
Entre Abril e Outubro, o ciclo Abrir Abril: oficinas para famílias, integrado no projecto de mediação cultural e filosófica #filocriatividade no MUZEU — Pensamento e Arte Contemporânea dst, convidou as famílias a parar, observar, perguntar, escutar e dialogar a partir das obras e dos espaços do museu.
Ao longo de seis encontros, partimos de perguntas para pensar a liberdade de pensamento e de expressão, o gosto, a diversidade de perspectivas, a discordância e as utopias.
As obras de arte contemporânea foram pontos de partida para pensar questões que atravessam o quotidiano, as relações com os outros e a vida em comum.
Abrir o Museu às Perguntas
Que perguntas merecem ser guardadas? O que faz de uma pergunta uma boa pergunta? Pode um museu ser um lugar para não saber?
A oficina inaugural convidou as famílias a imaginar um Museu de Perguntas: um espaço onde se expõem dúvidas, inquietações e interrogações, em vez de respostas.
Pensámos no papel das perguntas e no sentido de visitar um museu guiados pela curiosidade. «Para mim tem sentido, porque posso ficar com mais curiosidade para encontrar as respostas», explicou uma das crianças presentes.
Explorámos também o diálogo como possibilidade de lidar com quem não concorda connosco, procurando caminhos colaborativos que passaram, inclusivamente, pelos bolinhos de bacalhau. Depois de formularmos perguntas, assumimos o papel de pessoas curadoras: que critérios deveriam orientar a escolha das perguntas a expor? E que critérios usar para escolher esses mesmos critérios?
A oficina terminou com a inauguração simbólica do nosso Museu de Perguntas, que ficou a existir, pelo menos por enquanto, no espaço partilhado da imaginação das famílias.
Somos livres para pensar o que quisermos?
Podemos dizer tudo o que pensamos? Há ideias que não devem ser ditas? Quem decide o que podemos pensar e dizer em voz alta?
Partindo destas questões, as famílias foram convidadas a explorar a liberdade através de uma caminhada colaborativa entre ideias que completavam duas frases: «sou livre quando…» e «não sou livre quando…».
Surgiram exemplos relacionados com a escola, a família, o trabalho, as amizades e os pensamentos que guardamos para nós. Ao justificar as nossas ideias e dar exemplos, procurámos tornar o pensamento mais claro e compreensível para os outros, criando condições para questionar, concordar ou discordar.
Entre a liberdade individual e a vida em comum, encontrámos diferentes perspectivas sobre aquilo que nos permite sentir livres e os limites que reconhecemos nessa liberdade. No final, ficou o convite a pensar sobre o próprio pensamento e sobre o que acontece quando o partilhamos com outras pessoas.
Temos todos de gostar do mesmo?
O que acontece quando não gostamos das mesmas coisas? Faz sentido visitar um museu sabendo que podemos encontrar obras de que não gostamos?
Antes de conversar sobre o gosto, dedicámos tempo à observação de obras da colecção. Procurámos pormenores, reparámos no que cada obra despertava em nós e demos espaço às diferentes reacções.
No chão da Assembleia, o diálogo levou-nos a questionar se o gosto é apenas uma preferência individual ou se também é influenciado pelas experiências que vivemos, pelas pessoas com quem convivemos, pela cultura em que crescemos e pelas circunstâncias em que encontramos uma obra, uma canção ou um alimento.
A pergunta sobre o gosto abriu caminho para pensar a diferença e a convivência com opiniões divergentes. Afinal, será necessário gostar das mesmas coisas para partilhar um espaço, conversar ou compreender as preferências dos outros?

Será que há demasiadas formas de pensar?
Diante da parede de Cabrita Reis, composta por dezoito reinterpretações da reinterpretação que Francis Bacon fez da obra de Velázquez, as famílias foram convidadas a observar, fazer silêncio e procurar elementos curiosos.
Um guião de observação e pensamento acompanhou esta exploração, preparando o diálogo que continuou no chão da Assembleia.
Começámos com a pergunta «Será que há demasiadas formas de pensar?» e terminámos com outra: «E se não houvesse demasiadas formas de pensar?».
Entre as duas, explorámos a diversidade de interpretações e perspectivas. A multiplicidade de formas de pensar pode gerar tensão e conflito, mas também abre possibilidades de diálogo e de construção partilhada de sentidos.
Liberdade para discordar
Discordar é o mesmo que discutir? É possível discordar sem discutir?
Nesta oficina, as famílias aceitaram o desafio de colocar em prática a liberdade para discordar. Entre cartolinas coloridas, procurámos razões para sustentar ideias com as quais concordávamos — ou não.
Demos exemplos, trabalhámos com critérios e arriscámos ideias. Como vem sendo habitual nestas oficinas à beirinha da hora de almoço, também houve espaço para falar de comida.
Mais do que procurar consensos imediatos, exercitámos a possibilidade de pensar de maneira diferente, justificar posições e escutar razões que não são as nossas. A discordância tornou-se, assim, uma oportunidade para praticar a argumentação e o diálogo, reconhecendo que o desacordo faz parte da vida em comum.
O que fazer com as utopias?
Se as utopias não são apenas sonhos, o que fazemos com elas no dia a dia? Guardamo-las, transformamo-las, abandonamo-las?
No MUZEU, podemos subir, degrau a degrau, até ao infinito e mais além. Esta imagem abre espaço ao sonho e à utopia, mas também nos confronta com os limites do possível e do realizável.
Se não podemos construir umas escadas que nos levem até ao infinito, o que podemos fazer? Como transformar aquilo que imaginamos em possibilidades de acção? E de que modo pode uma utopia orientar as nossas escolhas quotidianas?
A oficina convidou as famílias a pensar a utopia como uma ferramenta crítica: não apenas um horizonte distante, mas uma forma de interrogar o presente, imaginar outras possibilidades e pensar no que podemos fazer para cuidar do mundo comum.

Pensar em conjunto, a partir da arte
Ao longo destas seis oficinas, as obras e os espaços do MUZEU foram pontos de partida para explorar perguntas que não se esgotam numa resposta. A observação atenta, a formulação de perguntas, a justificação de ideias, a procura de critérios e a escuta de perspectivas diferentes fizeram parte de um percurso de diálogo filosófico com as famílias.
Pensar em conjunto implica reconhecer que podemos observar a mesma obra e encontrar nela coisas diferentes, gostar de coisas distintas, discordar e, ainda assim, continuar a conversar. Implica também aceitar que algumas perguntas ficam em aberto e que nem sempre chegamos a uma conclusão comum.
É nesse espaço de curiosidade, rigor e disponibilidade para escutar que a arte contemporânea pode encontrar o diálogo filosófico: uma oportunidade para parar, pensar, questionar e descobrir outras formas de olhar para as obras, para os outros e para o mundo.
A mediação cultural e filosófica: criar espaços para pensar
Este ciclo é também uma expressão do trabalho de mediação cultural e filosófica que desenvolvo. Partindo das características do MUZEU, das obras da sua colecção e das possibilidades que o espaço oferece, cada oficina foi preparada para criar condições de encontro entre as famílias, a arte contemporânea e as perguntas que dela podem emergir.
Não se tratou de realizar aulas de Filosofia dentro de um museu, nem de apresentar interpretações das obras que as famílias devessem compreender ou reproduzir. O propósito foi criar oportunidades para observar, formular perguntas, examinar ideias, escutar diferentes perspectivas e pensar em conjunto.
A mediação cultural e filosófica acontece nesse espaço de relação: entre aquilo que encontramos, aquilo que pensamos e aquilo que podemos descobrir quando partilhamos o pensamento com outras pessoas. A experiência de visitar um museu pode, assim, prolongar-se para além do encontro, através de perguntas que continuam a acompanhar-nos.
Esta é uma das dimensões que pretendo explorar na relação entre Filosofia e cultura: criar espaços e tempos para pensar a partir das obras, dos lugares e das experiências que partilhamos.
(E uma boa notícia: as oficinas #filocriatividade vão continuar no MUZEU, no segundo ciclo, de Novembro de 2026 a Abril de 2027. YEAH!)
joana rita
fotografias: Hugo Delgado
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Se procura uma forma diferente de aproximar os seus públicos de uma exposição, de um museu, de um espaço patrimonial ou de um festival, podemos pensar em conjunto uma proposta de mediação cultural e filosófica adequada ao seu contexto.
Desenvolvo oficinas, visitas dialogadas e outros dispositivos de mediação a partir das características de cada espaço, obra e público, cruzando a minha experiência em Filosofia para/com Crianças e Jovens com a prática do diálogo, o estudo da mediação cultural e do turismo cultural.
Se pretende criar uma experiência cultural que não termina quando acaba a visita, fale comigo.

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