
O guarda-redes como filósofo
Estou encantada com este trabalho da Renascença, do jornalista Eduardo Soares da Silva, sobre o treinador Farioli. Lembro-me de ouvir falar que o tinha estudado Filosofia, quando foi contratado para o Futebol Clube do Porto. Talvez por questões clubísticas, não tive curiosidade em saber mais sobre os seus estudos, as suas investigações.
O podcast chama-se O Código Farioli, e neste episódio 2 é possível escutar a sua ideia de jogo pelo olhar do guarda-redes, a pessoa que está dentro e fora do jogo, simultaneamente. “O filósofo é o Homem que participa e está de fora.” O ser humano que se dedica ao ofício da Filosofia está no mundo e procura distanciar-se dele, tal como o guarda-redes.
Pensar o jogo
Talvez seja precisamente aí que o pensamento filosófico entra no futebol de Farioli: não apenas nas ideias tácticas ou nos métodos de treino, mas na forma como olha o jogo como uma experiência humana complexa, feita de percepção, tempo, risco, decisão e relação com os outros. O guarda-redes torna-se, então, mais do que um jogador; é uma figura filosófica, alguém obrigado a ler o mundo inteiro a partir de um lugar de aparente solidão.
Epoché entre os postes
Esse distanciamento faz-me lembrar a ideia de epoché: a suspensão do juízo, a tentativa de interromper, ainda que momentaneamente, os automatismos com que olhamos o mundo. O guarda-redes, como o filósofo, parece exercer esse gesto raro de suspensão — recua um passo para ver melhor, evita reagir imediatamente, procura ler o movimento antes de se deixar arrastar por ele.
Tanto no futebol como na Filosofia, pensar exige precisamente isso: a capacidade de habitar o jogo sem ficar totalmente preso à vertigem do jogo.
joana rita sousa
(A propósito de Filosofia e Futebol, há uns anos troquei umas bolas com o Luís Cristovão que resultaram neste e neste artigo. Boas leituras!)
imagem: Renascença

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