
“Mas as crianças conseguem fazer filosofia?”
Esta é, provavelmente, a pergunta que mais ouço desde que fundei a filocriatividade, um projecto através do qual, desde 2008, crio experiências de diálogo filosófico com crianças, jovens e adultos em escolas, bibliotecas, museus, cemitérios e outros contextos culturais.
A pergunta costuma surgir acompanhada de algumas ideias feitas. Há quem imagine crianças a estudar Platão ou Aristóteles. Há quem pense que se trata de ensinar valores ou regras de boa convivência. Outros imaginam um debate em que cada um diz a sua opinião.
Nenhuma destas imagens corresponde verdadeiramente ao que acontece.
Antes de avançarmos, uma breve nota terminológica. Ao longo deste artigo utilizarei, por vezes, a expressão Filosofia para/com Crianças. Embora Filosofia para Crianças continue a ser a designação mais conhecida — e aquela que muitas pessoas utilizam quando procuram informação sobre esta prática —, muitos investigadores e facilitadores preferem hoje falar em Filosofia para/com Crianças, sublinhando que as crianças não são apenas destinatárias da filosofia, mas participantes activas na construção do diálogo e da investigação.
Uma pergunta com muitas respostas
Em Portugal, um dos textos de divulgação conhecidos sobre este tema é o artigo “A Filosofia para Crianças“, de Dina Mendonça, publicado no Portal da Criança. Continua a ser uma excelente introdução para quem quer conhecer as origens desta proposta e compreender o contributo de Matthew Lipman para a sua divulgação.
Desde então, a investigação cresceu significativamente. Hoje sabemos muito mais sobre o impacto do diálogo filosófico no desenvolvimento do pensamento crítico, da argumentação, da escuta e da participação democrática. Também o próprio campo evoluiu, dando maior atenção ao papel activo das crianças na construção do diálogo, razão pela qual muitas pessoas preferem falar em Filosofia para/com Crianças.
Então, afinal, o que é a Filosofia para/com Crianças?
Se tivesse de responder numa frase, diria que a Filosofia para Crianças é uma prática de diálogo em que crianças e adultos investigam, em conjunto, perguntas que não têm respostas simples.
O objectivo não passa por transmitir conhecimentos filosóficos, nem por ensinar as crianças a pensar “como filósofos”.
O objectivo consiste em criar condições para que as crianças — e também os adultos — desenvolvam formas de pensar mais rigorosas, mais criativas, mais cuidadosas e mais colaborativas.
Esta formulação inspira-se no trabalho de Matthew Lipman e de Ann Margaret Sharp, que defenderam que a educação filosófica deveria promover um pensamento crítico, criativo e cuidadoso. Mais tarde, outros autores contribuíram para alargar esta perspectiva, reforçando a dimensão relacional e colaborativa do pensamento.
Pensar com rigor implica procurar boas razões. Pensar com criatividade implica imaginar alternativas. Pensar com cuidado implica escutar os outros, considerar diferentes perspectivas e reconhecer que podemos estar enganados.
Não é uma aula de respostas
Uma sessão de Filosofia para/com Crianças costuma começar com um estímulo — ou provocação filosófica. Pode ser um livro, uma imagem, um objecto, uma obra de arte, uma notícia, uma pergunta ou uma experiência que alguém nos relata.
Em vez de começarmos pelas respostas, começamos pelas perguntas das crianças. É a partir delas que o diálogo se organiza. Ao problematizar uma situação, surgem hipóteses, conceitos, distinções e, muitas vezes, novas perguntas que tornam a investigação ainda mais interessante.
Quem participa pela primeira vez costuma estranhar uma coisa: o adulto não conduz a conversa para uma resposta previamente definida, sabendo perfeitamente “onde queremos chegar”.
Não temos como foco chegar rapidamente a uma conclusão, mas sim aprender a investigar um problema.
Perguntar é o primeiro passo
A Filosofia para Crianças nasce do espanto perante o mundo: daquele momento em que algo deixa de parecer óbvio e passa a merecer uma pergunta. Eis algumas:
“Porque é que temos de obedecer?”
“O que é uma amizade verdadeira?”
“Será que podemos pensar sem palavras?”
“Porque é que as pessoas morrem?”
São perguntas de crianças ou de adultos? Na verdade são perguntas que qualquer ser humano poderá colocar, seja de que idade for. Há um exercício que por vezes faço e que passa por apresentar uma lista de perguntas recolhidas nas minhas oficinas e pedir aos formandos para indicar quais são as perguntas das crianças, dos jovens e dos adultos. A diferença encontra-se no grau de sofisticação com o qual se pergunta; já o elemento perguntado é partilhado entre as várias idades.
No artigo “É normal uma criança perguntar tanto?“ explico por que razão as perguntas são uma forma de compreender o mundo e porque talvez devêssemos preocupar-nos mais quando elas desaparecem do que quando parecem não ter fim.
Pensar em conjunto
Uma das ideias mais importantes da Filosofia para/com Crianças é que pensar não é uma actividade exclusivamente individual. Pensamos melhor, de modo mais claro, quando escutamos outras pessoas, atendemos a objecções, ou dizemos algo como “nunca tinha pensado nisso”.
É por isso que falamos em comunidade de investigação: um grupo que procura compreender melhor um problema através do diálogo. Não pretendemos vencer debates ou coleccionar opiniões. Pretendemos compreender melhor um problema. Isso implica construir significado em conjunto, testar ideias, identificar pressupostos, procurar exemplos e contra-exemplos e aceitar que uma boa pergunta pode ser mais valiosa do que uma resposta cheia de pressa.
No artigo “Debate ou diálogo em sala de aula: o que estamos realmente a promover?“ reflicto precisamente sobre esta diferença.
Mais do que responder
Por vezes perguntam-me: então, como é que termina uma oficina de Filosofia para/com Crianças? Chegam a alguma conclusão?
Sim, por vezes chegamos a uma conclusão — outras vezes, chegamos a várias. Também podemos terminar com perguntas melhores, mais claras; com argumentos mais sólidos; com uma compreensão mais profunda do problema.
Ou simplesmente com a consciência de que pensar é um processo que continua para lá dessa oficina.
O que aprendem as crianças?
Ao participarem regularmente em comunidades de diálogo filosófico, as crianças desenvolvem competências como:
- formular perguntas significativas;
- justificar as suas ideias;
- argumentar com razões;
- escutar atentamente;
- identificar pressupostos;
- considerar alternativas e possibilidades;
- considerar diferentes perspectivas;
- rever as próprias posições;
- construir pensamento em conjunto.
No fundo, desenvolvem formas de pensar que se reforçam mutuamente: um pensamento crítico, criativo, cuidadoso e colaborativo.
No meu livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças, procuro mostrar que pensar criticamente não significa desconfiar de tudo nem criticar por sistema. Significa aprender a perguntar melhor, a avaliar razões e a dialogar com quem pensa de forma diferente.
Afinal, a Filosofia para Crianças resulta?
Ao longo das últimas décadas têm sido publicados numerosos estudos sobre os efeitos da Filosofia para Crianças. Revisões sistemáticas e meta-análises sugerem benefícios consistentes no desenvolvimento do raciocínio, da argumentação, do pensamento crítico e de algumas competências socioemocionais.
Isto não significa que todas as oficinas produzam os mesmos resultados nem que a Filosofia para Crianças seja uma solução para todos os problemas educativos. Significa, isso sim, que existe hoje um corpo de investigação muito mais robusto do que existia quando Matthew Lipman iniciou este movimento, no final da década de 1960.
Como é que a filocriatividade vive esta prática?
Desde 2008 que a filocriatividade procura criar espaços onde crianças, jovens e adultos possam parar, pensar, escutar e dialogar.
Ao longo destes anos, dinamizei milhares de oficinas em escolas, bibliotecas, museus, cemitérios, festivais, universidades e outros contextos culturais. Há algo que permanece constante: a convicção de que qualquer pessoa é capaz de pensar filosoficamente quando encontra tempo, perguntas e um grupo comprometido e disposto a investigar em conjunto.
Embora a Filosofia para Crianças tenha nascido em contexto escolar, acredito que o pensamento filosófico não pertence apenas à escola. Também pode acontecer numa biblioteca, numa exposição, durante um passeio, à volta de um livro ou mesmo num cemitério.
É por isso que gosto de falar em experiências ou oficinas de diálogo filosófico, mais do que em aulas de filosofia.
Uma prática para crianças… e para adultos
Apesar do nome, a Filosofia para/com Crianças não transforma apenas as crianças, mas também os adultos.
Quem facilita um diálogo filosófico aprende a escutar mais e a responder menos depressa e a valorizar uma boa pergunta. Aprende que dizer “Não sei” pode ser o início de uma investigação e não o fim de uma conversa.
Depois de milhares de oficinas realizadas desde 2008, continuo sem conseguir prever quais serão as perguntas que surgirão numa sessão. É esta incerteza que me faz continuar.
Sempre que uma criança pergunta, suspende por instantes aquilo que julgávamos saber. Obriga-nos a escutar, a pensar melhor e, muitas vezes, a reconhecer que não temos respostas definitivas.
Num tempo marcado pela rapidez, pela polarização e pelo excesso de opiniões, a Filosofia para Crianças lembra-nos de algo essencial: aprender a pensar é, antes de mais, aprender a permanecer em diálogo.
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- É normal uma criança perguntar tanto? — porque as perguntas são o ponto de partida do pensamento.
- Debate ou diálogo em sala de aula: o que estamos realmente a promover? — duas formas muito diferentes de conversar.
- Quando um livro pergunta — como a literatura pode despertar o pensamento filosófico.
- Perguntas vitais sobre assuntos fatais — um exemplo de como a filosofia pode ajudar a abordar temas difíceis com crianças.
- Filosofia para Crianças: o que dizem os estudos sobre pensamento, criatividade e diálogo — descubra o que dizem os estudos sobre Filosofia para Crianças.
Se este tema despertou a sua curiosidade, talvez o próximo passo seja participar numa experiência de diálogo filosófico.
Ao longo do ano lectivo 2026/2027 irei dinamizar oficinas, ações de curta duração e cursos de 25 horas dedicados à Filosofia para Crianças, ao pensamento crítico e à facilitação do diálogo filosófico. Nestas formações partilho não só a minha experiência de quase duas décadas de prática, mas também bibliografia, recursos e propostas de trabalho que poderão ser úteis a professores, educadores, bibliotecários, mediadores culturais e a todos os que trabalham com crianças e jovens.
Pode consultar a agenda actualizada e as próximas formações.
Quem sabe, encontramo-nos em breve para parar, pensar, escutar e dialogar.
joana rita
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Olá! O meu nome é joana rita. Sou filósofa e perguntóloga e, desde 2008, através da #filocriatividade, crio e dinamizo experiências de diálogo filosófico com crianças, jovens e adultos.
Trabalho com escolas, bibliotecas, museus, festivais e outros contextos educativos e culturais, criando oficinas a partir de perguntas, livros, obras de arte, notícias e outros pontos de partida para pensar em conjunto.
Se está a preparar uma actividade ou programação e procura uma oficina de Filosofia para/com Crianças, uma proposta de diálogo filosófico ou uma formação para quem trabalha com crianças e jovens, escreva-me. Podemos conversar.

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