
Pensar no que acontece quando pensamos
“Vamos fazer uma oficina de filosofia”, disse.
“Já alguma vez participaram numa oficina de filosofia?”
As cabeças acenaram “não”. Alguém acrescentou:
“O meu irmão tem filosofia, é mais velho.”
Pois é, íamos fazer uma oficina de filosofia, uma área que muitas pessoas só encontram no 10.º ano. Esta turma era do 3.º ano do 1.º ciclo.
“Então o que é?”, perguntou alguém.
Escrevi a palavra filosofia no papel de cenário e fiz uma proposta:
“Vamos fazer assim: fazemos a oficina e, no final, voltamos a pensar no que é a filosofia, a partir do que fizemos.”
A escolha foi intencional: em vez de começar por uma definição, começar pela experiência, assumindo a filosofia como prática de pensamento partilhado, mais do que como um conjunto de conteúdos, numa linha próxima da proposta de Matthew Lipman.
Começar por aquilo que nos inquieta
Partimos para a oficina, pontual, a partir de uma das cenas da caixa I, Person, da Wonder Ponder (Ellen Duthie e Daniela Martagón).
A proposta era simples e exigente: observar, pensar, perguntar.
Dizer o que nos parece estranho, e porquê.
Um momento “eureka”
Já perto do final do encontro, o L. disse:
“Já sei dizer o que estamos a fazer de filosofia.”
Parámos. Escutámos.
“Estivemos a observar, estamos a fazer perguntas. Dizer o que achamos estranho e o porquê do estranho.”
O momento tinha a intensidade de uma pequena descoberta, pois tornava visível aquilo que até aí estava a acontecer sem nome.
Ali, o grupo agia como se fosse uma comunidade de investigação, um espaço onde as ideias são partilhadas, escutadas e desenvolvidas em conjunto (Ann Margaret Sharp).
Tomei nota e disse:
“Bom, já adiantámos o trabalho que tínhamos para fazer no final. Depois voltamos aqui.”
Voltar atrás para perceber melhor
Antes de terminar, regressámos à pergunta inicial: o que foi a filosofia naquele tempo que estivemos juntos?
Acrescentámos a importância do “nunca vi” como razão para o estranhamento, aquilo que nos desloca do habitual, e sublinhámos a escuta dos diferentes pensamentos.
Este regresso não é apenas uma conclusão; é também um exercício de tomada de consciência sobre o próprio processo de pensar. Uma dimensão metacognitiva que John Dewey associa ao pensamento reflexivo: pensar sobre o que se pensou.
“A filosofia é pensar diferente”, disse a C.
Talvez possamos acrescentar: pensar diferente e pensar sobre esse próprio pensar, em conjunto.
joana rita sousa

Deixe um comentário