
Segundo a revista Time Out Lisboa, o projecto foi criado por Inês Machado e Ana Braga, da Triciclo, e inspira-se parcialmente numa experiência do pedagogo polaco Janusz Korczak, que incentivava crianças a escrever sobre as suas próprias vidas, preocupações e ideias.
A proposta deste projecto editorial e pedagógico é particularmente interessante porque não trata as crianças apenas como participantes de oficinas de escrita, mas como autoras reais.
Um livro infantil sobre o 25 de Abril, a liberdade e a democracia
O projecto integrou as comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e esse enquadramento atravessa muitas das propostas presentes no livro.
As crianças foram convidadas a pensar sobre:
- liberdade;
- democracia;
- ditadura;
- censura;
- participação;
- revolução.
Mas este não é um livro infantil sobre o 25 de Abril construído a partir de explicações escolares tradicionais. O que encontramos aqui é um conjunto de textos, desenhos, colagens, frases soltas, perguntas, post-its e apontamentos que revelam o próprio processo de pensamento das crianças.
De certa forma, temos acesso não apenas ao resultado final — o livro — mas também ao processo de criação.
Um projecto de escrita criativa e participação cultural infantil
Ao longo das páginas encontramos reflexões sobre aquilo que era proibido durante a ditadura, sobre como se vivia antes da Revolução dos Cravos, sobre os direitos conquistados depois do 25 de Abril e sobre liberdade de expressão e participação democrática.
Tudo isto surge filtrado pelo olhar das crianças: um olhar simultaneamente sério, inesperado e, por vezes, profundamente cómico.
As crianças conseguem fazer ligações aparentemente estranhas entre assuntos, mudar subitamente de tema, fazer perguntas sem ansiedade de resposta e aproximar humor e filosofia sem pedir autorização para isso. Este livro conserva parte dessa energia.
Crianças como autoras e produtoras de pensamento
Talvez o aspecto mais forte deste projecto seja político. Passo a explicar.
Vivemos num mundo onde as crianças passam grande parte do tempo a responder a perguntas feitas por pessoas adultas:
- “O que quer dizer o texto?”
- “O que queria dizer o autor?”
- “O que aprendeste?”
Livros Escritos por Crianças inverte parcialmente essa lógica.
Aqui, as crianças não aparecem apenas como destinatárias da cultura ou da educação. Aparecem como produtoras de linguagem, imaginação e pensamento — algo ainda raro em muitos projectos educativos e editoriais. Outro projecto que actua nesta linha é a Fábrica das Histórias, da Cabeçudos.
Um projecto raro no panorama editorial infantil português
Mais do que uma colectânea de trabalhos escolares, Livros Escritos por Crianças é o resultado de uma experiência de participação cultural infantil.
O projecto da Triciclo Editora mostra que as crianças não têm apenas direito a consumir cultura. Também têm direito a produzir pensamento, a criar linguagem e a escrever o mundo e sobre o mundo.
joana rita

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