filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância
🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica. Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades. Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc). Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools. Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025).
Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C. Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»
Os nomes de Feliza, escrito por de Juan Gabriel Vásquez, é um belíssimo livro que reconstitui a trajetória de Feliza Bursztyn, escultora colombiana de origens judaicas que viveu entre o desejo de liberdade e as amarras de um mundo que não estava preparado para ela.
A partir da história de Felicia – o seu nome inicial e que decidiu alterar para Feliza – serve como espelho de tensões mais amplas — identitárias, artísticas, de género, de política, de memória — que afetam muitas pessoas e dá oportunidade aos leitores para refletirem sobre a dificuldade de conciliar as diferentes liberdades com as normas, os preconceitos, harmonizar as limitações sociais e políticas.
Trata-se de uma narrativa que entrelaça vida íntima, memória familiar, exílio e arte numa sociedade marcada pela violência política, o patriarcado e o deslocamento transnacional.
Feliza emerge como alguém que enfrenta as convenções sociais e culturais— a ditadura do realismo artístico, as expectativas sobre o papel da mulher na arte, o que é ser mulher — procurando, sempre, construir-se livremente, nas diferentes dimensões da vida. Desejou ser livre. Lutou pela sua liberdade. Amou a vida. Viveu intensamente e de forma despreconceituosa.
Feliza é símbolo de uma identidade em transformação —, até ao momento súbito da sua morte, aos 48 anos, num restaurante de Paris, acompanhada de amigos e do célebre escritor Gabriel García Márquez, que escreveu que ela “morreu de tristeza”.
Com a missão de democratizar o acesso ao pensamento filosófico e de promover uma cultura de reflexão crítica, inclusiva e transversal a diferentes idades, a ESPANTO – Associação para o Desenvolvimento do Conhecimento acaba de lançar os seus primeiros programas formativos online: “Filosofia para Todos” e “Filosofia para Crianças e Jovens”.
O primeiro programa, dirigido ao público adulto, reúne um conjunto de cursos e palestras com pensadores de referência internacional, propondo uma abordagem acessível a temas centrais das sociedades atuais. No próximo dia 8 de abril, entre as 18h00 e as 20h00, Gilles Lipovetsky, Professor associado de Filosofia, sob o tema “Do consumidor ao Hiperconsumidor” dá início à primeira de muitas formações. A sessão será em francês, com tradução para português, inglês e espanhol e abordará as transformações profundas dos comportamentos de consumo e o surgimento de um novo perfil de consumidor na era do hiperconsumo.
Gilles Lipovetsky, um dos mais conceituados filósofos da atualidade e curador do Espanto- Festival Internacional de Filosofia, é primeiro protagonista do lançamento do programa de cursos online da Associação ESPANTO, o Lipovetsky afirma que “É preciso saudar a criação da ESPANTO, que abre um espaço raro e indispensável de reflexão e diálogo, onde a filosofia alimenta a cultura contemporânea e estimula um pensamento crítico exigente que cruza os conhecimentos”.
Esta nova área da associação, contará também com mais cursos e palestras ao longo do ano, de grandes filósofos de referência, como Bernat Castany Prado, Sebastian Sunday Grève e Maria Balaska, cujos contributos irão enriquecer a programação que pretende ser plural, interdisciplinar e alinhado com os desafios do mundo atual.
Porque a ESPANTO acredita que o pensamento crítico deve ser estimulado desde a infância, tem também o programa formativo “Filosofia para Crianças e Jovens”. Iniciando o primeiro curso nos dias 27 e 29 de abril, das 18h00 às 19h30, denominado “O “porquê” como gesto infantil – e filosófico”, com Joana Rita Sousa, especialista na área da Filosofia para Crianças e Jovens. Os dois cursos propõem uma reflexão sobre o “porquê” como ponto de partida do pensamento filosófico, explorando a importância da pergunta no desenvolvimento cognitivo e na construção de sentido. Dirigida a educadores, pais e a todos os interessados em explorar a relação entre infância e pensamento crítico, a formação convida a repensar o papel da pergunta enquanto motor de diálogo e descoberta.
Joana Rita Sousa acredita que “A presença de uma programação dedicada à Filosofia para Crianças sublinha não apenas a sua relevância educativa e cultural, mas também o seu reconhecimento crescente enquanto área de investigação. Nas últimas décadas, este campo tem vindo a afirmar-se no cruzamento entre filosofia, educação e estudos da infância, produzindo conhecimento sobre o desenvolvimento do pensamento crítico, criativo e cuidadoso desde os primeiros anos.”
Com esta iniciativa, a ESPANTO reforça a ideia de que a filosofia é um exercício universal e transversal a todas as idades, acessível a todos, capaz de criar pontes entre gerações e de fomentar uma cidadania mais consciente, informada e participativa. Importa hoje, mais do que nunca, treinar o pensamento para enfrentar um mundo rendido à inteligência artificial.
O livro de que vos falo hoje foi publicado em 2020, pela Jacarandá. O autor é Eric Chaline e o título adivinha um tom de humor: 101 Dilemas para o Filósofo de Bancada.
Este livro tem sido uma grande inspiração para pensar as minhas Oficinas de Dilemas Éticos. Em vários Dilemas, Eric apresenta sugestões de experiências de pensamento que nos permitem aprofundar os Dilemas.
A proposta de Eric, neste livro, parte da arrumação temática dos Dilemas: encontramos situações dilemáticas de âmbito pessoal, social, político, médico, científico e religioso, por exemplo. Isso permite-nos ir abrindo o livro num desses capítulos (ou temas) e escolher um Dilema como exercício para parar, pensar, escutar e dialogar. Podemos usar esta estratégia em sala de aula ou em família, para convidar as pessoas à nossa volta para pensar em voz alta sobre dilemas.
Eric Chaline é jornalista e escritor, sendo as suas especialidades a história, a filosofia e a religião.
O MUZEU – Pensamento e Arte Contemporânea dst é a voz pública do ethos do dst group, é a sua Ágora, a praça da reunião e debate com a qual queremos marcar a vida quotidiana da pólis.
Através da valorização dos artistas e dos intelectuais, queremos ser um motor da transformação do mundo num lugar mais livre, justo e belo.
A nossa história faz-se do lado certo, do lado da Cultura e da promoção da criação artística.
“Vamos fazer uma oficina de filosofia”, disse. “Já alguma vez participaram numa oficina de filosofia?”
As cabeças acenaram “não”. Alguém acrescentou: “O meu irmão tem filosofia, é mais velho.”
Pois é, íamos fazer uma oficina de filosofia, uma área que muitas pessoas só encontram no 10.º ano. Esta turma era do 3.º ano do 1.º ciclo.
“Então o que é?”, perguntou alguém.
Escrevi a palavra filosofia no papel de cenário e fiz uma proposta: “Vamos fazer assim: fazemos a oficina e, no final, voltamos a pensar no que é a filosofia, a partir do que fizemos.”
A escolha foi intencional: em vez de começar por uma definição, começar pela experiência, assumindo a filosofia como prática de pensamento partilhado, mais do que como um conjunto de conteúdos, numa linha próxima da proposta de Matthew Lipman.
Começar por aquilo que nos inquieta
Partimos para a oficina, pontual, a partir de uma das cenas da caixa I, Person, da Wonder Ponder (Ellen Duthie e Daniela Martagón).
A proposta era simples e exigente: observar, pensar, perguntar. Dizer o que nos parece estranho, e porquê.
Um momento “eureka”
Já perto do final do encontro, o L. disse: “Já sei dizer o que estamos a fazer de filosofia.”
Parámos. Escutámos.
“Estivemos a observar, estamos a fazer perguntas. Dizer o que achamos estranho e o porquê do estranho.”
O momento tinha a intensidade de uma pequena descoberta, pois tornava visível aquilo que até aí estava a acontecer sem nome.
Ali, o grupo agia como se fosse uma comunidade de investigação, um espaço onde as ideias são partilhadas, escutadas e desenvolvidas em conjunto (Ann Margaret Sharp).
Tomei nota e disse: “Bom, já adiantámos o trabalho que tínhamos para fazer no final. Depois voltamos aqui.”
Voltar atrás para perceber melhor
Antes de terminar, regressámos à pergunta inicial: o que foi a filosofia naquele tempo que estivemos juntos?
Acrescentámos a importância do “nunca vi” como razão para o estranhamento, aquilo que nos desloca do habitual, e sublinhámos a escuta dos diferentes pensamentos.
Este regresso não é apenas uma conclusão; é também um exercício de tomada de consciência sobre o próprio processo de pensar. Uma dimensão metacognitiva que John Dewey associa ao pensamento reflexivo: pensar sobre o que se pensou.
“A filosofia é pensar diferente”, disse a C.
Talvez possamos acrescentar: pensar diferente e pensar sobre esse próprio pensar, em conjunto.
// mediação cultural e filosófica no Museu do Mar – Rei D. Carlos I (Cascais)
Durante os meses de Janeiro, Fevereiro e Março tive oportunidade de dinamizar oficinas para jovens do secundário, tendo como ponto de partida o espaço do Museu do Mar Rei D. Carlos I, em Cascais.
Este trabalho implicou uma visita prévia ao Museu, que me permitiu conhecer os espaços e conversar com a equipa do Serviço Educativo. Durante esta visita, identifiquei potenciais “pontos filosóficos” do espaço, capazes de inspirar perguntas, problematizações e diálogos reflexivos, alinhando-se diretamente com os objectivos das oficinas #filocriatividade:
Convidar à reflexão crítica sobre questões éticas ligadas ao mar e às comunidades piscatórias;
Promover a escuta e o diálogo entre as pessoas participantes, valorizando múltiplas perspectivas;
Conectar o conhecimento histórico e cultural do Museu com dilemas contemporâneos;
Desenvolver capacidades de argumentação e questionamento, a partir de exemplos concretos e experiências locais.
Visitar e experienciar um Museu exige algo mais do que entrar nas salas e ver. Há que observar atenta e cuidadosamente. Explorar detalhes. Dedicar atenção.
Um encontro curioso
“Se calhar vou encontrar aqui a minha avó (*)”, disse um dos jovens. O seu pai tinha comentado que era bem provável encontrar uma fotografia da avó no Museu do Mar, já que a senhora teria sido uma pessoa bastante conhecida na vila, com uma vida de trabalho dedicada à actividade piscatória.
Assim aconteceu: na sala Gentes do Mar, dedicada aos usos e costumes da comunidade piscatória de Cascais e às artes tradicionais de pesca, o jovem encontrou a fotografia.
Estar no Museu
Numa das oficinas, uma das jovens sublinhou a importância de visitar o Museu da vila onde vive, para conhecer melhor a história de Cascais: “Temos tendência para valorizar os Museus dos sítios que visitamos, mas nem sempre visitamos e damos valor aos da nossa terra.”
“Acho que foi a primeira vez que gostei de vir a um museu”, disse o S. no final do nosso encontro.
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Tenho aprendido muito com as leituras e o estudo que tenho feito na área da mediação cultural, procurando cruzar com a minha prática nas oficinas #filocriatividade, que valorizam o parar, pensar, escutar e dialogar.
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Se pertence ao Serviço Educativo de um Museu e pretende consultoria nesta área ou saber mais sobre os meus serviços de mediação cultural e filosófica, contacte-me através deste formulário.
joana rita sousa #filocriatividade
(*) Ao escrever este texto, fiquei na dúvida se seria avó ou bisavó.
Fomos treinados para medir o valor das experiências pelo resultado: ganhar ou perder, subir ao pódio ou ficar de fora. Há aprendizagens que não cabem nessa lógica. Há processos em que participar, no sentido de fazer parte, já é uma forma de vitória.
No xadrez de alta competição, a grande mestre Judit Polgár ajudou a desmontar um equívoco comum: empatar não é falhar. Um empate pode ser fruto de um cálculo rigoroso, da gestão de risco, da leitura madura da situação. É escolher continuar num outro jogo: no xadrez de alta competição, quando perdemos um jogo, perdemos todos os pontos. Empatar permite acumular esses pontos e continuar no jogo dos jogadores do TOP. Empatar é, em certa medida, um meio para ganhar. Em percursos longos, essa inteligência estratégica vale mais do que a obsessão pela vitória imediata.
Ao ver o documentário sobre Judit Polgár, na Netflix, lembrei-me da leitura competitiva que as crianças e os jovens transportam para os diálogos ao entendê-los como espaços de debate. Mesmo sem que a palavra competição seja mencionada, quando pedimos ao grupo para se posicionar se concordam ou não com determinada ideia, há a tendência para dizer que uma dessas posições ganhou quando se contam mais pessoas desse lado.
Debate e diálogo
Convém distinguir duas práticas que muitas vezes confundimos: debate e diálogo.
No debate, a estrutura é adversarial: há posições em confronto, estratégias de persuasão e um veredicto implícito sobre quem foi mais convincente.
No diálogo, a estrutura é cooperativa: as posições são provisórias, as perguntas orientam o percurso e o objectivo passa por compreender melhor o problema (e por vezes em criar outros problemas).
O debate procura vencer; o diálogo procura clarificar; dá corpo à ideia da obsessão pela transparência. O debate mede força argumentativa; o diálogo cultiva compreensão partilhada.
Quando um debate é tratado como combate, o valor concentra-se no desfecho: quem ganhou? quem perdeu? A escuta torna-se táctica. A palavra vira arma. Mudar de ideias parece fraqueza. No fim, alguém vence. Pergunto: e será que o pensamento perde?
Quando o diálogo é entendido como investigação conjunta, o foco desloca-se do resultado para o processo. Clarificar conceitos, reformular posições, reconhecer a força de um argumento alheio, sustentar uma pergunta difícil, tudo isso pode ser entendido como um “empate”. Ninguém triunfa sozinho, mas todos avançam na compreensão.
As oficinas #filocriatividade são espaços de diálogo
Participar nas oficinas #filocriatividade implica um espaço onde o pensamento se constrói em relação. Não há adversários a derrotar, mas ideias a explorar em conjunto. Estar presente, escutar seriamente, arriscar perguntas próprias, ajudar o grupo a pensar melhor, tudo isso conta. Fazer parte é produzir sentido. Participar é ensaioar pensamento em voz alta.
Não sou contra formatos competitivos; modelos como as Olimpíadas podem ser mobilizadores, exigentes, até inspiradores. Mas fascinam-me propostas que mostram que o rigor não depende da lógica do pódio. As Olimpíadas de Filosofia do Rio de Janeiro são um exemplo: privilegiam o diálogo e a partilha pública de ideias. A filósofa Lara Sayão estudou esta experiência, evidenciando como a participação se torna num eixo formativo central, valorizado mais a comunidade de investigação do que o torneio eliminatório.
Na comunidade de diálogo que tivemos na sétima edição da olimpíada do Rio, Ailton Krenak fez um questionamento que parece absurdo dentro da estrutura de pensamento ocidental capitalista: por que fazemos tudo com um fim? Por que todas as coisas que fazemos tem que ter uma finalidade objetiva? Por que não sabemos apenas fazer? Apenas viver? Apenas sentir? Essas questões nos perturbam e deixam uma sensação de vazio porque não estamos acostumados a fazer coisas sem atribuir uma finalidade muito objetiva e ter em vista algum ganho. A própria experiência dos encontros nas olimpíadas, muitas vezes nos remetem a um espaço vazio, fora do que estamos acostumados a fazer e isso movimenta o pensamento, é uma experiência de síncope. (Lara Sayão, Olimpíadas de filosofia do Rio de Janeiro, o pensamento na roda, p. 218)
Talvez precisemos de ampliar o nosso vocabulário de vitória.
Ganhar pode significar ter razão. Mas também pode ser ganhar tempo para pensar melhor; ou ganhar abertura para rever posições; ou experienciar a pertença a uma comunidade que pensa colaborativamente.
Confesso que não tenho grandes memórias de Russell durante os meus tempos de aluna da licenciatura de Filosofia.
Por um lado, é natural que assim seja: a licenciatura não pretende abordar cada uma das pessoas que deu um contributo relevante para a História da Filosofia. Por outro lado, é natural que a minha memória me possa estar a atraiçoar.
Os conteúdos curriculares arrumam-se por temas ou épocas históricas e encontram-se limitados aos tempos dos semestres. Depois, cada professor ou professora escolhe os nomes e as respectivas obras consoante o seu próprio percurso e especialização.
Continuo a ler os nomes que fazem parte da Filosofia e outros nomes que não fazem parte da História da Filosofia. Digo isto pois as mais recentes Histórias da Filosofia continuam a silenciar muitas das mulheres que pensaram, escreveram e contribuíram para o pensamento filosófico. Outras pessoas também são silenciadas, como as filosofias africanas e indígenas, só para dar dois exemplos.
Tenho feito um esforço para adquirir e ler livros que me permitam ter uma visão mais ampla da História da Filosofia. Não é fácil, é preciso tempo e disponibilidade. Porém, se eu não criar essas referências, facilmente irei perpetuar os mesmos nomes de sempre, ou aqueles que escutei na licenciatura que terminou no início dos anos 2000.
O compromisso está assumido, a dificuldade também. Parece-me que me resta agora caminhar no sentido desse compromisso.
Porém, não posso – e não devo – ignorar a importância do pensamento de Bertrand Russell. Li a grande maioria dos capítulos do livro Os Problemas da Filosofia em 2024 e fui sempre convocada a parar para pensar. Russell é um autor do nosso tempo, ainda que tenha vivido entre 1872 e 1970. Prova disso é a pergunta que abre o capítulo Aparência e Realidade:
“Haverá algum conhecimento no mundo que seja tão certo que nenhum homem razoável possa dele duvidar? (…) a filosofia é apenas a tentativa de responder a questões últimas deste género, não de modo descuidado e dogmático, como fazemos na vida comum e até nas ciências, mas criticamente, depois de explorar tudo o que gera perplexidade nessas perguntas, e depois de tomar consciência de toda a vagueza e confusão que subjaz às nossas ideias comuns.”
Nunca é tarde para conhecer um filósofo, convidando-o para a roda, para pensar em voz alta connosco. É por isso que continuo a ler Filosofia e a reler Filosofia. Há sempre lugar para mais um filósofo ou filósofa na minha roda de pensamento.
O segundo ciclo das Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais teve lugar entre Outubro de 2025 e Fevereiro de 2026, reunindo 50 participantes (pessoas adultas e crianças entre os 7 e os 11 anos) em encontros de diálogo intergeracional sobre a vida, a morte e a finitude.
O ciclo iniciou-se em Outubro, no âmbito da 4.ª Semana Cultural nos Cemitérios, reafirmando o cemitério como espaço de memória, mas também como lugar de pensamento, de encontro e de construção de sentido.
O cemitério como lugar de pensamento
As propostas partiram do próprio espaço do cemitério (Prazeres e Alto de São João) e de perguntas geradas através de propostas lúdicas e filosóficas. A observação atenta, o jogo, o silêncio e o diálogo tornaram-se dispositivos para abordar temas como o tempo, a ausência, a memória, o medo e aquilo que dá valor à vida. Crianças e adultos pensaram em comunidade, desafiando-se a pensar em perguntas vitais e fatais.
O que dizem as famílias participantes?
O impacto das oficinas foi visível nas famílias participantes. Uma mãe partilhou que o filho encontrou na experiência de diálogo no cemitério um espaço que contribuiu para a diminuição de receios em torno da morte. Outros participantes sublinharam a importância de criar contextos onde a morte possa ser abordada de forma aberta e saudável, contrariando a tendência social para afastar as crianças deste tema.
Quando perguntámos o que tinha sido mais curioso na oficina, as respostas revelaram tanto o gosto pelo diálogo como a atenção ao detalhe: houve quem destacasse a importância de “conversar sobre as coisas e curiosidades” e quem se lembrasse de uma estrela torta no topo de um jazigo, descrita como “muito fixe”. Para outra criança, a experiência foi “divertida, mas também aborrecida”. Afinal, pensar exige entusiasmo e implica aborrecimento.
À pergunta sobre regressar ao cemitério, algumas crianças manifestaram vontade clara de voltar, sublinhando o prazer de aprender e descobrir. Outras mostraram sensibilidade ao contexto emocional do espaço, reconhecendo que muitas pessoas ali estão tristes por terem perdido alguém.
Num dos casos, o diálogo não terminou na oficina: uma criança levou a pergunta para casa e conversou com os avós e o pai sobre se gostariam de ser imortais. Eis um sinal de que o pensamento iniciado em comunidade continua para além do encontro formal.
Este segundo ciclo consolidou as Oficinas Vitais como um espaço seguro para o exercício do pensamento, onde falar da morte se revela, paradoxalmente, uma prática profundamente vital – para crianças, adultos e para a comunidade em geral.
A dimensão cultural
A presença de Gisela Monteiro, investigadora na área cemiterial, foi determinante para o desenrolar das Oficinas. O seu contributo reforça a dimensão histórica, patrimonial e cultural das oficinas, ampliando o olhar sobre o cemitério enquanto arquivo de memórias, narrativas e símbolos. A articulação entre investigação e prática filosófica permite que as famílias pensem sobre a morte, compreendendo o lugar cultural que ocupa nas comunidades, tornando a experiência mais informada, situada e significativa.
Um projecto singular no panorama nacional
As Oficinas Vitais sobre Assuntos Fatais distinguem-se pelo seu carácter singular no panorama nacional, sendo uma iniciativa única em Portugal que trabalha o tema da morte com crianças e famílias em contexto cemiterial, através do diálogo filosófico e de propostas lúdicas. Ao integrar o cemitério como espaço pedagógico e cultural, promovem um encontro intergeracional pouco comum, onde pensar a finitude se torna uma prática consciente.
A curiosidade, a brincadeira e as conversas significativas são frustradas na escola, porque requerem liberdade. A psicóloga Susan Engel e colegas realizaram um estudo observacional de salas de aula do jardim de infância e do quinto ano dos Estados Unidos e descobriram que em nenhum dos dois anos as crianças expressavam muita curiosidade em relação a qualquer coisa que tivessem de estudar. quando as crianças faziam perguntas, era sobre regras e requisitos, como quanto tempo tinham para terminar uma tarefa, e não sobre o assunto em si. As perguntas sobre a matéria eram feitas quase exclusivamente pelos professores, e a tarefa dos alunos era adivinhar as respostas de que os professores estavam à procura. Quando os alunos pareciam mostrar uma centelha de interesse, o professor cortava-lhes frequentemente o interesse, para não se atrasarem na tarefa.
Aquela criança formulou uma pergunta-poema, fazendo com que a palavra «tantos» se atirasse contra a esterilidade, contra a previsibilidade, contra a língua acomodada à formalidade. Voltando a Maria Teresa Andruetto: «A escrita exige olhar até entrar em contradição conosco, “até pulverizar os olhos”, como queria Alejandra Pizarnik.»
Há dias bons! Outros menos bons. E outros terríveis.
Vasco era um rapaz simpático, mas quando está de mau humor é melhor ninguém estar por perto. “Não era um daqueles amuos que passam logo, como uma pequena tempestade num copo de água.”
O mau humor tira Vasco do sério, perde o controlo e a fúria intensifica-se, tal como uma ventania furiosa, fazendo rodopiar automóveis, motas e bicicletas, juntamente com as folhas, muitas folhas, das árvores da cidade.
O caos instala-se!
As flores murcham, os pássaros silenciam-se, tudo fica sombrio e a fúria do Vasco continua a crescer como se o mundo inteiro estivesse contra a ele.
Ventania é uma narrativa metafórica e inspiradora.
“We start with exploring the ways that children play. This play takes many forms, from tentative exploration to full-blown adventures. Children’s play encompasses and consolidates everything they know and many more things that they do not yet know. They know that it involves love, concern and the conflict of family life. They know that monsters might be real. Their play involves the reliving of day-to-day experience but can swinf quickly from the mundane re-enacting to the wildly fantastical. A shopping trip can transform with unstoppable speed into an encounter with fierce dragons.”
(Sara Stanley, Why Think – philosophical play from 3-11, p. 9).