
Trabalhar A Flor e o Peixe, de Afonso Cruz, num clube de leitura com uma turma de 7.º ano foi, antes de mais, um exercício de abandono: abandonar a ideia de leitura como obrigação e acolher a leitura como experiência.
O livro não se impõe pela narrativa linear nem pela explicação. Pelo contrário, constrói-se na sugestão, na imagem e no silêncio. E isso colocou um desafio interessante: como envolver jovens leitores, com relações muito distintas com os livros, com esta leitura?
Começámos por suspender uma expectativa comum: a de que é preciso “gostar de ler” para participar. Em vez disso, abrimos a pergunta: o que é, afinal, ser uma pessoa leitora? As respostas foram múltiplas, hesitantes, por vezes contraditórias entre si. Houve quem dissesse que lê apenas quando é obrigado, quem associasse a leitura ao tédio, e quem falasse de livros como refúgio. Esse primeiro momento foi essencial para construir um espaço onde todas as experiências contam.
A leitura de A Flor e o Peixe aconteceu de forma fragmentada, em pequenos trechos, respeitando o ritmo do texto. Mais do que compreender “o que acontece”, interessava-nos perguntar: o que vemos aqui? o que sentimos? o que fica por dizer?
“Este livro não tem sentido nenhum”, disse uma das jovens no segundo encontro. A frase não foi recusada, foi assumida como ponto de partida. O que significa “não ter sentido”? Será ausência de significado ou dificuldade em encontrá-lo? E o que acontece se permanecermos mais tempo com um texto que não compreendemos imediatamente?
A leitura em voz alta foi um dos momentos preferidos do grupo. As pessoas foram convidadas a ler; ninguém foi obrigada a ler. Todas as pessoas do grupo foram convidadas a escutar.
Num clube de leitura também se escreve. Inspirados pela linguagem do livro, os alunos experimentaram transformar o quotidiano em poesia. Um gesto simples – como dar um pontapé numa bola – tornou-se imagem. “O meu pé empurrou o mundo por um segundo”. Neste exercício, não se tratava de escrever “bem”, mas de olhar o mesmo de outra maneira.
Ao longo do processo, tornou-se evidente que trabalhar um livro como A Flor e o Peixe não é apenas trabalhar literatura. É trabalhar a atenção, a linguagem, a escuta e, sobretudo, a relação de cada um com o sentido. Nem todos saíram a dizer que gostam mais de ler; nem todos gostaram deste livro. Mas alguns reconheceram que a leitura pode ser um espaço e um tempo de escuta, de atenção e de partilha.
Talvez seja esse o ponto de partida mais honesto para um clube de leitura: o foco não está em formar leitores ideais, mas em criar condições para estar presente.
joana rita sousa

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