filocriatividade

filosofia para/com crianças e jovens | mediação cultural e filosófica | #ClubeDePerguntas | #LivrosPerguntadores | perguntologia | filosofia, literatura e infância

🟥 quem sou eu?

🟡 [joana rita] Sou licenciada em Filosofia pela FCH da Universidade Católica.
Desde 2008 que viajo pelo país promovendo oficinas de pensamento crítico e criativo, para todas as idades.
Em 2019 concluí o mestrado em Filosofia para Crianças, com a defesa da 1.ª dissertação do país nesta área: Queres saber? Pergunta. (UAc).
Tenho um artigo publicado na Springer, “Why vote? A reflection on the democratic nature of dialogical inquiries” (2023). Em 2025 publiquei dois artigos no Journal of Philosophy in Schools.
Sou a autora do livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças (2025). 

Membro honorário da Federación Mexicana de Filosofía para Niños A.C.
Em 2021 o projecto filocriatividade recebeu o reconhecimento da Cátedra UNESCO/Universidade de Nantes: «Práticas de Filosofia com Crianças»

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    joana rita #filocriatividade

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    A Rita pediu ao pai para passarem em casa dos avós no final do dia, depois da escola:

    — Claro que podemos lá passar. Vou avisar os…

    — Não avises, pai! Quero que seja uma surpresa! — interrompeu a Rita.

    E assim foi: depois das aulas, o pai foi buscar a Rita e caminharam a pé até à casa dos avós. Aproveitaram para partilhar as coisas que tinham acontecido no seu dia. A Rita contou ao pai o que tinha aprendido em Língua Portuguesa, o pai contou à Rita que naquele dia tinha desaprendido.

    — O que é desaprender? — perguntou a Rita.

    — Sabes, Rita, percebi que andava a fazer uma coisa há muito tempo de uma maneira que não era lá muito correcta. Tive de desaprender para deixar espaço e aprender de novo.

    Chegados à porta dos avós, tocaram à campainha. Esperaram um bocadinho. Tocaram de novo.

    — Humm, o que terá acontecido? Os avós costumam estar em casa a esta hora. — disse o pai, preocupado. — Vou ligar ao avô Joaquim.

    O pai da Rita ligou e depois de três toques, a chamada foi recusada. Cada vez mais preocupado, o pai olhou para a Rita e disse:

    — Espera, tenho aqui uma mensagem do avô Joaquim.

    leu em voz alta: “Começámos hoje as aulas na Universidade Sénior. Esqueci-me de te avisar. Até amanhã.”

    A Rita ficou de sobrolho franzido:

    — Ó pai! O que fazem os avós na Universidade?

    — Então, filha, devem estar a ter aulas de alguma coisa que gostavam de aprender. Vamos andando para casa?

    — Vamos, pai — disse a Rita — mas não estou a perceber. Os avós não sabem já tudo? O que ainda vão aprender para a universidade?

    O pai da Rita sorriu e disse

    — Rita, os avós podem ensinar-nos muitas coisas, mas até os avós têm coisas para aprender.

    A Rita ficou a pensar:

    O que será que vou aprender quando tiver a idade dos avós?

    Será que os avós me podem ensinar aquilo que vão aprender na universidade?

    Será que posso ensinar aos avós aquilo que eu aprendo na escola?

    Até que idade se aprende?

    Em casa ou em família, podem fazer estas actividades para pensar a partir das perguntas da Rita.

    • Escrevam num papel as tuas respostas às perguntas da Rita. Partilhem as respostas e conversem sobre elas.
    • Pensem em perguntas e façam uma entrevista aos avós para saber o que ainda gostariam de aprender. Perguntem-lhes porquê!
    • Sabem o que é uma Universidade Sénior? Investiguem se há alguma perto de casa ou da escola para saber o que podem as pessoas aprender por lá.
    • Há alguma coisa que gostassem muito de aprender quando forem mais velhos/as? O quê? Qual a razão para aprender essa coisa?

    Partilhem as vossas respostas, a vossa entrevista ou o resultado das tuas investigações e diálogos aqui nos comentários.

    Desafio publicado no website da Revista Dois Pontos, em Julho de 2020.

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    No âmbito da programação do LAC – Laboratório de Aprendizagem Criativa, foram dinamizadas oficinas de filosofia para crianças com turmas do 4.º e 5.º anos, nas escolas de Estarreja, Salreu e Cabeças.

    Perguntas como ponto de partida para o pensamento filosófico

    Estas oficinas de filosofia em contexto escolar tiveram como base o trabalho a partir de perguntas orientadoras, entendidas como um verdadeiro trampolim para o questionamento filosófico e para a construção partilhada de pensamento.

    Temas explorados: ética e antropologia filosófica

    As questões exploradas — “Será possível viver sem regras?”, “O que faz de um ser humano um ser humano?”, “A favor e contra” e “Eu penso, eu escolho” — permitiram abordar conteúdos das áreas da ética e da antropologia filosófica, ao mesmo tempo que promoveram o desenvolvimento da argumentação, do pensamento crítico e da capacidade de explorar diferentes sentidos.

    A escuta e o diálogo em sala de aula

    As oficinas iniciaram-se com momentos de observação, criando condições para o pensamento e promovendo a escuta e a disponibilidade para considerar diferentes perspectivas — competências essenciais no âmbito da filosofia para crianças e jovens.

    Competências trabalhadas nas oficinas de filosofia

    Ao longo das oficinas foram desenvolvidas competências como:

    • desenvolvimento da escuta e da empatia cognitiva;
    • capacidade de considerar diferentes perspetivas;
    • construção e análise de argumentos a favor e contra;
    • distinção entre perguntas e comentários;
    • estabelecimento de relações entre ideias;
    • valorização da observação como ponto de partida para o pensamento.

    Desenvolvimento do pensamento crítico e da argumentação

    As propostas de diálogo filosófico em sala de aula suscitaram um elevado nível de envolvimento, não só dos alunos, mas também das professoras, que participaram activamente na roda de diálogo.

    A prática de analisar diferentes posições revelou-se especialmente relevante, permitindo aos participantes distanciar-se das suas opiniões iniciais e explorar alternativas. Este processo contribuiu para o desenvolvimento de um pensamento mais flexível, crítico e fundamentado.

    Filosofia para Crianças: enquadramento teórico

    O enquadramento conceptual destas oficinas de filosofia para crianças articula-se com a perspectiva da filosofia como prática de clarificação do pensamento, em linha com a reflexão de António de Castro Caeiro sobre a filosofia enquanto exercício de resolução da opacidade do real.

    As atividades desenvolvidas inserem-se no campo da Filosofia para/com Crianças, inspiradas em autores como Matthew Lipman, Ann Margaret Sharp, Ellen Duthie e José Barrientos Rastrojo, promovendo o desenvolvimento articulado do pensamento crítico e criativo.

    Impacto das oficinas #filocriatividade nos alunos

    Em síntese, as oficinas #filocriatividade contribuíram para a criação de um espaço de reflexão partilhada, centrado no questionamento, na escuta e na construção conjunta de sentido. Estas oficinas de filosofia em contexto educativo permitiram aos alunos experienciar a filosofia como uma prática viva: observar com atenção, pensar em conjunto e questionar o quotidiano.

    Como referiu uma das crianças participantes:
    “parece que estamos só a pensar coisas da imaginação, mas estas coisas estão no dia-a-dia.”

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    joana rita #filocriatividade

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    Na minha prática, no âmbito da filosofia para crianças, procuro que as aulas se traduzam em verdadeiros espaços de liberdade e responsabilidade. Esta abordagem implica que os alunos tenham a possibilidade de gerir diferentes aspetos do funcionamento da aula, tanto individualmente como em grupo.

    Exemplos concretos? As idas à casa de banho, a troca de lugares para trabalhar ao lado de um colega, a escolha de voluntários para distribuir materiais ou a gestão do silêncio necessário para ouvir os diálogos. Todas estas dimensões fazem parte de uma responsabilidade partilhada em sala de aula.

    Liberdade e responsabilidade na sala de aula

    No início é fundamental que exista uma mediação mais próxima por parte da pessoa facilitadora. A gestão destas responsabilidades e a definição de regras de trabalho são feitas em conjunto com os alunos, promovendo a sua participação e o envolvimento.

    Gosto de escutar o que pensam e de lhes dar espaço para colaborar na construção dessas regras. Por essa razão, não existem regras universais: cada grupo constrói o seu próprio equilíbrio entre autonomia, regras e convivência.

    Regras diferentes para grupos diferentes

    A liberdade que cada grupo consegue assumir é variável, porque cada turma é composta por crianças diferentes — e essa diferença é algo que procuro preservar, sempre com base no respeito.

    Num dos grupos de 4.º ano verificámos que a liberdade de ir à casa de banho sem pedir autorização não estava a resultar. Surgiam comportamentos de imitação, com vários alunos a correr para a porta sempre que alguém saía, gerando mais perturbação do que organização.

    Este tipo de situação levanta uma questão central na educação e filosofia para crianças: até que ponto a liberdade promove autonomia ou desorganização?

    Quando a liberdade não funciona: um problema filosófico

    Perante esta situação, propus ao grupo que pensássemos em conjunto sobre o que estava a acontecer. Foi então que uma aluna sintetizou o problema de forma clara:
    “O problema é esse mesmo, temos liberdade e devíamos era ter regras mais fixas”.

    A partir desta intervenção, dedicámos duas a três aulas ao diálogo filosófico sobre liberdade e regras, explorando conceitos fundamentais da ética e da vida em comunidade.

    Pensar a liberdade: entre autonomia e necessidade de regras

    Este grupo concluiu que as aulas funcionavam melhor com regras mais estruturadas, reduzindo a autonomia em aspectos como levantar-se ou sair da sala. Foi a partir dessa decisão colectiva que passámos a organizar o trabalho.

    Curiosamente, noutra turma, o modelo oposto funciona: os alunos gerem autonomamente as suas necessidades, sem interrupções significativas, integrando essa liberdade no fluxo do pensamento em grupo.

    Estes contrastes mostram que a filosofia para crianças em contexto escolar não é uma metodologia rígida, mas antes uma prática adaptativa, centrada nos grupos e nas suas dinâmicas.

    O desafio: equilibrar liberdade, autoridade e aprendizagem

    Conciliar a abordagem da filosofia para crianças, as expectativas de autoridade que as crianças associam à figura da pessoa professora e as características individuais dos alunos é um desafio constante.

    As turmas variam entre 16 e 24 alunos, com ritmos, necessidades e disposições muito distintas. A isto soma-se o contexto real da escola: aulas ao final do dia (às 16h30), cansaço acumulado e, muitas vezes, limitações de espaço.

    Este trabalho exige uma reflexão contínua: o que está a resultar? O que precisa de ser ajustado? Que estratégias podem tornar o diálogo filosófico mais significativo?

    Filosofia para Crianças na prática: aprender com a experiência

    Todos os dias há aprendizagens — também para quem orienta. A prática implica ajustar, experimentar e repensar constantemente o equilíbrio entre liberdade e estrutura.

    E, apesar das dificuldades, há sinais claros de que este trabalho faz sentido.

    No final de uma aula, um aluno aproximou-se e disse:
    “Hoje gostei mesmo de trabalhar contigo na filosofia. E com a turma toda!”

    Filosofia para Crianças: um espaço de liberdade… com problemas

    A liberdade, em contexto educativo, não é um dado adquirido — é um problema a pensar. É precisamente nesse espaço de tensão entre liberdade e regras que a filosofia para crianças se torna uma prática viva: um exercício contínuo de pensar em conjunto, ajustando escolhas, construindo sentido.

    joana rita sousa

    texto redigido em fevereiro de 2016, a propósito de trabalhos de continuidade enquadrados nas AEC

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    joana rita #filocriatividade

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    Descubra o que dizem os estudos sobre Filosofia para Crianças.

    📷 FOLIO, 2024

    Filosofia para Crianças: porquê trabalhar o pensamento?

    Há algo que tenho vindo a confirmar na prática e que a investigação já sustenta há décadas: o pensamento pode ser trabalhado. E pode ser trabalhado em conjunto.

    A Filosofia para/com Crianças (FpcC) não se resume apenas a uma conversa livre nem a um exercício abstracto. É uma prática educativa estruturada, assente no diálogo, na escuta e na construção partilhada de perguntas.

    Diversos estudos internacionais mostram que a participação regular em práticas filosóficas contribui de forma consistente para o desenvolvimento do raciocínio, do pensamento crítico e da criatividade (Topping & Trickey, 2004, 2007; Hedayati & Ghaedi, 2009).

    É importante, contudo, distinguir entre resultados promissores e conclusões definitivas. A investigação disponível é heterogénea e os efeitos encontrados dependem do resultado analisado, do desenho da intervenção e do contexto em que esta acontece.

    O que muda quando as crianças filosofam?

    Uma das coisas mais interessantes na investigação é que os efeitos estudados não se limitam ao “pensar melhor” de forma abstracta. Alguns estudos encontraram também alterações na forma como as crianças comunicam, escutam e participam.

    O estudo de Hedayati e Ghaedi (2009), por exemplo, encontrou melhorias nas competências de comunicação interpessoal — tanto verbais como não verbais — em alunos do ensino básico. Também os estudos de Topping e Trickey (2005, 2007) apontam para efeitos positivos no raciocínio e em algumas dimensões da interação entre os participantes em comunidades de investigação filosófica.

    Na prática, isto pode traduzir-se em crianças que escutam melhor, que pensam antes de responder e que conseguem construir ideias com os outros. “Aqui na filosofia temos de pensar duas vezes antes de falar”, dizia-me uma criança do 5.º ano, no final de uma oficina pontual.

    Mas é importante fazer uma distinção: um resultado positivo num estudo não significa que todas as crianças, em qualquer contexto e através de qualquer prática de Filosofia para Crianças, irão necessariamente desenvolver essas competências. A investigação fornece-nos indícios e tendências; não uma garantia automática de resultados.

    Pensar, criar, resolver: impactos no desenvolvimento

    A Filosofia para/com Crianças não trabalha apenas o pensamento crítico, trabalha também a criatividade e a capacidade de lidar com problemas.

    Num estudo recente realizado por Işıklar e Abalı-Öztürk (2022) os autores verificaram que um programa de Filosofia para Crianças, ao longo de 15 sessões, aumentou de forma significativa a autoestima e as competências de resolução de problemas dos alunos.

    Resultados semelhantes já tinham sido encontrados por Erfani et al. (2014), que identificaram melhorias na criatividade e na capacidade de resolver problemas em estudantes do ensino secundário. Outros autores, como Millett e Tapper (2012), reforçam esta ideia: a investigação filosófica é, em si mesma, uma prática que treina o pensamento para lidar com situações complexas.

    Além disso, há indícios de impacto positivo em áreas escolares como a leitura, a compreensão e até o pensamento científico. Estes indícios sugerem que filosofar não “retira tempo” ao currículo, mas pode, na verdade, aprofundá-lo.

    Convém evitar uma conclusão demasiado rápida. O facto de uma prática filosófica poder contribuir para determinadas competências não significa que a sua finalidade tenha de ser produzir essas competências.

    Podemos querer saber se a Filosofia para Crianças melhora o pensamento crítico e, ao mesmo tempo, considerar que o valor de uma experiência filosófica não se esgota nesse resultado.

    O que dizem os estudos em conjunto?

    Quando olhamos para estudos isolados, encontramos resultados interessantes. Quando reunimos muitos estudos, conseguimos perceber melhor algumas tendências.

    As meta-análises disponíveis apontam, de forma geral, para efeitos positivos da Filosofia para Crianças em diferentes resultados cognitivos. García-Moriyón et al. (2005) e Yan et al. (2018), por exemplo, encontraram efeitos favoráveis em diferentes dimensões analisadas.

    Mais recentemente, Kilby (2025) realizou uma meta-análise que reuniu 30 estudos e 62 conjuntos de dados. O efeito global encontrado foi de 0,65; quando o resultado analisado era especificamente o pensamento crítico, o efeito foi de 0,89. O autor encontrou ainda diferenças entre regiões, com efeitos maiores nos estudos realizados em países orientais do que nos ocidentais.

    Estes resultados são relevantes. Sugerem que determinadas formas de Filosofia para Crianças podem contribuir para o desenvolvimento de competências relacionadas com o raciocínio e o pensamento crítico.

    Mas uma meta-análise não transforma automaticamente resultados diversos numa verdade simples. Os estudos que reúne podem diferir bastante entre si: quanto à idade dos participantes, duração das intervenções, formação dos professores ou facilitadores, materiais utilizados, contexto educativo e instrumentos de avaliação.

    Os estudos podem variar quanto à idade dos participantes, duração das intervenções, formação dos professores ou facilitadores, materiais utilizados, contexto educativo e instrumentos de avaliação. O próprio Kilby assinala que existem variações na forma como a Filosofia para Crianças é praticada e que nem todos os resultados habitualmente associados à prática são igualmente avaliados através de investigação quantitativa.

    Por isso, talvez seja mais rigoroso dizer que a investigação acumulada é promissora do que afirmar que já existe uma demonstração definitiva de que a Filosofia para Crianças “funciona”.

    Há ainda outra questão metodológica: estudos com amostras mais pequenas podem, em alguns casos, apresentar efeitos maiores. Isto não invalida os resultados, mas recomenda alguma prudência na sua interpretação.

    Para além dos números: o que se observa na prática

    Há também algo que os números nem sempre captam totalmente: a qualidade das relações e do ambiente de aprendizagem.

    Relatórios qualitativos, como o Philosopher-in-Residence Project (Northern Territory Department, 1991), mostram que professores, famílias e alunos reconhecem melhorias no envolvimento, na participação e na qualidade do diálogo.

    De forma semelhante, o trabalho de Karin Murris (1992) evidencia ganhos na escuta, na expressão e na confiança das crianças — aspectos que são fundamentais, mas difíceis de medir apenas com testes.

    Os estudos permitem conclusões definitivas?

    A investigação sobre Filosofia para Crianças apresenta resultados interessantes, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento do pensamento crítico, mas está longe de permitir conclusões definitivas. Se alguns estudos identificam efeitos positivos, outros, incluindo investigações de maior dimensão, não encontram diferenças significativas em determinados resultados.

    Além disso, os estudos recorrem a intervenções, contextos, amostras e instrumentos de avaliação diversos, o que torna difícil falar de “um” efeito da Filosofia para Crianças. Há ainda indícios de que os estudos com amostras mais pequenas tendem, em alguns casos, a apresentar efeitos de maior dimensão.

    Um exemplo importante é o grande ensaio realizado no Reino Unido por Lord et al. (2021), que envolveu 75 escolas de intervenção e 123 escolas de controlo. O estudo não encontrou evidência de impacto da Filosofia para Crianças nos resultados de leitura e matemática, nem nas competências sociais e comunicativas avaliadas através dos instrumentos utilizados.

    Este resultado não significa que a Filosofia para Crianças não tenha valor. Significa que não foram encontrados efeitos estatisticamente significativos naqueles resultados, naquele estudo e nas condições em que foi realizado.

    Não é possível assumir que os resultados encontrados numa comunidade de investigação se transferem automaticamente para outras situações. Uma criança pode desenvolver determinadas formas de argumentação num contexto filosófico sem que isso signifique que irá necessariamente aplicar essas competências em qualquer outra situação da sua vida.

    Há ainda outra questão: sabemos relativamente mais sobre os efeitos que determinadas práticas podem produzir do que sobre aquilo que significa, para as próprias crianças, participar numa experiência filosófica. Ou seja, sabemos mais sobre o que a Filosofia para Crianças pode fazer às crianças do que sobre o que significa para as crianças fazer filosofia.

    Ainda que os estudos empíricos sejam bastante importantes, não respondem sozinhos à questão que aqui nos interessa. Podem ajudar-nos a perceber que efeitos estão associados a determinadas práticas e em que condições esses efeitos parecem ocorrer. Há uma questão que permanece e que tem outra natureza: o que faz com que uma actividade seja filosófica?

    Porque é que isto importa (e como se traduz nas oficinas)

    Tudo isto ajuda a clarificar algo que, para mim, é central: pensar não tem de ser um acto solitário. O pensamento constrói-se, transforma-se e aprofunda-se na relação com os outros.

    As oficinas #filocriatividade nascem deste entendimento. Inspiram-se na investigação, ganham forma na prática: em espaços onde há tempo para perguntar, escutar, discordar e imaginar.

    Mais do que ensinar respostas, trata-se de criar condições para que o pensamento aconteça — com rigor, com criatividade e em comunidade. Pensar melhor, com clareza, também se aprende e pode ser uma experiência partilhada.

    Se trabalha numa escola, biblioteca, associação ou outro contexto educativo, pode integrar estas práticas de forma pontual ou continuada. As oficinas #filocriatividade são adaptáveis a diferentes idades e objectivos, desde sessões pontuais a ciclos ou projectos de continuidade.

    Se procura promover o pensamento crítico, a criatividade e o diálogo no seu contexto, estou disponível para desenhar propostas à medida. Entre em contacto para agendar ou saber mais, através deste formulário.

    joana rita

    Nota de actualização: este artigo, originalmente publicado em Abril de 2026, foi revisto e actualizado a 11 de Agosto de 2026. Para além da inclusão de investigação mais recente, a revisão procura tornar mais rigorosa a apresentação da evidência disponível, incluindo os seus resultados positivos, mas também as diferenças entre estudos e as limitações que devem ser consideradas na interpretação dos seus resultados.

    Aproveito para partilhar que neste wakelet encontra ligações para os estudos aqui referidos e outros. Irei actualizar sempre que encontrar novos estudos.

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    joana rita #filocriatividade

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    O projeto Aqui Estamos Nós? teve início no ano letivo 2024/2025, na Biblioteca Municipal de Sobral de Monte Agraço, e teve continuidade em 2025/2026, consolidando-se como um ciclo de promoção da leitura em família e participação comunitária.

    Dirigido a famílias com crianças, este projecto propõe encontros regulares onde os livros são o ponto de partida para o diálogo e para a construção de pensamento em conjunto.

    Leitura, perguntas e participação

    Cada sessão parte de um livro cuidadosamente escolhido, numa curadoria feita em parceria com a equipa da Biblioteca Municipal. A curadoria privilegia obras com potencial para gerar perguntas, diálogo, pensamento crítico e criativo.

    O livro é um trampolim para pensar o nosso lugar no mundo.

    Ao longo desta duas edições, cada encontro foi orientado por uma pergunta, sempre em torno de NÓS — e dos nós que criamos entre nós. Estas perguntas funcionam como motores de conversa, abrindo espaço à escuta, à partilha e à construção de ideias entre crianças e adultos.

    Filosofia para crianças em contexto familiar

    Nos encontros do Aqui Estamos Nós?, a voz da criança escuta-se com a seriedade com que se escuta a voz de uma pessoa adulta. Este princípio sustenta um espaço onde diferentes perspectivas ganham lugar e onde o pensamento se constrói na relação.

    Através da leitura e do diálogo, as famílias são convidadas a:

    • desenvolver pensamento crítico;
    • exercitar a escuta;
    • explorar temas como liberdade, educação e comunidade, orientados pelos ODS2030.

    Um projeto de continuidade

    No dia 18 de abril, realizou-se o último encontro da 2.ª edição do Aqui Estamos Nós? – Promoção da Leitura e Participação. O momento assinalou o percurso construído ao longo dos encontros: perguntas partilhadas, leituras vividas e uma comunidade que se foi formando.

    A sessão terminou com um momento de convívio, onde não faltaram um bolo — de nome felisminas — e os tradicionais pastéis de feijão de Torres Vedras, celebrando o caminho feito em conjunto.

    Biblioteca, comunidade e leitura

    Foi com muito gosto que as famílias foram sendo acolhidas na Biblioteca para pensar a participação na comunidade através da leitura. Este projeto afirma o papel das bibliotecas públicas como espaços de encontro, pensamento e construção coletiva.

    Fica um agradecimento a Júlia Leitão pela confiança para dinamizar este projecto, e ao Município de Sobral de Monte Agraço pela aposta neste formato, pelo segundo ano consecutivo.

    joana rita sousa

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    joana rita #filocriatividade

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    Já se encontra disponível o programa FLAI 2026, que gira em torno da pergunta:

    Como se balbucia a democracia?

    Entretanto, se quiser que uma pergunta sua viaje até Albarracín, basta para esse efeito responder à chamada de perguntas sobre o tema da democracia. Os materiais encontram-se disponíveis em inglês e em espanhol, no website Wonder Ponder. Participe!

    Informações detalhadas AQUI.

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    joana rita #filocriatividade

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    Trabalhar A Flor e o Peixe, de Afonso Cruz, num clube de leitura com uma turma de 7.º ano foi, antes de mais, um exercício de abandono: abandonar a ideia de leitura como obrigação e acolher a leitura como experiência.

    O livro não se impõe pela narrativa linear nem pela explicação. Pelo contrário, constrói-se na sugestão, na imagem e no silêncio. E isso colocou um desafio interessante: como envolver jovens leitores, com relações muito distintas com os livros, com esta leitura?

    Começámos por suspender uma expectativa comum: a de que é preciso “gostar de ler” para participar. Em vez disso, abrimos a pergunta: o que é, afinal, ser uma pessoa leitora? As respostas foram múltiplas, hesitantes, por vezes contraditórias entre si. Houve quem dissesse que lê apenas quando é obrigado, quem associasse a leitura ao tédio, e quem falasse de livros como refúgio. Esse primeiro momento foi essencial para construir um espaço onde todas as experiências contam.

    A leitura de A Flor e o Peixe aconteceu de forma fragmentada, em pequenos trechos, respeitando o ritmo do texto. Mais do que compreender “o que acontece”, interessava-nos perguntar: o que vemos aqui? o que sentimos? o que fica por dizer?

    “Este livro não tem sentido nenhum”, disse uma das jovens no segundo encontro. A frase não foi recusada, foi assumida como ponto de partida. O que significa “não ter sentido”? Será ausência de significado ou dificuldade em encontrá-lo? E o que acontece se permanecermos mais tempo com um texto que não compreendemos imediatamente?

    A leitura em voz alta foi um dos momentos preferidos do grupo. As pessoas foram convidadas a ler; ninguém foi obrigada a ler. Todas as pessoas do grupo foram convidadas a escutar.

    Num clube de leitura também se escreve. Inspirados pela linguagem do livro, os alunos experimentaram transformar o quotidiano em poesia. Um gesto simples – como dar um pontapé numa bola – tornou-se imagem. “O meu pé empurrou o mundo por um segundo”. Neste exercício, não se tratava de escrever “bem”, mas de olhar o mesmo de outra maneira.

    Ao longo do processo, tornou-se evidente que trabalhar um livro como A Flor e o Peixe não é apenas trabalhar literatura. É trabalhar a atenção, a linguagem, a escuta e, sobretudo, a relação de cada um com o sentido. Nem todos saíram a dizer que gostam mais de ler; nem todos gostaram deste livro. Mas alguns reconheceram que a leitura pode ser um espaço e um tempo de escuta, de atenção e de partilha.

    Talvez seja esse o ponto de partida mais honesto para um clube de leitura: o foco não está em formar leitores ideais, mas em criar condições para estar presente.

    joana rita sousa

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    joana rita #filocriatividade

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    Numa oficina de férias da Páscoa, com um pequeno grupo de crianças dos 7 aos 12 anos, lancei um desafio logo no início:

    hoje não estamos preocupados com as respostas.

    O que é uma pergunta?

    Começámos com uma pergunta simples:

    o que é uma pergunta?

    A partir daí, fomos recolhendo exemplos.
    As perguntas do dia a dia.
    As que se repetem.
    As que fazemos quase sem pensar.

    Que perguntas fazemos mais vezes?
    E o que é que essas perguntas mostram sobre nós?

    Pouco a pouco, deixámos de apenas perguntar — e passámos a pensar sobre o acto de perguntar.

    Escolher um tema… em forma de pergunta

    Num segundo momento, apresentei vários temas — não como temas, mas sim como perguntas.

    E lancei um novo desafio: escolher uma para investigarmos juntos.

    Mas antes de escolher surgiu outra questão: como vamos decidir?

    Decidir também é um problema filosófico

    Votar?
    Chegar a consenso?
    Inventar outra forma?

    Começámos a explorar as possibilidades.

    O que é mais justo?
    O que é mais rápido?
    O que permite escutar toda a gente?

    De repente, a escolha deixou de ser apenas um meio.
    Passou a ser também um problema.

    Quem faz as perguntas?

    Ao longo da oficina foi-se tornando claro que perguntar é uma forma de participação.

    Em muitos contextos são os adultos que fazem a maioria das perguntas.
    São eles que orientam, que conduzem, que validam.

    Mas o que acontece quando esse lugar se abre às perguntas das crianças?

    As perguntas das crianças são levadas a sério?

    O segredo para ter um filho filósofo é deixá-lo fazer todas as perguntas? “O segredo é levar as suas perguntas a sério. Deixe-os saber que se preocupa com a sua curiosidade – e que se preocupa com o que eles pensam”, responde, acrescentando que “todos os miúdos são filósofos porque estão confusos com o mundo e estão a tentar compreendê-lo.

    Scott Hershovitz em entrevista ao Público (1 de Junho 2023) 

    Levar as perguntas a sério

    Trabalhar a partir do que não se sabe — e não apenas do que já se sabe — muda a forma como pensamos.

    As perguntas deixam de ser apenas um caminho para respostas e passam a ser o próprio trabalho.

    Terminámos com uma última pergunta: o que aconteceu ao meu pensamento durante a oficina?

    E respondemos, pois claro.

    joana rita sousa

    Para continuar a pensar sobre perguntas

    Se este tema lhe interessa, talvez possa continuar por aqui:

    7 razões + 1 para amar a filosofia — onde a pergunta surge como parte de um conjunto mais amplo de práticas do pensar.

    O quadrante das perguntas — uma ferramenta para distinguir diferentes tipos de perguntas e perceber que nem todas fazem o mesmo.

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    joana rita #filocriatividade

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    Nos dias 10 e 11 de Abril estive no Funchal para participar no FALEMOS – Festival do Livro e da Leitura da Madeira.

    No dia 10 de Abril dinamizei a formação “O que é uma pergunta?”, que convidou pessoas educadoras, professoras e mediadoras a explorar o potencial das perguntas e dos #LivrosPerguntadores. Num tempo marcado pela rapidez das respostas, esta oficina propõe um desvio: parar para pensar o que faz de uma pergunta uma boa pergunta, e como pode abrir espaço ao diálogo e à reflexão em contexto educativo.

    No sábado seguinte aconteceu um encontro do  #ClubeDePerguntas intergeracional, onde o gesto de perguntar foi o ponto de partida para a oficina.

    Até dia 30 de Abril, a Madeira transforma-se num território de palavras, de perguntas e de descobertas literárias, onde a leitura se cruza com o diálogo e o pensamento crítico.

    O convite é para entrar sem pressa. Afinal, os livros esperam sempre por nós.

    No FALEMOS, ler também é perguntar. Consulte o programa completo AQUI.

    Iniciativa da Direcção Regional dos Arquivos das Bibliotecas e do Livro (DRABL).

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    joana rita #filocriatividade

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    If we are constantly astonished at the child’s perceptiveness, it means that we do not take them seriously. Janusz Korczak (Joseph, 1999)

    A frase de Janusz Korczak aponta para uma ideia exigente: o espanto constante perante a “perspicácia” das crianças pode revelar uma expectativa baixa. Surpreendemo-nos porque, no fundo, não contávamos que pensassem assim.

    O espanto, neste caso, denuncia uma forma súbtil de desvalorização.

    Confesso que nunca tinha formulado a questão desta maneira, embora me incomodem observações aparentemente inofensivas, como: “as crianças dizem coisas tão giras”.

    Já dei por mim a pensar, sem dizer: “giras? giras, não, sérias!”.

    Há algo nesse tipo de comentário que desloca o pensamento da criança para o campo do encantador, do curioso, mas não necessariamente do significativo.

    É precisamente esse tipo de espanto que Korczak parece criticar, um espanto que diminui, porque parte de uma expectativa limitada: “não estava à espera disto vindo de uma criança”.

    Mas talvez seja importante não rejeitar o espanto em si, e sim distinguir os seus modos. Há um outro espanto, que poderíamos chamar filosófico, que não assenta numa hierarquia implícita. É o espanto que reconhece o pensamento da outra pessoa, seja criança, jovem ou adulta, como genuinamente inesperado. Um espanto que não diminui, mas que desloca: “nunca tinha pensado nisso”.

    Entre um e outro, joga-se algo decisivo. Não apenas a forma como olhamos para as crianças, mas a forma como entendemos o seu pensamento; pensamento que merece ser escutado com seriedade.

    joana rita

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    joana rita #filocriatividade

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    Em Março de 2025 publiquei o livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças.

    Na altura, Jorge Andrade do Portal Sapo entrevistou-me.

    Num tempo acelerado, injetado de informação e desinformação, de respostas imediatas e pouco refletidas, como se consegue fazer vingar os pilares da pessoa pensadora crítica?

    Fica difícil, não é? Tudo à nossa volta grita pressa e precipitação. É difícil, mas é possível. Exige um esforço deliberado para dar um passo atrás perante uma informação que me suscita dúvidas, analisar a fonte dessa informação. Talvez ajude desligar notificações e cultivar o JOMO (Joy of Missing Out). Não tenho de me pronunciar sobre tudo o que acontece. Posso escolher as coisas perante as quais quero criar uma opinião fundamentada. Posso e devo, caso contrário sou engolida por achismos. 

    Os pilares da pessoa pensadora crítica só conseguem vingar se cada pessoa se comprometer. É um pouco como a nossa relação com o exercício físico: não basta dizer que vamos começar a correr ou a levantar pesos. Temos de criar uma rotina que nos permita um tempo para a corrida ou para o levantamento dos pesos. Há dias nos quais custa mais, noutros custa menos. Sabemos que a consistência é determinante para sermos pessoas bem sucedidas.

    Problemas complexos não se resolvem com propostas simplistas, superficiais. Exigem tempo.

    [publicado em Abril de 2025, no Portal Sapo]

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    joana rita #filocriatividade

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    Oficinas de filosofia com crianças sobre realidade, aparência, ordem e caos. Um exercício de pensamento crítico a partir da Filosofia Visual.

    Recentemente estive em Ferreira do Zêzere, a trabalhar com turmas do 5.º e 6.º anos.

    Levei comigo propostas do Pinch Me!, da Ellen Duthie.
    Mas levei, sobretudo, uma pergunta: o que acontece quando o mundo acorda de pernas para o ar?

    É uma pergunta que desorganiza e provoca alguma estranheza.

    Observar em silêncio: o início do pensamento

    As oficinas começam com um convite simples: observar em silêncio.

    “Simples, mas não fácil”, disse o L. do 5.º ano.

    No silêncio, torna-se evidente que ver não é imediato.
    É preciso tempo para reparar nisto ou naquilo, para relacionar, para deixar aparecer aquilo que não é óbvio.

    Este momento inicial não é um mero aquecimento, mas sim a filosofia a acontecer. É neste momento que começamos a dar-nos conta da ambiguidade das imagens.

    Realidade, aparência, ordem e caos

    A partir das imagens, fomos entrando em questões clássicas da filosofia:
    o que é real?
    o que é apenas aparência?
    o que distingue a ordem do caos?

    Mais importante do que os temas foi o modo como os abordámos: sem pressa de chegar a respostas.

    Filosofia como trabalho sobre o que não é claro

    Ao longo das sessões, fez-se presente a ideia de António de Castro Caeiro: a filosofia como uma “obsessão pela transparência”.

    Filosofar é demorar-se na opacidade.

    O que se pratica numa oficina de filosofia?

    A oficina #filocriatividade cria um tempo e um espaço para que possamos:

    • escutar com atenção
    • suspender o juízo para compreender o outro
    • distinguir perguntas de comentários
    • relacionar ideias
    • pensar sobre o próprio pensamento

    E, talvez o mais difícil: aceitar que o simples tem a sua dificuldade e que as coisas não são tão óbvias quanto parecem.

    Estranhar e entranhar

    As propostas geram quase sempre a mesma reação: estranheza.

    Mas é uma estranheza produtiva que, pouco a pouco, se transforma em envolvimento.

    A filosofia tem esta natureza paradoxal: estranha-se e entranha-se.

    Para que serve isto?

    Num contexto onde se valoriza a resposta rápida, estas oficinas criam outra coisa: tempo para pensar.

    Não saímos com respostas fechadas.
    Saímos com perguntas mais afinadas, com maior atenção ao que vemos e ao que nos escapa.

    E com uma disposição diferente: a de continuar a pensar.

    Nos dias seguintes às oficinas, quando encontrava as crianças das turmas com as quais já tinha trabalhado, continuavam a surgir perguntas e observações sobre as imagens.

    joana rita sousa

    oficinas realizadas a convite da Fundação Maria Dias Ferreira

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    joana rita #filocriatividade

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    Como implementar filosofia para crianças na escola com apoio especializado. Consultoria prática em diálogo filosófico, desde o desenho à consolidação do projecto.

    Fala-se cada vez mais da importância de desenvolver o pensamento crítico na escola. A filosofia para/com crianças e jovens surge frequentemente como uma resposta possível.

    Mas entre reconhecer o seu valor e conseguir levá-la à prática há um intervalo exigente.

    Trabalhar filosoficamente em grupo implica saber sustentar perguntas, acompanhar ideias em construção, lidar com o silêncio e com a incerteza. Implica tempo, método e prática.

    Ao longo dos últimos anos, tenho acompanhado escolas e profissionais que procuram iniciar (ou dar continuidade) a este tipo de trabalho. E há uma dificuldade que se repete: começar é relativamente simples; manter a qualidade do diálogo ao longo do tempo é o verdadeiro desafio.

    É neste intervalo entre a intenção e a prática consistente que faz sentido pensar em acompanhamento.

    Nem sempre é claro por onde começar. Nem sempre é evidente como continuar.

    É precisamente aí que o trabalho começa.

    Se este é um tema presente na sua escola ou no seu contexto educativo, pode saber mais sobre o serviço de consultoria aqui.

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    joana rita #filocriatividade

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    Duelo remete-nos para um cenário bélico, de confronto, de combate entre duas pessoas armadas, segundo regras estabelecidas e diante de testemunhas.

    Abrimos o livro e nas guardas iniciais surge-nos um envelope. O leitor poderá ficar confuso, mas rapidamente entenderá que se trata de uma carta ilustrada, dirigida a Rodin Rostov, adversário do protagonista, que se sente ofendido. Mal-entendidos e quezílias que ferem as orelhas e o coração, não deverão ficar esquecidos.

    O duelo é marcado! De costas com costas… contam os passos que os separam, afinal, não é assim o procedimento num duelo?  1,2,3,4…. Lá vão eles, afastando-se; afastando-se… E, ao contrário do previsto, a separação diluí a dor, dando lugar ao sol, ao desabrochar das flores, ao perdão, à paz.

    Neste há algumas perguntas, como por exemplo:

    • “Um, dois, três, quatro, quantos passos nos separariam?”
    • “Seriam, acaso, as suas pernas mais longas, as suas botas mais rápidas?”
    • “Talvez pense que fugi, que me acanhei, mas para onde poderia eu ir?”
    • “Para onde ia? O que tinha diante de mim?”

    Duelo, de Inês Viegas Oliveira, é um livro belo, belíssimo. Inspirador.  Um grito de alerta à diversidade e à tolerância.

    Júlia Martins

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    joana rita #filocriatividade

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    Descubra porque devem os adultos ler livros infantis e como estes podem estimular a imaginação, a curiosidade e o pensamento crítico através da filosofia para crianças.

    Sempre convivi com livros

    Sempre convivi com livros, desde pequena. O gosto pela leitura e pela escrita manifestaram-se cedo: com um irmão três anos mais velho, acompanhei os seus primeiros anos de escola e tentava copiar tudo em cadernos que a minha mãe me comprava. Adorava abrir e descobrir livros — incluindo enciclopédias e dicionários.

    Hoje, os livros continuam a ocupar um lugar central na minha vida, tanto a nível pessoal como profissional.

    Que livros gosto de ler?

    Tenho um fascínio particular pelo sentido das palavras. Talvez por isso colecciono dicionários de várias línguas, incluindo língua gestual portuguesa.

    No meu espaço de trabalho, os livros organizam-se por áreas:

    • armários dedicados à filosofia e à filosofia para crianças
    • outro inteiramente preenchido com livros infantis

    Esta divisão não acontece por acaso: sou facilitadora e investigadora na área da filosofia para crianças e jovens.

    Livros infantis e filosofia para crianças: qual a relação?

    Na prática da filosofia para crianças e jovens, o grande desafio é encontrar recursos que funcionem como boas provocações filosóficas. Ou seja, materiais que:

    • convidem a parar para pensar;
    • provoquem o questionamento;
    • sejam suficientemente abertos e ambíguos para permitir múltiplas interpretações.

    Os livros infantis destacam-se precisamente por essa capacidade. São ferramentas privilegiadas para desenvolver o pensamento crítico e a curiosidade filosófica.

    Porque devem os adultos ler livros infantis?

    Apesar de muitas vezes serem associados apenas à infância, os livros infantis têm um enorme potencial também para adultos.

    Partilho consigo 5 razões para incluir livros infantis na leitura de adultos:

    1. Convidar à imaginação

    Muitos livros infantis — especialmente os livros ilustrados sem texto — são convites à criação. Os livros silenciosos permitem-nos criar a narrativa, uma e outra vez.

    Autores como Suzy Lee mostram como uma sequência de imagens pode dar origem a múltiplas histórias. A Discórdia de Nani Brunini é outro exemplo de livro silencioso e profundamente perguntador.

    2. Recuperar a curiosidade

    À medida que crescemos, tendemos a tornar-nos mais pragmáticos e menos atentos ao detalhe.

    Os livros infantis ajudam a contrariar essa tendência, porque nos colocam constantemente perante perguntas implícitas: o que vai acontecer a seguir?

    Ler livros infantis é, assim, uma forma de praticar a curiosidade.

    3. Reencontrar o poder das histórias

    Vivemos numa era em que o storytelling está em todo o lado. Contar histórias é algo profundamente humano.

    A estrutura clássica — Era uma vez… até que algo muda tudo — continua a organizar a forma como compreendemos o mundo.

    Um exemplo interessante é o livro A Contradição Humana, de Afonso Cruz, que apresenta histórias dentro de histórias — uma leitura especialmente rica para adultos.

    4. Valorizar a riqueza das ilustrações

    As ilustrações são um dos maiores trunfos dos livros infantis.

    A cores ou a preto e branco, acrescentam camadas de significado à leitura. Os livros ilustrados funcionam como uma pausa estética e sensorial.

    5. Criar momentos de partilha entre adultos e crianças

    A leitura de livros infantis em conjunto promove momentos únicos de ligação.

    Desde a escolha do livro até à leitura em voz alta, passando pelo contacto físico com o objeto, tudo contribui para fortalecer relações, seja em contexto familiar ou educativo.

    O que são livros perguntadores?

    Na prática da filosofia para crianças e jovens, nem todos os livros cumprem o mesmo papel. É neste contexto que surgem os livros perguntadores — um conceito que tenho vindo a desenvolver com Júlia Martins.

    Estes livros abrem possibilidades de pensamento. Em vez de oferecerem respostas prontas, convidam quem lê a formular perguntas, a explorar hipóteses e a construir sentidos.

    Mais do que histórias fechadas, são trampolins filosóficos: criam condições para o diálogo, a dúvida e a reflexão partilhada.

    Mensalmente, eu e a Júlia Martins divulgamos sugestões de livros perguntadores na nossa newsletter, que pode subscrever para receber novas propostas de leitura.

    O livro Como desenvolver o pensamento crítico das crianças tem um capítulo dedicado aos livros perguntadores ou #LivrosPerguntadores.

    Um exemplo: quando um livro infantil deixa de ser “fácil”

    Lembro-me de um momento numa oficina de mediação da leitura com uma turma do 7.º ano. Um dos jovens afirmou, com bastante convicção, que os livros ilustrados eram mais fáceis: “porque são para os mais novos”.

    Perante isso, abri um livro ilustrado, li o texto e fomos observando juntos as imagens. No final, o mesmo jovem comentou:
    “Ah… afinal não são assim tão fáceis. Também têm palavras difíceis para mim.”

    Este pequeno episódio revela algo importante: a complexidade dos livros infantis não está apenas nas palavras, mas também naquilo que nos obrigam a pensar, interpretar e questionar.

    Ler livros infantis é também para adultos

    Ler livros infantis é uma forma de praticar o aprofundamento e de:

    • pensar com mais clareza,
    • exercitar a imaginação,
    • lidar com a incerteza,
    • questionar o mundo com maior abertura e disponibilidade.

    Qual foi o último livro infantil que leu?

    Imagem: André da Loba / Dia Internacional do Livro Infantil