
Participar é ganhar
Fomos treinados para medir o valor das experiências pelo resultado: ganhar ou perder, subir ao pódio ou ficar de fora. Há aprendizagens que não cabem nessa lógica. Há processos em que participar, no sentido de fazer parte, já é uma forma de vitória.
No xadrez de alta competição, a grande mestre Judit Polgár ajudou a desmontar um equívoco comum: empatar não é falhar. Um empate pode ser fruto de um cálculo rigoroso, da gestão de risco, da leitura madura da situação. É escolher continuar num outro jogo: no xadrez de alta competição, quando perdemos um jogo, perdemos todos os pontos. Empatar permite acumular esses pontos e continuar no jogo dos jogadores do TOP. Empatar é, em certa medida, um meio para ganhar. Em percursos longos, essa inteligência estratégica vale mais do que a obsessão pela vitória imediata.
Ao ver o documentário sobre Judit Polgár, na Netflix, lembrei-me da leitura competitiva que as crianças e os jovens transportam para os diálogos ao entendê-los como espaços de debate. Mesmo sem que a palavra competição seja mencionada, quando pedimos ao grupo para se posicionar se concordam ou não com determinada ideia, há a tendência para dizer que uma dessas posições ganhou quando se contam mais pessoas desse lado.
Debate e diálogo
Convém distinguir duas práticas que muitas vezes confundimos: debate e diálogo.
No debate, a estrutura é adversarial: há posições em confronto, estratégias de persuasão e um veredicto implícito sobre quem foi mais convincente.
No diálogo, a estrutura é cooperativa: as posições são provisórias, as perguntas orientam o percurso e o objectivo passa por compreender melhor o problema (e por vezes em criar outros problemas).
O debate procura vencer; o diálogo procura clarificar; dá corpo à ideia da obsessão pela transparência. O debate mede força argumentativa; o diálogo cultiva compreensão partilhada.
Quando um debate é tratado como combate, o valor concentra-se no desfecho: quem ganhou? quem perdeu? A escuta torna-se táctica. A palavra vira arma. Mudar de ideias parece fraqueza. No fim, alguém vence. Pergunto: e será que o pensamento perde?
Quando o diálogo é entendido como investigação conjunta, o foco desloca-se do resultado para o processo. Clarificar conceitos, reformular posições, reconhecer a força de um argumento alheio, sustentar uma pergunta difícil, tudo isso pode ser entendido como um “empate”. Ninguém triunfa sozinho, mas todos avançam na compreensão.
As oficinas #filocriatividade são espaços de diálogo
Participar nas oficinas #filocriatividade implica um espaço onde o pensamento se constrói em relação. Não há adversários a derrotar, mas ideias a explorar em conjunto. Estar presente, escutar seriamente, arriscar perguntas próprias, ajudar o grupo a pensar melhor, tudo isso conta. Fazer parte é produzir sentido. Participar é ensaioar pensamento em voz alta.
Não sou contra formatos competitivos; modelos como as Olimpíadas podem ser mobilizadores, exigentes, até inspiradores. Mas fascinam-me propostas que mostram que o rigor não depende da lógica do pódio. As Olimpíadas de Filosofia do Rio de Janeiro são um exemplo: privilegiam o diálogo e a partilha pública de ideias. A filósofa Lara Sayão estudou esta experiência, evidenciando como a participação se torna num eixo formativo central, valorizado mais a comunidade de investigação do que o torneio eliminatório.
Na comunidade de diálogo que tivemos na sétima edição da olimpíada do Rio, Ailton Krenak fez um questionamento que parece absurdo dentro da estrutura de pensamento ocidental capitalista: por que fazemos tudo com um fim? Por que todas as coisas que fazemos tem que ter uma finalidade objetiva? Por que não sabemos apenas fazer? Apenas viver? Apenas sentir? Essas questões nos perturbam e deixam uma sensação de vazio porque não estamos acostumados a fazer coisas sem atribuir uma finalidade muito objetiva e ter em vista algum ganho. A própria experiência dos encontros nas olimpíadas, muitas vezes nos remetem a um espaço vazio, fora do que estamos acostumados a fazer e isso movimenta o pensamento, é uma experiência de síncope. (Lara Sayão, Olimpíadas de filosofia do Rio de Janeiro, o pensamento na roda, p. 218)
Talvez precisemos de ampliar o nosso vocabulário de vitória.
Ganhar pode significar ter razão.
Mas também pode ser ganhar tempo para pensar melhor; ou ganhar abertura para rever posições; ou experienciar a pertença a uma comunidade que pensa colaborativamente.
Participar tem um potencial transformador.
joana rita sousa

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