
Vi a capa de O Grande Livro dos Rabos algures e sorri imediatamente. Rabos. Muitos rabos! Quando finalmente tive oportunidade de folhear este livro infantil de não-ficção, fiquei completamente rendida à proposta.
Afinal, tudo o que diz respeito a rabos, cocó e pum provoca gargalhadas nas crianças. Quando crescemos, tendemos a deixar de rir destes temas — talvez porque começamos a sofrer dos primeiros sintomas de “adultês”.
Lembro-me de embalar a minha afilhada, ainda bebé, e de lhe sussurrar:
“Aproveita. Agora toda a gente vai achar maravilhoso se arrotares depois de comer e se a tua fralda tiver cocó. Daqui a uns anos, arrotar será feio e falar de cocó também.”
Um livro infantil sobre rabos… e evolução humana
O Grande Livro dos Rabos, de Eva Manzano, com ilustrações de Emilio Urberuaga, transforma o rabo num verdadeiro objecto de estudo. Este livro infantil informativo convida-nos a pensar no rabo de um ponto de vista científico, zoológico, evolutivo e cultural.
A proposta é simultaneamente divertida e inteligente: usar um tema aparentemente disparatado para despertar curiosidade científica nas crianças.
Logo nas primeiras páginas, o livro lembra-nos um pequeno detalhe fascinante: não conhecemos verdadeiramente o nosso próprio rabo. Tal como a nuca, é uma parte do corpo mais visível para os outros do que para nós.
Mas como surgiu o rabo? O rabo ajudou os seres humanos a tornarem-se mais inteligentes? Que papel teve na evolução humana?
O livro responde a estas perguntas — e a muitas outras. Mesmo sendo um livro de não-ficção para crianças, este é também um livro profundamente perguntador.
Porque é que os rabos incomodam tanto as pessoas adultas?
Parte da inteligência de O Grande Livro dos Rabos está precisamente aqui: o livro pega num tema divertido para as crianças e desconfortável para muitas pessoas adultas.
Isso leva-nos inevitavelmente a perguntar:
- Porque nos incomodam tanto as conversas sobre rabos e cocó?
- Porque transformamos certas partes do corpo em tabu?
- Porque é que algumas funções do corpo provocam simultaneamente riso e vergonha?
Humor, cocó e humanidade
Além das crianças, há outro grupo profundamente fascinado por cocó, xixi e rabos: os humoristas.
No livro Coisa que não edifica nem destrói, Ricardo Araújo Pereira dedica um capítulo ao humor escatológico e escreve:
“Humoristas de todos os tempos e lugares têm demonstrado um fascínio muito grande por matéria fecal — uma idiossincrasia, entre muitas, que partilham com crianças pequenas.”
Mais à frente, acrescenta uma ideia particularmente bonita: rir dos excrementos não significa necessariamente desprezá-los. Pelo contrário, pode ser uma forma de celebrar a vida, o prazer, o corpo e a condição humana.
Somos, afinal, criaturas capazes do sublime e do excremento. Fazemos poesia, catedrais… e também fazemos cocó.
Um livro infantil que celebra o corpo e a curiosidade
No fundo, O Grande Livro dos Rabos é muito mais do que um livro engraçado sobre rabos. É um livro infantil sobre o corpo humano, a evolução, os tabus e a curiosidade.
Um livro que mostra como o humor pode abrir espaço para perguntas sérias.
Um lembrete de que crescer não devia obrigar-nos a perder a capacidade de rir destas coisas.
Viva o rabo!
joana rita sousa
O Grande Livro dos Rabos, Eva Manzano e Emilio Urberuaga, Booksmile / #pub

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