
If we are constantly astonished at the child’s perceptiveness, it means that we do not take them seriously. Janusz Korczak (Joseph, 1999)
A frase de Janusz Korczak aponta para uma ideia exigente: o espanto constante perante a “perspicácia” das crianças pode revelar uma expectativa baixa. Surpreendemo-nos porque, no fundo, não contávamos que pensassem assim.
O espanto, neste caso, denuncia uma forma súbtil de desvalorização.
Confesso que nunca tinha formulado a questão desta maneira, embora me incomodem observações aparentemente inofensivas, como: “as crianças dizem coisas tão giras”.
Já dei por mim a pensar, sem dizer: “giras? giras, não, sérias!”.
Há algo nesse tipo de comentário que desloca o pensamento da criança para o campo do encantador, do curioso, mas não necessariamente do significativo.
É precisamente esse tipo de espanto que Korczak parece criticar, um espanto que diminui, porque parte de uma expectativa limitada: “não estava à espera disto vindo de uma criança”.
Mas talvez seja importante não rejeitar o espanto em si, e sim distinguir os seus modos. Há um outro espanto, que poderíamos chamar filosófico, que não assenta numa hierarquia implícita. É o espanto que reconhece o pensamento da outra pessoa, seja criança, jovem ou adulta, como genuinamente inesperado. Um espanto que não diminui, mas que desloca: “nunca tinha pensado nisso”.
Entre um e outro, joga-se algo decisivo. Não apenas a forma como olhamos para as crianças, mas a forma como entendemos o seu pensamento; pensamento que merece ser escutado com seriedade.
joana rita sousa

Deixe um comentário