
No meu feed de instagram vejo muitos registos de actividades realizadas com crianças. Há uma formulação que encontro com frequência quando se descrevem essas actividades:
«As crianças aprenderam que…»
Aprenderam que X é Y.
Aprenderam como funciona determinada coisa.
Aprenderam que devem fazer isto ou aquilo.
E, muitas vezes, fico com uma pergunta: será que perguntaram às crianças?
Não é uma pergunta provocatória; trata-se de uma pergunta absolutamente genuína.
Como sabemos que foi isso que aprenderam?
É natural que as pessoas adultas que pensaram a actividade tenham definido determinados objectivos. Prepararam uma sessão porque queríamos trabalhar determinado conteúdo, desenvolver determinada competência ou colocar as crianças perante determinada questão.
Também é natural haver uma diferença entre aquilo que nos propusemos fazer e aquilo que aconteceu com cada criança.
Uma actividade pode ter um objectivo muito claro para o adulto e provocar aprendizagens completamente diferentes nas crianças. Uma criança pode ter descoberto uma coisa que não estava prevista. Outra pode ter ficado com uma pergunta a fazer eco na sua cabeça. Outra pode ter mudado de opinião. Outra pode ter ficado particularmente interessada numa ideia que apareceu numa conversa. Outra pode não ter considerado a actividade particularmente significativa.
Sugiro, então, algum cuidado com a frase «as crianças aprenderam», pois podemos estar a descrever, não aquilo que as crianças aprenderam, mas aquilo que nós achamos que elas aprenderam. Ou aquilo que achamos que deveriam ter aprendido.
O adulto sabe o que a criança pensa?
Esta questão não aparece apenas quando falamos de aprendizagens; é muito comum encontrá-la quando falamos daquilo que as crianças pensam, querem ou gostam.
Há uns tempos escrevi sobre alguns erros que os adultos cometem quando uma criança faz uma pergunta. Um desses erros é a tendência para corrigir antes de compreender: ouvimos uma frase da criança, atribuímos-lhe imediatamente um significado e respondemos a esse significado — sem primeiro verificar se foi realmente isso que a criança quis dizer.
Achamos que sabemos o que a criança pensa. Achamos que sabemos o que ela quer. Achamos que sabemos do que ela gosta. Achamos que sabemos o que lhe interessa. Achamos que sabemos o que aprendeu. E, às vezes, nem sequer lhe perguntamos.
«Este livro é perfeito para esta idade»
Penso, por exemplo, na escolha de livros.
É claro que os adultos podem ajudar uma criança a escolher um livro. Aliás, podem ter um papel muito importante nessa escolha. Conhecem livros que a criança ainda não conhece, podem apresentar possibilidades, fazer recomendações, chamar a atenção para determinado autor ou ilustrador e ajudar a criança a encontrar aquilo que procura.
Mas há uma pergunta que me parece importante: quando escolhemos um livro para uma criança, estamos a considerar a criança que temos à nossa frente? Ou estamos a escolher para uma ideia que temos de criança?
«As crianças desta idade gostam de…»
«Este livro é adequado para crianças de oito anos.»
«A Maria vai adorar este.»
Como sabemos?
Uma criança de oito anos pode adorar histórias de animais. Outra pode não lhes prestar a mínima atenção. Uma pode procurar humor. Outra pode preferir mistério. Uma pode querer ler sobre aquilo que conhece. Outra pode estar precisamente à procura de alguma coisa que lhe seja completamente desconhecida.
A idade pode ser uma informação relevante. Não é, por si só, uma descrição daquela criança.
Talvez haja uma diferença importante entre dizer:
«Este livro é perfeito para ti.» e dizer: «Acho que este livro pode interessar-te. Queres vê-lo?»
Na segunda frase, há uma hipótese e há espaço para a criança nos dizer que estamos enganados.
Perguntar para saber
Isto leva-me novamente às actividades. Se queremos saber o que aconteceu para uma criança durante uma actividade, talvez não precisemos de começar por:
«O que aprendeste?»
Podemos perguntar outras coisas.
Houve alguma coisa que tenhas achado curiosa na actividade? O quê? Porquê?
Houve alguma coisa que te tenha surpreendido?
Ficaste com alguma pergunta na cabeça?
Houve alguma coisa que te tenha feito pensar de outra maneira?
Houve alguma coisa que alguém tenha dito que te tenha feito pensar?
Achas que a actividade valeu a pena? Porquê?
Ou uma pergunta de que gosto particularmente:
Quando fores para casa e alguém te perguntar o que fizeste hoje, o que vais contar sobre esta actividade? Como vais explicar o que fizemos?
Esta última pergunta interessa-me porque não pede à criança que identifique uma aprendizagem. Pede-lhe que escolha aquilo que, para ela, foi suficientemente significativo para ser contado.
A resposta pode ser uma ideia, uma pergunta, uma coisa engraçada que aconteceu, um momento específico do diálogo, a descrição do processo de pensamento, uma palavra, uma coisa que a criança disse, uma coisa que a criança escutou…
E se a criança disser «nada»?
Também precisamos de estar preparados para essa resposta, sobretudo quando perguntamos «O que aprendeste?» Podemos ficar tentados a concluir que não esteve atenta, que não percebeu a actividade ou que não aproveitou a oportunidade.
Mas e se perguntarmos: «Houve alguma coisa que tenhas achado curiosa?» e a resposta for:
«Não.» Será que temos de transformar esse «não» numa aprendizagem?
Uma pergunta feita para saber tem de deixar espaço para uma resposta que não confirme aquilo que esperávamos ouvir.
Não sabemos sempre
Há, no fundo, uma questão de humildade. Não há nada de errado num adulto com expectativas. Não há nada de errado em definir objectivos, seleccionar livros, preparar actividades ou fazer sugestões.
O problema começa quando confundimos a nossa intenção com a experiência da criança. Quando confundimos o que queríamos ensinar com aquilo que foi aprendido. Quando confundimos aquilo que achamos que uma criança vai gostar com aquilo de que ela efectivamente gosta. Quando confundimos uma hipótese sobre o que ela pensa com conhecimento sobre o seu pensamento.
É importante reconhecer esses limites.
Dizer: «Não sei se vais gostar. Vamos ver.» Ou: «Não sei o que achaste. O que te pareceu?»
Ou: «Não sei o que levas desta actividade. Queres contar-me?»
Perguntar não é abdicar da responsabilidade do adulto. Um adulto pode continuar a escolher, sugerir, orientar, ensinar e mediar. Mas pode fazê-lo deixando espaço para que a criança seja também fonte de conhecimento sobre si própria.
Há uma diferença entre perguntar para saber e perguntar para confirmar aquilo que já decidimos.
E, por isso, quando voltar a encontrar a frase «as crianças aprenderam que…», provavelmente continuarei a fazer a mesma pergunta: Será que perguntaram às crianças?
joana rita
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Para continuar a pensar
Se quer continuar a pensar sobre a forma como os adultos escutam — ou deixam de escutar — as crianças, talvez estes textos lhe interessem:
Sobre perguntas:
10 erros que os adultos cometem quando uma criança faz uma pergunta
É normal uma criança perguntar tanto? Será esse o verdadeiro problema?
Sobre livros e escolhas:
Sugestões de leitura para crianças e jovens: livros recomendados por quem os leu
Sobre escutar a voz das crianças:
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Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.
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