
Um ciclo de continuidade e consolidação
O segundo ciclo das Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais teve lugar entre Outubro de 2025 e Fevereiro de 2026, reunindo 50 participantes (pessoas adultas e crianças entre os 7 e os 11 anos) em encontros de diálogo intergeracional sobre a vida, a morte e a finitude.
O ciclo iniciou-se em Outubro, no âmbito da 4.ª Semana Cultural nos Cemitérios, reafirmando o cemitério como espaço de memória, mas também como lugar de pensamento, de encontro e de construção de sentido.
O cemitério como lugar de pensamento
As propostas partiram do próprio espaço do cemitério (Prazeres e Alto de São João) e de perguntas geradas através de propostas lúdicas e filosóficas. A observação atenta, o jogo, o silêncio e o diálogo tornaram-se dispositivos para abordar temas como o tempo, a ausência, a memória, o medo e aquilo que dá valor à vida. Crianças e adultos pensaram em comunidade, desafiando-se a pensar em perguntas vitais e fatais.
O que dizem as famílias participantes?
O impacto das oficinas foi visível nas famílias participantes. Uma mãe partilhou que o filho encontrou na experiência de diálogo no cemitério um espaço que contribuiu para a diminuição de receios em torno da morte. Outros participantes sublinharam a importância de criar contextos onde a morte possa ser abordada de forma aberta e saudável, contrariando a tendência social para afastar as crianças deste tema.
Quando perguntámos o que tinha sido mais curioso na oficina, as respostas revelaram tanto o gosto pelo diálogo como a atenção ao detalhe: houve quem destacasse a importância de “conversar sobre as coisas e curiosidades” e quem se lembrasse de uma estrela torta no topo de um jazigo, descrita como “muito fixe”. Para outra criança, a experiência foi “divertida, mas também aborrecida”. Afinal, pensar exige entusiasmo e implica aborrecimento.
À pergunta sobre regressar ao cemitério, algumas crianças manifestaram vontade clara de voltar, sublinhando o prazer de aprender e descobrir. Outras mostraram sensibilidade ao contexto emocional do espaço, reconhecendo que muitas pessoas ali estão tristes por terem perdido alguém.
Num dos casos, o diálogo não terminou na oficina: uma criança levou a pergunta para casa e conversou com os avós e o pai sobre se gostariam de ser imortais. Eis um sinal de que o pensamento iniciado em comunidade continua para além do encontro formal.
Este segundo ciclo consolidou as Oficinas Vitais como um espaço seguro para o exercício do pensamento, onde falar da morte se revela, paradoxalmente, uma prática profundamente vital – para crianças, adultos e para a comunidade em geral.
A dimensão cultural
A presença de Gisela Monteiro, investigadora na área cemiterial, foi determinante para o desenrolar das Oficinas. O seu contributo reforça a dimensão histórica, patrimonial e cultural das oficinas, ampliando o olhar sobre o cemitério enquanto arquivo de memórias, narrativas e símbolos. A articulação entre investigação e prática filosófica permite que as famílias pensem sobre a morte, compreendendo o lugar cultural que ocupa nas comunidades, tornando a experiência mais informada, situada e significativa.
Um projecto singular no panorama nacional
As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais distinguem-se pelo seu carácter singular no panorama nacional, sendo uma iniciativa única em Portugal que trabalha o tema da morte com crianças e famílias em contexto cemiterial, através do diálogo filosófico e de propostas lúdicas. Ao integrar o cemitério como espaço pedagógico e cultural, promovem um encontro intergeracional pouco comum, onde pensar a finitude se torna uma prática consciente.
joana rita sousa

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