
O Halloween e o Dia de Finados são ocasiões que, de diferentes maneiras, nos aproximam de temas como a morte, a memória, a ausência e a finitude.
Entre disfarces de esqueletos, histórias de fantasmas, visitas aos cemitérios e homenagens a quem já morreu, há uma oportunidade para recuperar perguntas que nem sempre encontram espaço nas conversas do quotidiano.
O que significa morrer? Para onde vão as pessoas quando morrem? Porque temos medo da morte? O que acontece às memórias de alguém que já morreu? Podemos continuar a sentir a presença de uma pessoa que já não está connosco?
As crianças também fazem estas perguntas. Por vezes, surgem a propósito de uma história, de um filme, de um animal de estimação ou de uma notícia. Outras vezes, aparecem inesperadamente, no meio de uma conversa ou de uma brincadeira.
Como respondemos a estas perguntas? E que oportunidades criamos para conversar sobre a morte com crianças e jovens?
Falar sobre a morte também faz parte da educação
A morte faz parte da experiência humana. Apesar disso, continua a ser um assunto que muitos adultos evitam abordar com as crianças.
A intenção de as proteger é compreensível. Nem sempre sabemos como responder, receamos provocar medo ou tristeza e, por vezes, transportamos as nossas próprias dificuldades em falar sobre a finitude.
No entanto, as crianças encontram-se com a morte desde cedo. Através das experiências familiares, da perda de animais, das histórias que ouvem e dos conteúdos a que acedem, vão construindo interpretações e colocando perguntas.
No artigo Criança e Morte, Luiza Agostinho Matias reflecte sobre a relação entre infância e morte, chamando a atenção para a importância de escutar as crianças e reconhecer a sua capacidade para pensar sobre a finitude.
Vale a pena ler Perguntas vitais sobre assuntos fatais: porquê falar sobre a morte com crianças?, onde apresento o enquadramento das Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais, um projecto de filosofia e diálogo que desenvolvo desde 2024.
Falar sobre a morte implica reconhecer que existem perguntas para as quais não temos respostas definitivas. Implica também respeitar diferentes crenças, experiências e formas de viver a perda.
O que devemos evitar dizer às crianças sobre a morte?
Quando precisamos de explicar que alguém morreu, recorremos frequentemente a expressões que parecem mais suaves: «Foi dormir», «Foi embora», «Partiu» ou «Foi para um lugar melhor».
Estas expressões podem gerar confusão, sobretudo quando as crianças ainda estão a construir a compreensão da morte.
Também é frequente tentarmos interromper a manifestação de emoções com frases como «Não chores», «Tens de ser forte» ou «Não penses nisso».
Há palavras que merecem a nossa atenção e hábitos de comunicação que podemos rever.
No artigo Coisas que devemos evitar dizer às crianças sobre a morte, reúno exemplos de expressões habituais e convido à reflexão sobre a forma como comunicamos com as crianças quando a morte entra nas nossas conversas.
Escutar a pergunta antes de responder, procurar compreender o que a criança quer saber e reconhecer aquilo que desconhecemos são atitudes importantes.
Visitar um cemitério em família: uma oportunidade para conversar
O Dia de Finados, celebrado a 2 de Novembro, é uma ocasião particularmente associada à memória das pessoas que morreram e à visita aos cemitérios.
Estes espaços guardam histórias, nomes, fotografias, esculturas, inscrições e objectos. São lugares onde se cruzam a memória individual e colectiva, a arquitectura, a arte, a história e diferentes formas de expressão dos afectos.
Uma visita a um cemitério pode abrir caminho a muitas perguntas:
- Quem foram as pessoas que aqui estão sepultadas?
- Como sabemos alguma coisa sobre a vida de alguém que já morreu?
- Porque guardamos fotografias e objectos de quem partiu?
- O que significa recordar alguém?
- Como gostaríamos de ser lembrados?
- Um cemitério pode ser um lugar de vida?
No artigo 3 razões para visitar um cemitério em família, apresento algumas possibilidades para descobrir estes espaços com crianças: olhar para a vida através da memória dos outros, aprender a observar um lugar de outra maneira e conversar sobre a morte.
Uma visita em família pode ser uma experiência cultural, patrimonial e filosófica. A observação atenta de um epitáfio, de uma escultura ou de uma fotografia pode dar origem a uma conversa sobre a identidade, a memória, o tempo e a forma como nos relacionamos com quem já morreu.
Livros para pensar sobre a vida e a morte
A literatura também pode criar oportunidades para abordar a morte com crianças e jovens.
Uma história, uma ilustração ou uma personagem podem abrir espaço para perguntas, interpretações e conversas que, de outra forma, seriam difíceis de iniciar.
A escolha dos livros deve ter em conta a pessoa a quem se destinam; a idade pode ser uma referência insuficiente, pois também é preciso ter em conta as experiências, o contexto e a intencionalidade da leitura partilhada. Não se trata apenas de encontrar livros que falem sobre a morte, mas de descobrir obras que permitam pensar sobre questões relacionadas com a vida, a ausência, a transformação, a memória e a finitude.
Na publicação Sugestões de leituras para a vida antes da morte, reúno propostas bibliográficas que podem ajudar a iniciar estas conversas.
Halloween, Finados e as perguntas que ficam
O Halloween pode trazer para o quotidiano imagens de esqueletos, monstros, fantasmas e outras figuras associadas à morte. O Dia de Todos os Santos e o Dia de Finados convocam outras tradições, rituais e formas de recordar quem morreu.
São contextos diferentes, mas todos podem proporcionar oportunidades para pensar sobre a nossa relação com a morte. Podemos aproveitar estas datas para conversar sobre o medo, a vida, a ausência, as crenças, os rituais e a memória. Podemos perguntar às crianças o que pensam, o que sabem, o que imaginam e o que gostariam de compreender melhor.
Desde 2024, as Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais, promovidas pela #filocriatividade, têm criado espaços de pensamento e diálogo sobre a vida e a morte, incluindo em contexto cemiterial.
Nestas oficinas, crianças, jovens e pessoas adultas são convidadas a observar, formular perguntas, escutar diferentes perspectivas e construir pensamento em conjunto.
Pensar sobre a morte também é pensar sobre a vida.
joana rita

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