Oficinas de filosofia com crianças sobre realidade, aparência, ordem e caos. Um exercício de pensamento crítico a partir da Filosofia Visual.

Recentemente estive em Ferreira do Zêzere, a trabalhar com turmas do 5.º e 6.º anos.
Levei comigo propostas do Pinch Me!, da Ellen Duthie.
Mas levei, sobretudo, uma pergunta: o que acontece quando o mundo acorda de pernas para o ar?
É uma pergunta que desorganiza e provoca alguma estranheza.
Observar em silêncio: o início do pensamento
As oficinas começam com um convite simples: observar em silêncio.
“Simples, mas não fácil”, disse o L. do 5.º ano.
No silêncio, torna-se evidente que ver não é imediato.
É preciso tempo para reparar nisto ou naquilo, para relacionar, para deixar aparecer aquilo que não é óbvio.
Este momento inicial não é um mero aquecimento, mas sim a filosofia a acontecer. É neste momento que começamos a dar-nos conta da ambiguidade das imagens.
Realidade, aparência, ordem e caos
A partir das imagens, fomos entrando em questões clássicas da filosofia:
o que é real?
o que é apenas aparência?
o que distingue a ordem do caos?
Mais importante do que os temas foi o modo como os abordámos: sem pressa de chegar a respostas.
Filosofia como trabalho sobre o que não é claro
Ao longo das sessões, fez-se presente a ideia de António de Castro Caeiro: a filosofia como uma “obsessão pela transparência”.
Filosofar é demorar-se na opacidade.
O que se pratica numa oficina de filosofia?
A oficina #filocriatividade cria um tempo e um espaço para que possamos:
- escutar com atenção
- suspender o juízo para compreender o outro
- distinguir perguntas de comentários
- relacionar ideias
- pensar sobre o próprio pensamento
E, talvez o mais difícil: aceitar que o simples tem a sua dificuldade e que as coisas não são tão óbvias quanto parecem.
Estranhar e entranhar
As propostas geram quase sempre a mesma reação: estranheza.
Mas é uma estranheza produtiva que, pouco a pouco, se transforma em envolvimento.
A filosofia tem esta natureza paradoxal: estranha-se e entranha-se.
Para que serve isto?
Num contexto onde se valoriza a resposta rápida, estas oficinas criam outra coisa: tempo para pensar.
Não saímos com respostas fechadas.
Saímos com perguntas mais afinadas, com maior atenção ao que vemos e ao que nos escapa.
E com uma disposição diferente: a de continuar a pensar.
Nos dias seguintes às oficinas, quando encontrava as crianças das turmas com as quais já tinha trabalhado, continuavam a surgir perguntas e observações sobre as imagens.
joana rita sousa
oficinas realizadas a convite da Fundação Maria Dias Ferreira

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