«Dar a voz aos alunos» é uma expressão muito presente quando falamos de participação infantil e juvenil na escola. Encontramo-la em projectos educativos, documentos, discursos e propostas sobre participação das crianças. Eu própria já a proferi no passado.
Proponho que abandonemos a expressão, para adoptar uma outra: escutar a voz dos alunos.
A diferença pode parecer pequena, mas implica uma forma diferente de olhar para a participação, para a escuta e para o lugar das crianças na escola.
Quem dá a voz?
Quando dizemos que queremos «dar voz aos alunos», colocamos o adulto na posição de quem dá. Quem dá tem alguma coisa que o outro não tem e que pode decidir conceder. Contudo, os alunos já têm voz.
Pensam, perguntam, discordam, argumentam, imaginam, propõem, fazem objecções, contam experiências e constroem ideias. Podem não ser ouvidos — e isso é diferente de não terem voz.
A questão, por isso, não começa em «como dar voz aos alunos?». Começa em como escutar a voz que já têm.
Escutar não é apenas ouvir
Escutar implica outra atitude; implica atenção, seriedade e interesse genuíno por aquilo que está a ser dito. Implica procurar compreender as palavras, as perguntas, as razões, as dúvidas e as objecções de quem fala.
Escutar uma criança não implica aceitar como verdadeiro tudo aquilo que ela diz, mas sim levar a sério o que diz. Podemos perguntar porquê. Podemos pedir que explique melhor. Podemos apresentar outra perspectiva. Podemos discordar. Podemos descobrir uma contradição ou reformular uma ideia.
E assim começa o diálogo. Escutar os alunos não significa concordar com eles. Significa estar disponível para pensar com aquilo que ouvimos.
E quem não fala?
Há ainda outra questão quando falamos de participação dos alunos: será que participar significa necessariamente falar?
Nem todas as crianças participam da mesma maneira. Há quem precise de tempo para pensar antes de responder. Há quem observe atentamente durante um diálogo e só intervenha quando encontra algo que considera importante acrescentar. Há quem prefira escrever, desenhar ou encontrar outras formas de expressão.
Numa das minhas oficinas, acompanhei durante algum tempo um rapaz que raramente falava nos diálogos. Poderia parecer, à primeira vista, que participava pouco. Mas estava atento. Acompanhava os argumentos. Pensava sobre o que os outros diziam. Mais tarde, soube que recriava em casa alguns dos diálogos da oficina.
A sua participação estava a acontecer, apenas não correspondia à imagem habitual de participação como quantidade de intervenções orais. Também já acompanhei crianças que começaram por permanecer em silêncio e que, depois de algumas sessões, encontraram condições para começar a falar.
Por isso, quando pensamos em participação infantil na escola, precisamos reconhecer diferentes ritmos, formas de expressão e modos de participação. Escutar passa por estar atento a isso.
Escutar os alunos implica considerar o que dizem
Há uma pergunta que me parece particularmente importante:
O que fazemos depois de ouvir?
Podemos perguntar aos alunos o que pensam, recolher as suas opiniões e continuar exactamente como antes. Nesse caso, houve oportunidade para falar. Houve recolha de opiniões. Houve, talvez, uma aparência de participação. Faz-me lembrar uma visita a uma escola onde encontrei nas janelas de uma sala uma espécie de manifesto assinado pelas crianças sobre aquilo que gostariam de mudar na escola. Ao ler as suas ideias, comentei com a pessoa que me acompanhava: curioso, uma das ideias comuns é mesmo a questão do tempo (exemplo: mais tempo para brincar). E perguntei: qual foi a consequência destas ideias? Houve algumas mudanças?
A resposta foi «não». Era apenas um projecto da escola.
Este «dar a voz» não produziu qualquer efeito.
Escutar implica considerar aquilo que foi dito. Note que isso não significa que todas as decisões tenham de ser tomadas de acordo com a vontade dos alunos. Os adultos continuam a ter responsabilidades e a tomar decisões.
Significa que aquilo que as crianças dizem pode exigir uma resposta. Pode ser necessário explicar uma decisão. Rever uma proposta. Negociar. Fazer uma pergunta diferente. Mudar de posição. Ou reconhecer simplesmente que uma criança nos fez ver alguma coisa que não tínhamos visto.
Participação infantil não é apenas votar
A discussão sobre a voz das crianças também aparece quando falamos de democracia.
Participar numa comunidade não se reduz a votar. Pode significar expressar opiniões, colocar questões, propor alternativas, contribuir para decisões e ajudar a construir os espaços de que fazemos parte.
As crianças são afectadas por decisões políticas, sociais e educativas no presente. Não são apenas cidadãos do futuro.
Por isso, a pergunta «serão as crianças capazes de participar?» merece ser acompanhada por outra: estarão os adultos preparados para escutar seriamente aquilo que as crianças têm para dizer?
Há uma diferença entre ser consultado e ter poder de decisão. Há também uma diferença entre ouvir uma opinião e criar condições para que essa opinião entre verdadeiramente num processo de diálogo.
Nas comunidades de investigação filosófica, esta questão torna-se particularmente evidente. As ideias são examinadas através de perguntas e argumentos. Uma pergunta pode ser tão importante como uma resposta. Podemos discordar e continuar a escutar, podemos descobrir que uma boa razão nos obriga a rever aquilo que pensávamos.
É uma forma de participação que não depende simplesmente de ser o primeiro a levantar a mão, falar mais alto ou ganhar uma votação.
Escutar é estar disponível para ser surpreendido
Escutar exige aceitar que aquilo que ouvimos pode interferir com aquilo que pensávamos antes de ouvir. Se já sabemos antecipadamente o que queremos que as crianças digam, podemos fazer perguntas, organizar consultas e promover actividades participativas — mas não estamos verdadeiramente disponíveis para escutar.
Escutar implica deixar espaço para o inesperado: uma criança pode colocar uma pergunta que altera o rumo de uma conversa, apresentar uma razão que nos obriga a reconsiderar uma decisão, discordar de uma ideia que todos pareciam aceitar, chamar a atenção para um aspecto que os adultos não tinham considerado.
É por isso que a escuta é uma questão de participação, mas também de humildade intelectual.
Em vez de dar a voz aos alunos, escutar a sua voz
Não precisamos de dar a voz aos alunos. Precisamos de escutar a voz que já têm.
A mudança de formulação parece pequena, mas muda a pergunta.
Em vez de perguntarmos como podemos criar oportunidades para que as crianças falem, podemos perguntar se estamos realmente disponíveis para ouvir o que dizem.
Em vez de medir a participação apenas pelo número de intervenções, podemos procurar compreender as diferentes formas como as crianças participam.
Em vez de confundir escuta com concordância, podemos criar condições para o desacordo, para a argumentação e para a revisão das ideias.
E, sobretudo, podemos perguntar o que acontece depois de uma criança falar. (Vou repetir-me.) Porque escutar implica atenção. Implica seriedade. Implica interesse genuíno. E implica reconhecer que as crianças já têm voz.
A nossa responsabilidade é escutá-la.
joana rita


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