogam-se e procuram construir explicações.

A questão não é tanto se as crianças pensam sobre a morte, mas sim se encontram adultos disponíveis para escutar as suas perguntas.

Diversos autores têm defendido que a infância não deve ser entendida como uma etapa de afastamento das grandes questões da existência, mas como um período particularmente fértil para as explorar. Neste sentido, a Filosofia para/com Crianças constitui um enquadramento privilegiado para abordar temas existenciais, permitindo que as crianças investiguem conceitos, formulem hipóteses, confrontem diferentes perspectivas e construam significado em comunidade.

Perguntar a morte para pensar a vida

A autora e filósofa Ellen Duthie oferece um contributo particularmente relevante para esta reflexão. No livro ¿Así es la muerte? 38 preguntas mortales de niñas y niños, desenvolvido a partir de um projecto internacional que reuniu mais de mil perguntas formuladas por crianças e jovens entre os 5 e os 15 anos, a morte surge não como um tema a evitar, mas como um objecto legítimo de investigação filosófica.

As perguntas presentes no livro revelam a profundidade, diversidade e sofisticação do pensamento infantil: as crianças interrogam-se sobre o que acontece quando morremos, sobre a tristeza, a memória, a identidade, os rituais, a justiça e o sentido da vida.

A obra demonstra que, quando lhes é dado espaço para perguntar, as crianças revelam uma curiosidade genuína e persistente sobre questões fundamentais da existência.

Também Caitlin Doughty, agente funerária e autora de Will My Cat Eat My Eyeballs?, parte das perguntas das crianças para reflectir sobre a morte, afirmando:

“All death questions are good death questions, but the most direct and most provocative questions come from kids.”

As perguntas das crianças revelam uma relação particularmente aberta com a curiosidade, a imaginação e a investigação. São perguntas que não procuram apenas informação: procuram compreender.

Uma comunidade de investigação diante dos grandes mistérios

Esta perspectiva encontra-se em profunda sintonia com os princípios da Filosofia para/com Crianças desenvolvidos por Matthew Lipman e Ann Margaret Sharp.

Para Lipman, a educação filosófica deve partir das perguntas das próprias crianças e promover comunidades de investigação nas quais o pensamento crítico, criativo e cuidadoso se desenvolve através do diálogo.

As questões sobre a morte não constituem uma excepção; pelo contrário, representam algumas das perguntas mais fundamentais da experiência humana. São perguntas capazes de mobilizar capacidades de conceptualização, argumentação, interpretação e construção de significado.

Quando uma comunidade de investigação filosófica se reúne em torno da morte, não procura chegar a uma resposta definitiva. Procura criar condições para pensar em conjunto aquilo que, muitas vezes, é vivido em silêncio.

Perguntas Vitais sobre Assuntos Fatais: um espaço para filosofar sobre a vida

É neste enquadramento que se inscreve a proposta Perguntas Vitais sobre Assuntos Fatais, integrada no projecto #filocriatividade.

Em 2024, estas oficinas deram os seus primeiros passos nos Cemitérios de Lisboa, num trabalho de pensamento que teve como ponto de partida o próprio espaço cemiterial. Mais do que um cenário, o cemitério funciona como um lugar filosófico: um espaço onde se cruzam memória, ausência, passagem do tempo, identidade, rituais e diferentes formas de relação entre vivos e mortos.

A partir deste lugar, a morte deixa de ser apenas um tema abstracto e transforma-se numa oportunidade para observar, perguntar e pensar.

Tendo em conta que a morte surge espontaneamente nos diálogos que desenvolvo com crianças e jovens, as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais passaram a integrar o portefólio #filocriatividade, podendo ser realizadas em escolas, bibliotecas ou outros contextos educativos e culturais.

Desde então, estas oficinas têm sido realizadas com crianças e jovens desde o 1.º ciclo ao ensino secundário.

Estas oficinas não procuram antecipar preocupações que as crianças não tenham, nem fornecer respostas prontas sobre a morte. Procuram criar um espaço seguro de questionamento, escuta e reflexão partilhada, onde seja possível explorar temas como a perda, a finitude, a memória, o cuidado, a transformação e o significado da existência.

Não se trata de ensinar às crianças o que pensar sobre a morte, mas de lhes oferecer condições para pensarem por si mesmas sobre uma realidade que faz parte da vida.

Três encontros, muitas perguntas e alguns mistérios

De janeiro a junho de 2026 aconteceu o ciclo Perguntas Vitais sobre Assuntos Fatais, junto da turma do 4.º ano da Escola Básica Santa Cruz, em Coimbra. O convite partiu do Teatro Académico Gil Vicente, integrado na sua oferta educativa para a comunidade escolar.

Ao longo de três oficinas, as crianças foram convidadas a explorar diferentes dimensões associadas à morte através de perguntas filosóficas, jogos e diálogo, contribuindo para a construção colectiva de significado.

A experiência destas oficinas tem mostrado que, quando criamos condições para o diálogo filosófico, as crianças não revelam apenas curiosidade sobre a morte. Revelam também uma capacidade surpreendente para pensar sobre a perda, a mudança, o cuidado, a memória e aquilo que torna a vida significativa.

O que aprendemos quando escutamos as perguntas das crianças

A relevância destas oficinas encontra também confirmação na avaliação realizada pelas próprias crianças participantes.

No final do ciclo, algumas das ideias destacadas foram:

«pensámos muito bem»

«resolvemos muitas perguntas e mistérios»

«fizemos perguntas muito criativas»

Estas apreciações sugerem que as crianças reconheceram o valor do exercício filosófico não apenas como uma oportunidade para encontrar respostas, mas sobretudo como uma experiência de investigação, imaginação e construção conjunta de significado.

Na avaliação final, sublinharam ainda a importância de poder escutar as ideias das outras pessoas, valorizando o tempo e o espaço do diálogo.

Este aspecto é particularmente significativo porque remete para um dos princípios centrais da Filosofia para/com Crianças: a comunidade de investigação, entendida como um contexto onde cada participante é convidado a pensar com os outros, a considerar diferentes perspectivas e a aprofundar a sua compreensão através da escuta e da reflexão partilhada.

Da morte como ponto final à morte como ponto de partida

Esta será uma das contribuições mais importantes das oficinas Perguntas Vitais sobre Assuntos Fatais: mostrar que as grandes questões da existência não precisam de ser enfrentadas em silêncio ou individualmente.

Podem ser exploradas em comunidade, através do diálogo, da curiosidade e da coragem de perguntar.

Nesse processo, as crianças descobrem não apenas novas formas de pensar sobre a morte, mas também novas formas de pensar sobre a vida, sobre si mesmas e sobre as pessoas à sua volta.

Nas oficinas Perguntas Vitais sobre Assuntos Fatais, a morte surge como um ponto de partida: uma oportunidade para filosofar sobre a vida.

joana rita

📷 João Duarte & Sofia Martins / TAGV

Posted in

Deixe um comentário