
Muitas vezes confundimos argumentação com discussão. Pensamos que uma criança que responde a tudo está a aprender a argumentar. Ou que argumentar consiste em conseguir convencer os outros.
Porém, argumentar é mais do que isso.
Tecnicamente, podemos dizer que argumentar consiste em apresentar razões para sustentar uma ideia (um argumento tem de ter uma ou mais premissas e uma conclusão). Em termos de atitude, argumentar passa também por escutar as razões dos outros e estar disposto a rever o seu próprio pensamento. É uma competência essencial para a vida democrática.
No livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, defendo precisamente que pensar criticamente não significa criticar tudo nem ter sempre uma opinião sobre todos os assuntos. Significa aprender a justificar aquilo que pensamos, a avaliar razões, a considerar diferentes perspectivas e a reconhecer quando um argumento é mais sólido do que outro. A argumentação é, por isso, uma das competências fundamentais do pensamento crítico.
A boa notícia é que esta competência pode ser desenvolvida desde cedo.
Antes dos argumentos, as perguntas
Há um aspecto que, por vezes, esquecemos: aprender a argumentar implica lidar com perguntas.
As boas perguntas obrigam-nos a pensar melhor. Convidam-nos a procurar razões, a reconhecer dúvidas e a considerar outras possibilidades.
É por isso que a argumentação não começa quando uma criança aprende a defender uma opinião de forma muito aguerrida. Começa quando se habitua a fazer perguntas como:
- Como sabes isso?
- Porque pensas dessa maneira?
- Será que existe outra possibilidade?
- O que te faz chegar a essa conclusão?
Sem esta atitude perguntadora, os argumentos tornam-se mais frágeis.
1. Peça razões, não apenas opiniões
Uma pergunta muito frequente nas escolas é: “Qual é a tua opinião?” É uma pergunta importante, mas insuficiente.
Experimente avançar com estas perguntas:
- Porque pensas isso?
- Que razões tens?
- O que te leva a concluir isso?
Pouco a pouco, a criança percebe que uma ideia ganha força quando é acompanhada por razões.
2. Mostre que existem diferentes perspectivas
Uma das melhores formas de desenvolver a argumentação passa por descobrir que duas pessoas podem olhar para a mesma situação de maneiras diferentes.
Depois de ouvir um posicionamento sobre um certo assunto, podemos perguntar:
- Alguém pensa de outra forma?
- Que outra explicação poderia existir?
- Será que ambas as ideias têm algo de verdadeiro?
Argumentar não consiste em eliminar todas as diferenças, mas em aprender a pensar com essas diferenças.
3. Valorize quem muda de ideias
Há uma ideia muito presente na nossa cultura: mudar de opinião é perder. Na realidade, muitas vezes acontece precisamente o contrário.
Quando uma criança diz: “Nunca tinha pensado nisso.” ou “Agora faz mais sentido dessa maneira.”
Agora faz mais sentido dessa maneira.”
está a demonstrar abertura intelectual.
Ensinar a argumentar também passa por mostrar que mudar de ideias pode ser um sinal de aprendizagem.
4. Ensine a escutar antes de responder
Não existe boa argumentação sem escuta. Antes de responder, precisamos de compreender aquilo que a outra pessoa realmente quis dizer.
É por isso que, nas oficinas de Filosofia para/com Crianças, damos tanta importância ao diálogo. O objectivo não é vencer uma discussão, mas construir pensamento em conjunto.
Escrevi mais sobre esta diferença no artigo “Debate ou diálogo em sala de aula: o que estamos realmente a promover?“.
5. Aproveite as conversas do quotidiano
Não é preciso criar exercícios complicados para desenvolver a argumentação; esse treino pode surgir quando uma criança explica porque prefere um livro a outro, ou quando justifica uma regra ou quando tenta convencer a família sobre o menu do jantar.
Sempre que perguntamos “Porquê?” e damos tempo para responder, estamos a ajudar uma criança a organizar o seu pensamento — e também a organizar o nosso.
Um erro muito comum
Muitas vezes elogiamos as crianças que respondem rapidamente, mas responder depressa não significa pensar melhor.
Argumentar exige tempo, pois exige procurar razões, considerar objecções e aceitar que talvez não saibamos o suficiente sobre o assunto para emitir uma opinião fundamentada.
Afinal, o que queremos ensinar?
Nas oficinas #filocriatividade o foco não passa por formar crianças que sabem ganhar discussões; o foco passa por formar crianças capazes de dizer:
“Penso isto por estas razões.”
E, ao mesmo tempo, reconhecer:
“Posso estar enganado.”
Num tempo em que tantas conversas se transformam em disputas, talvez esta seja uma das aprendizagens mais importantes que podemos oferecer às crianças: não apenas defender aquilo que pensam, mas aprender a pensar melhor, em conjunto com os outros.
__
Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, crio espaços para parar, pensar, escutar e dialogar.
A argumentação é uma das competências que trabalhamos nas oficinas #filocriatividade. Não para ensinar as crianças a ganhar discussões, mas para as ajudar a apresentar razões, escutar outras perspectivas, examinar ideias e reconhecer que podem mudar de opinião.
É este o trabalho que desenvolvo com crianças e jovens em escolas, bibliotecas, museus e outros contextos educativos e culturais.
Se procura uma oficina de Filosofia para/com Crianças, uma actividade de pensamento crítico ou uma formação para quem trabalha com crianças e jovens, escreva-me. Podemos conversar.


Deixe um comentário