Descubra porque devem os adultos ler livros infantis e como estes podem estimular a imaginação, a curiosidade e o pensamento crítico através da filosofia para crianças.

Sempre convivi com livros
Sempre convivi com livros, desde pequena. O gosto pela leitura e pela escrita manifestaram-se cedo: com um irmão três anos mais velho, acompanhei os seus primeiros anos de escola e tentava copiar tudo em cadernos que a minha mãe me comprava. Adorava abrir e descobrir livros — incluindo enciclopédias e dicionários.
Hoje, os livros continuam a ocupar um lugar central na minha vida, tanto a nível pessoal como profissional.
Que livros gosto de ler?
Tenho um fascínio particular pelo sentido das palavras. Talvez por isso colecciono dicionários de várias línguas, incluindo língua gestual portuguesa.
No meu espaço de trabalho, os livros organizam-se por áreas:
- armários dedicados à filosofia e à filosofia para crianças
- outro inteiramente preenchido com livros infantis
Esta divisão não acontece por acaso: sou facilitadora e investigadora na área da filosofia para crianças e jovens.
Livros infantis e filosofia para crianças: qual a relação?
Na prática da filosofia para crianças e jovens, o grande desafio é encontrar recursos que funcionem como boas provocações filosóficas. Ou seja, materiais que:
- convidem a parar para pensar;
- provoquem o questionamento;
- sejam suficientemente abertos e ambíguos para permitir múltiplas interpretações.
Os livros infantis destacam-se precisamente por essa capacidade. São ferramentas privilegiadas para desenvolver o pensamento crítico e a curiosidade filosófica.
Porque devem os adultos ler livros infantis?
Apesar de muitas vezes serem associados apenas à infância, os livros infantis têm um enorme potencial também para adultos.
Partilho consigo 5 razões para incluir livros infantis na leitura de adultos:
1. Convidar à imaginação
Muitos livros infantis — especialmente os livros ilustrados sem texto — são convites à criação. Os livros silenciosos permitem-nos criar a narrativa, uma e outra vez.
Autores como Suzy Lee mostram como uma sequência de imagens pode dar origem a múltiplas histórias. A Discórdia de Nani Brunini é outro exemplo de livro silencioso e profundamente perguntador.
2. Recuperar a curiosidade
À medida que crescemos, tendemos a tornar-nos mais pragmáticos e menos atentos ao detalhe.
Os livros infantis ajudam a contrariar essa tendência, porque nos colocam constantemente perante perguntas implícitas: o que vai acontecer a seguir?
Ler livros infantis é, assim, uma forma de praticar a curiosidade.
3. Reencontrar o poder das histórias
Vivemos numa era em que o storytelling está em todo o lado. Contar histórias é algo profundamente humano.
A estrutura clássica — Era uma vez… até que algo muda tudo — continua a organizar a forma como compreendemos o mundo.
Um exemplo interessante é o livro A Contradição Humana, de Afonso Cruz, que apresenta histórias dentro de histórias — uma leitura especialmente rica para adultos.
4. Valorizar a riqueza das ilustrações
As ilustrações são um dos maiores trunfos dos livros infantis.
A cores ou a preto e branco, acrescentam camadas de significado à leitura. Os livros ilustrados funcionam como uma pausa estética e sensorial.
5. Criar momentos de partilha entre adultos e crianças
A leitura de livros infantis em conjunto promove momentos únicos de ligação.
Desde a escolha do livro até à leitura em voz alta, passando pelo contacto físico com o objeto, tudo contribui para fortalecer relações, seja em contexto familiar ou educativo.
O que são livros perguntadores?
Na prática da filosofia para crianças e jovens, nem todos os livros cumprem o mesmo papel. É neste contexto que surgem os livros perguntadores — um conceito que tenho vindo a desenvolver com Júlia Martins.
Estes livros abrem possibilidades de pensamento. Em vez de oferecerem respostas prontas, convidam quem lê a formular perguntas, a explorar hipóteses e a construir sentidos.
Mais do que histórias fechadas, são trampolins filosóficos: criam condições para o diálogo, a dúvida e a reflexão partilhada.
Mensalmente, eu e a Júlia Martins divulgamos sugestões de livros perguntadores na nossa newsletter, que pode subscrever para receber novas propostas de leitura.
O livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças tem um capítulo dedicado aos livros perguntadores ou #LivrosPerguntadores.
Um exemplo: quando um livro infantil deixa de ser “fácil”
Lembro-me de um momento numa oficina de mediação da leitura com uma turma do 7.º ano. Um dos jovens afirmou, com bastante convicção, que os livros ilustrados eram mais fáceis: “porque são para os mais novos”.
Perante isso, abri um livro ilustrado, li o texto e fomos observando juntos as imagens. No final, o mesmo jovem comentou:
“Ah… afinal não são assim tão fáceis. Também têm palavras difíceis para mim.”
Este pequeno episódio revela algo importante: a complexidade dos livros infantis não está apenas nas palavras, mas também naquilo que nos obrigam a pensar, interpretar e questionar.
Ler livros infantis é também para adultos
Ler livros infantis é uma forma de praticar o aprofundamento e de:
- pensar com mais clareza,
- exercitar a imaginação,
- lidar com a incerteza,
- questionar o mundo com maior abertura e disponibilidade.
Talvez a verdadeira pergunta não seja porque devem os adultos ler livros infantis, mas sim: porque é que deixamos de o fazer?

Deixe um comentário