filocriatividade

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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    joana rita #filocriatividade

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    em que eles chegam tão agitados que nem sequer reparam que eu já estou na sala, com a mochila pronta para começar os trabalhos. e falam uns com os outros. trocam de lugares e depois acusam-se uns aos outros de trocar de lugar sem pedir. e depois pedem e dizem “não é justo, a N. trocou”. e eu tenho que dizer, “mas a N. não pediu e ainda não decidimos se podemos trocar ou não de lugar”. 

    e o certo é que ninguém ouve. 

    levanto a voz. movimento-me pela sala. às vezes tenho que gritar – juro que só descobri que conseguia gritar quando fui dar aulas em regime de AEC. há grupos com os quais só isto resulta para chamar a atenção. mas eu prefiro silenciar-me e comunicar, de forma não verbal, que estou à espera que se acalmem para podermos começar os trabalhos.

    continua a agitação. pedidos para ir ao wc – sim, eles chegam à minha aula após o intervalo de 30 minutos e só quando entram na sala é que a bexiga se enche – deve ser uma coisa que o pavlov poderá explicar, o que acham? 

    lá começamos a trabalhar, recuperar o que foi feito na aula anterior para decidirmos o que vamos fazer. sim: autonomia e liberdade, em sala de aula. disse-lhes o que tinha pensado fazer com eles e coloquei a decisão ao grupo. inevitavelmente, ao retomarmos as pontas soltas da semana passada, demos início ao diálogo – às vezes não é preciso um estímulo (imagem, livro, jogo), basta o diálogo para que o… diálogo flua!

    a agitação foi uma constante na sala. o L. estava até irritado com os amigos. o M. tinha o braço no ar e já estava cansado de esperar que os colegas fizessem o silêncio necessário para podermos ouvir-nos.

    no final, conseguimos recolher algumas ideias interessantes. pelo meio tive que pedir à D. para que respeitasse o trabalho dos colegas, que estavam interessados na aula. a D. não estava nos seus dias, claramente. é habitual ser das alunas mais participativas e hoje amuou do princípio ao fim – acho que tudo começou a partir do momento em que lhe pedi que arrumasse o tablet na mochila. 

    no final espreguiçamos. ficou o anúncio de que para a semana haverá um momento escrito para dar o pontapé de saída da aula. 

    foi uma aula difícil, barulhenta, complicada de gerir. 

    ufa. há dias assim. 

     

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    – joana, esse verbo não existe, pois não?
    – qual verbo? 
    – o filosofar!
    – ai não? vamos lá experimentar e conjugar…

     

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    e é assim que se conjugam as aprendizagens do português com a filosofia, numa aula onde os alunos é que geriram o que queriam fazer 

     

    autonomia, responsabilidade e tudo o mais, ali, em 60 minutos. e sim, ruído de fundo e todos a falar ao mesmo tempo. faz parte ;) 

     

     

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    o Tomás comentou o seguinte, numa partilha DESTE post, no facebook:

     

    “Sim, Joana, as minhas aulas melhoraram imenso desde que os meus alunos começaram a usar o “Caderno da Filosofia” de forma livre e não apenas para registar ideias e palavras (apesar de muitos o usarem para isso mesmo, coleccionando perguntas atrás de perguntas, outros desenham, pintam, recortam, etc.

    A maioria, quando questionados, sabem exactamente onde estão no diálogo, o que foi dito e por quem.
    Quando isso não acontece (a alguns alunos acontece perderem-se nos seus desenhos e ficam alheados do diálogo) são convidados a, na próxima aula, fecharem o caderno e ver se “corre melhor”.

    A actividade física que referes é também um óptimo escape para alunos “mais activos” que, quando não o têm incomodam muito a aula a balançar nas cadeiras, a brincar com os lápis e etc. 
    Quando têm uma actividade como o “desenhar as ideias que vão surgindo” acabam por se concentrar mais na tarefa do diálogo.

     

    Muitos professores ainda resistem a deixar os seus alunos “rabiscar” nas suas aulas pois pensam que é sempre sinal de desatenção quando muitas vezes parece-me, pelo contrário, sinal de atenção.

    Gostava de conhecer algum estudo empírico sobre este fenómeno.
    Conheces?
    abraço”

     

    – relativamente a esta última pergunta, eu respondi que não, não conheço nenhum estudo sobre isto. e por isso pergunto aqui, se há alguém desse lado do écran que nos possa indicar algum estudo neste sentido.

     

    obrigada! 

     

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    no final da aula, um dos alunos veio pedir se podia levar um TPP (trabalho para pensar). houve outros dois que se quiseram juntar a este pedido.
    – hummm ora deixa cá ver que TPP é que vocês podem fazer…
    e eis que a L. disse:
    – já sei! vamos fazer um texto sobre o Aristoteles! 

    (para a semana abandonamos o hospital das bonecas 📖 e começamos a ler a metafísica!)

     

    1º ciclo, 4 º ano

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    (diálogo com uma aluno do 4º ano, no final da aula de filosofia)

     

    –  ó professora joana, há alguma escola própria para a filosofia?

    – como assim, J.? eu achava que esta onde estamos é uma escola própria para a filosofia…

    – não é isso. uma escola onde só se vai lá para estudar filosofia!

    – há sim. há faculdades onde podes ir estudar só a filosofia. eu andei numa.

    – e nessa escola também fazem as coisas assim? se tiveres um teste, quem é que corrige? há respostas certas e erradas?

    – bom, é um pouco diferente. no trabalho que nós estamos a fazer aqui eu não corrijo as vossas perguntas. decidimos todos. eu estou com atenção a ver a maneira como vocês pensam e dialogam uns com os outros.

    – ahhh! é por isso que demoramos tanto tempo nas perguntas?

    – sim, minha querida. é por isso. 

     

     

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     …mais perguntas, respostas e investigações.

     

     

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    o Tomás Magalhães Carneiro foi das primeiras pessoas com quem me cruzei nestas lides da filosofia para crianças/filosofia aplicada. tem feito um trabalho extraordinário, que vou acompanhando através do seu blog e das redes sociais.

    é comum eu enviar-lhe e-mails com dúvidas, com partilhas e com avisos: “Tomás, vou roubar-te esta ideia”. 

    assim aconteceu com os diários da filosofia (ou cadernos da filosofia), cujo recurso conheci no IV sentir pensamentos | pensar sentidos, que organizei com a Celeste Machado na universidade do minho, em 2014,

     

    desde então, os meus alunos têm que ter um caderno, só para a filosofia. e há duas regras para o utilizar: a primeira, é escrever a data do dia das aulas. a segunda passa por “fazeres o que quiseres”. como assim?, perguntam os meninos.

    sim, podes fazer o que TU quiseres no teu caderno. desenhar, copiar o que se faz no quadro, copiar só uma parte ou registar a aula à tua maneira. – é esta a minha resposta. “então e posso não fazer nada?”. sim, respondo, podes não fazer nada no caderno. tu és responsável por esse espaço que tens, podes mesmo fazer o que quiseres.

     

    há uma estranheza perante tamanha liberdade. e um gosto, um prazer em escolher o que vão deixar registado no caderno.

     

    além disso, o caderno cria rotinas no início e no fim da aula (alguém distribui, alguém recolhe). e torna, de certa forma “física” uma actividade que é abstracta e acontece no mundo dos pensamentos. 

     

     

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    …problemas.

    perante a regra de autogestão das idas ao wc, durante a aula, confrontámo-nos com um problema: a liberdade experimentada pelo grupo resulta numa confusão tremenda e até há meninos que se chateiam. como são livres para ir, sem pedir antecipadamente, querem ir todos ao mesmo tempo. 

     

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    e a aula que estava planeada ficou dentro da mochila. é assim, a filosofia a acontecer. 

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    avançam para o quadro, para apresentar o trabalho: a M. e a D. – têm sugestões para resolver o “problema” com o qual ficámos em mãos numa das últimas aulas de dezembro.

    partilham as suas ideias com o grupo, que escuta e se posiciona perante as ideias de cada uma das colegas. no meio do diálogo registo a utilização de “concordo”, “não concordo”, “podes ajudar-me a dizer porquê”, “não sei se estou certa, mas o que acho é” – são pequenos sinais de que a comunidade de investigação está a acontecer e as regras do diálogo estão a tornar-se naturais.

    no final da aula havia pequenos grupos a dialogar entre si, sobre as várias ideias apresentadas pelos colegas. a comunidade é um processo dinâmico e é muito bom ficar na última fila a ver isso a acontecer. 

     

    “ó joana, não te sentas na mesa da professora, ali à frente?”

    não, prefiro estar aqui ao pé de vocês. 

     

    YEAH! 

     

     

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    o desafio foi o de pensar a partir do livro A Contradição Humana, de Afonso Cruz. ouvimos o texto, vimos as ilustrações. e depois? depois fizemos perguntas.

    e no momento a seguir, tivemos que escolher perguntas para trabalhar. e justificar a escolha.

    nesse caminho, descobrimos que as perguntas importantes para alguns dos meninos justificavam-se com “é uma pergunta muito interessante”, “quero saber o que os meus colegas pensam sobre isto” ou “eu quero mesmo saber por que é que aquilo acontece”.

     

    e ainda: “e para mim é a melhor pergunta que eu já vi” 

     

    a investigação continua, na próxima aula. 

     

    #filocri – 1º ciclo – 4º ano 

     

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    inscrições abertas para a próxima oficina de filosofia

     

     

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    Afinal, o que nos faz perguntar? É o querer saber mais coisas? É confirmar as que já sabemos? E haverá perguntas diferentes? Como é que sabemos se aquela pergunta tem ou não resposta? É importante responder? – estes e outros desafios serão lançados aos participantes destas oficinas, que acontecem para crianças e jovens (entre os 4 e os 14 anos). 

     

    24 de janeiro 

    10h – pais e filhos – crianças 4/6
    11h – pais e filhos – crianças 7/10
    12h – jovens entre os 11 e os 14 anos

    Facilitadora:
    Joana Rita Sousa | filocriatiVIDAde 

    Local:
    GROW UP
    (Benfica)

    Inscrição: *
    8,50 eur / criança
    12,50 eur / criança + acompanhante
    16,00 eur 2 irmãos + acompanhante

    Pf enviar e-mail para joanarssousa@gmail.com com os seguintes dados: 

    – nome da criança e data de nascimento; 
    – contacto telefónico do pai/mãe/avó (…).

    A inscrição é válida após recepção de e-mail de confirmação.

    Todos os participantes deverão levar consigo meias anti derrapantes: vamos sentar-nos no chão, em almofadas. 

    * valor sujeito a IVA, à taxa legal em vigor

     

     

     
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    para (re)começar as aulas, no segundo período, a proposta foi a de dialogar sobre algumas das imagens deste jogo de filosofia visual, para crianças

     

    continuamos a trabalhar “o que é uma razão?” e a investigar o que é “isso” de dar razões para as posições que se defendem

     

    para a semana há mais ;) 

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    é mais ou menos isto que aqui esta, na fotografia. acresce o ruído de fundo, as dinâmicas próprias de uns  que querem sempre participar e de  outros que timidamente colocam o dedo no ar. 

    há perguntas, há investigações, há “pedir a palavra”, há o desenho que se faz no caderno da filosofia. há trabalhos para pensar.

     

    e ainda há tempo para a T., vir ter comigo e dizer: joana, o teu cabelo cresceu muito!

     

    no intervalo encontrei a professora bibliotecária que me disse: “bom, os meninos não páram de ir à biblioteca pedir os livros da filosofia… já perguntaram pelo Hospital das Bonecas e agora pel’A Contradição Humana, do Afonso Cruz. este nós temos e eles ficaram todos contentes. bom trabalho, joana!”

     

     

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    …acho que este 1º ciclo [entenda-se, 1º período] desenvolveu os meus pensamentos”

     

    (I., 4º ano)

     

     

    “eu acho que tenho muitos pensamentos críticos aqui [aulas de filosofia]”

    ah sim? perguntei – então e não tens pensamentos noutros lados, noutras aulas, noutras coisas que fazes?

    “hummm tenho.”

    então por que dizes que acontecem muitos aqui?

    “acho que aqui percebo melhor que tenho esses pensamentos”

     

    (T, 4º ano)

     

     

     

     

     

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    René, René. Mas que menu é este?, disse, espantada perante o cenário: mesa impecavelmente colocada, com pauzinhos no lugar dos talheres (numa próxima crónica irei explicar) e o menu manuscrito, em jeito de documento antigo, ao centro. Se soubesse que era um jantar tão aprumado, René, tinha calçado o meu melhor par de ténis!

     

    Vejam só o repasto:

    Batatas a murro entadaladas, com molho de empirismo lockiano

    Bacalhau com todos (inlcuindo aqueles que não existem, pela ausência de pensamento)

    Areias movediças de chocolate, confitadas em algoritmos de limão

     

    Parece-me que não vamos ter estômago para comer os jesuítas que o meu amigo Guilherme me trouxe de Santo Tirso, oh René!, disse-lhe abanando a caixa dos jesuítas de um lado para o outro, como se estivesse a hipnotizar o autor do Discurso do Método. Joana, isso é um golpe baixo. Sabes bem como gosto de jesuítas; faz-me lembrar os velhos tempos no College de la Flèche!, respondeu René, salivando.

     

    Rapidamente nos sentámos para jantar. E a meio da conversa surgiu o livro de Damásio, O Erro de Descartes. Não achas que foste vítima de marketing?, perguntei ao filósofo. Ficaste reduzido ao penso, logo existo e ao dualismo. E ninguém deu grande importância à tua glândula pineal, salvo seja!, disse.

     

    Sim, Joana, tens razão. Não tenho grandes dúvidas disso. Mas no fundo até foi bom para muitos. Por exemplo, para o António Damásio. Viste a quantidade de livros que ele vendeu? Não são muitos os filósofos que se podem gabar de ter contribuído para que o livro de um neurocientista se tornasse num best seller. Ainda vou a tempo de reclamar direitos de imagem ou coisa que o valha?, brincou René, entre uma e outra lasca de bacalhau.

    Já o nosso vizinho da rua de cima, o Platão, tem o mesmo problema: o estigma do dualismo. Ainda há dias ele se queixava que de tudo aquilo que escreveu, o mais importante, a carta VI, é completamente ignorada., respondi.

     

    E eis que chegou o momento da sobremesa. Areias movediças? René, que óptimo aspecto. E nem vos conto o sabor, nem sei mesmo se sou capaz de o descrever. O chocolate e o limão… deuses, era como se a mente e o corpo fossem só um. René, exclamei, com esta sobremesa, não há dualismo que resista! E acrescentei, deverias ter –te dedicado à culinária. A sério. E depois escrevias coisas como o Discurso do Método do Cozinheiro, as Meditações Culinárias, o que achas? Ainda vais a tempo!

     

    O jantar terminou já tarde, a conversa foi longa. No dia seguinte tive que me levantar cedo e confesso que tinha umas olheiras que me chegavam à zona dos tornozelos. Mas a alma e o corpo eram um só, tal não foi a boa comida e a boa troca de ideias. Sim, com alguma parvoíce pelo meio, não tenham… dúvidas!

     

    O próximo jantar será em minha casa e vou convidar, para além do René, o próprio António Damásio. Do menu irá constar qualquer coisa como

    Lombinhos de glândula pineal assada no forno, com molho de dúvida metódica.

    Que tal?

     

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