filocriatividade

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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    Nas vésperas de um novo ano lectivo gostaria de partilhar algumas resoluções (ou soluções?) para educadoras e educadores, professoras e professores e pessoas que, de uma maneira ou de outra, estão ligadas às comunidades escolares.

     

    Eis as minhas propostas de (re)soluções:

    (*) manifesto anti-chiuuu

    (*) o uso cuidadoso da palavra “verdade

    (*) evitar o “não há respostas certas nem erradas na filosofia

    (*) o erro como porta para o inesperado

    (*) alimentar a curiosidade das crianças – e a sua!

    (*) reflectir sobre a participação das crianças e dos jovens

     

    Bom ano, boas leituras, boas perguntas!

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    Por mero acaso, encontrei este artigo no Ciberdúvidas, um site que visito de vez em quando para esclarecer as minhas próprias dúvidas.

    Aproveito para partilhar o artigo do professor Paulo J. S. Barata. 

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    Entre nutrir o pensamento crítico e promover a empatia cognitiva, os professores de filosofia desempenham muitas funções ao orientar os alunos através das complexidades da investigação e da auto-descoberta. Eis 11 papéis diferentes dos professores de filosofia.

     

    teven Campbell-Harris

     

    A filosofia ajuda os alunos a raciocinar com confiança evitando que outras pessoas se aproveitem deles

     Os objectivos da educação pública são variados, mas podemos dizer que um dos mais importantes é a criação de cidadãos empenhados que sabem o suficiente para que não se aproveitem deles. Os jornalistas têm um papel especial a desempenhar, mas, de um modo mais geral, numa democracia, é vital que todos tenham a capacidade de raciocinar por si mesmos, para que não sejam excessivamente influenciados pelo carisma, pela retórica barata e por afirmações infundadas. Na filosofia, as crianças não recebem respostas prescritas para questões éticas e políticas difíceis. Precisam chegar às suas próprias conclusões com base em razões e evidências que possam ser usadas para defender os seus pontos de vista perante outros. O facilitador incentiva os alunos a pensarem por si mesmos, usando as opiniões dos outros como contrapesos às opiniões dos próprios alunos.

    A filosofia desempenha um papel fundamental na curiosidade dos alunos, destacando “desconhecidos conhecidos”; coisas que sabemos que não sabemos

    Segundo o psicólogo George Loewenstein, a curiosidade surge quando reconhecemos uma lacuna entre o que não sabemos e o que poderíamos saber e que queremos preencher. A primeira parte para despertar a nossa curiosidade é reconhecer que existe uma lacuna que vale a pena preencher. O ex-secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, disse que

    “Existem coisas conhecidas, coisas que sabemos que sabemos. Existem incógnitas conhecidas, ou seja, há coisas que sabemos que não sabemos. Existem também incógnitas desconhecidas, coisas que não sabemos que não sabemos.’

    Na filosofia, muitas vezes começamos com questões que parecem não problemáticas. Durante o curso de um diálogo, percebemos a sua natureza problemática; quebra-cabeças que não sabíamos que estavam lá. Por exemplo, uma discussão sobre pensamentos muitas vezes leva a uma discussão sobre se a mente é diferente do cérebro. Antes disso, os alunos talvez não soubessem que não sabiam disso. No final da aula, alguns terão chegado à conclusão de que sabem que não sabem (ou, pelo menos, estão conscientes de que existe um puzzle que exige resolução).

     

    A filosofia encoraja as pessoas a descobrirem o que realmente pensam, em vez do que pensam que deveriam pensar, ou o que lhes é dito para pensar. É uma ferramenta poderosa para praticar a auto-descoberta

    Alguns alunos consideram a escola um mundo estranho. As matérias que estudam e o conhecimento que adquirem surgem como algo estranho e imposto. Na filosofia, os alunos são incentivados a pensar com suas próprias experiências, intuições e julgamentos. Isso requer a transferência da responsabilidade pela autocorreção e da avaliação do professor para o aluno. Uma figura de autoridade não intervirá para avaliar seus pontos de vista ou corrigi-los. Em vez disso, terão de justificar os seus pontos de vista e explicar as suas razões na companhia dos seus pares. A oportunidade para expor os seus pontos de vista num fórum público tem uma vantagem adicional para o auto-reconhecimento de si mesmo. O místico alemão Jakob Boehme afirmou que “nada é revelado a si mesmo sem oposição”. Em filosofia, os estudantes enfrentam oposição aos seus próprios pontos de vista. Isto significa que eles vêem a sua visão como se fosse sua; não como a visão definitiva que todos têm. 

     

    A filosofia permite que os alunos olhem além do que é a verdade/resposta, para ver como podemos mostrar que é a verdade e o que a torna a verdade

    Eis uma observação comum durante as investigações filosóficas; mas qual é a resposta, setôra? Se apontarmos para a resposta completa, tornaremos a resposta no único aspecto  que importa, o que não é verdade. A partir de qualquer resposta, mesmo em disciplinas supostamente focadas em respostas, como a matemática num nível básico, podemos perguntar o que a torna a resposta e como podemos mostrar que é a resposta. Se não conseguimos dar uma razão para a resposta, então por que acreditar? A filosofia ajuda-nos a transferir nossa preocupação do destino para o processo de chegar lá. O destino não conta a história de como chegamos lá e, de facto, as respostas corretas podem ser obtidas através de justificativas erradas. A filosofia encoraja-nos a mostrar o nosso trabalho, no sentido mais amplo do termo.

    A filosofia proporciona um ambiente educacional no qual o pensamento crítico é reconhecido e incentivado

    Há uma série de movimentos de pensamento crítico que a filosofia pode ajudar a encorajar e promover:

    Fazer perguntas

    Concordo/discordo

    Dar razões

    Apresentar uma proposição, hipótese ou explicação

    Fazer inferências

    Fazer distinções

    Fazer comparações

    Reavaliar

    Dar um exemplo ou contra-exemplo

    Considerar múltiplas perspectivas

    Classificar

    Fazer analogias

    Oferecer definições

    Raciocinar silogisticamente

    Identificar suposições

    Reafirmar as opiniões dos outros

     

    A filosofia pode ajudar a estabelecer vínculos entre assuntos aparentemente desconectados e díspares

    A filosofia, segundo o filósofo Ludwig Wittgenstein, “não é um corpo de doutrina, mas uma actividade”. Pode ser melhor considerada não como um assunto em si, mas como um método crítico para examinar as suposições e os pressupostos que fundamentam todos os outros assuntos. Nas oficinas de filosofia, alternamos entre discutir questões sobre valor, arte, ciência, matemática e religião. Esta abordagem cruzada incentiva os alunos a fazerem conexões entre áreas de investigação que são habitualmente consideradas distantes. O escritor Robert Twigger salienta que entre o nascimento e os dez ou onze anos de idade, uma parte do cérebro chamada “núcleo basalis” está permanentemente ligada. Contém uma grande quantidade do neurotransmissor acetilcolina, o que significa que acontecem, a todo o tempo, novas conexões. Na primeira infância, as crianças aprendem o tempo todo e combinam as suas experiências de maneira criativa. A filosofia pode ajudar a nutrir essa tendência polimática natural nos jovens, antes que o cérebro se torne mais selectivo nos últimos anos da adolescência. 

     

     

    A filosofia incentiva o vigor intelectual; a persistência necessária para lidar com problemas difíceis

     O filósofo e escritor Darren Chetty argumenta que “a filosofia exige que estejamos confortáveis com o desconforto”. Muitos dos enigmas mais intratáveis ​​da filosofia resultam do desconforto com a forma como as coisas, os conceitos e as ideias se encaixam. O filósofo é frequentemente confrontado com a confusão e a dúvida na sua tentativa de compreender o mundo. Em vez de dissipar a dúvida através de dogmas ou de uma atitude relativista derrotista (“acho que todos devemos estar certos”), os filósofos permanecem com as suas dúvidas enquanto for necessário e trabalham para as resolver pacientemente. À medida que as crianças vão compreendendo os enigmas da filosofia, o facilitador incentiva-as a identificar o que é intrigante, a identificar possíveis formas de resolução e depois a ver se funcionam. Isto pode ajudar a desenvolver resistência intelectual e resiliência, a disposição para permanecer com os problemas durante mais tempo. 

     

    A filosofia prepara as crianças para o futuro do trabalho, encorajando-as a ver o mundo como algo aberto à inovação e melhoria

     Num vídeo amplamente divulgado no YouTube, o falecido CEO da Apple, Steve Jobs, fala sobre o segredo da vida como ele a vê. Diz: “quando crescemos, dizem que o mundo é de uma certa maneira e que nossa vida se resume a viver dentro do mundo, tentando não bater muito nas paredes, tentando ter uma boa vida familiar, divirtindo-se, ganhando um pouco de dinheiro. Mas essa é uma vida muito limitada. A vida pode ser muito mais ampla do que isso quando descobrimos um simples facto, que tudo o que chamamos de vida foi inventado por outras pessoas que não são mais inteligentes que nós e nós podemos mudar isso… Isso talvez seja o mais importante; livrar-se da noção errada de que a vida existe e que você apenas viverá nela em vez de a abraçar, mudar, melhorar, deixar a sua marca nela.” A filosofia com crianças pode encorajar os alunos a ver “o mundo” não como algo dado, mas como algo que pode ser negociado e melhorado. A filosofia dissolve a rigidez do real, encorajando-nos a pensar em formas alternativas de viver e de pensar, e examinando as suposições que fundamentam o “mundo real”. Como observa Jennifer Morton: “A filosofia permite-nos questionar como as coisas são e, muitas vezes, perceber que o modo como as coisas são não é como são ou deveriam ser”. fatores contingentes da história conforme necessário. 

     

    A filosofia incentiva as crianças a verem a educação como um fim em si mesma, e não simplesmente como um meio para atingir um fim

    Muitas das estruturas que visam apontar o valor da educação são instrumentalistas; percebe-se que seu valor reside nalgo fora de si mesmo,  nalgum benefício futuro projectado. Se dissermos que a educação é valiosa na medida em que ajuda as crianças a integrarem-se na sociedade ou a prepararem-se para a vida profissional, então a educação só será valorizada se conseguir esses resultados. Na filosofia, os estudantes são encorajados a questionar-se pelo questionamento em si mesmo e a pensar na verdade por si mesma. Platão afirmou que a vida do filósofo passa por contemplar a verdade, a beleza e a bondade. Estas são considerados valiosas não para algum propósito externo, mas em si mesmas. Na melhor das hipóteses, a filosofia com crianças pode encorajar a contemplação das melhores coisas para o seu próprio bem.

     

    A filosofia permite que os alunos vejam as coisas do ponto de vista dos outros, ajudando-os a desenvolver empatia

    Um dos papéis do facilitador numa investigação filosófica passa por encorajar o desacordo fundamentado e respeitoso. Depois de uma criança oferecer uma visão controversa, o facilitador é rápido em procurar dissidência e em encontrar uma controvérsia que forneça combustível para uma discussão mais aprofundada. Esta tendência de procurar pensamentos divergentes, em vez de convergentes, nas investigações, significa que os alunos rapidamente se habituam a ter os seus pontos de vista desafiados pelos seus pares. Os alunos são encorajados a romper com um egocentrismo superficial que considera apenas os seus próprios pontos de vista como legítimos. A longo prazo, a filosofia visa internalizar o interlocutor que falta numa discussão, para que os alunos possam antecipar objecções aos seus próprios pontos de vista. Alguns dos meus alunos de filosofia dizem agora que procuram instintivamente perspectivas alternativas sobre questões difíceis. A filosofia ajuda a cultivar esta empatia cognitiva – a tentar ver como os outros pensam.

     

    A filosofia ajuda as crianças a desenvolver um relacionamento maduro com a autoridade

    Da infância à adolescência passamos da obediência relativamente inquestionável à autoridade para a rejeição de várias formas de autoridade (por exemplo, pais, professores). A filosofia pode ajudar as crianças a navegar neste período difícil, afirmando um caminho intermédio entre estes dois extremos. Na filosofia, os estudantes são encorajados a consultar o seu próprio sentido de razão quando confrontados com reivindicações de autoridade. A autoridade é aceite se for considerada razoável e se consideramos que é correcto segui-la, mas rejeitada se for irracional ou errada. Nesse sentido, a filosofia oferece uma ponte entre a infância e a adolescência que evita as imaturidades de ambas.

     

    Artigo publicado no linkedin, a 9 de Maio de 2024

     

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    Um dos temas abordados nas oficinas #filocriatividade, de forma directa ou indirecta, é o tema da sustentabilidade. Está presente quando falamos de futuro, de escolhas ou de dilemas éticos. 

    Nas oficinas “No futuro haverá maçãs falantes?” a questão da sustentabilidade é imediata. De que futuro estamos a falar? Como será esse futuro? E se no futuro não houver futuro? 

    Acresce que quando estamos a imaginar maçãs falantes surgem interrogações mais específicas: “No futuro ainda dá para plantar e semear?” ou “Como é que as maçãs lidam com a poluição?” 

    As escolhas quotidianas dizem muito sobre a forma como encaramos a sustentabilidade: aceitamos mais um saco de pano de oferta quando já temos duas mãos cheias de sacos lá em casa?

    Quando me preparo para oficinas que tratam especificamente sobre a temática da sustentabilidade procuro desenhar um mapa mental com palavras ou ideias que associamos a sustentabilidade. Eis um exemplo:

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    Este mapa mental não esgota a temática da sustentabilidade e mesmo assim proporciona várias pistas de exploração da temática que podem ser abordadas com crianças ou jovens de diferentes idades e anos de escolaridade, em diferentes conteúdos programáticos.

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    Para terminar as férias rumei até Beja, a Cidade dos Contos, a Cidade das Andarilhas. A 17.ª edição das Palavras Andarilhas foi a minha primeira edição.

    Já tinha ouvido falar deste evento e este ano resolvi não deixar a oportunidade de conhecer Beja, a Biblioteca Municipal José Saramago e o ambiente das Andarilhas.

    Assim que cheguei a Beja, na sexta-feira, tive a oportunidade de cumprimentar os amigos e as amigas das Livrarias (Perguntadoras e) Independentes: Gatafunho (Oeiras), Doninha Ternurenta (Ovar) e Faz de Conto (Coimbra). Ao final da tarde foi possível escutar o cante alentejano pelas vozes do Grupo Coral do Estabelecimento Prisional de Beja. Depois da abertura oficial das Andarilhas, houve lugar à conversa moderada por Sara Rodi  com Joana Bertholo, Marina Palácio e  Sandra Guerreiro Dias. O tema: Literatura e Natureza.

    Durante esta conversa registei uma pergunta: “Qual é o sentido da vida de uma alface?” 

    A noite foi de homenagem a Thomas Bakk e de contos pelas vozes de Ana Sofia Paiva e Ana Griott. Para terminar em beleza, escutámos as palavras e observámos os gestos da Alice Sousa Neto e da Rita Belicha com a performance A Palavra e o gesto. Alguns destes momentos estão disponíveis na página de facebook das Palavras Andarilhas. 

    No sábado, depois de uma caminhada de 12km pela cidade de Beja, com direito a visitar o Castelo e outros pontos de interesse, rumei até à Biblioteca Municipal de Beja – José Saramago. Aí pude escutar a Paula Cusati e as problemáticas relacionadas com a literatura e a adolescência.

    Uma pergunta que registei durante esta formação: “Quem tem medo do Lobo Mau?”

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    📷 facebook Palavras Andarilhas

     

    Ao final da tarde o tema que invadiu o Auditório foi Literatura e Cidadania. Nessa conversa participaram Ana Cristina Silva, Andreia Brites e Pep Duran, moderados por João Pedro Mésseder. Saliento aqui a intervenção de Ana Cristina Silva a lembrar-nos que o ser humano é um ser enviesado e, na linha do que defende Adela Cortina, com tendências para a xenofobia. Naturalmente a literatura é um reflexo desses enviesamentos, dos quais devemos ter consciência.

    A pergunta que formulei durante a conversa foi: “A neutralidade é desejável?”

    A noite brindou as pessoas presentes com uma brisa fresca e com os contos de José Craveiro, Pep Bruno, Benita Prieto  e Fernando Guerreiro. A pergunta que anotei foi: “Pode o Lobo nunca morrer?”

    Durante a manhã de domingo participei na formação Ouvir para Ler, com a Ana Sofia Paiva. Foi uma manhã de partilha teórica sobre a primeira infância e a forma como as pessoas adultas a entendem e se relacionam com ela. Uma pergunta que me surgiu nesta manhã: “O que dizem os livros que escolhemos sobre a forma como olhamos a infância?”

    Tradição oral, memória e modernidade  foi o tema da conversa na qual participaram Ana Sofia Paiva, Joaninha Duarte e Pep Bruno (moderação de Luís Miguel Ricardo). Desta conversa fica-me uma pergunta: “A tradição é revolucionária?”

     

    Foi muito bom encontrar pessoas conhecidas e pessoas amigas durante estes três dias. (In)felizmente as pessoas “dos livros” não são assim tantas e cabem todas em Beja, nas Andarilhas. A todas essas pessoas com quem me cruzei um muito obrigada pela companhia e pela amizade. 

     

    As Palavras Andarilhas regressam daqui a dois anos. Saiba mais AQUI.

     

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    Etimologicamente a palavra metáfora (μεταφορά) significa transferência ou transporte para outro lugar.

    O livro Metáfora inicia precisamente com essa explicação, referindo que as metáforas da Filosofia são conceptuais. A proposta dos autores vai precisamente nessa linha: apresenta os filósofas e as filósofas a partir de um conceito escrito e transformado em símbolo, bem como acompanhado por uma ilustração.

    Encontramos ainda uma apresentação geral do pensamento do filósofo ou da filósofa e o destaque para a área da filosofia para a qual contribuiu.

    Neste livro podemos conhecer Heraclito, Ockham, Butler, Arendt, Said, entre outros. Há um esforço para apresentar nomes conhecidos da filosofia ocidental, bem como desconhecidos, como Edward Said e a sua proposta conceptual Oriente incluída na filosofia pós-colonial. As mulheres filósofas são representadas por Hannah Arendt (conceito: Deserto) e Judith Butler (conceito: Matriz).

    Metáfora é um livro escrito em espanhol e que, por isso, não será acessível a quem não se sinta confortável com a língua. Diria que, ainda assim, vale a pena espreitar o livro para conhecer a sua proposta visual em termos do conceito.

    Arrumo este livro ao lado de outros que podem cumprir a função de introduzir as pessoas ao maravilhoso mundo da Filosofia, como Grandes Ideias para Mentes Curiosas (The School of Life, Minotauro), O que é a filosofia? (António de Castro Caeiro, Tinta-da-China), A bebedeira de Kant (David Erlich, Planeta de Livros), Grande História Visual da Filosofia de Masato Tanaka e Tetsuya Saito (Marcador) e O Mundo de Sofia de Jostein Gaarder (novela gráfica, Elsinore).

     

     

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    É comum a confusão entre emoção e sentimento. Neste vídeo de 5 minutos, António Damásio explica-nos o que distingue emoção do sentimento. Vale a pena escutar com atenção. 

     

    Sugestão para aprender sobre emoções e sentimentos:

    🟩 O novelo de emoções, de Elizabete Neves e Natalina Cóias (Penguin);

    🔴 documentário Deus Cérebro (disponível na RTP Play e também em livro);

    🟠 How Emotions Are Made –  The Secret Life Of The Brain, de Lisa Feldman Barrett;

    🟦 Pequenos humanos, grandes emoções, de Alyssa Blask Campbell e Lauren Stauble (Ideias de Ler) 

    🔷 “não decidi com a cabeça, decidi com o coração” (artigo deste blog)

    🟣 A ciência dos sentimentos, por António Damásio 

     

     

     

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    A TEDx Talk do Steven Gouveia sobre 3 dilemas para a inteligência artificial já se encontra disponível no YouTube.

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    Adam Grant dedica um capítulo do livro Potencial Escondido à educação. Na p. 207 do livro sublinha a importância da leitura como uma competência básica para qualquer uma das disciplinas; competência para a qual é necessária motivação intrínseca.

    Surge a pergunta: como motivar para a leitura? 

    A resposta comum a esta pergunta é: em casa. É importante ter livros em casa, porém isso não é suficiente. Ter livros nas estantes não basta; é fundamental que haja conversas sobre os livros, que os livros nos acompanhem nas viagens de carro ou de autocarro e que se visitem bibliotecas. Outro elemento fundamental: é importante que as crianças tenham oportunidade de presenciar a leitura de livros por parte das pessoas adultas. Quando uma criança nos vê a ler, está a assimilar a ideia de que ler é algo ao qual damos valor. 

    Por isso pergunto: o seu filho ou a sua filha costumam observá-lo/a a ler? E também pergunto: os/as professores/as comentam com os/as seus/suas alunos/as sobre os livros que estão a ler? 

     

    Reading will seem more like chocolate cake if it’s something that parents themselves take part in happily and regularly. “When I’m sitting there on my couch, reading a book, and my kids are doing their own thing, I like to think, ‘I’m parenting right now—they can see me reading this book,’” Russo told me. Similarly, Paul said that if “right after dinner, the first thing you do is scroll through your phone, open up your laptop, or watch TV,” kids are likely to take note. Parents are constantly sending their children messages with how they choose to spend their free time. (Joe Pinsker)

     

    Há uns meses a minha afilhada, estudante do 6.º ano, procurava um livro para ler e apresentar na escola. A minha afilhada não é uma criança muito motivada para a leitura, pelo que sugeri que apresentasse uma novela gráfica ou uma banda desenhada. Acontece que a professora não aceita trabalho sobre “esses” livros. Compreendo que a professora queira motivar para a leitura; creio é que pretende forçar uma certa leitura, de um certo tipo de livros. Talvez por não conhecer que as novelas gráficas e as bandas desenhadas têm qualidade. Talvez por ser inflexível na ideia que tem da “literatura ideal” para as crianças. 

    Com esta atitude (e outras semelhantes) podemos estar a matar a motivação intrínseca para a leitura. Importa dar oportunidade às crianças e jovens para ler aquilo que lhes interessa:

    É um círculo virtuoso: quanto mais leem por diversão, mais se desenvolvem e mais gostam de ler. E quanto mais gostam de ler, mais aprendem e melhor é o seu desempenho nos exames. A tarefa de um professor não deve ser assegurar que os alunos leram o cânone literário, mas sim fomentar o entusiasmo pela leitura. (Adam Grant, p. 207)

     

    *

    Sobre a temática da leitura e da promoção da leitura, Adam Grant sugere os seguintes livros e pesquisas:

    – Why Some People Become Lifelong Readers, de Joe Pinsker;

    – Joint Book Reading Makes for Success in Learning to Read: A Meta-Analysis on Intergenerational Transmission of Literacy,  de Adriana Bus, Marinus H. van IJzendoornAnthony D. Pellegrini;

    – Moving Educational Psychology Into the Home: The Case of Reading, de Daniel Willingham;

    – Raising Kids Who Read, What Parents And Teachers Can Do, de Daniel T. Willingham;

    – A Meta-Analytic Review of the Relations Between Motivation and Reading Achievement for K–12 Students. de Jessica R. Toste, Lisa Didion, Peng Pen e Amanda M. McClelland;

    – To Read or Not to Read: A Meta-Analysis of Print Exposure From Infancy to Early Adulthood, de Suzanne E Mol e Adriana Bus.

     

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    Se há projecto que respeito e admiro é BOECIO, levado a cabo por Jose Barrientos-Rastrojo (Universidade de Sevilha) e a sua equipa em Espanha, mas também noutros países (Brasil, México e Colombia).

     

    O que é o projecto BOECIO?

    A metodologia do Projeto Boécio desenvolve uma significativa contribuição para o estudo e a pesquisa em humanidades: por um lado, promove o referido bem-vindo resgate da filosofia clássica prática ou aplicada, capaz de ampliar e aprofundar a compreensão dos problemas práticos da modernidade; por outro lado, não se esquiva, senão abarca a reivindicação da possibilidade e do sentido da experimentação, do controle e da verificação de dados e resultados na aplicação da filosofia à vida prática (nesta iniciativa, especificamente, em comunidades carcerárias), em se permitindo, como também assim à filosofia aplicada, um diálogo interdisciplinar que envolve tanto a história intelectual e a das ideias filosóficas como os fundamentos da educação e as ciências sociais. (Rui C. Mayer)

     

    Acompanho de perto o trabalho de Jose Barrientos-Rastrojo, desde que o conheci pessoalmente num Congresso da APAEF. Tive a felicidade de ter a sua companhia no mestrado em Gestão de Recursos Humanos, durante o qual trabalhei o papel do filósofo nas empresas e nas organizações (ISLA Lisboa, actual Universidade Europeia).

     

    Conheça a visão de Barrientos-Rastrojo sobre Filosofia Aplicada (e não só) assistindo a este vídeo:

     

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    Tenho aprendido muito com o psicólogo organizacional Adam Grant. Um dos meus livros preferidos é o Pensar Melhor que tem sido uma referência para mim nos cursos de pensamento crítico e criativo. 

    Estou ainda a ler o Potencial Escondido e já tenho muitas notas registadas no livro, bem como em post its. Eis algumas dessas notas.

     

    Recuar é essencial

    Por vezes quando sugiro às pessoas formandas que apliquem as estratégias de diálogo em sala de aula, tenho a noção que as pessoas têm receio de falhar. Faz parte do processo de experimentar uma coisa nova. Nas pp. 134-135 o autor fala de recuar para seguir em frente. Recuar significa “descartar o nosso plano actual e começar de novo”. É natural que a implementação de um método novo ou de estratégias novas provoque a sensação de que estamos a andar para trás. Já eramos bons naquilo que fazíamos e agora, à conta da inexperiência que temos com os novos processos, não somos assim tão bons. A regressão é importante pois permite dar lugar à melhoria (p. 136). Para que isso aconteça temos de abandonar a ideia de que recuar é desistir.

     

    Os estilos de aprendizagem são um mito

    “Precisamos de abraçar o desconforto de nos perdermos.”, diz Grant. E eu engulo em seco, já que não sou nada fã da expressão sair da zona de conforto. Para mostrar como sou uma leitora atenta dos seus livros predisponho-me a voltar a pensar ou a pensar melhor sobre esta ideia de sair da zona de conforto. Na p. 44 Grant abala o mito da teoria dos estilos de aprendizagem que se tornou bastante popular. O autor não nega que as pessoas tenham um estilo preferido para aprender, ou seja, para aprender conhecimentos e competências. O que a investigação mais recente mostra é que essa preferência altera-se e que apostar numa aprendizagem focada somente nos pontos fortes fará com que não possa melhorar os pontos fracos: 

    O modo como gosta de aprender é o que o deixa confortável, mas não é necessariamente a melhor forma de aprender. Por vezes, até aprende melhor num modo que o deixe mais desconfortável, uma vez que tem de se esforçar mais. Esta é a primeira forma de coragem: conseguir abraçar o desconforto e atirar o estilo de aprendizagem pela janela.

    Enquanto pessoas educadoras temos de encontrar o método certo para a tarefa e não propriamente para a pessoa. Isso pode causar desconforto, o que não significa que não provoque aprendizagem. 

     

    A imperfeição é a nossa melhor amiga

    Apontar para a perfeição implica querer agradar a toda a gente. Quantas vezes não li o feedback das formações e ignorei 15 elogios por ter recebido um comentário negativo? Há algum tempo que tento contrariar isso repetindo para comigo: “Joana, não podes agradar a toda a gente, da mesma maneira.” Claro que se das 16 pessoas formandas, 15 se queixarem… então aí algo está mal. Porém, um ou outro comentário negativo confirma a ideia de que sou imperfeita – e está tudo bem com isso.

    Aprenda, então, com o resultado de oito estudos: as pessoas não julgam as suas competências com base num único desempenho. É o chamado “efeito das implicações exageradas.” (p. 97)

    Mesmo que durante a acção de formação haja uma sessão que corra menos bem, isso não condena o resto da formação.

    De acordo com Grant, uma pessoa imperfeccionista mantém “a disciplina ao decidir quando pressionar para conseguir o melhor e quando se contentar com o suficientemente bom.” (p. 83)

    A imperfeição é a nossa melhor amiga, até porque nem todas as pessoas podem ser como a Beyoncé.

     

    “Ainda não estou preparada.” Então e quando vai estar?

    As minhas formações sobre pensamento crítico começam com tarefas simples e que deixam as pessoas desconfortáveis. Oiço algumas vezes as pessoas a dizer: “Ah, mas eu não estou confortável com isto, não estudei o suficiente.” Não há problema. As minhas formações são espaços de prática e, com o tempo, as pessoas vão substituindo o conforto pelo desconforto:

    Poder começar a criar código no primeiro dia, a ensinar no primeiro dia, a dar treinos no primeiro dia. Não precisa de se sentir confortável antes de poder praticar as suas competências. O seu conforto cresce à medida que as pratica. (p. 59) 

    Por vezes as pessoas dizem: “Ah, mas não me sinto pronta para começar a fazer isto em sala de aula.” E Adam Grant responde: “Se esperarmos até nos sentirmos prontos para abraçar um novo desafio, talvez nunca comecemos a persegui-lo.”

     

    *

    Para já, estas são as notas e reflexões que fiz a partir deste livro. Julgo que voltarei a falar deste livro aqui no blog.

    Boas leituras!

     

    Potencial Escondido / Autor: Adam Grant / Tradutor: Leonardo Cascão / Vogais

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    Chegou-me às mãos o livro de Onjali Q. Raúf recentemente publicado pela Booksmile, traduzido por Renato Correia. Trata-se de um livro que é sobretudo um guia do qual cada pessoa leitora se pode apropriar. 

     

    Onjali Q. Raúf é autora do livro O Rapaz no Fundo da Sala, entre outras obras. Assume o seu lugar de fala de pessoa activista e por isso temas como os refugiados e o diálogo inter-religioso marcam presença nos seus textos. 

     

    A autora mantém um diálogo vivo com a pessoa leitora, desde a primeira página. Coloca perguntas, assume o seu ponto de vista (“Sou ativista e feminista desde os sete anos de idade.” p. 19), sem esconder a sua preferência por chocolate.

     

    Página a página, seguimos caminho por entre o texto e as ilustrações de Isobel Lundie, avançando no sentido do horizonte, entre problemas e possíveis soluções. O mundo está cheio de problemas: basta ver o telejornal ou passear pelas redes sociais dos orgãos de comunicação social. É fácil sentir que nada podemos fazer para mudar o mundo para melhor. Onjali desafia este pensamento com propostas simples e muito práticas.

    É possível mudar o mundo? Sim.

    Vamos mudar completamente o mundo? Não.

    Porém, se ajudarmos alguém com as compras, no meio da rua, já estamos a mudar o mundo dessa pessoa.

    Se cedermos o nosso lugar sentado para alguém que tem dificuldades de mobilidade, já estamos a mudar o mundo dessa pessoa.

    Mudamos também o nosso mundo, pois sentimo-nos bem com essas pequenas acções e alimentamos a esperança. 

     

    Esperança no Horizonte é um livro que poderá ser lido individualmente ou em família. Julgo que poderá ser um bom recurso na escola, para abordar temáticas como o bullying, a xenofobia, as perguntas e a curiosidade, o fracasso e o sucesso, a empatia. 

     

    O papel do livro faz-me lembrar as bandas desenhadas que eu lia quando era criança e que contribuíram para o meu gosto pela leitura. 

     

    Onjali tem o cuidado de arrumar num glossário algumas palavras que podem ser pouco familiares às pessoas leitoras ou que precisem de algum esclarecimento adicional. O livro apresenta ainda sugestões de leitura e de visualização.

     

    *

    Ao ler este Esperança no Horizonte fui estabelecendo pontes com outros livros que tenho nas minhas estantes. Aproveito para partilhar um conjunto de livros que, a meu ver, dialogam com este:

    🟠 Potencial Escondido, de Adam Grant; Tradução de Leonardo Cascão (Vogais)

    🟠 Frederick Douglass – Devo Argumentar quão Absurda é a Escravatura?de Arianna Squilloni; Tradução: Catarina Sacramento; Ilustração: Cinta Fosch (Akiara Books)

    🟠 Eu, Malala. A minha luta pela liberdade e pelo direito à educação, de Malala Yousafzai e Christina Lamb; Tradução: Cristina Carvalho (Editorial Presença)

    🟠 O Livro do Clima, org. de Greta Thunberg (Objectiva) 

    🟠  Não Me Magoas Maisde Margarida Fonseca Santos (Fábula)

    🟠  Daniel, o Guardador de Sonhosde Catarina Rodrigues; Ilustração: Tiago M. (Oficina do Livro)

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    La catedrática de Filosofía Moral de la Universidad de Valencia Adela Cortina Ors ha explicado que, según neurocientíficos como David Eagleman, determinadas causas biosociales inducen al cerebro humano a que tenga tendencia a la xenofobia, “porque en él impera el fin de supervivencia y, por seguridad, busca lo conocido y se enerva ante lo que no controla”. Ello sería el origen de todas las fobias que atenazan a las personas. Sin embargo, la filósofa no cree en el determinismo que esto parece implicar: “Tener una tendencia no implica tener que seguirla. Decidimos qué tendencias queremos cultivar y cuáles no, gracias a la facultad que nos da la libertad”. (artigo completo AQUI)

     

    🔸 importa saber que, apesar da tendência ser reportada pela neurociência, não estamos condenados a segui-la. importa ter consciência de que essa tendência existe, em cada um/a de nós.

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    🟣 Eis as próximas formações #filocriatividade:

     

     

    🔶 9.ª edição Como criar condições para o diálogo em sala de aula / online (25h) – início no dia 18 de Setembro – CCPFC/ACC-114253/22 (Casa do Professor)

     

     

    🟦 4.ª edição: Como desenvolver pensamento crítico em sala de aula / online (25h) – início no dia 30 de Setembro – CCPFC/ACC-119419/23 (Casa do Professor)

     

     

    🔺 2.ª edição: Como criar um espaço e um tempo de escuta em sala de aula / online (25h) – início a 13 de Janeiro de 2025 – CCPFC/ACC-123042/24 (Centro de Formação Alice Maia Magalhães)

     

     

    🟡 1.ª edição: Pensar DENTRO da caixa: como desenvolver pensamento criativo em sala / online (25h) – início a 3 de Fevereiro de 2025 – (Centro de Formação Alice Maia Magalhães)

     

     

     

    Informação detalhadas na agenda #filocriatividade.

     
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    Falar Piano e Tocar Francês é um livro da autoria de Martim Sousa Tavares publicado na Zigurate. O subtítulo não engana: neste livro fala-se de arte, de cultura e de humanismo. Ao longo de 17 capítulos, o maestro Martim leva-nos pela mão para nos contar histórias sobre o encontro entre o ser humano e a arte. 

    Martim é o mediador deste encontro; é a interposta pessoa que procura gerar sentido a partir daquilo que é desconhecido para o público (pp. 24-25). Mediar ou “o verbo-chave nesta história” (p. 13) é a acção que o autor leva a cabo nas páginas de Falar Piano e Tocar Francês. 

    A minha leitura do livro assumiu o ponto de vista de alguém que é uma pessoa mediadora (de diálogos, de leitura e de cultura). Há alguma tendência para que as pessoas mediadoras se limitem a relatar os factos ou a fazer as descrições de forma isenta ou neutra. Porém, a pessoa mediadora está envolvida nesse processo e por isso é tão importante pensar qual é o nosso papel e como o podemos desempenhar. Nas palavras de Martim, é importante pensar como é que podemos “criar um lugar-comum, um plano onde tudo se cruza e onde todos se encontram, numa experiência da qual cada pessoa pode retirar um sentido e sair recompensada.” (p. 13).

    A pessoa mediadora age como guia e está consciente de que aquilo que se observa, que se escuta, que se experiencia pode ser observado, escutado e experienciado de modos distintos. Essa diversidade é apontada pelo autor como uma riqueza, assumindo que a pessoa mediadora assume um ponto de vista pessoal e subjectivo. Sim, vamos condicionar a experiência das pessoas mediadas e esse é um risco que temos de aceitar, ainda que possa ser considerado um “acto subversivo, contraproducente ou inconsequente” (p. 72).

     

    Se, por um lado, a mediação sempre existiu – basta pensar que uma simples legenda com título, autor e data é já uma forma rudimentar de mediação -, por outro, este é um campo onde o mínimo indispensável costuma ser a medida de tabela, transformando-se numa fórmula de mediação no limiar do inexistente e que oferece apenas informação básica sobre as obras apresentadas, transmitida de forma asséptica e impessoal. (p. 70)

     

    Martim reflecte sobre o papel da pessoa mediadora, mas tembém sobre o papel da arte. Afinal qual é a função da arte? O autor arrisca uma ideia: “a função primordial da arte é a melhoria do homem em sentido individual e colectivo. Para além de poder ser agradável, o seu efeito desencadeia mecanismos de raciocínio, reflexão, curiosidade e sensibilidade (…)” (p. 82). Um pouco mais adiante, o autor aponta o carácter paradoxal do fenómeno da arte; carácter esse que também faz parte da natureza humana. A página 83 de Falar Piano e Tocar Francês levou-me a reler um artigo sobre Schopenhauer e o paradoxo que é a nossa vida, bem como a pensar no paradoxo do tempo (Aristóteles) e tantos outros que fazem parte dos livros de filosofia (e da nossa vida!). 

     

    Ler este livro levou-me a reflectir sobre o papel da verdade e da forma estética e ética como a podemos investigar, seja na arte, seja na filosofia. Na p. 83 Sousa Tavares assume que “Nada por estar inteiramente certo ou errado”, apontando aqui uma atitude de humildade e de honestidade intelectuais que importa cultivar. Descarta-se o dogmatismo, um tudo ou nada,  e assume-se uma atitude de busca contínua pela resposta mais razoável ou pela melhor resposta às perguntas que a arte nos coloca de modo perpétuo. 

     

    A haver uma função para a arte diria que se trata de  perpetuar as perguntas. É nesta linha que assumo o meu papel de mediadora entre a arte e a infância, tal como me aconteceu nos trabalhos desenvolvidos junto do MIAA , da exposição de fotografias de Alfredo Cunha ou na Bienal de Aveiro