
Confesso que não tenho grandes memórias de Russell durante os meus tempos de aluna da licenciatura de Filosofia.
Por um lado, é natural que assim seja: a licenciatura não pretende abordar cada uma das pessoas que deu um contributo relevante para a História da Filosofia. Por outro lado, é natural que a minha memória me possa estar a atraiçoar.
Os conteúdos curriculares arrumam-se por temas ou épocas históricas e encontram-se limitados aos tempos dos semestres. Depois, cada professor ou professora escolhe os nomes e as respectivas obras consoante o seu próprio percurso e especialização.
Continuo a ler os nomes que fazem parte da Filosofia e outros nomes que não fazem parte da História da Filosofia. Digo isto pois as mais recentes Histórias da Filosofia continuam a silenciar muitas das mulheres que pensaram, escreveram e contribuíram para o pensamento filosófico. Outras pessoas também são silenciadas, como as filosofias africanas e indígenas, só para dar dois exemplos.
Tenho feito um esforço para adquirir e ler livros que me permitam ter uma visão mais ampla da História da Filosofia. Não é fácil, é preciso tempo e disponibilidade. Porém, se eu não criar essas referências, facilmente irei perpetuar os mesmos nomes de sempre, ou aqueles que escutei na licenciatura que terminou no início dos anos 2000.
O compromisso está assumido, a dificuldade também. Parece-me que me resta agora caminhar no sentido desse compromisso.
Porém, não posso – e não devo – ignorar a importância do pensamento de Bertrand Russell. Li a grande maioria dos capítulos do livro Os Problemas da Filosofia em 2024 e fui sempre convocada a parar para pensar. Russell é um autor do nosso tempo, ainda que tenha vivido entre 1872 e 1970. Prova disso é a pergunta que abre o capítulo Aparência e Realidade:
“Haverá algum conhecimento no mundo que seja tão certo que nenhum homem razoável possa dele duvidar? (…) a filosofia é apenas a tentativa de responder a questões últimas deste género, não de modo descuidado e dogmático, como fazemos na vida comum e até nas ciências, mas criticamente, depois de explorar tudo o que gera perplexidade nessas perguntas, e depois de tomar consciência de toda a vagueza e confusão que subjaz às nossas ideias comuns.”
Nunca é tarde para conhecer um filósofo, convidando-o para a roda, para pensar em voz alta connosco. É por isso que continuo a ler Filosofia e a reler Filosofia. Há sempre lugar para mais um filósofo ou filósofa na minha roda de pensamento.
joana rita sousa

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