“As perguntas são os motores das máquinas intelecto-cerebrais que convertem a curiosidade em interrogações controladas.” (David Hackett Fischer, citado por W. Berger)

Porque fazemos perguntas?
À primeira vista, a resposta parece simples: perguntamos porque não sabemos. Será apenas isso?
Há perguntas que nascem da falta de informação. Outras surgem porque aquilo que já sabemos deixou de nos satisfazer. Há momentos em que uma explicação parece incompleta, uma resposta levanta novos problemas ou uma experiência obriga-nos a olhar para o mundo de outra maneira.
Perguntar é reconhecer que existe algo por compreender.
No livro A Arte de Fazer Perguntas, Warren Berger recorda uma ideia aparentemente simples, mas profundamente importante: perguntamos porque temos consciência da nossa ignorância. Nas suas palavras, essa consciência distingue a pessoa curiosa daquela que “não sabe nem quer saber”.
Esta ideia merece ser pensada com algum cuidado. A ignorância não é necessariamente um defeito. Pelo contrário, pode ser o ponto de partida do pensamento. Só pergunta quem admite que ainda não compreende totalmente um assunto. Perguntar exige humildade.
A coragem de não saber
Reconhecer que não sabemos alguma coisa nem sempre é confortável. Sobretudo em contextos onde valorizamos as respostas rápidas e a certeza.
Fazer uma pergunta implica expor uma dúvida perante os outros. Significa assumir que existe uma lacuna no nosso conhecimento e confiar que vale a pena explorá-la.
Talvez seja por isso que perguntar seja, ao mesmo tempo, um acto humilde e um acto corajoso.
Nas oficinas de diálogo filosófico observo frequentemente este momento. Antes de formular uma pergunta, muitas crianças olham discretamente para os colegas, como se quisessem perceber se aquilo que estão prestes a dizer fará sentido. Quando encontram um ambiente de escuta, rapidamente descobrem que as perguntas não revelam fraqueza; revelam vontade de compreender.
Perguntar é imaginar possibilidades
Berger recupera o trabalho do neurologista Ken Heilman para defender uma ideia particularmente interessante: o pensamento divergente pode ser entendido como uma forma de perguntar.
Quando perguntamos “E se…?”, abrimos espaço para alternativas.
“E se existisse outra explicação?”
“E se fizéssemos isto de maneira diferente?”
“E se aquilo que tomamos como certo afinal não o fosse?”
Antes de encontrarmos soluções, precisamos de imaginar possibilidades. É precisamente isso que fazem muitas das perguntas filosóficas: não procuram confirmar aquilo que já sabemos, mas explorar aquilo que ainda pode ser pensado.
Uma pergunta também orienta o pensamento
As perguntas não servem apenas para abrir caminhos, também ajudam a orientar o pensamento.
Quando enfrentamos um problema complexo, uma boa pergunta permite identificar aquilo que realmente importa. Ajuda-nos a distinguir o essencial do acessório, a dividir um problema em partes mais pequenas e a compreender melhor aquilo que ainda precisamos de investigar.
Neste sentido, perguntar não é um sinal de indecisão, mas sim uma forma de organizar o pensamento.
Nem todas as perguntas fazem o mesmo
Nem todas as perguntas convidam ao mesmo tipo de pensamento.
Um “Porquê?” procura razões e explicações.
Um “Como?” convida-nos a descrever processos ou estratégias.
Um “E se…?” abre espaço para hipóteses e alternativas.
A forma como perguntamos influencia o tipo de pensamento que mobilizamos. Vale a pena treinar a arte de fazer perguntas!
O tom também faz parte da pergunta
Há outro aspecto a que Berger chama a atenção: o tom.
Compare estas duas perguntas:
“Meu Deus, o que é que vamos fazer?”
e
“E se esta mudança representar uma oportunidade?”
Ambas reconhecem que existe um problema. No entanto, conduzem o pensamento em direcções diferentes.
Neste sentido, as perguntas não são neutras: podem fechar possibilidades ou abri-las; podem alimentar o medo ou provocar a curiosidade.
Perguntar para transformar
Berger observa que muitas pessoas inovadoras começam por perguntar “Porquê?”.
Porque fazemos isto desta maneira?
Porque aceitamos esta regra?
Porque assumimos que isto não pode ser diferente?
Só depois surgem outras perguntas:
“E se…?”
“Como poderíamos fazê-lo?”
A inovação raramente começa com uma resposta. Começa quase sempre com uma boa pergunta.
Berger resume este processo numa fórmula simples: Perguntar + acção = inovação.
Mais do que procurar respostas
Perguntar permite-nos encontrar respostas — e não só. Perguntar é também uma forma de permanecer disponível para aprender.
Cada pergunta reconhece que o nosso conhecimento é provisório e que o mundo continua a oferecer-nos problemas dignos de investigação.
É por isso que, nas oficinas #filocriatividade, dou tanta importância às perguntas; cada uma das perguntas tem potencial para transformar a maneira como pensamos.
Afinal, talvez uma boa pergunta não elimine a ignorância; ajuda-nos a habitá-la de forma mais consciente. Porque fazemos perguntas?
joana rita
Nota: artigo publicado inicialmente a 26 de Outubro de 2022 e revisto a 6 de Agosto de 2026.

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